O que é ortografia inicial e por que ela é ensinada por “regularidades” e “convenções”
Ortografia inicial é o trabalho intencional com a escrita correta das palavras e com marcas básicas da escrita (como maiúsculas e pontuação) no começo da alfabetização. Nesse momento, a criança ainda está consolidando como representar sons na escrita e, por isso, o ensino de ortografia funciona melhor quando se organiza em dois blocos:
- Regularidades: padrões frequentes e previsíveis (por exemplo, m/n antes de consoantes, dígrafos comuns, correspondências som-letra mais recorrentes).
- Convenções: regras combinadas socialmente e que não dependem do som (por exemplo, maiúscula em nomes próprios, ponto final em textos curtos).
A meta não é “corrigir tudo”, e sim ajudar o aluno a construir um repertório de padrões e estratégias para revisar e melhorar a escrita com autonomia.
Princípios para ensinar ortografia no início (sem sobrecarregar)
1) Ensinar pouco por vez, mas com alta frequência
Escolha um foco ortográfico por semana (ou por quinzena), retome diariamente em atividades curtas (5 a 10 minutos) e aplique em textos reais produzidos pela turma.
2) Partir do que é mais frequente e mais útil
Priorize regularidades que aparecem muito nos textos das crianças e que geram erros recorrentes. Isso aumenta a percepção de utilidade e acelera a consolidação.
3) Transformar “erro” em dado de ensino
Erros ortográficos iniciais indicam hipóteses em construção. O professor usa esses registros para decidir o próximo foco: o que a turma mais precisa agora para escrever melhor?
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Regularidades ortográficas essenciais para o início
A) Padrões som/letra mais frequentes (repertório de base)
Mesmo sem retomar o ensino sistemático da relação som-letra, vale organizar um repertório de correspondências muito frequentes para consulta e comparação. Exemplos de focos úteis:
- R forte no início de palavra e em “rr” no meio: rato, carro.
- S com som de /s/ em contextos comuns: sapo, festa (sem entrar em todas as possibilidades de “s/ss/ç/c”).
- CH em palavras muito frequentes do cotidiano escolar: chave, chuva, chão.
Como trabalhar: crie um “banco de palavras” por padrão (cartaz ou fichário) e alimente com palavras que surgem nas leituras e nas produções dos alunos.
B) Uso de M/N antes de consoantes (regularidade de alta utilidade)
Uma regularidade produtiva e relativamente estável é:
- Antes de P e B, usa-se M: campo, tambor, limpo, também.
- Antes das outras consoantes, geralmente usa-se N: tinta, canto, ponto, fundo.
Observação didática: no início, não é necessário discutir termos como “consoante nasal” ou exceções raras. O foco é reconhecer o padrão e aplicá-lo em palavras do repertório.
Passo a passo (sequência curta de 3 aulas) para M/N antes de consoantes
- Descoberta guiada (10–15 min): apresente pares de palavras em cartões (ex.: campo, canto, limpo, lindo). Peça que circulem a letra antes de P/B e antes de T/D/C/F etc. Conduza a turma a verbalizar a regra.
- Classificação (10 min): em duplas, os alunos organizam cartões em duas colunas: “antes de P/B” e “antes de outras consoantes”.
- Aplicação em escrita (10–15 min): mini-ditado reflexivo (ver seção de práticas) e, em seguida, revisão de um texto curto do aluno procurando apenas esse alvo.
C) Dígrafos comuns (NH, LH, CH, RR, SS)
Dígrafos são combinações de letras que representam um som (ou um padrão) frequente. No início, selecione os mais presentes no vocabulário infantil e escolar:
- NH: ninho, banho, minha.
- LH: filho, olho, trabalho.
- CH: chuva, chave, chão.
- RR: carro, correr.
- SS: passo, massa.
Como trabalhar: use palavras âncora (2 ou 3 por dígrafo) que ficam fixas no cartaz e servem de comparação. Ex.: “Se eu sei escrever chuva, posso usar ch para escrever chão”.
Convenções básicas para textos curtos (ensino direto e aplicável)
Maiúscula em nomes próprios e início de frase
Ensine como uma regra de apresentação do texto: nomes de pessoas, lugares e início de frase começam com letra maiúscula.
Passo a passo (rotina de 5 minutos)
- Mostre 2 frases curtas no quadro (uma com uso correto e outra sem).
- Pergunte: “O que muda na leitura? O que fica mais claro?”
- Combine um critério de revisão: “Procure o começo de cada frase e os nomes”.
- Os alunos revisam um bilhete ou legenda que produziram e marcam com lápis de cor onde precisam de maiúscula.
Ponto final em textos curtos
O ponto final ajuda o leitor a entender onde a ideia termina. No início, trabalhe com textos de 1 a 3 frases (bilhetes, legendas, recados, pequenas descrições).
Passo a passo (atividade rápida)
- Entregue um texto curto sem pontuação (1–3 frases) e leia em voz alta “sem parar”.
- Leia novamente, agora inserindo pausas naturais.
- Peça que os alunos coloquem um ponto onde a ideia “fecha”.
- Compare com a versão do professor e discuta 1 ou 2 casos.
Correção produtiva: como corrigir sem apagar a autoria e sem virar “caça-erros”
1) Selecionar poucos alvos por texto
Em cada produção, escolha 1 ou 2 alvos (no máximo 3) para revisão. Exemplos de combinações possíveis:
- Alvo 1: M/N antes de consoantes; Alvo 2: ponto final.
- Alvo 1: dígrafo CH; Alvo 2: maiúscula em nomes.
Critérios para escolher os alvos:
- O que mais aparece no texto da criança (alta recorrência).
- O que foi ensinado recentemente (para consolidar).
- O que melhora a legibilidade do texto com pouco esforço.
2) Usar comparação com palavras do repertório (em vez de “dar a resposta”)
Ao corrigir, prefira perguntas e pistas que levem o aluno a comparar com palavras conhecidas:
- “Você escreveu canpo. Qual palavra do nosso cartaz parece com ela: campo ou canto? O que vem depois do N/M?”
- “Aqui você escreveu xuva. No banco de palavras, como está escrito chuva? O que aparece no começo?”
Essa comparação cria um caminho mental: procurar uma palavra âncora → identificar o padrão → aplicar na palavra nova.
3) Ensinar estratégias de consulta (cartazes, banco de palavras, caderno de repertório)
Ortografia inicial melhora quando a sala oferece fontes de consulta simples e estáveis. Três recursos práticos:
- Cartazes de regularidades: “Antes de P/B usa M”; “CH em chuva/chão/chave”.
- Banco de palavras da turma: organizado por temas (escola, animais, brincadeiras) e por padrões (CH, NH, LH, M antes de P/B).
- Caderno de repertório: cada aluno registra palavras âncora e exemplos novos (com data e tema).
Como ensinar a consultar (rotina): antes de perguntar ao professor, o aluno deve (1) procurar no cartaz, (2) procurar no banco de palavras, (3) perguntar ao colega, (4) então perguntar ao professor. Treine essa sequência explicitamente nas primeiras semanas.
Práticas para consolidar: ditado reflexivo e reescrita breve
Ditado reflexivo (não é “ditado de prova”)
Ditado reflexivo é uma prática curta em que o foco é pensar na escrita, justificar escolhas e usar consulta. Ele serve para consolidar regularidades e convenções sem transformar a atividade em punição por erro.
Como aplicar (15–20 minutos)
- Defina o alvo: por exemplo, “M antes de P/B” e “ponto final”.
- Apresente 6 a 10 itens: misture palavras e 2 frases curtas. Ex.: campo, limpo, tambor, canto, tinta; frases: “O Pedro brincou no campo.” “Eu limpo a mesa.”
- Ditado com pausa para decisão: após cada item, pergunte: “Tem P ou B? Então antes é M ou N?”; “É fim de ideia? Precisa de ponto?”
- Comparação e consulta: antes de corrigir, peça que confiram no cartaz/banco de palavras.
- Correção coletiva de 2 itens: escolha os que geraram mais dúvida e discuta o raciocínio, não apenas a resposta.
Modelo de fala do professor (para estimular reflexão)
“Vou ditar: CAMPO. Pensem: depois do som nasal vem P. O que a nossa regra diz? Antes de P usamos M. Confiram no cartaz e escrevam.”Reescrita breve (revisão com alvo definido)
Reescrita breve é a produção de uma nova versão curta do próprio texto (ou de um trecho), aplicando 1 ou 2 alvos de revisão. É mais eficiente do que “passar a limpo tudo” sem foco.
Passo a passo (10–15 minutos)
- Selecione um trecho: 1 a 3 frases do texto do aluno.
- Marque o alvo: por exemplo, circule apenas palavras com M/N antes de consoantes e sublinhe finais de frase.
- Consulta orientada: o aluno verifica no cartaz/banco de palavras as dúvidas marcadas.
- Reescreva o trecho: o aluno escreve a versão revisada abaixo, mantendo a ideia original.
- Checagem rápida: o aluno faz uma leitura apontando com o dedo e confere: “Tem maiúscula no começo? Tem ponto final? Usei M antes de P/B?”
Organização prática: como planejar uma semana de ortografia inicial
| Dia | Foco | Atividade curta | Aplicação em texto |
|---|---|---|---|
| Segunda | Regularidade (ex.: M antes de P/B) | Descoberta guiada com cartões | Revisar 1 frase do caderno procurando só esse padrão |
| Terça | Regularidade | Classificação de palavras (duas colunas) | Produção de 2 frases usando 3 palavras do banco |
| Quarta | Convenção (maiúscula/ponto) | Inserir pontuação em texto curto | Reescrita breve de um bilhete/legenda |
| Quinta | Regularidade + consulta | Ditado reflexivo (6–10 itens) | Revisão do texto do dia com 1 alvo |
| Sexta | Consolidação | Jogo rápido de “palavra âncora” (qual ajuda?) | Revisão em dupla usando cartaz e banco de palavras |
Ferramentas prontas para sala: cartazes e banco de palavras
Cartaz de regularidade (exemplo de texto para o professor)
ANTES DE P e B, ESCREVEMOS M: CAMPO, LIMPO, TAMBOR, TAMBÉM. ANTES DE OUTRAS CONSOANTES, ESCREVEMOS N: CANTO, TINTA, FUNDO, PONTO.Banco de palavras por padrão (modelo simples)
- CH: chuva, chão, chave, chocolate
- NH: ninho, banho, minha, caminho
- LH: filho, olho, folha, trabalho
- M antes de P/B: campo, limpo, também, comprar
- N antes de outras: canto, tinta, ponto, dentro
Atualize o banco com palavras que aparecem nas leituras e nos textos dos alunos, para que a consulta seja significativa e frequente.