O que acontece quando a carga chega: objetivo e mentalidade operacional
Quando a carga chega, o foco muda de “importar corretamente” para “transformar mercadoria recebida em estoque vendável com rastreabilidade”. Isso exige três frentes trabalhando juntas: (1) conferência quantitativa (se veio a quantidade certa), (2) conferência qualitativa (se veio no padrão certo) e (3) registro formal de qualquer divergência/avaria para permitir reclamação e reposição/ressarcimento.
O erro mais comum nessa fase é “guardar primeiro e conferir depois”. Na prática, quanto mais você demora para registrar problemas, menor a chance de conseguir solução com transportador/seguradora/fornecedor e mais difícil fica provar o que ocorreu.
Preparação antes de abrir as caixas (5 a 10 minutos que evitam horas de retrabalho)
1) Separe um espaço de recebimento
- Área limpa e iluminada, com mesa/bancada.
- Um local para “Aprovado”, outro para “Quarentena (suspeito)” e outro para “Reprovado/avariado”.
2) Ferramentas simples
- Celular com boa câmera (fotos e vídeos são evidência).
- Caneta marcador, etiquetas adesivas, fita, estilete.
- Balança (se o produto for sensível a peso) e trena (se dimensões importarem).
- Planilha ou formulário de recebimento (pode ser Google Sheets).
3) Documentos e referências
- Lista de itens esperados (SKU/variação, quantidades por caixa, lotes quando aplicável).
- Critérios mínimos de aceitação (ex.: “sem riscos aparentes”, “funciona ao ligar”, “cor X sem variação fora do padrão”).
- Modelo de registro de avaria/divergência (para padronizar).
Conferência quantitativa: passo a passo prático
Passo 1 — Inspeção externa antes de abrir
- Fotografe todas as faces das caixas/volumes ainda fechados.
- Procure sinais: amassado, rasgo, umidade, fita reaberta, furos, odor forte.
- Se houver dano evidente, faça vídeo curto mostrando o volume inteiro e o detalhe do dano.
Passo 2 — Contagem por volume e por caixa
Trabalhe do macro para o micro:
- Conte quantos volumes chegaram (ex.: 6 caixas).
- Abra uma caixa por vez e confira a quantidade interna conforme o packing interno (se houver) ou padrão de empacotamento.
- Marque a caixa como “Conferida” com etiqueta (ex.: Cx 1/6 conferida em 30/01).
Passo 3 — Conferência por SKU/variação
Se o produto tem variações (cor/tamanho/modelo), não conte apenas “total de peças”. Conte por variação, porque é aí que surgem divergências que quebram a venda (ex.: veio mais azul e menos preto).
Exemplo de registro simples em planilha:
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| SKU | Variação | Esperado | Recebido | Diferença | Status |
|---|---|---|---|---|---|
| ABC-001 | Preto | 100 | 92 | -8 | Em apuração |
| ABC-001 | Azul | 50 | 58 | +8 | OK |
Passo 4 — Pesagem/checagem por amostragem (quando fizer sentido)
Para itens pequenos e repetitivos, uma técnica rápida é pesar um conjunto padrão (ex.: 10 unidades) e usar como referência para detectar falta/erro grosseiro. Não substitui contagem quando a precisão é crítica, mas ajuda a encontrar problemas cedo.
Conferência qualitativa: como aprovar sem travar a operação
Qualidade não precisa significar “testar 100%” sempre. O ideal é definir um método proporcional ao risco do item.
1) Defina o nível de inspeção
- Inspeção 100%: itens caros, frágeis, eletrônicos com alta taxa de falha, produtos com histórico de problema.
- Amostragem: itens simples, baixo valor, baixa criticidade. Ex.: testar 10 a 20 unidades por lote/variação, ou 5% do total (o que for maior).
2) O que verificar (checklist de qualidade)
- Aparência: riscos, manchas, variação de cor, rebarbas, peças faltantes.
- Funcionamento: liga/desliga, encaixe, travas, botões, carregamento (quando aplicável).
- Medidas: dimensões críticas (ex.: capa que precisa encaixar).
- Conteúdo: acessórios, cabos, parafusos, manual, itens do kit.
- Embalagem: amassados, lacres, integridade, proteção interna.
3) Classifique o resultado por status operacional
- Aprovado: pode entrar em estoque vendável.
- Quarentena: precisa de análise (ex.: dúvida se é defeito ou uso incorreto).
- Reprovado: defeito/avaria confirmada; separar para reclamação, retrabalho ou descarte conforme política.
Registro de avarias e divergências: como documentar para ter força na reclamação
Uma reclamação bem-sucedida depende de evidência organizada. O objetivo é responder rapidamente: “o que aconteceu, em qual item, em qual caixa, quantas unidades, com quais provas”.
O que registrar (mínimo recomendado)
- Data/hora do recebimento e início da conferência.
- Identificação do lote (se existir) e variação (cor/tamanho/modelo).
- Número da caixa/volume (ex.: Cx 3/6) e fotos do exterior.
- Fotos/vídeos do problema (close + contexto).
- Quantidade afetada e tipo de defeito/avaria.
- Decisão: quarentena, reprovado, retrabalho, devolução.
Modelo de registro (padrão simples)
ID ocorrência: OC-2026-0012
Data: 30/01/2026
Produto/SKU: ABC-001 (Preto)
Caixa: 3/6
Tipo: avaria (trinca) / divergência (falta)
Qtde afetada: 8 unidades
Evidências: fotos 01-06, vídeo 01
Ação imediata: separado em REPROVADO, etiqueta vermelha
Responsável: Nome
Observações: embalagem externa sem dano aparenteQuando abrir reclamação e com quem
- Dano aparente na embalagem externa: registre imediatamente e direcione a reclamação ao transportador/seguradora (se houver), mantendo o fornecedor informado.
- Dano interno com embalagem externa íntegra: normalmente a tratativa tende a ser com o fornecedor (falha de embalagem/qualidade), mas ainda assim documente tudo.
- Divergência de quantidade/variação: tratativa com fornecedor, anexando planilha de conferência e evidências por caixa.
Boa prática: não misture unidades boas com unidades suspeitas. A separação física (quarentena/reprovado) é parte da prova.
Armazenagem inicial: organização simples que escala
O objetivo da armazenagem inicial é permitir localizar qualquer unidade rapidamente e manter rastreabilidade por lote/variação, sem precisar de um WMS complexo.
1) Endereçamento simples (mapa de posições)
Crie um código para cada posição de prateleira/estante. Exemplo:
A-01-01= Corredor A, Estante 01, Prateleira 01A-01-02= Corredor A, Estante 01, Prateleira 02
Imprima/cole o código na prateleira. O endereço deve existir antes de guardar.
2) Etiquetagem de caixas e unidades
- Caixa master: etiqueta com SKU, variação, quantidade, lote (se houver), data de recebimento e endereço.
- Unidade (quando necessário): etiqueta interna/externa conforme o tipo de produto e política de venda.
Exemplo de etiqueta de caixa:
SKU: ABC-001 | Var: Preto
Qtde: 50 | Lote: L2409
Receb: 30/01/2026 | End: A-01-023) Separação por lote e por variação
- Não misture lotes diferentes na mesma caixa aberta sem identificação clara.
- Não misture variações (cor/tamanho) na mesma posição sem divisórias e etiquetas.
4) Regra de quarentena
Crie uma área física “Quarentena” com acesso controlado. Nada em quarentena pode ser vendido, anunciado como disponível ou misturado ao estoque aprovado.
Preparação do produto para venda (pronta entrega)
1) Montagem de kits
Se você vende em kit (ex.: produto + acessório), monte kits com padrão repetível:
- Defina a composição do kit (itens e quantidades).
- Crie um SKU do kit (para controlar estoque corretamente).
- Monte em lotes pequenos (ex.: 20 kits por vez) para não travar capital em montagem desnecessária.
- Faça conferência dupla: quem monta e quem valida (amostragem ou 100%, dependendo do risco).
2) Manuais e material de apoio
- Se o item não vem com instruções claras, crie um folheto simples (impresso ou digital via QR) com: como usar, cuidados, garantia e contato.
- Evite promessas técnicas que você não consegue comprovar (ex.: desempenho, certificações, “à prova d’água” sem base).
3) Adequação de embalagem/rotulagem (quando permitido)
Alguns ajustes são operacionais e ajudam a reduzir devoluções:
- Reforço de embalagem para transporte nacional (plástico bolha, berço interno, caixa mais rígida).
- Etiqueta interna de identificação (SKU/variação) para evitar erro de separação.
- Etiqueta de lote/data para rastreabilidade.
Se houver qualquer restrição regulatória aplicável ao seu tipo de produto, trate a rotulagem com cautela e só faça alterações compatíveis com as exigências do item. Quando em dúvida, mantenha a embalagem original e complemente com identificação logística (SKU/lote) sem alterar informações técnicas do produto.
Fluxo de entrada em estoque (do recebimento ao “vendável”)
Use este fluxo como padrão operacional. Ele funciona para operação pequena e continua válido quando você crescer.
- Receber volumes → fotografar exterior, contar volumes, identificar danos aparentes.
- Conferência quantitativa → contar por caixa e por SKU/variação, registrar diferenças.
- Conferência qualitativa → inspeção 100% ou amostragem, classificar em Aprovado/Quarentena/Reprovado.
- Registrar ocorrências → abrir OC (ocorrência) com evidências e separar fisicamente.
- Decidir destino → retrabalho (se aplicável), reclamação, reposição, descarte.
- Etiquetar e endereçar → caixa e/ou unidade com SKU/variação/lote/endereço.
- Entrada no estoque → lançar quantidades aprovadas no controle (planilha/ERP) com endereço e lote.
- Preparar para venda → kits, reforço de embalagem, manual/folheto, padronização.
- Liberação para comercialização → somente itens com status “Aprovado” e rastreáveis.
Checklist final: pronto para comercialização com rastreabilidade
- Quantidades batem: total e por variação conferidos e registrados.
- Qualidade validada: método aplicado (100% ou amostragem) e resultados documentados.
- Ocorrências tratadas: avarias/divergências separadas (quarentena/reprovado) e registradas com evidências.
- Reclamações abertas: quando necessário, com ID de ocorrência, fotos/vídeos e contagem por caixa.
- Endereçamento definido: cada SKU/variação tem posição física registrada.
- Etiquetas aplicadas: SKU, variação, lote (se houver), data de recebimento e endereço.
- Entrada em estoque lançada: apenas itens aprovados; quarentena não entra como vendável.
- Kits e acessórios conferidos: composição do kit validada e padronizada.
- Embalagem para envio pronta: proteção adequada para transporte nacional e redução de devoluções.
- Rastreabilidade garantida: consegue responder “qual lote/caixa/origem” de qualquer unidade vendida.