Orientações de Segurança para Reduzir Eventos Adversos: Identificação, Medicação, Quedas e Isolamento

Capítulo 19

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

Segurança desde a triagem: por que começar antes do primeiro procedimento

Na urgência e emergência, muitos eventos adversos acontecem nos primeiros minutos por falhas simples: identificação incompleta, administração de medicação sem checagem de alergia, quedas na sala de espera, contenção inadequada de paciente agitado ou ausência de precauções de isolamento. A triagem é um ponto estratégico para ativar barreiras de segurança imediatamente, mesmo antes do paciente entrar em sala de atendimento.

Identificação segura do paciente (mínimo de dois identificadores)

Conceito

Identificação segura é a confirmação ativa de quem é o paciente antes de qualquer ação assistencial (coleta, medicação, encaminhamento, procedimentos, exames). Deve usar pelo menos dois identificadores independentes, reduzindo risco de troca de pacientes, prontuários e resultados.

Dois identificadores: quais usar

  • Recomendados: nome completo + data de nascimento; ou nome completo + número do prontuário/registro; ou nome completo + nome da mãe (conforme política local).
  • Evitar como identificador: leito, local de espera, cor da pulseira, diagnóstico presumido.

Passo a passo prático na triagem

  1. Pergunte de forma aberta: “Por favor, diga seu nome completo e sua data de nascimento”.
  2. Compare com a fonte oficial: documento, cadastro, etiqueta/pulseira gerada, prontuário eletrônico.
  3. Emita/coloque pulseira (ou etiqueta equivalente) assim que o cadastro permitir, conferindo legibilidade.
  4. Antes de qualquer coleta/medicação na triagem, repita a checagem com dois identificadores.

Situações especiais

  • Paciente inconsciente/confuso: usar identificador provisório institucional (ex.: “Não identificado + código”), registrar características e fonte de informação (SAMU, acompanhante). Atualizar assim que houver confirmação.
  • Pediatria: identificar criança e responsável; pulseira na criança (quando possível) e conferência ativa com responsável.
  • Homônimos: sinalizar no sistema e na pulseira (alerta de homônimo) e reforçar checagem antes de qualquer etapa.

Alertas de alergia e reações prévias: tornar visível o risco

Conceito

Alergia medicamentosa e reações graves prévias (ex.: anafilaxia a contraste, alergia a látex) precisam ser identificadas e transformadas em alerta visível e acionável para toda a equipe.

Perguntas essenciais (rápidas e objetivas)

  • “Você tem alergia a algum medicamento, alimento, látex ou contraste?”
  • “O que aconteceu da última vez?” (ex.: urticária, falta de ar, inchaço de face, queda de pressão).
  • “Precisou de adrenalina, internação ou UTI?” (sugere gravidade).

Passo a passo prático

  1. Registrar alergia no campo correto do sistema (não apenas em texto livre).
  2. Aplicar sinalização institucional (ex.: pulseira/etiqueta de alergia conforme protocolo local).
  3. Comunicar verbalmente ao encaminhar paciente para medicação/exames quando a alergia for relevante (ex.: contraste, antibiótico, analgésicos).
  4. Se reação prévia grave, priorizar local com monitorização quando houver risco de reexposição (ex.: necessidade de antibiótico em paciente com múltiplas alergias).

Exemplo prático

Paciente com dor abdominal refere “alergia a dipirona”. Ao detalhar, relata apenas “enjoo”. Registrar como intolerância se essa for a classificação institucional; se houver história de urticária/edema de glote, registrar como alergia e sinalizar para evitar administração inadvertida na sala de medicação.

Conciliação rápida de medicamentos críticos (anticoagulantes e insulina)

Conceito

Conciliação rápida na triagem é a identificação imediata de medicamentos de alto risco que mudam condutas, aumentam risco de sangramento/hipoglicemia e influenciam prioridade e segurança. O objetivo não é listar toda a prescrição domiciliar, e sim capturar medicamentos críticos e informações mínimas acionáveis.

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Medicamentos críticos-alvo

  • Anticoagulantes/antiagregantes: varfarina, rivaroxabana, apixabana, dabigatrana, edoxabana, heparinas, clopidogrel, AAS (especialmente em trauma/queda/sangramento).
  • Insulinas e hipoglicemiantes: insulina regular/NPH/basal/rápida, sulfonilureias (ex.: glibenclamida), especialmente em idosos.

Perguntas mínimas que mudam a segurança

  • “Você usa algum anticoagulante ou remédio para afinar o sangue? Qual? Quando foi a última dose?”
  • “Você usa insulina ou remédio para diabetes? Qual? Qual foi a última dose? Comeu hoje?”
  • “Teve sangramento recente? Fez queda/trauma?”
  • “Teve hipoglicemia recente, desmaio, tremor, sudorese?”

Passo a passo prático (fluxo rápido)

  1. Identificar uso de anticoagulante/insulina já na anamnese dirigida da triagem.
  2. Registrar: nome do fármaco, última dose (horário), indicação (FA, TEV, DM), e se há sinais de sangramento/hipoglicemia.
  3. Acionar conduta de segurança:
    • Anticoagulante + trauma/queda/cefaleia intensa/sangramento: escalonar para avaliação médica rápida e evitar atrasos em exames.
    • Insulina/hipoglicemiante + jejum/vômitos/alteração de consciência: checar glicemia capilar conforme protocolo e priorizar observação.
  4. Prevenir erro de administração: se houver medicação na triagem, checar “paciente certo, medicamento certo, dose certa, via certa, horário certo” + alergias + dois identificadores.

Exemplo prático

Idoso chega após queda da própria altura, sem fratura aparente, mas usa apixabana e relata cefaleia. Mesmo com sinais vitais estáveis, o uso de anticoagulante é um marcador de risco para sangramento oculto; registrar e sinalizar para avaliação prioritária e monitorização conforme fluxo local.

Prevenção de quedas na triagem e sala de espera

Conceito

Quedas podem ocorrer durante deslocamento, espera, ida ao banheiro e transferências. Na triagem, a equipe identifica risco e implementa medidas simples de contenção ambiental e supervisão.

Triagem rápida de risco de queda (sinais de alerta)

  • Idade avançada, marcha instável, tontura/síncope recente.
  • Uso de sedativos, álcool/drogas, anti-hipertensivos com hipotensão.
  • Alteração do nível de consciência, delirium, agitação.
  • Déficit motor, dor intensa, imobilizações, pós-convulsão.
  • Hipoglicemia suspeita.

Passo a passo prático

  1. Classificar risco (baixo/alto) conforme protocolo institucional e registrar.
  2. Orientar e sinalizar: explicar que deve solicitar ajuda para levantar; aplicar identificação de risco (ex.: pulseira/etiqueta) se houver.
  3. Ambiente seguro: cadeira firme com braços, freios em cadeira de rodas, retirar obstáculos, manter pertences ao alcance, piso seco.
  4. Supervisão: se alto risco, posicionar em área visível, priorizar assento próximo à equipe, acompanhar ao banheiro.
  5. Transporte seguro: se tontura, fraqueza ou pós-evento neurológico, evitar deambulação; usar cadeira de rodas/maca.

Exemplo prático

Paciente com vertigem e náuseas chega andando, mas relata quase queda em casa. Conduta segura: manter em cadeira de rodas, orientar para não levantar sem ajuda, posicionar próximo ao posto e acompanhar ao banheiro.

Manejo seguro de pacientes agitados (sem escalada de risco)

Conceito

Agitação pode decorrer de dor, hipoxemia, hipoglicemia, intoxicação, abstinência, delirium, transtorno psiquiátrico ou estresse. O foco na triagem é reduzir risco de auto/heteroagressão e evitar intervenções precipitadas, priorizando desescalada, ambiente seguro e acionamento de apoio.

Princípios práticos de segurança

  • Segurança da equipe e do paciente: manter distância segura, rota de saída livre, não ficar entre paciente e porta.
  • Comunicação calma e objetiva: frases curtas, oferecer escolhas simples, evitar confronto.
  • Reduzir estímulos: ambiente mais silencioso, menos pessoas ao redor.
  • Buscar causa clínica reversível: checar glicemia capilar quando indicado, avaliar dor, considerar hipóxia (oximetria), febre, intoxicação.

Passo a passo prático (fluxo de contenção segura)

  1. Reconhecer risco imediato: ameaça verbal, postura agressiva, tentativa de fuga, autoagressão, manipulação de dispositivos.
  2. Chamar apoio precocemente: equipe de segurança e/ou mais profissionais; nunca manejar sozinho.
  3. Desescalada verbal: apresentar-se, validar emoção, estabelecer limites claros (“Quero ajudar, mas preciso que você mantenha as mãos abaixadas”).
  4. Ambiente: retirar objetos potencialmente perigosos, manter acompanhante apenas se ajudar a acalmar.
  5. Se persistir risco: seguir protocolo institucional para contenção física/química, com prescrição e monitorização, registrando motivo, tempo e reavaliações.

Erros comuns a evitar

  • Deixar paciente agitado em sala de espera sem supervisão.
  • Ignorar causas clínicas (hipoglicemia/hipóxia/dor) e tratar como “apenas comportamento”.
  • Conter sem equipe suficiente, sem técnica e sem monitorização.

Precauções de isolamento: critérios e fluxo na triagem

Conceito

Precauções de isolamento são medidas para reduzir transmissão de agentes infecciosos. Na triagem, a decisão precisa ser rápida e baseada em sinais/sintomas e risco epidemiológico, direcionando o paciente para o fluxo correto e definindo EPIs.

Higiene das mãos: regra operacional

Realizar higiene das mãos antes e após contato com o paciente, após contato com superfícies próximas e após retirada de luvas. Se mãos visivelmente sujas, preferir água e sabão; caso contrário, preparação alcoólica conforme disponibilidade e protocolo.

Fluxo prático de decisão na triagem

  1. Triagem de sintomas infecciosos: tosse, febre, coriza, diarreia/vômitos, lesões cutâneas com secreção, história de exposição.
  2. Aplicar medida imediata de fonte:
    • Sintomas respiratórios: oferecer máscara cirúrgica ao paciente (se tolerado) e orientar etiqueta da tosse.
    • Diarreia/vômitos: orientar higiene rigorosa e uso de banheiro dedicado se houver.
  3. Definir tipo de precaução conforme suspeita e protocolo local.
  4. Direcionar para área adequada: sala de isolamento, área respiratória, ou box específico; reduzir tempo em sala de espera comum.
  5. Comunicar a equipe sobre o tipo de precaução e necessidade de EPI antes da entrada no ambiente.

Critérios práticos por tipo de precaução (resumo operacional)

TipoQuando suspeitar na triagemMedidas principais
ContatoDiarreia aguda, vômitos com risco de contaminação ambiental, feridas com secreção, parasitoses/escabiose (conforme protocolo), colonização/infecção por multirresistentes (se informado)Luvas e avental ao contato; equipamentos dedicados; higiene das mãos rigorosa
GotículasSíndrome gripal, tosse com febre, suspeita de meningite por gotículas (conforme sinais e fluxo local)Máscara cirúrgica para equipe ao entrar; máscara no paciente se possível; distanciamento
AerossóisSuspeita de tuberculose (tosse prolongada, hemoptise, perda de peso, contato), doenças com transmissão aérea conforme alertas locaisPreferir sala com pressão negativa se disponível; respirador (ex.: PFF2/N95) para equipe; minimizar circulação

Uso de EPIs conforme risco (prática na triagem)

  • Contato com secreções/fluídos: luvas; avental se risco de respingo/contaminação de roupa.
  • Risco de gotículas: máscara cirúrgica para profissional; proteção ocular se risco de respingos.
  • Risco de aerossóis: respirador (PFF2/N95) conforme protocolo; proteção ocular se risco de respingos.
  • Procedimentos geradores de aerossóis: seguir protocolo institucional para ambiente e EPI (ex.: respirador e proteção ocular), e evitar realizar em área comum.

Exemplo prático

Paciente chega com tosse intensa e febre. Ação imediata na triagem: oferecer máscara ao paciente, orientar higiene das mãos/etiqueta da tosse, direcionar para fluxo respiratório e sinalizar precaução por gotículas (ou conforme protocolo vigente), garantindo que a equipe use EPI antes do contato próximo.

Checklist de saída da triagem (medidas essenciais realizadas)

Use este checklist como verificação final antes de encaminhar o paciente para sala de espera, medicação, coleta ou box:

  • Identificação: paciente identificado com dois identificadores confirmados; pulseira/etiqueta conferida (ou identificado provisoriamente conforme protocolo).
  • Alergias: alergias/reação prévia grave investigadas, registradas no campo correto e sinalizadas (pulseira/alerta no sistema).
  • Medicamentos críticos: uso de anticoagulantes/antiagregantes e/ou insulina/hipoglicemiantes verificado; última dose e riscos associados registrados; medidas acionadas (ex.: glicemia capilar quando indicado; escalonamento em trauma/cefaleia/sangramento).
  • Quedas: risco de queda avaliado; paciente orientado; medidas ambientais e supervisão definidas (cadeira de rodas/maca, área visível, acompanhamento ao banheiro se necessário).
  • Agitação: risco de agitação/violência avaliado; desescalada aplicada quando necessário; apoio acionado precocemente; ambiente seguro organizado; condutas conforme protocolo se risco persistente.
  • Isolamento: sintomas infecciosos triados; precaução definida (contato/gotículas/aerossóis); paciente com máscara quando indicado; fluxo/área correta acionada; EPI comunicado à equipe.
  • Higiene das mãos: realizada nos momentos críticos (antes/depois do contato e após retirada de luvas).

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Durante a triagem, qual conduta melhor reduz o risco de erro de identificação antes de qualquer coleta ou medicação?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A identificação segura exige confirmação ativa com dois identificadores independentes (ex.: nome completo + data de nascimento) e conferência com fonte oficial. Referências como leito/local de espera ou cor de pulseira não devem ser usadas como identificadores.

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