Segurança desde a triagem: por que começar antes do primeiro procedimento
Na urgência e emergência, muitos eventos adversos acontecem nos primeiros minutos por falhas simples: identificação incompleta, administração de medicação sem checagem de alergia, quedas na sala de espera, contenção inadequada de paciente agitado ou ausência de precauções de isolamento. A triagem é um ponto estratégico para ativar barreiras de segurança imediatamente, mesmo antes do paciente entrar em sala de atendimento.
Identificação segura do paciente (mínimo de dois identificadores)
Conceito
Identificação segura é a confirmação ativa de quem é o paciente antes de qualquer ação assistencial (coleta, medicação, encaminhamento, procedimentos, exames). Deve usar pelo menos dois identificadores independentes, reduzindo risco de troca de pacientes, prontuários e resultados.
Dois identificadores: quais usar
- Recomendados: nome completo + data de nascimento; ou nome completo + número do prontuário/registro; ou nome completo + nome da mãe (conforme política local).
- Evitar como identificador: leito, local de espera, cor da pulseira, diagnóstico presumido.
Passo a passo prático na triagem
- Pergunte de forma aberta: “Por favor, diga seu nome completo e sua data de nascimento”.
- Compare com a fonte oficial: documento, cadastro, etiqueta/pulseira gerada, prontuário eletrônico.
- Emita/coloque pulseira (ou etiqueta equivalente) assim que o cadastro permitir, conferindo legibilidade.
- Antes de qualquer coleta/medicação na triagem, repita a checagem com dois identificadores.
Situações especiais
- Paciente inconsciente/confuso: usar identificador provisório institucional (ex.: “Não identificado + código”), registrar características e fonte de informação (SAMU, acompanhante). Atualizar assim que houver confirmação.
- Pediatria: identificar criança e responsável; pulseira na criança (quando possível) e conferência ativa com responsável.
- Homônimos: sinalizar no sistema e na pulseira (alerta de homônimo) e reforçar checagem antes de qualquer etapa.
Alertas de alergia e reações prévias: tornar visível o risco
Conceito
Alergia medicamentosa e reações graves prévias (ex.: anafilaxia a contraste, alergia a látex) precisam ser identificadas e transformadas em alerta visível e acionável para toda a equipe.
Perguntas essenciais (rápidas e objetivas)
- “Você tem alergia a algum medicamento, alimento, látex ou contraste?”
- “O que aconteceu da última vez?” (ex.: urticária, falta de ar, inchaço de face, queda de pressão).
- “Precisou de adrenalina, internação ou UTI?” (sugere gravidade).
Passo a passo prático
- Registrar alergia no campo correto do sistema (não apenas em texto livre).
- Aplicar sinalização institucional (ex.: pulseira/etiqueta de alergia conforme protocolo local).
- Comunicar verbalmente ao encaminhar paciente para medicação/exames quando a alergia for relevante (ex.: contraste, antibiótico, analgésicos).
- Se reação prévia grave, priorizar local com monitorização quando houver risco de reexposição (ex.: necessidade de antibiótico em paciente com múltiplas alergias).
Exemplo prático
Paciente com dor abdominal refere “alergia a dipirona”. Ao detalhar, relata apenas “enjoo”. Registrar como intolerância se essa for a classificação institucional; se houver história de urticária/edema de glote, registrar como alergia e sinalizar para evitar administração inadvertida na sala de medicação.
Conciliação rápida de medicamentos críticos (anticoagulantes e insulina)
Conceito
Conciliação rápida na triagem é a identificação imediata de medicamentos de alto risco que mudam condutas, aumentam risco de sangramento/hipoglicemia e influenciam prioridade e segurança. O objetivo não é listar toda a prescrição domiciliar, e sim capturar medicamentos críticos e informações mínimas acionáveis.
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Medicamentos críticos-alvo
- Anticoagulantes/antiagregantes: varfarina, rivaroxabana, apixabana, dabigatrana, edoxabana, heparinas, clopidogrel, AAS (especialmente em trauma/queda/sangramento).
- Insulinas e hipoglicemiantes: insulina regular/NPH/basal/rápida, sulfonilureias (ex.: glibenclamida), especialmente em idosos.
Perguntas mínimas que mudam a segurança
- “Você usa algum anticoagulante ou remédio para afinar o sangue? Qual? Quando foi a última dose?”
- “Você usa insulina ou remédio para diabetes? Qual? Qual foi a última dose? Comeu hoje?”
- “Teve sangramento recente? Fez queda/trauma?”
- “Teve hipoglicemia recente, desmaio, tremor, sudorese?”
Passo a passo prático (fluxo rápido)
- Identificar uso de anticoagulante/insulina já na anamnese dirigida da triagem.
- Registrar: nome do fármaco, última dose (horário), indicação (FA, TEV, DM), e se há sinais de sangramento/hipoglicemia.
- Acionar conduta de segurança:
- Anticoagulante + trauma/queda/cefaleia intensa/sangramento: escalonar para avaliação médica rápida e evitar atrasos em exames.
- Insulina/hipoglicemiante + jejum/vômitos/alteração de consciência: checar glicemia capilar conforme protocolo e priorizar observação.
- Prevenir erro de administração: se houver medicação na triagem, checar “paciente certo, medicamento certo, dose certa, via certa, horário certo” + alergias + dois identificadores.
Exemplo prático
Idoso chega após queda da própria altura, sem fratura aparente, mas usa apixabana e relata cefaleia. Mesmo com sinais vitais estáveis, o uso de anticoagulante é um marcador de risco para sangramento oculto; registrar e sinalizar para avaliação prioritária e monitorização conforme fluxo local.
Prevenção de quedas na triagem e sala de espera
Conceito
Quedas podem ocorrer durante deslocamento, espera, ida ao banheiro e transferências. Na triagem, a equipe identifica risco e implementa medidas simples de contenção ambiental e supervisão.
Triagem rápida de risco de queda (sinais de alerta)
- Idade avançada, marcha instável, tontura/síncope recente.
- Uso de sedativos, álcool/drogas, anti-hipertensivos com hipotensão.
- Alteração do nível de consciência, delirium, agitação.
- Déficit motor, dor intensa, imobilizações, pós-convulsão.
- Hipoglicemia suspeita.
Passo a passo prático
- Classificar risco (baixo/alto) conforme protocolo institucional e registrar.
- Orientar e sinalizar: explicar que deve solicitar ajuda para levantar; aplicar identificação de risco (ex.: pulseira/etiqueta) se houver.
- Ambiente seguro: cadeira firme com braços, freios em cadeira de rodas, retirar obstáculos, manter pertences ao alcance, piso seco.
- Supervisão: se alto risco, posicionar em área visível, priorizar assento próximo à equipe, acompanhar ao banheiro.
- Transporte seguro: se tontura, fraqueza ou pós-evento neurológico, evitar deambulação; usar cadeira de rodas/maca.
Exemplo prático
Paciente com vertigem e náuseas chega andando, mas relata quase queda em casa. Conduta segura: manter em cadeira de rodas, orientar para não levantar sem ajuda, posicionar próximo ao posto e acompanhar ao banheiro.
Manejo seguro de pacientes agitados (sem escalada de risco)
Conceito
Agitação pode decorrer de dor, hipoxemia, hipoglicemia, intoxicação, abstinência, delirium, transtorno psiquiátrico ou estresse. O foco na triagem é reduzir risco de auto/heteroagressão e evitar intervenções precipitadas, priorizando desescalada, ambiente seguro e acionamento de apoio.
Princípios práticos de segurança
- Segurança da equipe e do paciente: manter distância segura, rota de saída livre, não ficar entre paciente e porta.
- Comunicação calma e objetiva: frases curtas, oferecer escolhas simples, evitar confronto.
- Reduzir estímulos: ambiente mais silencioso, menos pessoas ao redor.
- Buscar causa clínica reversível: checar glicemia capilar quando indicado, avaliar dor, considerar hipóxia (oximetria), febre, intoxicação.
Passo a passo prático (fluxo de contenção segura)
- Reconhecer risco imediato: ameaça verbal, postura agressiva, tentativa de fuga, autoagressão, manipulação de dispositivos.
- Chamar apoio precocemente: equipe de segurança e/ou mais profissionais; nunca manejar sozinho.
- Desescalada verbal: apresentar-se, validar emoção, estabelecer limites claros (“Quero ajudar, mas preciso que você mantenha as mãos abaixadas”).
- Ambiente: retirar objetos potencialmente perigosos, manter acompanhante apenas se ajudar a acalmar.
- Se persistir risco: seguir protocolo institucional para contenção física/química, com prescrição e monitorização, registrando motivo, tempo e reavaliações.
Erros comuns a evitar
- Deixar paciente agitado em sala de espera sem supervisão.
- Ignorar causas clínicas (hipoglicemia/hipóxia/dor) e tratar como “apenas comportamento”.
- Conter sem equipe suficiente, sem técnica e sem monitorização.
Precauções de isolamento: critérios e fluxo na triagem
Conceito
Precauções de isolamento são medidas para reduzir transmissão de agentes infecciosos. Na triagem, a decisão precisa ser rápida e baseada em sinais/sintomas e risco epidemiológico, direcionando o paciente para o fluxo correto e definindo EPIs.
Higiene das mãos: regra operacional
Realizar higiene das mãos antes e após contato com o paciente, após contato com superfícies próximas e após retirada de luvas. Se mãos visivelmente sujas, preferir água e sabão; caso contrário, preparação alcoólica conforme disponibilidade e protocolo.
Fluxo prático de decisão na triagem
- Triagem de sintomas infecciosos: tosse, febre, coriza, diarreia/vômitos, lesões cutâneas com secreção, história de exposição.
- Aplicar medida imediata de fonte:
- Sintomas respiratórios: oferecer máscara cirúrgica ao paciente (se tolerado) e orientar etiqueta da tosse.
- Diarreia/vômitos: orientar higiene rigorosa e uso de banheiro dedicado se houver.
- Definir tipo de precaução conforme suspeita e protocolo local.
- Direcionar para área adequada: sala de isolamento, área respiratória, ou box específico; reduzir tempo em sala de espera comum.
- Comunicar a equipe sobre o tipo de precaução e necessidade de EPI antes da entrada no ambiente.
Critérios práticos por tipo de precaução (resumo operacional)
| Tipo | Quando suspeitar na triagem | Medidas principais |
|---|---|---|
| Contato | Diarreia aguda, vômitos com risco de contaminação ambiental, feridas com secreção, parasitoses/escabiose (conforme protocolo), colonização/infecção por multirresistentes (se informado) | Luvas e avental ao contato; equipamentos dedicados; higiene das mãos rigorosa |
| Gotículas | Síndrome gripal, tosse com febre, suspeita de meningite por gotículas (conforme sinais e fluxo local) | Máscara cirúrgica para equipe ao entrar; máscara no paciente se possível; distanciamento |
| Aerossóis | Suspeita de tuberculose (tosse prolongada, hemoptise, perda de peso, contato), doenças com transmissão aérea conforme alertas locais | Preferir sala com pressão negativa se disponível; respirador (ex.: PFF2/N95) para equipe; minimizar circulação |
Uso de EPIs conforme risco (prática na triagem)
- Contato com secreções/fluídos: luvas; avental se risco de respingo/contaminação de roupa.
- Risco de gotículas: máscara cirúrgica para profissional; proteção ocular se risco de respingos.
- Risco de aerossóis: respirador (PFF2/N95) conforme protocolo; proteção ocular se risco de respingos.
- Procedimentos geradores de aerossóis: seguir protocolo institucional para ambiente e EPI (ex.: respirador e proteção ocular), e evitar realizar em área comum.
Exemplo prático
Paciente chega com tosse intensa e febre. Ação imediata na triagem: oferecer máscara ao paciente, orientar higiene das mãos/etiqueta da tosse, direcionar para fluxo respiratório e sinalizar precaução por gotículas (ou conforme protocolo vigente), garantindo que a equipe use EPI antes do contato próximo.
Checklist de saída da triagem (medidas essenciais realizadas)
Use este checklist como verificação final antes de encaminhar o paciente para sala de espera, medicação, coleta ou box:
- Identificação: paciente identificado com dois identificadores confirmados; pulseira/etiqueta conferida (ou identificado provisoriamente conforme protocolo).
- Alergias: alergias/reação prévia grave investigadas, registradas no campo correto e sinalizadas (pulseira/alerta no sistema).
- Medicamentos críticos: uso de anticoagulantes/antiagregantes e/ou insulina/hipoglicemiantes verificado; última dose e riscos associados registrados; medidas acionadas (ex.: glicemia capilar quando indicado; escalonamento em trauma/cefaleia/sangramento).
- Quedas: risco de queda avaliado; paciente orientado; medidas ambientais e supervisão definidas (cadeira de rodas/maca, área visível, acompanhamento ao banheiro se necessário).
- Agitação: risco de agitação/violência avaliado; desescalada aplicada quando necessário; apoio acionado precocemente; ambiente seguro organizado; condutas conforme protocolo se risco persistente.
- Isolamento: sintomas infecciosos triados; precaução definida (contato/gotículas/aerossóis); paciente com máscara quando indicado; fluxo/área correta acionada; EPI comunicado à equipe.
- Higiene das mãos: realizada nos momentos críticos (antes/depois do contato e após retirada de luvas).