Pecuária do Zero ao Profissional: Sanidade do Rebanho e Programas de Prevenção

Capítulo 6

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

O que é um programa sanitário preventivo (e por que ele funciona)

Um programa sanitário preventivo é um conjunto de rotinas planejadas para reduzir a entrada, a circulação e o impacto de agentes causadores de doenças no rebanho. Ele combina quatro pilares: vacinação (proteção específica), controle de parasitas (endoparasitas e ectoparasitas), biosseguridade (barreiras e procedimentos para evitar introdução/espalhamento) e manejo com baixo estresse (porque estresse derruba imunidade e aumenta falhas de resposta vacinal).

Na prática, prevenção é mais barata e previsível do que tratar surtos. Além disso, muitos problemas sanitários geram perdas “invisíveis”: queda de ganho de peso, pior conversão alimentar, atraso reprodutivo, aumento de descarte e mortalidade.

Como montar o programa sanitário: passo a passo

1) Faça um diagnóstico do seu cenário

  • Categoria e finalidade: cria, recria, engorda, leite; bezerros, novilhas, vacas, touros, animais em terminação.
  • Risco regional: pressão de carrapato, moscas, bernes, época de chuvas/seca, histórico de doenças na região.
  • Histórico da fazenda: mortalidade, diarreia em bezerros, pneumonia, tristeza parasitária, mastite, clostridioses, abortos, problemas de casco.
  • Infraestrutura: curral, tronco, balança, piquetes de quarentena, local de descarte, ponto de água para limpeza.

2) Defina objetivos e indicadores

Escolha indicadores simples para acompanhar mensalmente:

  • Taxa de mortalidade por categoria.
  • Taxa de tratamento (quantos animais medicados por mês).
  • Taxa de reinfecção por carrapato/mosca (reinfestação rápida após controle).
  • Ocorrência de diarreia/pneumonia em bezerros.
  • Condenações/lesões (quando houver abate) e perdas por miíase.

3) Monte um calendário anual (com janelas por estação)

Organize em um quadro por meses, separando: vacinação obrigatória/regional, vacinações recomendadas, vermifugação estratégica, controle de ectoparasitas e rotinas de biosseguridade. Ajuste o calendário à legislação vigente e às campanhas oficiais do seu estado/município, com acompanhamento do veterinário responsável.

4) Padronize procedimentos (POP) e treine a equipe

Crie Procedimentos Operacionais Padrão (POP) curtos e visuais: como vacinar, como medir temperatura, como isolar doentes, como descartar materiais perfurocortantes, como lavar equipamentos. Padronização reduz erro humano e melhora a resposta do rebanho.

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Vacinação: como planejar e executar corretamente

Conceito prático

Vacina não “cura” animal doente; ela prepara o sistema imune para reagir melhor quando houver exposição. Falhas comuns: animal já doente, estresse intenso no dia, vacinas fora da temperatura, aplicação errada, falta de reforço, mistura de produtos sem orientação.

Passo a passo de uma vacinação bem feita

  1. Planeje o lote: vacinar por categoria e por risco (ex.: bezerros juntos, vacas juntas).
  2. Cheque a conservação: mantenha cadeia de frio conforme rótulo; use caixa térmica com gelo reciclável; evite congelar.
  3. Prepare o material: seringas e agulhas adequadas, limpas e em bom estado; agulhas de tamanho compatível com via e categoria.
  4. Identifique o animal: brinco/registro para rastrear lote, data, produto e dose.
  5. Aplique na via correta: subcutânea/intramuscular conforme bula; respeite local recomendado para reduzir lesões.
  6. Respeite dose e reforço: muitas vacinas exigem 2 doses iniciais e reforços periódicos.
  7. Registre: data, lote/validade do produto, quantidade aplicada, responsável, reações.
  8. Observe reações: inchaço local, apatia, alergia; tenha plano de ação com o veterinário.

Exemplos de protocolos por categoria (modelo para adaptar)

Atenção: os exemplos abaixo são modelos de organização. A escolha de doenças-alvo, marcas, doses e intervalos deve ser definida com o veterinário e conforme exigências regionais e programas oficiais.

CategoriaObjetivoExemplo de janelas sanitárias
Bezerros (nascimento a desmama)Reduzir diarreias, pneumonias e perdas por clostridiosesVacinas conforme risco local (ex.: clostridiais e respiratórias) em janelas com reforço; manejo de colostro e higiene do bezerreiro; monitoramento diário de fezes e apetite
Desmama / recriaProteger na fase de maior estresse e mistura de lotesReforços vacinais programados; controle estratégico de vermes; controle de carrapato/moscas intensificado na época crítica
Novilhas (pré-cobertura)Sanidade reprodutiva e preparo para gestaçãoVacinas reprodutivas conforme orientação técnica e legislação; quarentena e exames para animais de reposição
Vacas gestantesReduzir abortos e melhorar imunidade do bezerroReforços conforme calendário; foco em ectoparasitas e bem-estar; evitar manejos agressivos no terço final
TourosManter desempenho e reduzir transmissãoCalendário vacinal e controle parasitário rigorosos; avaliação clínica periódica; atenção a locomoção e escore corporal

Vermifugação estratégica: controle com base em risco e evidências

Conceito prático

Vermifugar “no automático” pode aumentar resistência dos parasitas e elevar custo. Vermifugação estratégica usa momento certo, categoria certa e, quando possível, informação de campo (ex.: escore de fezes, desempenho, exames coproparasitológicos) para decidir.

Passo a passo para um plano de vermifugação

  1. Mapeie categorias mais sensíveis: bezerros e recria geralmente têm maior impacto produtivo.
  2. Defina épocas críticas: transição águas/seca e momentos de maior desafio ambiental variam por região.
  3. Escolha estratégia: tratamento em massa em janelas específicas, tratamento seletivo (por sinais/indicadores) ou combinado.
  4. Garanta dose correta: pese ou estime com margem segura; subdose favorece resistência.
  5. Registre princípio ativo: alternar classes de forma técnica (não aleatória) ajuda a manejar resistência.
  6. Reavalie resultado: observe ganho de peso, escore de fezes e, se possível, faça testes com veterinário (ex.: redução de OPG).

Indicadores simples para suspeitar de verminose

  • Queda de apetite, atraso de crescimento, pelo arrepiado/opaco.
  • Diarreia ou fezes muito moles recorrentes.
  • Anemia (mucosas pálidas), fraqueza, edema submandibular em casos específicos.
  • Maior variabilidade de desempenho dentro do lote.

Controle de ectoparasitas: carrapato, moscas e bernes

Conceito prático

Ectoparasitas causam perda direta (sangue, irritação, estresse) e indireta (transmissão de agentes, miíases, lesões de couro, queda de ganho). Controle eficiente é integrado: produto + momento + manejo + monitoramento, evitando uso repetitivo sem critério (resistência).

Carrapato: como organizar um controle integrado

  • Monitoramento: inspecione animais sentinela semanalmente em épocas de alta pressão; registre nível de infestação.
  • Tratamento no momento certo: intervenha antes de explosões populacionais; ajuste à estação e à região.
  • Rodízio técnico: alternar classes químicas com orientação veterinária; repetir sempre o mesmo princípio acelera resistência.
  • Aplicação correta: dose, diluição, cobertura corporal (banho/pour-on/injetável conforme indicação); falhas de aplicação são causa comum de “produto que não funciona”.
  • Animais mais suscetíveis: taurinos e cruzamentos podem demandar atenção extra em áreas de alta infestação.

Moscas (ex.: mosca-dos-chifres) e bernes

  • Moscas: observe irritação, agrupamento, queda de pastejo/ruminação, lesões; use controle estratégico em picos, combinando produtos e manejo (ex.: reduzir matéria orgânica acumulada e pontos de atração).
  • Berne: procure nódulos com orifício central e secreção; trate focando também prevenção de miíase secundária e higiene de feridas.
  • Miíase (bicheira): qualquer ferida é porta de entrada; inspeção frequente após manejo, marcação, descorna e partos.

Checklist de aplicação segura de produtos ectoparasiticidas

  • Leia bula e respeite carência (leite/carne).
  • Use EPIs e evite contaminação de água e cochos.
  • Calibre equipamentos (bombas, bicos) e padronize volume por animal.
  • Registre data, lote tratado, produto e resposta observada.

Biosseguridade: barreiras simples que evitam prejuízos grandes

Quarentena e entrada de animais (passo a passo)

  1. Compre com critério: peça histórico sanitário, origem e registros; evite misturar origens sem controle.
  2. Quarentena física: mantenha recém-chegados separados por período definido pelo veterinário, com cochos e bebedouros exclusivos.
  3. Avaliação inicial: exame clínico, inspeção de pele/ectoparasitas, temperatura, fezes, escore corporal, lesões.
  4. Protocolos de entrada: vacinação/vermifugação/controle de ectoparasitas conforme plano da fazenda e orientação técnica.
  5. Integração gradual: só misture após estabilidade clínica e registros completos.

Trânsito interno, visitantes e veículos

  • Fluxo: comece manejo pelos lotes mais jovens/sadios e termine nos lotes de risco/doentes.
  • Visitantes: controle de acesso, registro de entrada, botas/roupas limpas; atenção especial a prestadores que visitam várias fazendas.
  • Veículos: delimite áreas de carga/descarga; limpeza quando aplicável; evite circulação em áreas de animais jovens.

Limpeza e desinfecção: onde focar

Priorize locais de maior risco: bezerreiros, currais, tronco, bretes, baldes, mamadeiras, equipamentos de aplicação e áreas de isolamento. Limpeza eficiente segue a lógica: remover sujeira (matéria orgânica) → lavaraplicar desinfetante no tempo de contato indicado → secar.

Reconhecendo sinais de doença: triagem rápida no dia a dia

Rotina de observação (5 minutos por lote)

  • Apetite e comportamento: animal isolado, cabeça baixa, menor interesse por cocho/pasto.
  • Respiração: ofegante, tosse, secreção nasal, respiração com esforço.
  • Fezes: diarreia, muco, sangue, fezes muito líquidas ou muito secas.
  • Locomoção: mancar, relutar em andar, postura anormal.
  • Pele e pelagem: feridas, miíase, carrapatos visíveis, pelo opaco.
  • Produção (quando aplicável): queda abrupta de desempenho/produção é sinal de alerta.

Como medir parâmetros básicos (passo a passo)

Temperatura retal

  1. Use termômetro limpo (preferencialmente digital) e lubrificante.
  2. Contenha o animal com segurança e baixo estresse.
  3. Introduza no reto e aguarde a leitura.
  4. Registre valor, data, hora e identificação do animal.

Interpretação: a faixa normal varia com idade, ambiente e manejo. Use como referência o padrão do seu rebanho e confirme com o veterinário; febre persistente ou muito alta é sinal de urgência.

Escore de fezes (modelo simples 1–5)

  • 1: muito seca/dura (risco de desidratação/baixa ingestão).
  • 2: firme, bem formada (desejável).
  • 3: pastosa, perde forma (alerta).
  • 4: diarreia (atenção imediata, especialmente em bezerros).
  • 5: aquosa/projetada (urgência, risco alto de desidratação).

Apetite e ingestão

  • Observe tempo no cocho/pasto, ruminação, sobras e disputa.
  • Compare com o lote: “come menos que os outros” é sinal importante.

Locomoção (triagem)

  • Note se o animal apoia todos os membros, se encurta passadas, se evita virar.
  • Verifique casco, espaço interdigital e presença de feridas/miíase.

Organizando o manejo para reduzir estresse (e melhorar imunidade)

Princípios práticos

  • Evite superlotação em curral e corredores; respeite fluxo.
  • Trabalhe em horários mais amenos (calor aumenta estresse e desidratação).
  • Separe por categoria e temperamento para reduzir brigas e contusões.
  • Minimize misturas de lotes; quando inevitável, faça com planejamento sanitário.
  • Água e sombra: desidratação e calor pioram resposta imune e aumentam risco de doença.

Sequência recomendada no dia de manejo

  1. Animais jovens e sadios.
  2. Animais adultos sadios.
  3. Animais recém-chegados (quarentena) por último.
  4. Animais doentes/isolados por último, com equipamentos dedicados.

O que fazer ao identificar um animal doente

Isolamento e contenção do risco (passo a passo)

  1. Marque e separe o animal em área de isolamento com água e acesso fácil.
  2. Reduza contato com o lote (cochos/bebedouros separados quando possível).
  3. Atenda primeiro os sadios e deixe o doente por último.
  4. Higienize materiais após uso (termômetro, cordas, equipamentos).
  5. Registre sinais e evolução (manhã/tarde).

Coleta de informações para o veterinário (checklist)

  • Identificação do animal (brinco/lote/categoria/idade aproximada).
  • Data e hora de início dos sinais.
  • Temperatura, escore de fezes, apetite, consumo de água, frequência respiratória (se possível).
  • Sinais específicos: tosse, secreções, inchaços, feridas, miíase, aborto, claudicação.
  • Tratamentos já feitos (produto, dose, via, horário) e resposta.
  • Eventos recentes: transporte, desmama, mistura de lotes, mudança de pasto, manejo no curral, entrada de animais.
  • Quantos animais afetados e em quais lotes.

Descarte de materiais e segurança

  • Perfurocortantes (agulhas, lâminas): descarte em coletor rígido apropriado.
  • Frascos e embalagens: descarte conforme orientação do fabricante e normas locais; não reutilize.
  • Resíduos biológicos (gazes, luvas, materiais com secreções): acondicione e descarte de forma segura, evitando acesso de animais.
  • Carcaças (quando ocorrer): siga legislação local para destinação; isole área e comunique o responsável técnico.

Modelos de protocolos integrados por categoria (para adaptar à sua região)

Bezerros: foco em diarreia, pneumonia e parasitas

  • Rotina diária: observar mamada/apetite, fezes (escore), umbigo, hidratação, tosse.
  • Janelas sanitárias: vacinações e reforços conforme risco; controle de ectoparasitas quando houver pressão; vermifugação estratégica conforme orientação e indicadores.
  • Biosseguridade: utensílios exclusivos por lote; limpeza reforçada; evitar visitas e trânsito desnecessário.

Recria: foco em desempenho e controle de carrapato/vermes

  • Monitoramento: ganho de peso do lote, escore de fezes, inspeção de carrapatos.
  • Intervenções: vermifugação estratégica em momentos críticos; controle de carrapato e moscas com monitoramento e aplicação correta.
  • Manejo: reduzir estresse em apartações e pesagens; evitar misturar origens sem quarentena.

Matrizes e reprodutores: foco reprodutivo e prevenção de perdas

  • Pré-estação: revisar calendário vacinal reprodutivo com veterinário; checar condição corporal e locomoção.
  • Gestação: evitar manejos agressivos; atenção a ectoparasitas e feridas (miíase).
  • Entrada de reprodutores: quarentena, inspeção clínica e protocolos de entrada; registros completos.

Ferramentas simples de gestão sanitária (para não depender da memória)

Ficha individual e livro do lote

Mantenha registros mínimos, em papel ou planilha:

  • Ficha individual: ID, categoria, datas de vacina/vermífugo/ectoparasiticida, ocorrências e tratamentos.
  • Livro do lote: data do manejo, número de animais, procedimentos realizados, produtos, responsável, observações.

Modelo de registro (exemplo)

Data: __/__/__  Lote: Recria A  Nº animais: 85  Responsável: ________ Procedimentos: ( ) Vacina ____ ( ) Vermífugo ____ ( ) Carrapaticida ____ Produto/lote/validade: __________________________ Dose/via: __________________________ Observações: 3 animais com escore de fezes 4; 1 com claudicação; separados no isolamento.

Alertas importantes: quando acionar o veterinário com urgência

  • Febre persistente, apatia intensa, desidratação, diarreia aquosa em bezerros.
  • Vários animais com sinais semelhantes no mesmo lote (suspeita de surto).
  • Abortos em sequência, sinais neurológicos, dificuldade respiratória marcada.
  • Suspeita de doenças de notificação obrigatória conforme legislação local.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Qual combinação de ações caracteriza um programa sanitário preventivo eficaz para reduzir a entrada, circulação e impacto de doenças no rebanho?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Um programa preventivo funciona ao combinar ações complementares: vacinação, controle de endo/ectoparasitas, biosseguridade e manejo com baixo estresse, reduzindo a chance de introdução e disseminação de agentes e evitando perdas produtivas.

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