Paracetamol (acetaminofeno): analgesia e antipirese, limites anti-inflamatórios e uso seguro

Capítulo 4

Tempo estimado de leitura: 7 minutos

+ Exercício

O que é o paracetamol e o que ele faz (e o que ele não faz)

O paracetamol (acetaminofeno) é um medicamento usado principalmente para analgesia (redução da dor) e antipirese (redução da febre). Ele é uma escolha frequente quando se busca alívio de dor leve a moderada e controle de febre, com menor risco de irritação gástrica e de efeitos plaquetários quando comparado a muitos AINEs.

Um ponto-chave: apesar de muitas pessoas o chamarem de “anti-inflamatório”, o paracetamol não é considerado um anti-inflamatório periférico clinicamente relevante. Isso significa que, em quadros em que a inflamação periférica é o principal motor da dor (por exemplo, artrite com sinovite importante, entorse com edema intenso), ele pode aliviar parte da dor, mas tende a ter limite de eficácia quando comparado a um AINE.

Mecanismo proposto: ação central e modulação de vias

Ação predominantemente central

O mecanismo do paracetamol não é descrito como uma “inibição periférica forte de COX” como ocorre com AINEs. O entendimento mais aceito é que ele atua principalmente no sistema nervoso central, reduzindo a percepção de dor e ajustando o “termostato” da febre.

  • Analgesia central: modulação de vias nociceptivas no cérebro e na medula, reduzindo a amplificação central do sinal doloroso.
  • Antipirese: redução de mediadores centrais envolvidos na febre, contribuindo para normalizar o ponto de ajuste térmico.

Por que ele não é um anti-inflamatório periférico relevante

Na inflamação periférica (tecidos inflamados, edema, rubor), há grande produção local de mediadores e um ambiente com alto “tom oxidativo” e sinalização inflamatória. Nessa situação, o paracetamol tem pouca capacidade de reduzir os sinais periféricos da inflamação (como edema e limitação funcional por inflamação) quando comparado a AINEs. Na prática clínica, isso se traduz em:

  • Boa resposta em dor sem grande componente inflamatório periférico (ex.: cefaleia tensional, dor pós-procedimento leve, mialgia leve, dor odontológica leve).
  • Resposta limitada quando há inflamação periférica intensa (ex.: crise de artrite com sinovite importante, entorse com edema importante, dor inflamatória musculoesquelética intensa).

Indicações adequadas e limites: como decidir na prática

Quando o paracetamol costuma ser uma boa escolha

  • Febre (adultos e crianças, respeitando dose por peso na pediatria).
  • Dor leve a moderada: cefaleia, odontalgia leve, dor musculoesquelética leve, dor associada a resfriados, dor pós-vacina, dor pós-operatória leve (muitas vezes como parte de esquema multimodal).
  • Quando se deseja evitar AINE por risco gastrointestinal, renal, cardiovascular ou por uso concomitante de anticoagulantes/antiagregantes (a decisão final depende do caso clínico).

Quando ele tende a falhar ou ser insuficiente

  • Dor inflamatória intensa (edema importante, dor claramente pior com movimento e sinais inflamatórios marcantes).
  • Crises de dor musculoesquelética com componente inflamatório predominante (ex.: algumas exacerbações de osteoartrite, bursites, tendinites com inflamação importante), em que um AINE pode oferecer maior alívio funcional.

Como escolher entre paracetamol e AINE (passo a passo)

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  1. Defina o objetivo principal: febre? dor? ambos?
  2. Estime o componente inflamatório periférico: há edema, calor local, limitação por inflamação, dor claramente inflamatória? Se sim, um AINE pode ter vantagem analgésica.
  3. Verifique riscos e contraindicações:
    • Se há maior risco com AINE (história de úlcera/hemorragia, doença renal, risco cardiovascular, uso de anticoagulante/antiagregante), o paracetamol frequentemente é preferível.
    • Se há maior risco com paracetamol (doença hepática, consumo elevado de álcool, jejum prolongado/desnutrição), reavalie dose, necessidade e alternativas.
  4. Escolha a menor dose eficaz pelo menor tempo necessário e reavalie resposta em 24–48 horas (ou antes, se piora).
  5. Se a resposta for insuficiente: considere troca para AINE (se seguro), associação em esquema orientado por profissional, ou investigação de causa/gravidade (dor desproporcional, febre persistente, sinais de alarme).

Doses usuais, intervalos e cuidados com formulações

Adultos: doses comuns (referência prática)

  • Paracetamol 500–1000 mg por dose, a cada 6–8 horas, conforme necessidade.
  • Limite diário: em muitos cenários clínicos, recomenda-se não exceder 3.000 mg/dia como margem de segurança; alguns rótulos e protocolos permitem até 4.000 mg/dia em adultos selecionados, por curto período, sem fatores de risco. Em caso de dúvida, use o limite mais conservador.

Regra prática: se você precisa de doses máximas por mais de 2–3 dias para manter alívio, vale reavaliar diagnóstico, necessidade de anti-inflamatório, ou outras estratégias.

Pediatria: princípio geral

Em crianças, a dose é baseada em peso (mg/kg) e a apresentação (gotas, suspensão) varia em concentração. Como erros de dose são comuns, a orientação deve ser individualizada e conferida na bula/prescrição. Evite “estimativas por idade” quando o peso é conhecido.

Formulações combinadas: onde ocorrem os erros

Um dos maiores riscos do paracetamol é a soma inadvertida de doses ao usar produtos combinados. Ele aparece em muitos medicamentos para gripe/resfriado e em combinações com opioides.

  • Exemplos de combinações comuns: paracetamol + descongestionante/anti-histamínico; paracetamol + cafeína; paracetamol + codeína/tramadol (dependendo do país e formulação).
  • Risco: a pessoa toma paracetamol “puro” e, ao mesmo tempo, um antigripal que também contém paracetamol, ultrapassando o limite diário.

Checklist rápido para evitar duplicidade (passo a passo)

  1. Leia o rótulo e procure: paracetamol ou acetaminofeno (também pode aparecer como APAP em alguns locais).
  2. Anote quantos mg há por comprimido ou por mL.
  3. Some todas as fontes do dia (incluindo antigripais e analgésicos combinados).
  4. Mantenha um limite diário definido (preferencialmente 3.000 mg/dia se houver qualquer incerteza ou fator de risco).

Uso seguro: como reduzir risco de toxicidade hepática

Por que o fígado é o principal ponto de atenção

Em doses terapêuticas, o paracetamol é metabolizado principalmente por vias seguras. Uma pequena fração gera um metabólito reativo que é neutralizado pelo glutationa. Em superdose, ou quando as reservas de glutationa estão reduzidas, aumenta o risco de lesão hepática.

Fatores que aumentam o risco (e o que fazer)

  • Álcool: consumo elevado e/ou crônico aumenta o risco de hepatotoxicidade. Orientação prática: evitar paracetamol em doses altas e evitar uso prolongado; preferir limite diário mais baixo e discutir alternativa com profissional de saúde.
  • Jejum prolongado, desnutrição, baixo peso: podem reduzir reservas de glutationa. Orientação prática: usar a menor dose eficaz, evitar “dose máxima”, e não prolongar o uso sem reavaliação.
  • Doença hepática prévia (hepatites, cirrose, esteatose avançada): Orientação prática: requer ajuste individual; em geral, usar doses menores e com monitorização/avaliação médica.
  • Uso simultâneo de múltiplos produtos com paracetamol: principal causa evitável. Orientação prática: fazer o checklist de duplicidade e manter registro de horários.

Esquemas práticos de tomada (exemplos)

Exemplo 1 (dor leve/moderada): 750 mg às 08:00, 14:00 e 20:00 (total 2.250 mg/dia). Ajustar para “conforme necessidade” e suspender quando melhorar.

Exemplo 2 (febre): 500–1000 mg a cada 6–8 horas, priorizando controle de desconforto. Se a febre persiste por mais de 48–72 horas ou há sinais de gravidade, investigar causa em vez de apenas escalonar dose.

Sinais de alerta e quando buscar avaliação

  • Suspeita de superdose (intencional ou acidental) ou soma de produtos: procurar atendimento imediatamente, mesmo sem sintomas.
  • Náuseas/vômitos persistentes, dor no quadrante superior direito, icterícia, urina escura após uso: avaliação urgente.
  • Dor intensa que não melhora com doses usuais, ou piora progressiva: reavaliar diagnóstico e necessidade de outra estratégia (incluindo AINE quando apropriado e seguro).

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em qual situação o paracetamol tende a ter eficácia mais limitada quando comparado a um AINE?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O paracetamol atua principalmente de forma central (analgesia e antipirese) e tem pouca ação anti-inflamatória periférica. Por isso, quando a dor é movida por inflamação periférica intensa (edema e sinais inflamatórios), um AINE tende a oferecer maior alívio funcional.

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