Exigências nutricionais: o que o animal precisa e por quê
Nutrição animal é o ajuste entre o que o animal exige (para manter o corpo, crescer, reproduzir e produzir leite/carcaça) e o que a dieta entrega (quantidade e qualidade). Na prática, a dieta precisa atender cinco grupos: energia, proteína, minerais, vitaminas e água. Quando um deles limita, o desempenho cai mesmo que os outros estejam “sobrando”.
Energia
É o “combustível” para manutenção, ganho de peso e produção de leite. Em ruminantes, a energia vem principalmente da fermentação de carboidratos no rúmen (fibra e amido), gerando ácidos graxos voláteis. Na fazenda, energia insuficiente aparece como: queda de ganho, perda de condição corporal, cio fraco, queda de leite e pior conversão alimentar.
Proteína
É matéria-prima para músculo, enzimas, imunidade e leite. Em ruminantes, é útil separar em: proteína degradável no rúmen (alimenta microrganismos) e proteína não degradável (passa e é digerida no intestino). Falta de proteína reduz consumo de volumoso, piora digestão da fibra e derruba desempenho, especialmente na seca.
Minerais
Dividem-se em macro (Ca, P, Na, Cl, Mg, K, S) e micro (Cu, Zn, Se, Mn, I, Co, Fe). Deficiências podem ser silenciosas (fertilidade, imunidade) ou evidentes (lambeção de terra, ossos, apatia). O erro comum é usar “sal branco” (NaCl) como se fosse mistura mineral completa.
Vitaminas
Ruminantes adultos sintetizam muitas vitaminas do complexo B no rúmen, mas podem precisar de suplementação em situações específicas (ex.: estresse, alta produção, dietas muito concentradas). Vitaminas A, D e E merecem atenção quando há pouca oferta de forragem verde ou em confinamento.
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Água
É o nutriente mais barato e mais limitante. Sem água de qualidade e acesso fácil, o animal reduz consumo de matéria seca, cai produção e aumenta risco de distúrbios. Como referência prática, bovinos podem consumir dezenas de litros/dia, variando com peso, lactação, temperatura e teor de sal/ureia na dieta.
Como as exigências variam por fase e categoria
As exigências mudam conforme peso, idade, ganho desejado, gestação, lactação e ambiente. Use esta lógica para decidir o tipo de suplemento:
- Bezerros em crescimento: alta demanda de proteína e energia por kg de peso; resposta grande a suplementos bem formulados.
- Recria: foco em ganho constante; proteína é chave quando o pasto perde qualidade.
- Terminação: energia passa a ser o principal motor do ganho; risco maior de acidose quando há muito concentrado.
- Vacas gestantes: no terço final, aumenta exigência; déficit causa bezerro mais leve, pior colostro e atraso na próxima prenhez.
- Vacas em lactação: exigência máxima de energia, proteína e minerais; consumo pode limitar, então a dieta precisa ser mais densa.
Volumosos e concentrados: como escolher e combinar
Volumosos
São alimentos com mais fibra (FDN) e menor densidade energética: pasto, silagem, feno, cana, capim picado. Funções práticas: manter ruminação, saúde ruminal e fornecer base de matéria seca. Volumoso de baixa qualidade (muito talo, muito maduro) reduz consumo e exige correção com proteína/energia.
Concentrados
São mais densos em energia e/ou proteína e com menos fibra: milho, sorgo, polpa cítrica, farelo de soja, farelo de algodão, caroço de algodão, DDG, entre outros. Aumentam desempenho, mas exigem manejo: adaptação, mistura homogênea e controle de cocho para evitar variação de consumo.
Regra prática de decisão
- Se o animal não come bem o volumoso (pasto seco, fibra “dura”), normalmente falta proteína e/ou há limitação de água/sal.
- Se o animal come bem, mas não ganha o esperado, pode faltar energia (ou o ganho-alvo é alto demais para a base volumosa).
- Se há queda de desempenho com sinais inespecíficos (pelo arrepiado, baixa fertilidade), revise minerais e sanidade e confirme consumo do suplemento.
Consumo de matéria seca (CMS) e conversão alimentar (CA)
CMS: noção prática para planejar dieta e cocho
Matéria seca (MS) é o alimento sem água. Planejamento nutricional é feito em MS porque a umidade varia muito (silagem vs. ração seca). Uma regra prática para bovinos:
- Corte a pasto: CMS em torno de 2,0% a 2,5% do peso vivo/dia (varia com qualidade do pasto e suplemento).
- Confinamento/alta energia: pode chegar a 2,5% a 3,0% do peso vivo/dia.
- Vacas leiteiras: frequentemente 3,0% a 4,0% do peso vivo/dia (dependendo de produção e estágio de lactação).
Exemplo: boi de 450 kg com CMS estimado de 2,2% → 450 × 0,022 = 9,9 kg de MS/dia. Se a silagem tem 35% de MS, a quantidade “na matéria natural” seria 9,9 ÷ 0,35 = 28,3 kg de silagem/dia (se fosse dieta só de silagem, o que raramente é ideal para desempenho alto).
Conversão alimentar: o que significa no campo
Conversão alimentar (CA) é quanto o animal consome para ganhar 1 kg de peso (ou produzir 1 kg de leite). Em corte, uma forma comum é:
CA = consumo de MS (kg/dia) ÷ ganho médio diário (kg/dia)Quanto menor a CA, melhor a eficiência. A CA piora com: estresse térmico, água ruim, cocho mal manejado, dieta desbalanceada, lotes desuniformes e doença subclínica.
Suplementação: mineral, proteica e energética
Suplementação mineral
Objetivo: corrigir deficiências do pasto/volumoso e sustentar reprodução, imunidade e desempenho. Misturas minerais variam por região (solo, água, forragens). Pontos práticos:
- Ofereça mistura mineral completa (não apenas NaCl), com consumo-alvo definido pelo fabricante.
- Garanta cocho coberto e protegido de chuva/umidade.
- Monitore consumo real (kg/semana por lote) e ajuste acesso/posicionamento.
Suplementação proteica
Mais usada quando a forragem está com baixa proteína (comum na seca). Ao corrigir proteína, melhora a atividade microbiana no rúmen, aumentando digestão da fibra e o consumo do volumoso. Pode ser feita com farelos proteicos e/ou fontes de nitrogênio não proteico (ureia), com manejo seguro.
Suplementação energética
Indicada quando a base volumosa não entrega energia suficiente para o ganho desejado (recria acelerada, terminação, vacas de alta produção). Fontes comuns: milho, sorgo, polpa cítrica. Exige cuidado com adaptação e com a fibra efetiva para evitar acidose.
Uso de ureia com segurança (passo a passo)
A ureia é fonte de nitrogênio não proteico (NNP) para microrganismos do rúmen. Funciona bem quando há energia fermentável disponível e manejo correto. Erros podem causar intoxicação.
Quando faz sentido usar
- Dietas com volumoso pobre em proteína (seca) e com alguma oferta de energia fermentável.
- Suplementos proteicos de baixo custo para manter desempenho.
Quando evitar
- Animais famintos com acesso repentino ao suplemento.
- Falta de adaptação.
- Cocho irregular (dias sem e depois “dobro”).
- Dietas já muito ricas em proteína degradável ou sem energia suficiente.
Passo a passo de manejo seguro
- Adaptação gradual: comece com dose menor e aumente ao longo de 7 a 14 dias conforme formulação e consumo.
- Mistura homogênea: ureia deve estar muito bem misturada no suplemento; evite “bolos” ou separação por granulometria.
- Oferta diária e regular: mantenha rotina; não deixe faltar para depois compensar.
- Cocho adequado: espaço suficiente para reduzir dominância e consumo excessivo por poucos animais.
- Água sempre disponível: ureia aumenta necessidade de água; sem água, risco sobe e desempenho cai.
- Não fornecer para animais em jejum: após manejo, transporte ou mudança de lote, garanta acesso ao volumoso antes do suplemento.
Observação prática: ureia não “substitui” energia. Se faltar energia fermentável, o nitrogênio não vira proteína microbiana de forma eficiente, e o resultado é desperdício e risco.
Estratégias por estação: seca e águas
Estação seca: corrigir proteína e manter consumo
Na seca, o volumoso tende a ter mais fibra e menos proteína. Estratégia típica:
- Base: volumoso disponível (pasto seco, silagem, feno, cana).
- Suplemento: foco em proteína (proteico ou proteico-energético), com mineralização adequada.
- Meta: manter ganho moderado e condição corporal, evitando “parar” o animal.
Estação das águas: ajustar energia e controlar excesso de proteína
Nas águas, a forragem costuma ter mais proteína e digestibilidade. Estratégia típica:
- Base: pasto de boa qualidade.
- Suplemento: muitas vezes mineral é suficiente; para ganhos maiores, usar energético (ou proteico-energético leve) conforme objetivo.
- Meta: aproveitar o potencial do pasto e transformar em ganho/produção com custo controlado.
Leitura de rótulos: como interpretar garantias nutricionais
Rótulos de suplementos e rações trazem níveis de garantia (mínimos e máximos). Saber ler evita comprar “barato que sai caro”. Itens comuns:
- Proteína bruta (PB): indica teor total de nitrogênio convertido em proteína. Em suplementos com ureia, parte da PB vem de NNP.
- NDT ou energia (quando informado): indica densidade energética. Nem todo rótulo traz NDT; em muitos casos, avalia-se pela composição (milho/polpa etc.).
- Matéria mineral (MM) e cinzas: muito alta pode indicar excesso de sal/mineral e pouco “nutriente” de fato.
- Fibra (FDN/FDA quando informado): ajuda a entender efeito sobre ruminação e risco de acidose em dietas concentradas.
- Macro e microminerais: Ca, P, Na, S, Mg e traços (Cu, Zn, Se etc.).
- Modo de uso e consumo esperado: essencial para comparar produtos (ex.: 100 g/dia vs 300 g/dia).
Passo a passo para comparar dois produtos no balcão
- Leia o consumo recomendado (g/cabeça/dia).
- Compare o custo por dia, não só o preço do saco.
- Verifique se é mineral, proteico ou proteico-energético (e se tem ureia).
- Confira fósforo (muito baixo em “minerais baratos” pode limitar reprodução e crescimento).
- Chegue ao campo e confirme se o consumo real está próximo do alvo; se não estiver, o produto “não está sendo usado” como planejado.
Protocolos práticos de suplementação (exemplos)
Os exemplos abaixo são modelos de rotina e controle. Ajustes finos dependem de categoria, objetivo, qualidade do volumoso e recomendação técnica local.
Corte – protocolo 1: águas (manutenção + ganho moderado)
- Alvo: manter desempenho com baixo custo e estabilidade do lote.
- Suplemento: mistura mineral completa (consumo conforme rótulo).
- Rotina: abastecer cochos 2 a 3 vezes por semana, mantendo sempre produto disponível.
- Controle: pesar consumo semanal do lote (kg/semana) e dividir por número de animais para estimar g/cab/dia.
Corte – protocolo 2: seca (proteico com ureia, foco em manter consumo do volumoso)
- Alvo: evitar queda acentuada de ganho e condição corporal.
- Suplemento: proteico ou proteico-mineral com NNP (ureia) conforme formulação comercial.
- Passo a passo:
- Iniciar com adaptação (primeira semana com oferta controlada e observação de consumo).
- Garantir volumoso disponível antes do acesso ao suplemento.
- Checar água diariamente.
- Manter oferta regular (sem “faltar e compensar”).
- Indicadores de ajuste: consumo muito acima do recomendado sugere cocho mal posicionado, palatabilidade alta sem controle ou falta de volumoso; consumo muito baixo sugere cocho ruim, acesso difícil, produto empedrado/úmido ou excesso de sal.
Corte – protocolo 3: terminação intensiva (proteico-energético)
- Alvo: ganho alto com controle de risco ruminal.
- Suplemento: proteico-energético (com fonte energética como milho/polpa) e mineral adequado.
- Passo a passo:
- Adaptação de 14 a 21 dias para aumentar concentrado gradualmente.
- Cocho com espaço suficiente e manejo para reduzir variação de consumo.
- Monitorar fezes (muito líquidas/bolhas podem indicar excesso de amido e risco de acidose).
Leite – protocolo 1: vacas em lactação a pasto (suplemento conforme produção)
- Alvo: sustentar produção sem perder condição corporal.
- Estratégia: concentrado energético/proteico ajustado à produção e estágio de lactação, com mineral específico para leite.
- Passo a passo:
- Definir grupos por produção (ex.: alta, média, baixa) para evitar sub ou superalimentação.
- Oferecer concentrado em horários fixos (ordenha) e manter volumoso/pasto disponível.
- Garantir água próxima à sala de ordenha e áreas de descanso.
Leite – protocolo 2: vacas no pré-parto e pós-parto (atenção a minerais e consumo)
- Alvo: reduzir risco de distúrbios metabólicos e melhorar pico de lactação.
- Estratégia: dieta de transição com foco em consumo, minerais balanceados e fibra efetiva.
- Rotina: observar apetite, ruminação, fezes e escore corporal; qualquer queda de consumo no pós-parto exige ação rápida (água, conforto, cocho, sanidade).
Checklist de cocho e manejo (para não perder desempenho)
Checklist diário (5 minutos por lote)
- Água: limpa, sem lama, com vazão e acesso fácil; verificar bebedouros e boias.
- Cocho: seco, sem mofo, sem empedramento; suplemento protegido de chuva.
- Oferta: há suplemento disponível conforme estratégia (ad libitum ou controlado)?
- Consumo: sinais de dominância (poucos animais comendo) ou sobra excessiva?
- Comportamento: animais ruminando, sem apatia; observar fezes e escore corporal ao longo das semanas.
Checklist semanal (controle de números)
- Pesar o que foi fornecido e estimar g/cab/dia.
- Comparar com o consumo-alvo do rótulo/planejamento.
- Revisar se houve dias de falta, chuva no cocho, mudança de lote ou manejo que alterou consumo.
Erros comuns e como corrigir rapidamente
- Falta de cocho ou cocho pequeno: aumenta dominância e variação de consumo. Correção: ampliar espaço linear e distribuir mais pontos de cocho.
- Cocho sem cobertura (mineral empedrado): reduz consumo e estraga produto. Correção: cobrir e elevar cocho, melhorar drenagem.
- Água distante ou suja: derruba CMS e produção. Correção: limpar, aumentar pontos de água e garantir vazão.
- Mistura inadequada (ureia “em bolas”): risco de intoxicação e consumo irregular. Correção: padronizar mistura, usar equipamentos adequados e treinar equipe.
- Falta e reposição “compensando”: picos de consumo e risco ruminal/ureia. Correção: rotina fixa de abastecimento e estoque mínimo.
- Comprar pelo preço do saco: ignora consumo recomendado e garantias. Correção: calcular custo/dia e custo por kg de ganho/leite.
Mini-roteiro de formulação prática (sem entrar em software)
Para organizar a tomada de decisão no dia a dia, use este roteiro:
- Defina categoria e meta: recria, terminação, vaca lactante; ganho/produção desejados.
- Liste a base volumosa disponível: tipo, disponibilidade e qualidade percebida (verde/novo vs. seco/maduro; silagem bem feita vs. com mofo).
- Escolha o tipo de suplemento: mineral, proteico, energético ou proteico-energético, conforme a limitação mais provável.
- Planeje consumo-alvo: use o rótulo e o objetivo; organize cocho e rotina para bater o alvo.
- Implemente com adaptação: especialmente com concentrados e ureia.
- Monitore 3 indicadores: consumo do suplemento, condição corporal/ganho (visual e/ou pesagens) e sinais de cocho/fezes/ruminação.