Pecuária do Zero ao Profissional: Panorama dos Sistemas de Produção Animal

Capítulo 1

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

Principais sistemas de produção animal na pecuária

Um sistema de produção pecuária é a forma organizada de transformar recursos (terra, pasto, animais, insumos, mão de obra e capital) em produtos (bezerros, bois gordos, leite, animais de reposição), seguindo um objetivo de negócio. Na prática, o “sistema” define: como os animais entram e saem da fazenda, como se alimentam, quais categorias são priorizadas, qual nível de intensificação será usado e quais indicadores serão acompanhados.

Pecuária de corte

Foco em produzir carne bovina. Pode operar como ciclo completo (cria + recria + engorda) ou como etapas separadas. O produto final costuma ser o boi gordo (terminado) para abate, medido frequentemente em arrobas.

Pecuária de leite

Foco em produzir leite diariamente. O manejo gira em torno de rotina de ordenha, nutrição de vacas em lactação, reprodução para manter o rebanho em produção e controle de qualidade do leite. O indicador central é litros/vaca/dia (além de litros/dia totais e qualidade).

Cria

Objetivo principal: produzir bezerros (desmame) para venda ou para abastecer a própria recria. O manejo prioriza fertilidade, estação de monta, sanidade reprodutiva, condição corporal das matrizes e desempenho do bezerro até a desmama.

Recria

Objetivo principal: desenvolver o animal após a desmama até a fase de engorda (ou até virar novilha apta à reprodução, no caso de fêmeas). O foco é crescimento eficiente, com bom ganho médio diário (GMD) e controle de lotação para não “estourar” o pasto.

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Engorda (terminação a pasto)

Objetivo principal: levar o animal ao peso e acabamento de carcaça para abate, usando predominantemente pasto (com ou sem suplementação). O foco é ganho de peso e acabamento, ajustando taxa de lotação e suplementação conforme estação.

Confinamento

Terminação em ambiente controlado, com dieta total (volumoso + concentrado) fornecida no cocho. É um sistema intensivo, com alta exigência de gestão de custos, compra de insumos, logística de trato, ambiência e sanidade.

Semi-confinamento

Terminação com pasto como base e suplementação concentrada no cocho (geralmente em níveis mais altos do que a suplementação “comum” de seca). É um meio-termo entre engorda a pasto e confinamento: intensifica o ganho sem exigir estrutura completa de confinamento.

Produção extensiva x intensiva: diferenças práticas

Extensiva

  • Base: pastagens com menor uso de insumos por hectare.

  • Características: menor taxa de lotação, menor custo por hectare, maior dependência do clima e da qualidade do pasto.

  • Quando faz sentido: áreas grandes, menor capital disponível, foco em simplicidade operacional, regiões com boa aptidão de pastagem.

Intensiva

  • Base: maior uso de tecnologia e insumos (adubação, irrigação em alguns casos, suplementação, cochos, manejo rotacionado, confinamento).

  • Características: maior taxa de lotação, maior produção por hectare, maior necessidade de controle de indicadores e de mão de obra treinada.

  • Quando faz sentido: terra cara, necessidade de giro rápido, metas de alta produtividade, acesso a insumos e assistência técnica.

Como os objetivos do negócio mudam o manejo

O mesmo rebanho pode ser manejado de formas diferentes dependendo do objetivo. Antes de decidir “o que fazer”, defina “o que vender” e “quando vender”.

Exemplos de objetivos e impactos diretos

  • Vender bezerro desmamado (cria): prioriza taxa de prenhez, intervalo entre partos, sanidade de bezerros e qualidade de pasto para matrizes no pré e pós-parto.

  • Vender boi gordo o ano todo (engorda + intensificação): exige planejamento de lotes por categoria, suplementação estratégica e, muitas vezes, semi-confinamento/confinamento para reduzir sazonalidade.

  • Maximizar arrobas por hectare (intensivo): exige ajuste fino de taxa de lotação, divisão em piquetes, adubação/recuperação de pasto, controle de GMD e descarte de animais improdutivos.

  • Maximizar litros/vaca/dia (leite intensivo): exige dieta bem formulada, rotina de ordenha, conforto térmico, controle de mastite e reprodução eficiente.

Passo a passo: traduzindo objetivo em plano de manejo

  1. Defina o produto e a meta: ex.: “terminar 200 bois/ano com 20@” ou “média de 18 litros/vaca/dia”.

  2. Escolha o sistema compatível: pasto, semi-confinamento, confinamento, ou combinação por estação.

  3. Quebre o rebanho em categorias e lotes: ex.: desmama, recria, terminação; vacas em lactação, secas, novilhas.

  4. Defina indicadores e rotina de medição: GMD, taxa de lotação, arrobas produzidas, litros/vaca/dia, taxa de prenhez.

  5. Planeje alimentação e pasto por época: chuva vs seca; estratégia de suplementação; reserva (silagem/feno) quando aplicável.

  6. Calcule capacidade e gargalos: cocho, bebedouro, curral, mão de obra, área de pasto, disponibilidade de volumoso.

  7. Implemente e ajuste: se o GMD cair, ajuste dieta, lotação, sanidade ou qualidade do pasto; se sobrar pasto, aumente lotação ou faça feno/silagem (quando viável).

Conceitos operacionais indispensáveis (com aplicação prática)

Lote

Conceito: grupo de animais manejado como unidade (mesma categoria, peso semelhante, mesmo objetivo e mesma dieta/pasto).

Por que importa: facilita ajustar alimentação, suplementação, sanidade e metas de ganho. Misturar animais muito diferentes no mesmo lote costuma reduzir desempenho (competição no cocho, dominância, dificuldade de acertar dieta).

Exemplo prático: separar “novilhos 280–330 kg em recria” de “novilhos 380–450 kg em terminação”. O primeiro lote pode buscar GMD moderado com suplemento menor; o segundo pode receber suplemento maior para acabamento.

Piquete

Conceito: subdivisão de uma área de pasto usada para controlar o pastejo (rotacionado ou alternado). Cada piquete tem entrada e saída planejadas.

Aplicação: permite descansar o capim, controlar altura de entrada/saída e distribuir melhor o pastejo, aumentando produção por hectare.

Exemplo prático: uma área de 24 ha dividida em 12 piquetes de 2 ha. Um lote entra em 1 piquete por vez, ficando 2 dias em cada, totalizando 24 dias de descanso (ajustável conforme crescimento do capim).

Taxa de lotação

Conceito: quantidade de animais (ou peso vivo) por área. Pode ser expressa como cabeças/ha ou UA/ha (unidade animal por hectare).

Interpretação: lotação alta sem suporte (pasto e suplemento) derruba GMD e degrada pastagem; lotação baixa demais pode “sobrar” pasto e reduzir eficiência por hectare.

Exemplo prático: se um pasto suporta 2,0 UA/ha na chuva, mas você coloca 3,0 UA/ha sem suplementação, o capim pode baixar rápido, reduzindo consumo e ganho. Ajustes possíveis: reduzir animais, aumentar área, suplementar ou melhorar pasto (adubação/recuperação).

Ganho Médio Diário (GMD)

Conceito: quanto o animal ganha de peso por dia, em média, num período.

Fórmula: GMD = (Peso final - Peso inicial) / Número de dias

Exemplo prático: um novilho sai de 320 kg para 365 kg em 60 dias. GMD = (365 - 320) / 60 = 0,75 kg/dia. Se a meta era 0,90 kg/dia, investigue: qualidade do pasto, oferta de suplemento, verminose, competição no cocho, água, sombra e estresse de manejo.

Arroba (@)

Conceito: unidade comercial muito usada na pecuária de corte. No Brasil, 1 arroba equivale a 15 kg (geralmente referindo-se ao peso de carcaça na comercialização, mas no dia a dia também se usa como referência de peso).

Aplicação prática: converter metas de peso em arrobas e estimar produção.

Exemplo: um boi com carcaça de 300 kg equivale a 300/15 = 20@. Se a fazenda termina 150 animais/ano com 20@, a produção anual é 150 x 20 = 3.000@ (antes de considerar variações de rendimento e padrão de abate).

Litros/vaca/dia

Conceito: média diária de produção por vaca em lactação.

Fórmula: Litros/vaca/dia = Litros totais do dia / Número de vacas em lactação

Exemplo prático: a fazenda produz 1.200 litros/dia com 80 vacas em lactação. 1.200/80 = 15 litros/vaca/dia. Se a meta é 18, as alavancas comuns são: dieta (energia/proteína/fibra), conforto (sombra/ventilação), sanidade (mastite), qualidade de água e manejo de ordenha.

Quadro comparativo dos sistemas: vantagens, limitações, infraestrutura e mão de obra

SistemaVantagensLimitaçõesInfraestrutura típicaPerfil de mão de obra
Corte (geral)Flexibilidade (pode combinar etapas), mercado amplo, possibilidade de intensificar por estaçãoDependência de preço do boi e custo de reposição; sazonalidade do pastoCercas, bebedouros, curral funcional, balança (desejável), cochos (se suplementar)Operação de campo, manejo de lotes, leitura de pasto, registros básicos
LeiteReceita diária, maior previsibilidade de caixa, possibilidade de alta produtividade/haRotina intensa, exigência sanitária e de qualidade, sensível a falhas de manejoSala de ordenha, tanque de resfriamento, curral de espera, cochos, sombreamento, água abundanteTreinamento em ordenha, higiene, manejo de vacas, controle de dados e rotina
CriaProduz “matéria-prima” (bezerro), pode usar áreas mais extensivas, menor demanda diária que leiteRetorno mais lento, forte impacto de falhas reprodutivas, bezerro depende da condição da vacaPiquetes maternidade (quando possível), curral para manejo reprodutivo, boa estrutura de água e sombraBoa observação de cio/parto, manejo calmo, sanidade de bezerros, registros reprodutivos
RecriaGanho de escala com eficiência, permite “comprar magro e vender mais pesado”, ajustável à oferta de pastoSe errar lotação, perde desempenho; exige controle de peso e sanidade para manter GMDPasto bem manejado, divisão em piquetes (desejável), cochos e bebedouros bem dimensionados, balança (muito útil)Capacidade de formar lotes, acompanhar GMD, ajustar suplementação e lotação
Engorda a pastoMenor custo que confinamento, usa capim como base, boa margem quando bem ajustadoAcabamento pode variar com estação; depende de capim e suplementação estratégicaPasto de boa qualidade, cochos, bebedouros, sombreamento, curral e balançaGestão de pasto e suplementação, leitura de escore corporal, controle de lotes
ConfinamentoAlta produtividade, reduz sazonalidade, acelera giro, padroniza acabamentoAlto custo e risco (insumos), exige gestão fina, maior risco sanitário/ambiental se mal conduzidoCurrais de confinamento, cochos lineares, bebedouros de alta vazão, trato (misturador), silo/armazenagem, manejo de dejetosEquipe treinada em trato, leitura de cocho, sanidade, manutenção e controle de custos
Semi-confinamentoIntensifica ganho com menor estrutura que confinamento, bom para seca/transição, melhora acabamentoDepende de pasto base; se cocho e manejo falham, desempenho cai; precisa controle de consumoPasto + cochos bem dimensionados, bebedouros, acesso fácil para trato, curral e balançaRotina de suplementação, ajuste de oferta, manejo de lotes e monitoramento de desempenho

Aplicações rápidas: como usar os conceitos no dia a dia

1) Montando lotes para bater meta de GMD

  1. Pese ou estime pesos (balança é ideal) e separe por faixa (ex.: 250–300 kg; 300–350 kg; 350–420 kg).

  2. Defina a meta de GMD por lote (ex.: recria 0,6–0,8 kg/dia; terminação 0,9–1,2 kg/dia, conforme estratégia).

  3. Ajuste pasto e suplemento para cada lote (o lote de terminação costuma exigir maior densidade energética).

  4. Reavalie em 30–45 dias: repese e recalcule GMD. Se abaixo, ajuste lotação, suplemento, sanidade ou mude o lote de piquete.

2) Checando se a taxa de lotação está coerente

  1. Observe oferta de forragem: há capim suficiente para manter altura e rebrota?

  2. Observe desempenho: GMD está dentro da meta? Escore corporal está caindo?

  3. Decida a correção: reduzir animais, aumentar área, rotacionar melhor, suplementar, ou recuperar/adubar pasto.

  4. Padronize a decisão por indicador: ex.: “se GMD cair > 15% por 2 medições, revisar lotação e dieta”.

3) Interpretando arrobas e planejando venda

  1. Defina a arroba-alvo (ex.: 20@).

  2. Estime o caminho de ganho: se o animal está com 16@ equivalentes e precisa chegar a 20@, faltam 4@ = 60 kg.

  3. Com GMD esperado: se GMD é 1,0 kg/dia, precisa ~60 dias. Se for 0,7 kg/dia, precisa ~86 dias.

  4. Escolha estratégia: pasto + suplemento, semi-confinamento ou confinamento, conforme custo, prazo e disponibilidade de capim.

4) Interpretando litros/vaca/dia sem se enganar

  • Separe “vacas em lactação” de “rebanho total”: litros/vaca/dia usa apenas vacas em lactação. Para gestão, acompanhe também litros/dia totais e taxa de vacas em lactação no rebanho.

  • Compare períodos equivalentes: clima e estágio de lactação mudam produção. Faça comparações mensais e por lote (primíparas vs multíparas, início vs final de lactação).

  • Use o indicador para ação: queda súbita pode indicar mastite, falha de dieta, estresse térmico, problema de água ou rotina de ordenha.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao escolher um sistema de terminação, qual situação descreve corretamente o confinamento em comparação à engorda a pasto?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

No confinamento, a terminação ocorre em ambiente controlado com dieta total no cocho, sendo um sistema intensivo que exige controle de custos, insumos, logística de trato, ambiência e sanidade.

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