Orçamento Público para Iniciantes: visão prática do ciclo orçamentário

Capítulo 1

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Orçamento público como instrumento de planejamento e gestão

O orçamento público é o principal instrumento que transforma prioridades de governo em metas, ações e gastos autorizados. Na prática, ele responde a três perguntas: o que o governo pretende entregar (resultados), como pretende fazer (programas e ações) e quanto pode gastar (limites e dotações).

Objetivos práticos do orçamento

  • Planejar: organizar prioridades e metas em um período (anos e exercícios).
  • Autorizar: permitir legalmente que a administração realize despesas e arrecade receitas.
  • Controlar: criar trilhas de verificação (empenho, liquidação, pagamento) e prestação de contas.
  • Avaliar: comparar o que foi planejado com o que foi executado e entregue.

Limites e “pegadinhas” comuns para iniciantes

  • Orçamento não é dinheiro em caixa: é autorização e planejamento; a execução depende de arrecadação, cronograma e regras.
  • Nem tudo que está previsto será executado: pode haver contingenciamento, frustração de receita, mudanças de prioridade ou impedimentos técnicos.
  • Despesa só pode ocorrer se houver dotação: sem dotação, não há autorização para gastar.
  • Entrega não é sinônimo de gasto: gastar não garante resultado; por isso existem metas e indicadores.

Linguagem básica dos documentos (como “ler” o orçamento)

Ao abrir um documento orçamentário, você verá uma estrutura que liga objetivos a valores. Em geral, a lógica é: Programa (finalidade) → Ações (o que será feito) → Produtos/Metas (o que será entregue) → Dotação (quanto pode gastar) → Execução (empenho, liquidação e pagamento).

Exemplo simples de leitura: um programa de “Atenção Básica” pode conter a ação “Manutenção de Unidades de Saúde”, com meta “X atendimentos/ano” e dotação “R$ Y”. A execução mostrará quanto foi empenhado, liquidado e pago.

Visão prática do ciclo orçamentário (etapas e produtos)

O ciclo orçamentário é o caminho completo desde a definição de prioridades até a avaliação do que foi entregue. Para fins práticos, você pode enxergar seis fases: planejamento, elaboração, discussão/aprovação, execução, acompanhamento e avaliação. Cada fase gera produtos (documentos, decisões e registros) que alimentam a fase seguinte.

1) Planejamento (definição de prioridades e metas)

O que acontece: órgãos e áreas finalísticas definem problemas a enfrentar, público-alvo, objetivos, metas e resultados esperados. Também se identificam restrições: capacidade operacional, contratos vigentes, despesas obrigatórias e limites fiscais.

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Passo a passo prático:

  • Levantar demandas (serviços, obras, manutenção, políticas públicas).
  • Separar o que é obrigatório (ex.: contratos, folha, custeio essencial) do que é discricionário (novos projetos).
  • Definir prioridades com critérios claros (impacto, urgência, risco, custo).
  • Traduzir prioridades em metas mensuráveis (quantidade, prazo, unidade de medida).

Produtos gerados:

  • Carteira preliminar de iniciativas (projetos/atividades).
  • Metas e indicadores propostos.
  • Estimativas iniciais de custos.

2) Elaboração (montagem da proposta orçamentária)

O que acontece: a proposta é estruturada em programas e ações, com valores por categoria de despesa e fontes de recursos. Aqui se compatibiliza o “desejo” com o “cabimento”: limites, estimativa de receitas e regras fiscais.

Passo a passo prático:

  • Converter iniciativas em ações (atividade, projeto ou operação especial) com metas e produtos.
  • Estimar custos por itens (pessoal, serviços, material, obras, equipamentos).
  • Definir a dotação necessária por ação e por natureza de despesa.
  • Indicar fontes/recursos e ajustar ao limite disponível (cortes, escalonamento, fases).

Produtos gerados:

  • Proposta orçamentária consolidada (com programas, ações, metas e dotações).
  • Quadros de receitas e despesas estimadas.
  • Justificativas técnicas para valores e metas.

3) Discussão e aprovação (deliberação e autorização legal)

O que acontece: a proposta é analisada, debatida e pode receber ajustes (emendas, remanejamentos autorizados, priorizações). O foco é decidir o que será autorizado e sob quais condições.

Passo a passo prático:

  • Apresentar a proposta com linguagem objetiva: problema, solução, custo, meta e prazo.
  • Responder questionamentos: por que custa isso? qual entrega? qual risco?
  • Registrar alterações: inclusão/exclusão de ações, mudanças de valores e metas.
  • Consolidar o texto final aprovado e seus anexos.

Produtos gerados:

  • Lei orçamentária aprovada (autorização para arrecadar e gastar).
  • Quadros finais de dotações por órgão/programa/ação.
  • Registro formal das alterações aprovadas.

4) Execução (transformar dotação em entrega)

O que acontece: a administração realiza contratações, compras, convênios e pagamentos para entregar bens e serviços. A execução financeira segue etapas clássicas: empenho (reserva do orçamento), liquidação (verificação do direito do credor após entrega/medição) e pagamento (saída de caixa).

Passo a passo prático (exemplo: compra de medicamentos):

  • Verificar se existe dotação suficiente na ação correta.
  • Iniciar o processo de contratação (termo de referência, pesquisa de preços, licitação/dispensa).
  • Emitir empenho após a contratação/ordem de fornecimento, reservando o valor.
  • Receber os medicamentos e atestar a entrega; realizar a liquidação.
  • Efetuar o pagamento conforme cronograma financeiro.

Produtos gerados:

  • Registros de empenhos, liquidações e pagamentos.
  • Contratos, atas, ordens de fornecimento e medições.
  • Entregas realizadas (produtos/serviços) e evidências de execução.

5) Acompanhamento (monitorar para corrigir rota)

O que acontece: compara-se o planejado com o executado, identificando atrasos, subexecução, excesso de gasto em itens específicos, riscos de não entrega e necessidade de ajustes (reprogramação, reforço de dotação, remanejamento, contingenciamento).

Passo a passo prático:

  • Monitorar mensalmente: dotação inicial, alterações, empenhado, liquidado, pago.
  • Checar metas físicas: entregas realizadas versus previstas.
  • Identificar gargalos (licitação deserta, atraso de obra, falta de projeto, judicialização).
  • Propor correções: replanejar cronograma, ajustar especificações, solicitar crédito adicional quando cabível.

Produtos gerados:

  • Relatórios de execução orçamentária e financeira.
  • Painéis/planilhas de acompanhamento de metas físicas.
  • Propostas de ajustes (remanejamentos, créditos, reprogramações).

6) Avaliação (aprender e melhorar o próximo ciclo)

O que acontece: avalia-se eficiência (custos), eficácia (metas cumpridas) e efetividade (mudança gerada). A avaliação alimenta o planejamento seguinte: o que manter, ampliar, corrigir ou encerrar.

Passo a passo prático:

  • Comparar metas planejadas versus entregas realizadas (físico e financeiro).
  • Explicar desvios: por que não executou? por que custou mais/menos?
  • Registrar lições aprendidas e recomendações (processos, prazos, especificações).
  • Revisar carteira de ações para o próximo ciclo (prioridades e custos realistas).

Produtos gerados:

  • Relatórios de desempenho (metas, indicadores, custos).
  • Registro de lições aprendidas e plano de melhoria.
  • Base para a próxima rodada de planejamento e elaboração.

Mapa mental do ciclo orçamentário

CICLO ORÇAMENTÁRIO (visão prática)  Planejamento    - Diagnóstico de necessidades    - Priorização e metas    - Estimativas iniciais de custo    -> Produto: carteira de iniciativas + metas  Elaboração    - Estruturação em programas e ações    - Definição de dotações e fontes    - Compatibilização com limites e receitas    -> Produto: proposta orçamentária  Discussão/Aprovação    - Debate e ajustes (emendas/alterações)    - Consolidação do texto final    -> Produto: lei orçamentária aprovada  Execução    - Contratar, comprar, realizar obras/serviços    - Empenho -> Liquidação -> Pagamento    -> Produto: entregas + registros de execução  Acompanhamento    - Monitorar execução financeira e metas físicas    - Identificar desvios e corrigir rota    -> Produto: relatórios + propostas de ajuste  Avaliação    - Medir eficiência/eficácia/efetividade    - Lições aprendidas para o próximo ciclo    -> Produto: relatório de desempenho + recomendações

Glossário operacional (termos essenciais)

TermoO que significa na práticaComo identificar no dia a dia
ProgramaConjunto organizado de ações para atingir um objetivo de política pública.Aparece como “guarda-chuva” que agrupa ações com a mesma finalidade.
AçãoO que o governo faz concretamente: atividade (rotina), projeto (com começo e fim) ou operação especial.É a linha que costuma ter meta física e dotação associada.
DotaçãoValor autorizado para gastar em uma ação (e seus detalhamentos) no exercício.É o “teto” legal de gasto daquela ação; sem dotação não há despesa.
EmpenhoReserva formal da dotação para uma despesa específica; cria obrigação para o orçamento.Quando o processo de compra/contrato gera um número de empenho e um valor comprometido.
Restos a pagarDespesas empenhadas e não pagas até o fim do exercício; podem estar liquidadas ou não.Quando a entrega/medição ocorreu ou foi empenhada, mas o pagamento ficou para o ano seguinte.
SuperávitQuando as receitas superam as despesas em um período (resultado positivo).Em relatórios fiscais/contábeis, aparece como resultado acima de zero.
DéficitQuando as despesas superam as receitas em um período (resultado negativo).Indica necessidade de ajuste: reduzir despesas, aumentar receitas ou financiar o resultado conforme regras.

Mini-exemplo integrando os termos (para fixar)

Imagine o Programa “Saúde na Comunidade”. Dentro dele, existe a Ação “Manutenção de Unidades Básicas”. A lei aprova uma Dotação de R$ 2.000.000. Ao contratar limpeza e vigilância, a prefeitura emite Empenhos ao longo do ano. Se parte desses empenhos não for paga até 31/12, viram Restos a Pagar. No fechamento do ano, se a arrecadação total do município superar as despesas totais, há Superávit; se ocorrer o contrário, há Déficit.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

No ciclo orçamentário, qual é a função principal da fase de acompanhamento?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O acompanhamento monitora a execução financeira e as metas físicas, aponta atrasos ou subexecução e orienta correções como reprogramação, remanejamento ou reforço de dotação.

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Orçamento Público e prioridades de governo: como metas viram recursos

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