Orçamento público como instrumento de planejamento e gestão
O orçamento público é o principal instrumento que transforma prioridades de governo em metas, ações e gastos autorizados. Na prática, ele responde a três perguntas: o que o governo pretende entregar (resultados), como pretende fazer (programas e ações) e quanto pode gastar (limites e dotações).
Objetivos práticos do orçamento
- Planejar: organizar prioridades e metas em um período (anos e exercícios).
- Autorizar: permitir legalmente que a administração realize despesas e arrecade receitas.
- Controlar: criar trilhas de verificação (empenho, liquidação, pagamento) e prestação de contas.
- Avaliar: comparar o que foi planejado com o que foi executado e entregue.
Limites e “pegadinhas” comuns para iniciantes
- Orçamento não é dinheiro em caixa: é autorização e planejamento; a execução depende de arrecadação, cronograma e regras.
- Nem tudo que está previsto será executado: pode haver contingenciamento, frustração de receita, mudanças de prioridade ou impedimentos técnicos.
- Despesa só pode ocorrer se houver dotação: sem dotação, não há autorização para gastar.
- Entrega não é sinônimo de gasto: gastar não garante resultado; por isso existem metas e indicadores.
Linguagem básica dos documentos (como “ler” o orçamento)
Ao abrir um documento orçamentário, você verá uma estrutura que liga objetivos a valores. Em geral, a lógica é: Programa (finalidade) → Ações (o que será feito) → Produtos/Metas (o que será entregue) → Dotação (quanto pode gastar) → Execução (empenho, liquidação e pagamento).
Exemplo simples de leitura: um programa de “Atenção Básica” pode conter a ação “Manutenção de Unidades de Saúde”, com meta “X atendimentos/ano” e dotação “R$ Y”. A execução mostrará quanto foi empenhado, liquidado e pago.
Visão prática do ciclo orçamentário (etapas e produtos)
O ciclo orçamentário é o caminho completo desde a definição de prioridades até a avaliação do que foi entregue. Para fins práticos, você pode enxergar seis fases: planejamento, elaboração, discussão/aprovação, execução, acompanhamento e avaliação. Cada fase gera produtos (documentos, decisões e registros) que alimentam a fase seguinte.
1) Planejamento (definição de prioridades e metas)
O que acontece: órgãos e áreas finalísticas definem problemas a enfrentar, público-alvo, objetivos, metas e resultados esperados. Também se identificam restrições: capacidade operacional, contratos vigentes, despesas obrigatórias e limites fiscais.
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Passo a passo prático:
- Levantar demandas (serviços, obras, manutenção, políticas públicas).
- Separar o que é obrigatório (ex.: contratos, folha, custeio essencial) do que é discricionário (novos projetos).
- Definir prioridades com critérios claros (impacto, urgência, risco, custo).
- Traduzir prioridades em metas mensuráveis (quantidade, prazo, unidade de medida).
Produtos gerados:
- Carteira preliminar de iniciativas (projetos/atividades).
- Metas e indicadores propostos.
- Estimativas iniciais de custos.
2) Elaboração (montagem da proposta orçamentária)
O que acontece: a proposta é estruturada em programas e ações, com valores por categoria de despesa e fontes de recursos. Aqui se compatibiliza o “desejo” com o “cabimento”: limites, estimativa de receitas e regras fiscais.
Passo a passo prático:
- Converter iniciativas em ações (atividade, projeto ou operação especial) com metas e produtos.
- Estimar custos por itens (pessoal, serviços, material, obras, equipamentos).
- Definir a dotação necessária por ação e por natureza de despesa.
- Indicar fontes/recursos e ajustar ao limite disponível (cortes, escalonamento, fases).
Produtos gerados:
- Proposta orçamentária consolidada (com programas, ações, metas e dotações).
- Quadros de receitas e despesas estimadas.
- Justificativas técnicas para valores e metas.
3) Discussão e aprovação (deliberação e autorização legal)
O que acontece: a proposta é analisada, debatida e pode receber ajustes (emendas, remanejamentos autorizados, priorizações). O foco é decidir o que será autorizado e sob quais condições.
Passo a passo prático:
- Apresentar a proposta com linguagem objetiva: problema, solução, custo, meta e prazo.
- Responder questionamentos: por que custa isso? qual entrega? qual risco?
- Registrar alterações: inclusão/exclusão de ações, mudanças de valores e metas.
- Consolidar o texto final aprovado e seus anexos.
Produtos gerados:
- Lei orçamentária aprovada (autorização para arrecadar e gastar).
- Quadros finais de dotações por órgão/programa/ação.
- Registro formal das alterações aprovadas.
4) Execução (transformar dotação em entrega)
O que acontece: a administração realiza contratações, compras, convênios e pagamentos para entregar bens e serviços. A execução financeira segue etapas clássicas: empenho (reserva do orçamento), liquidação (verificação do direito do credor após entrega/medição) e pagamento (saída de caixa).
Passo a passo prático (exemplo: compra de medicamentos):
- Verificar se existe dotação suficiente na ação correta.
- Iniciar o processo de contratação (termo de referência, pesquisa de preços, licitação/dispensa).
- Emitir empenho após a contratação/ordem de fornecimento, reservando o valor.
- Receber os medicamentos e atestar a entrega; realizar a liquidação.
- Efetuar o pagamento conforme cronograma financeiro.
Produtos gerados:
- Registros de empenhos, liquidações e pagamentos.
- Contratos, atas, ordens de fornecimento e medições.
- Entregas realizadas (produtos/serviços) e evidências de execução.
5) Acompanhamento (monitorar para corrigir rota)
O que acontece: compara-se o planejado com o executado, identificando atrasos, subexecução, excesso de gasto em itens específicos, riscos de não entrega e necessidade de ajustes (reprogramação, reforço de dotação, remanejamento, contingenciamento).
Passo a passo prático:
- Monitorar mensalmente: dotação inicial, alterações, empenhado, liquidado, pago.
- Checar metas físicas: entregas realizadas versus previstas.
- Identificar gargalos (licitação deserta, atraso de obra, falta de projeto, judicialização).
- Propor correções: replanejar cronograma, ajustar especificações, solicitar crédito adicional quando cabível.
Produtos gerados:
- Relatórios de execução orçamentária e financeira.
- Painéis/planilhas de acompanhamento de metas físicas.
- Propostas de ajustes (remanejamentos, créditos, reprogramações).
6) Avaliação (aprender e melhorar o próximo ciclo)
O que acontece: avalia-se eficiência (custos), eficácia (metas cumpridas) e efetividade (mudança gerada). A avaliação alimenta o planejamento seguinte: o que manter, ampliar, corrigir ou encerrar.
Passo a passo prático:
- Comparar metas planejadas versus entregas realizadas (físico e financeiro).
- Explicar desvios: por que não executou? por que custou mais/menos?
- Registrar lições aprendidas e recomendações (processos, prazos, especificações).
- Revisar carteira de ações para o próximo ciclo (prioridades e custos realistas).
Produtos gerados:
- Relatórios de desempenho (metas, indicadores, custos).
- Registro de lições aprendidas e plano de melhoria.
- Base para a próxima rodada de planejamento e elaboração.
Mapa mental do ciclo orçamentário
CICLO ORÇAMENTÁRIO (visão prática) Planejamento - Diagnóstico de necessidades - Priorização e metas - Estimativas iniciais de custo -> Produto: carteira de iniciativas + metas Elaboração - Estruturação em programas e ações - Definição de dotações e fontes - Compatibilização com limites e receitas -> Produto: proposta orçamentária Discussão/Aprovação - Debate e ajustes (emendas/alterações) - Consolidação do texto final -> Produto: lei orçamentária aprovada Execução - Contratar, comprar, realizar obras/serviços - Empenho -> Liquidação -> Pagamento -> Produto: entregas + registros de execução Acompanhamento - Monitorar execução financeira e metas físicas - Identificar desvios e corrigir rota -> Produto: relatórios + propostas de ajuste Avaliação - Medir eficiência/eficácia/efetividade - Lições aprendidas para o próximo ciclo -> Produto: relatório de desempenho + recomendaçõesGlossário operacional (termos essenciais)
| Termo | O que significa na prática | Como identificar no dia a dia |
|---|---|---|
| Programa | Conjunto organizado de ações para atingir um objetivo de política pública. | Aparece como “guarda-chuva” que agrupa ações com a mesma finalidade. |
| Ação | O que o governo faz concretamente: atividade (rotina), projeto (com começo e fim) ou operação especial. | É a linha que costuma ter meta física e dotação associada. |
| Dotação | Valor autorizado para gastar em uma ação (e seus detalhamentos) no exercício. | É o “teto” legal de gasto daquela ação; sem dotação não há despesa. |
| Empenho | Reserva formal da dotação para uma despesa específica; cria obrigação para o orçamento. | Quando o processo de compra/contrato gera um número de empenho e um valor comprometido. |
| Restos a pagar | Despesas empenhadas e não pagas até o fim do exercício; podem estar liquidadas ou não. | Quando a entrega/medição ocorreu ou foi empenhada, mas o pagamento ficou para o ano seguinte. |
| Superávit | Quando as receitas superam as despesas em um período (resultado positivo). | Em relatórios fiscais/contábeis, aparece como resultado acima de zero. |
| Déficit | Quando as despesas superam as receitas em um período (resultado negativo). | Indica necessidade de ajuste: reduzir despesas, aumentar receitas ou financiar o resultado conforme regras. |
Mini-exemplo integrando os termos (para fixar)
Imagine o Programa “Saúde na Comunidade”. Dentro dele, existe a Ação “Manutenção de Unidades Básicas”. A lei aprova uma Dotação de R$ 2.000.000. Ao contratar limpeza e vigilância, a prefeitura emite Empenhos ao longo do ano. Se parte desses empenhos não for paga até 31/12, viram Restos a Pagar. No fechamento do ano, se a arrecadação total do município superar as despesas totais, há Superávit; se ocorrer o contrário, há Déficit.