Avaliação neurológica essencial para Fisioterapia: triagem sensitivo-motora e reflexos

Capítulo 9

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

Objetivo da triagem neurológica na Fisioterapia

A triagem neurológica sensitivo-motora é um conjunto enxuto de testes para identificar se há comprometimento de nervo periférico, raiz nervosa (radiculopatia), medula/encéfalo (sinais de trato longo) ou alterações funcionais de coordenação e equilíbrio. Ela não substitui um exame neurológico completo, mas ajuda a:

  • confirmar ou refutar hipóteses clínicas (ex.: parestesia por compressão neural vs. dor referida musculoesquelética);
  • quantificar déficits (força, sensibilidade, reflexos) para acompanhar evolução;
  • decidir prioridade: encaminhar com urgência quando há déficit progressivo ou sinais centrais relevantes; ou planejar reabilitação quando o quadro é estável.

Como escolher o que testar (seleção por queixa)

1) Parestesia/dormência

Priorize:

  • sensibilidade por dermátomos (triagem rápida e depois detalhamento);
  • miotomos relacionados (para ver se há comprometimento motor associado);
  • reflexos do mesmo nível (quando aplicável);
  • testes de tensão neural (com segurança e sem “forçar” sintomas).

2) Fraqueza

Priorize:

  • miotomos (força segmentar) e comparação bilateral;
  • reflexos (hiporreflexia pode sugerir raiz/nervo; hiperreflexia pode sugerir trato longo);
  • sinais de trato longo se a fraqueza for difusa, bilateral, associada a alterações de marcha/coordenação.

3) Dor irradiada com padrão radicular (suspeita de radiculopatia)

Priorize um “cluster” segmentar:

  • dermátomo + miotomo + reflexo do nível suspeito;
  • teste(s) de tensão neural (ex.: SLR/Slump para membro inferior; ULNT para membro superior), sempre graduando a intensidade;
  • coordenação/equilíbrio apenas se houver sinais de comprometimento central ou queixa de instabilidade.

4) Instabilidade, quedas, marcha estranha, “pernas duras”

Priorize:

  • equilíbrio (estático e dinâmico) e coordenação;
  • sinais de trato longo (hiperreflexia, clônus, Babinski, Hoffmann, alterações de tônus);
  • sensibilidade (incluindo propriocepção) e força segmentar.

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Passo a passo prático: triagem neurológica essencial (roteiro de 6 blocos)

Use este roteiro como “mínimo viável” e aprofunde apenas o que vier alterado ou o que for coerente com a queixa.

Bloco 1 — Observação funcional rápida (30–60 s)

  • Marcha: base alargada, arrasto, queda do pé, assimetria, rigidez, oscilação de tronco.
  • Movimentos finos (se membro superior): abrir/fechar mãos, pinça, oposição do polegar.
  • Transferências: sentar-levantar, virar na maca, subir um degrau (se seguro).

Dica prática: se algo parecer “desproporcional” à queixa musculoesquelética (ex.: tropeços frequentes sem dor importante), aumente o peso de coordenação/equilíbrio e sinais de trato longo.

Bloco 2 — Sensibilidade (dermátomos e modalidades)

Conceito: dermátomos são áreas cutâneas predominantemente inervadas por uma raiz nervosa. Alterações em “faixa” ou em território consistente sugerem comprometimento radicular; alterações em “luva/meia” ou difusas podem sugerir outros mecanismos e exigem correlação clínica.

Como testar (triagem):

  • Explique que você vai comparar lados e pedir “igual/diferente”.
  • Teste toque leve (algodão/pincel) e, se necessário, picada leve (estímulo pontiagudo seguro) ou temperatura (quando disponível), sempre com cuidado e consentimento.
  • Faça primeiro um “screen” em pontos-chave e depois refine onde houver alteração.

Pontos-chave úteis (screen):

RegiãoDermátomo (referência prática)
Ombro lateralC5
PolegarC6
Dedo médioC7
DedinhoC8
Face medial do antebraçoT1
Região umbilicalT10
Face anterior da coxaL2–L3
Face medial da perna/maléolo medialL4
Dorso do pé/háluxL5
Borda lateral do péS1
Região posterior da coxa/poplíteaS2

Registro recomendado: descreva modalidade e distribuição. Ex.: Toque leve: hipoestesia em C6 D (polegar e antebraço lateral), comparado ao lado E.

Bloco 3 — Força segmentar (miotomos)

Conceito: miotomos representam grupos musculares com predominância de uma raiz nervosa. Testar miotomos ajuda a diferenciar fraqueza por dor/inibição vs. déficit neurológico segmentar.

Como testar (screen): peça contração máxima tolerável por 3–5 segundos, compare lados e observe “quebra” de força. Se houver dor limitante, registre isso (fraqueza “por dor” não é igual a déficit neurológico).

RaizMiotomo (movimento-chave)Exemplo de comando
C5Abdução do ombro“Eleve o braço para o lado, não deixe eu baixar.”
C6Extensão de punho“Puxe a mão para cima contra minha resistência.”
C7Extensão de cotovelo“Empurre minha mão, estique o cotovelo.”
C8Flexão dos dedos“Aperte meus dedos, não deixe eu abrir.”
T1Abdução/adução dos dedos“Segure o papel entre os dedos.”
L2Flexão de quadril“Levante o joelho, não deixe eu empurrar.”
L3Extensão de joelho“Estique o joelho contra minha mão.”
L4Dorsiflexão do tornozelo“Puxe o pé para cima.”
L5Extensão do hálux“Levante o dedão, segure.”
S1Flexão plantar“Fique na ponta do pé” (ou resistência manual).

Escala simples para registrar: use 0–5 (MRC) quando possível. Ex.: Miotomos: L5 D = 4/5 (extensão do hálux), E = 5/5.

Bloco 4 — Reflexos osteotendíneos (e interpretação)

Conceito: reflexos avaliam integridade do arco reflexo (nervo periférico/raiz) e modulação central. Em geral:

  • hiporreflexia pode sugerir comprometimento periférico/raiz (quando consistente com dermátomo/miotomo);
  • hiperreflexia, assimetria marcada, clônus ou sinais patológicos podem sugerir envolvimento central (trato longo), especialmente se associados a fraqueza espástica, rigidez ou alterações de marcha.

Como testar (passo a passo):

  • Posicione o segmento relaxado; peça para “soltar o peso”.
  • Percuta o tendão com golpe rápido e curto.
  • Compare bilateralmente.
  • Se difícil de obter, use manobra de reforço (ex.: Jendrassik para membros inferiores) sem exagero.
ReflexoRaiz predominanteComo posicionar (resumo)
BicipitalC5–C6Cotovelo semifletido, percutir tendão do bíceps
Estiloradial (braquiorradial)C5–C6Punho neutro, percutir próximo ao processo estilóide do rádio
TricipitalC7Cotovelo flexionado, percutir tendão do tríceps
PatelarL3–L4Pernas pendentes, percutir tendão patelar
AquilianoS1Tornozelo relaxado, leve dorsiflexão, percutir tendão de Aquiles

Escala sugerida: 0 ausente, 1+ diminuído, 2+ normal, 3+ aumentado, 4+ clônus. Ex.: Reflexos: patelar D 1+, E 2+; aquiliano D 2+, E 2+.

Bloco 5 — Coordenação e equilíbrio (quando pertinente)

Quando incluir: queixa de instabilidade, quedas, tontura associada a desequilíbrio, alterações de marcha, suspeita de comprometimento cerebelar/proprioceptivo, ou discrepância entre sintomas e achados periféricos.

Coordenação (testes simples)

  • Dedo-nariz (MMSS): observe tremor de intenção, dismetria.
  • Calcanhar-joelho (MMII): deslizar calcanhar na tíbia contralateral.
  • Diadococinesia: pronação/supinação rápida das mãos.

Registro: Coordenação: dedo-nariz sem dismetria; diadococinesia lenta à D.

Equilíbrio (progressão segura)

  • Base ampla → base estreita (pés juntos).
  • Tandem (um pé à frente do outro).
  • Apoio unipodal (se seguro).
  • Olhos abertos → olhos fechados (avaliar dependência visual; cuidado com risco de queda).

Registro: tempo e estratégia. Ex.: Tandem: 10 s OA estável; OF 3 s com oscilação importante.

Bloco 6 — Sinais de trato longo (triagem quando houver suspeita)

Conceito: sinais de trato longo sugerem comprometimento do neurônio motor superior (vias centrais). Não é para “procurar em todo mundo”, e sim quando o quadro sugere envolvimento central: fraqueza bilateral, rigidez/espasticidade, hiperreflexia, alterações de marcha, perda de destreza, quedas inexplicadas.

Testes comuns (selecionar conforme contexto):

  • Babinski: resposta extensora do hálux é achado patológico em adultos.
  • Clônus: oscilações rítmicas após estiramento rápido (ex.: tornozelo).
  • Hoffmann (MMSS): resposta em flexão do polegar/indicador após estímulo no dedo médio pode sugerir hiperexcitabilidade.
  • Tônus: resistência aumentada dependente da velocidade (espasticidade) vs. rigidez.

Registro: descreva presença/ausência e lado. Ex.: Babinski: negativo bilateral; clônus: ausente; Hoffmann: positivo à D.

Testes de tensão neural: execução segura e interpretação

Conceito: testes de tensão neural avaliam mecanossensibilidade do sistema nervoso periférico. Um teste “positivo” não é apenas reproduzir dor; é reproduzir sintomas familiares com características neurais e modulação com manobras de diferenciação.

Regras de segurança (antes e durante)

  • Movimentos lentos e graduais; pare ao reproduzir sintomas familiares moderados.
  • Evite “empurrar” para dor intensa, formigamento forte ou piora persistente.
  • Compare lados e use diferenciação (movimentos distais/proximais que alteram o sintoma).
  • Se houver sinais neurológicos progressivos, priorize fluxo de encaminhamento.

Exemplos práticos (sem detalhar protocolos avançados)

  • Membro inferior: elevação da perna estendida (SLR) e/ou Slump como triagem de mecanossensibilidade do ciático/tibial. Diferenciação: dorsiflexão do tornozelo, flexão cervical (no Slump) para ver se o sintoma muda.
  • Membro superior: testes de tensão neural (ULNT) selecionando o nervo mais compatível com a queixa (mediano/ulnar/radial). Diferenciação: inclinação cervical contralateral/ipsilateral para modular sintomas.

Como registrar: SLR D: reproduz parestesia posterior de perna aos 45°, aumenta com dorsiflexão; E negativo.

Integração rápida: como “fechar” a triagem por padrões

Padrão sugestivo de radiculopatia

  • Alteração sensitiva em dermátomo + fraqueza em miotomo + reflexo reduzido correspondente (nem sempre os três aparecem).
  • Teste de tensão neural pode reproduzir sintomas e ser modulável por diferenciação.

Exemplo de síntese: Achados compatíveis com comprometimento radicular L5 à D: hipoestesia dorso do pé/hálux, EHL 4/5, reflexos preservados, SLR reproduz parestesia com diferenciação.

Padrão sugestivo de neuropatia periférica

  • Distribuição em território de nervo periférico (ex.: mediano/ulnar/fibular) mais do que em faixa dermatomérica.
  • Fraqueza e sensibilidade coerentes com o nervo, reflexos podem estar normais ou alterados conforme o nervo/nível.

Padrão sugestivo de envolvimento central (trato longo)

  • Hiperreflexia, clônus, Babinski/Hoffmann, alterações de tônus, coordenação e marcha alteradas, déficits bilaterais ou disseminados.

Fluxos de decisão (encaminhamento vs. reabilitação)

Fluxo 1 — Suspeita de déficit neurológico progressivo

Se o paciente relata piora rápida (dias/semanas) de força, sensibilidade ou função  OU você observa queda objetiva na triagem (ex.: força caindo, reflexos mudando, marcha deteriorando)  → priorizar encaminhamento médico/serviço de urgência conforme gravidade e contexto.  Enquanto isso: documentar achados objetivos, evitar testes provocativos intensos, orientar sinais de piora e segurança funcional.

Fluxo 2 — Déficits estáveis (sem progressão) e paciente seguro

Se os déficits são estáveis, sem sinais centrais relevantes e sem perda funcional rápida  → planejar reabilitação + reavaliação programada.  Definir baseline (dermátomos/miotomos/reflexos e função), metas funcionais e critérios de reavaliação (ex.: 2–4 semanas ou antes se piorar).

Como registrar achados de forma clara (modelo prático)

Um registro bom permite que outro profissional entenda rapidamente: o que foi testado, como estava, e se mudou ao longo do tempo.

Estrutura recomendada (SOAP focado no neuro)

  • Queixa-alvo: sintoma principal e distribuição (ex.: “parestesia em face lateral da perna e dorso do pé D”).
  • Testes realizados: liste blocos (sensibilidade, miotomos, reflexos, tensão neural, coordenação/equilíbrio quando aplicável).
  • Resultados objetivos: lado, nível, escala.
  • Interpretação clínica: padrão mais provável (radicular/periférico/central) e justificativa pelos achados.
  • Plano: reabilitação e reavaliação ou encaminhamento conforme fluxo.

Exemplo de registro (radiculopatia suspeita)

Neuro screen (MMII): Sensibilidade (toque leve): hipoestesia em L5 D (dorso do pé/hálux). Miotomos: L5 D 4/5 (extensão do hálux), demais 5/5. Reflexos: patelar 2+ bilateral, aquiliano 2+ bilateral. Tensão neural: SLR D positivo aos 45° com parestesia familiar, aumenta com dorsiflexão; E negativo. Coordenação/equilíbrio: não testados (sem queixa/sem indicação). Impressão: padrão compatível com irritação radicular L5 D, sem sinais de trato longo. Conduta: reabilitação + reavaliação em 2 semanas ou antes se piora de força/sensibilidade.

Exemplo de registro (suspeita de trato longo)

Neuro screen: Marcha com rigidez e base estreita, tropeços. Reflexos: patelar 3+ bilateral, aquiliano 3+ bilateral; clônus 4 batimentos em tornozelo D. Babinski: positivo bilateral. Força segmentar: 4/5 difuso em MMII, sem padrão radicular claro. Equilíbrio: tandem 2 s (OA), piora importante. Impressão: sinais de neurônio motor superior/comprometimento central. Conduta: priorizado encaminhamento médico no mesmo dia; orientado retorno imediato se piora funcional.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em um paciente com fraqueza difusa e alterações de marcha/coordenação, qual achado de reflexos aumenta a suspeita de envolvimento central (sinais de trato longo) na triagem neurológica?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Hiperreflexia, clônus e sinais patológicos (ex.: Babinski/Hoffmann) indicam possível comprometimento central/neurônio motor superior, sobretudo quando há fraqueza difusa e alterações de marcha/coordenação.

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