Antes de abrir o Power BI e criar qualquer visual, um pequeno negócio precisa responder a uma pergunta simples: “o que eu quero melhorar na gestão nas próximas semanas e meses?”. KPIs (Key Performance Indicators, ou Indicadores-Chave de Desempenho) existem para transformar essa intenção em números acompanháveis, com metas, responsáveis e frequência de análise. Sem objetivos claros, o dashboard vira um “painel bonito” que não orienta decisão; com objetivos claros, o dashboard vira um instrumento de rotina: olhar, entender, agir e medir o resultado.
O que são objetivos de gestão e como eles se conectam aos KPIs
Objetivos de gestão são resultados desejados, formulados de forma que orientem prioridades e escolhas. Em pequenos negócios, objetivos bons têm três características: são específicos (não genéricos), têm prazo (curto e médio) e têm impacto direto no caixa, na operação ou no cliente. Exemplos: “reduzir rupturas de estoque em 30 dias”, “aumentar margem bruta em 2 pontos percentuais no trimestre”, “diminuir atrasos de entrega para menos de 5% no mês”.
KPIs são medidas que indicam se você está avançando em direção ao objetivo. Um KPI não é qualquer métrica. Métrica é qualquer número medido; KPI é o número que você vai acompanhar com disciplina porque ele representa o resultado do objetivo. Por exemplo, “quantidade de vendas” é uma métrica; pode virar KPI se o objetivo for “crescer faturamento” e se você definir meta, período e recorte (por canal, por vendedor, por loja).
Diferença entre indicador de resultado e indicador de direção
Para pequenos negócios, é útil separar KPIs em dois grupos:
Indicadores de resultado (lagging): mostram o que já aconteceu. Ex.: faturamento do mês, margem bruta do mês, lucro operacional, saldo de caixa.
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Indicadores de direção (leading): mostram sinais que antecedem o resultado e permitem agir antes. Ex.: taxa de conversão, ticket médio, taxa de ruptura, tempo médio de reposição, percentual de pedidos entregues no prazo.
Um dashboard forte costuma ter poucos indicadores de resultado (para “placar”) e alguns indicadores de direção (para “volante”).
O que “importa” para pequenos negócios: foco em decisões repetidas
Em empresas menores, o tempo é escasso e a gestão é muito operacional. Por isso, KPIs que importam são aqueles que respondem decisões que você toma toda semana (ou todo dia). Três áreas costumam concentrar as decisões mais frequentes:
Vendas: o que está vendendo, para quem, por qual canal, com qual desconto, com qual margem.
Caixa: quanto entra, quanto sai, quando entra, quando sai, e qual é a “pista” até faltar dinheiro.
Estoque: o que está parado, o que falta, o que gira, quanto custa manter, e o que comprar agora.
Além disso, há um quarto bloco transversal: eficiência operacional (prazo, retrabalho, devolução, produtividade). Nem todo pequeno negócio precisa começar por ele, mas ele vira essencial quando o volume cresce.
Como definir objetivos e KPIs: um passo a passo prático
Passo 1: escolha 1 a 3 objetivos por ciclo (30 a 90 dias)
Evite listar 10 objetivos. Um ciclo curto com poucos objetivos aumenta a chance de execução. Exemplos de ciclos:
30 dias: reduzir ruptura, reduzir inadimplência, aumentar conversão, cortar despesas específicas.
90 dias: aumentar margem, melhorar mix, reduzir estoque parado, melhorar prazo médio de recebimento.
Escreva o objetivo em uma frase com verbo e número. Ex.: “Reduzir o estoque parado (sem venda há 60 dias) de R$ 80 mil para R$ 50 mil até o fim do trimestre”.

Passo 2: descreva a decisão que o indicador vai suportar
Um KPI deve existir para orientar uma ação. Pergunte: “quando esse número piorar, o que eu faço?”. Se não houver ação clara, o indicador tende a virar curiosidade.
Exemplo: KPI “% de ruptura por SKU”. Decisão associada: “priorizar reposição e ajustar ponto de pedido dos SKUs com maior ruptura e maior margem”.
Passo 3: defina a fórmula e o dicionário do KPI
Pequenos negócios sofrem muito com indicadores “iguais no nome e diferentes na conta”. Crie um mini dicionário para cada KPI:
Nome (curto e claro)
Definição (o que mede)
Fórmula (como calcula)
Fonte (de onde vem)
Periodicidade (diária, semanal, mensal)
Responsável (quem age)
Meta (valor e prazo)
Esse dicionário pode ficar em uma página do próprio relatório (uma tabela) ou em um documento simples. O importante é existir.
Passo 4: escolha o recorte (dimensões) que realmente muda a decisão
Um KPI sem recorte vira média que esconde problemas. Mas recorte demais vira confusão. Comece com 2 a 4 dimensões que normalmente explicam variação:
Tempo (dia/semana/mês)
Canal (loja física, online, marketplace, atacado)
Produto (categoria, SKU, marca)
Cliente (novo vs recorrente, região, segmento)
Equipe (vendedor, loja, rota)
Exemplo: “Margem bruta” por canal e por categoria costuma revelar onde o desconto está “comendo” resultado.
Passo 5: defina metas realistas e um “limite de alerta”
Meta é o alvo. Limite de alerta é o ponto em que você precisa agir antes de chegar no pior cenário. Exemplo:
KPI: “Prazo médio de recebimento (PMR)”. Meta: 28 dias. Alerta: acima de 35 dias.
KPI: “% de estoque parado”. Meta: 12%. Alerta: acima de 18%.
No Power BI, isso vira regra de cor, cartão com ícone, ou linha de referência no gráfico.
Passo 6: defina a rotina de acompanhamento (ritual)
KPIs só funcionam com rotina. Para pequenos negócios, uma rotina simples costuma ser suficiente:
Diário (10 minutos): caixa do dia, vendas do dia, pedidos pendentes/entregas, rupturas críticas.
Semanal (30 a 60 minutos): margem por canal/categoria, estoque parado, inadimplência, desempenho por vendedor.
Mensal (60 a 90 minutos): DRE gerencial, tendências, revisão de metas e orçamento.
O dashboard deve refletir essa rotina: uma página “Hoje”, uma página “Semana”, uma página “Mês” (ou equivalentes).
KPIs essenciais de Vendas (com definições e exemplos)
Faturamento (Receita Bruta e Receita Líquida)
O que mede: volume de vendas em valor. Por que importa: crescimento sem receita não existe; mas receita bruta pode enganar se descontos e devoluções forem altos.
Exemplo de recortes: por canal, por loja, por vendedor, por categoria.
Receita Bruta = SUM(Vendas[ValorTotal])
Receita Líquida = Receita Bruta - SUM(Vendas[Descontos]) - SUM(Vendas[Devolucoes])Ticket médio
O que mede: valor médio por venda/pedido. Por que importa: muitas vezes é mais fácil aumentar ticket do que aumentar fluxo de clientes.
Ticket Médio = DIVIDE([Receita Líquida], DISTINCTCOUNT(Vendas[IdPedido]))Ações típicas: kits, upsell, política de frete grátis acima de X, treinamento de abordagem.
Quantidade de pedidos e itens por pedido
O que mede: volume operacional e comportamento de compra. Por que importa: ajuda a separar crescimento por “mais pedidos” vs “pedido maior”.
Pedidos = DISTINCTCOUNT(Vendas[IdPedido])
Itens por Pedido = DIVIDE(SUM(Vendas[QtdItens]), [Pedidos])Margem bruta e % de margem
O que mede: quanto sobra após custo do produto/serviço. Por que importa: faturamento alto com margem baixa pode piorar o caixa (mais giro, mais compra, pouco retorno).
Margem Bruta = [Receita Líquida] - SUM(Vendas[Custo])
% Margem Bruta = DIVIDE([Margem Bruta], [Receita Líquida])Recortes que revelam problema: por canal (marketplace costuma ter taxas), por campanha, por faixa de desconto.
Mix de vendas (participação por categoria/SKU)
O que mede: concentração de receita e margem em poucos itens. Por que importa: reduz risco e melhora planejamento de estoque.
Exemplo prático: criar um gráfico de Pareto (Top N SKUs) e acompanhar “% da receita nos Top 10”. Se 70% da receita está em 10 SKUs, ruptura nesses itens vira prioridade máxima.
Taxa de devolução/cancelamento
O que mede: perdas e problemas de qualidade/entrega/expectativa. Por que importa: devolução corrói margem e aumenta custo operacional.
% Devolução = DIVIDE(SUM(Vendas[ValorDevolvido]), [Receita Bruta])KPIs essenciais de Caixa e Financeiro (para não ser surpreendido)
Saldo de caixa e variação diária/semanal
O que mede: dinheiro disponível. Por que importa: é o indicador mais “real” de sobrevivência no curto prazo.
Boa prática: acompanhar saldo e uma projeção simples (entradas previstas – saídas previstas) para 7, 14 e 30 dias.

Fluxo de caixa (entradas e saídas por tipo)
O que mede: de onde vem e para onde vai o dinheiro. Por que importa: permite atacar a causa (ex.: despesas variáveis subindo, impostos concentrados, compras fora do padrão).
Recortes úteis: tipo de despesa (fixa/variável), fornecedor, centro de custo, forma de pagamento.
Prazo médio de recebimento (PMR) e prazo médio de pagamento (PMP)
O que mede: tempo para receber dos clientes e para pagar fornecedores. Por que importa: a diferença entre PMR e PMP define pressão no caixa.
Exemplo prático: se PMR = 35 dias e PMP = 21 dias, você financia 14 dias de operação. Ações: renegociar prazo com fornecedor, incentivar pagamento à vista, reduzir parcelamento sem juros, antecipar recebíveis com critério.
Inadimplência e aging (atraso por faixa)
O que mede: valores vencidos e há quanto tempo. Por que importa: inadimplência é “vazamento” de caixa e tempo de cobrança.
Como organizar: faixas 1–7 dias, 8–15, 16–30, 31–60, 60+. KPI: “% vencido sobre a carteira” e “valor vencido por faixa”.
Despesas fixas, variáveis e % sobre receita
O que mede: estrutura de custos. Por que importa: ajuda a entender ponto de equilíbrio e a evitar que despesas cresçam mais rápido que a receita.
% Despesa sobre Receita = DIVIDE(SUM(Financeiro[Despesas]), [Receita Líquida])Ação típica: se a despesa de frete como % da receita sobe, revisar política de frete, transportadora, embalagem, ou repasse.
KPIs essenciais de Estoque (giro, ruptura e dinheiro parado)
Giro de estoque
O que mede: quantas vezes o estoque “vira” em um período. Por que importa: giro baixo costuma significar capital parado e risco de obsolescência.
Exemplo de abordagem simples: usar custo das vendas no período dividido pelo estoque médio (se você tiver estoque diário/mensal). Se não tiver, comece com uma aproximação mensal.
Dias de estoque (cobertura)
O que mede: por quantos dias o estoque atual sustenta as vendas médias. Por que importa: ajuda a comprar na hora certa e evitar excesso.
Exemplo prático: se um SKU vende 10 unidades/dia e você tem 50 unidades, cobertura = 5 dias. Se o lead time do fornecedor é 7 dias, você já está atrasado para repor.
Ruptura (falta de produto)
O que mede: itens indisponíveis quando há demanda. Por que importa: ruptura derruba receita e pode perder cliente.
Como medir sem sistema perfeito: comece com “dias sem estoque” por SKU (quantos dias o saldo ficou zero) e cruze com vendas históricas para estimar perda potencial.
Estoque parado e curva ABC
O que mede: itens sem venda por X dias e concentração de valor/volume. Por que importa: estoque parado é dinheiro que não volta e ocupa espaço.
Exemplo prático: definir “parado” como 60 dias sem venda. KPI: “R$ em estoque parado” e “% do estoque total parado”. Ações: promoção, kit, devolução ao fornecedor (se possível), ajuste de compra.
Precisão de estoque (diferença inventário vs sistema)
O que mede: confiabilidade do saldo. Por que importa: sem precisão, qualquer KPI de estoque vira ruído.
Começo viável: inventário rotativo (contar semanalmente os Top 20 SKUs) e medir divergência.
KPIs de eficiência operacional que costumam destravar crescimento
Pedidos no prazo e tempo de ciclo
O que mede: capacidade de cumprir promessa ao cliente. Por que importa: atraso aumenta cancelamento e custo de atendimento.
Indicadores úteis: % de pedidos enviados no prazo, tempo médio do pedido (pagamento → separação → envio → entrega).
Taxa de retrabalho e erros
O que mede: falhas de processo (troca, erro de separação, erro fiscal). Por que importa: retrabalho consome tempo e margem.
Como começar: registrar motivo de ocorrência em uma lista simples e criar um ranking de causas.
Como escolher poucos KPIs sem perder o controle (matriz de priorização)
Uma forma prática de selecionar KPIs é usar uma matriz com duas perguntas para cada candidato:
Impacto: se eu melhorar esse indicador, o efeito no caixa/margem/cliente é grande?
Controle: eu consigo influenciar isso no curto prazo com ações internas?
Priorize indicadores de alto impacto e alto controle. Exemplo: “% de margem bruta” costuma ser alto impacto e alto controle (preço, desconto, mix, negociação). Já “cotação do dólar” pode ter alto impacto e baixo controle; você acompanha, mas não vira KPI central do time.
Transformando objetivos em páginas de dashboard (estrutura prática)
Página 1: Painel executivo (placar)
Objetivo: responder em 30 segundos “como estamos?”. Use poucos cartões e tendências:
Receita líquida (MTD e YTD, se fizer sentido)
% margem bruta
Saldo de caixa
Estoque parado (R$ e %)
% ruptura (ou Top SKUs em ruptura)
Inclua variação vs período anterior e vs meta.
Página 2: Vendas (diagnóstico)
Objetivo: entender “por que vendeu assim?”. Visuais típicos:
Receita e margem por canal
Top/Bottom produtos por margem
Distribuição de descontos
Mix por categoria e participação
Inclua filtros por período, canal e categoria.
Página 3: Caixa (previsibilidade)
Objetivo: evitar surpresa. Visuais típicos:
Entradas vs saídas por semana
Contas a receber por faixa de atraso
Contas a pagar por vencimento
Projeção de saldo (linha)
Página 4: Estoque (ação)
Objetivo: comprar melhor e liberar capital. Visuais típicos:
Curva ABC (por receita ou margem)
Ruptura: lista de SKUs críticos (demanda alta, saldo baixo)
Estoque parado: lista com sugestão de ação (promoção/kit)
Cobertura (dias) por SKU/categoria
Checklist prático para validar se um KPI “presta”
É compreensível em 10 segundos? Se precisa explicar toda vez, simplifique o nome ou a fórmula.
Tem dono? Alguém precisa ser responsável por agir quando o número sai do esperado.
Tem meta e alerta? Sem isso, você só observa.
É auditável? Você consegue rastrear de onde veio o número (nota, pedido, lançamento)?
Evita vaidade? Curtidas, seguidores e visitas só entram se estiverem ligados a conversão e receita.
Leva a uma ação concreta? “Aumentar ticket” leva a kit/upsell; “reduzir ruptura” leva a ponto de pedido/lead time.
Exemplo completo: do objetivo ao KPI e à ação (modelo para copiar)
Objetivo 1: melhorar margem sem perder volume
KPI principal: % Margem Bruta (meta: +2 p.p. em 90 dias)
KPIs de direção: % desconto médio; mix de vendas (participação de categorias de alta margem); margem por canal
Ações: revisar tabela de preços dos Top 20 SKUs; limitar desconto máximo por canal; criar kits com margem-alvo; negociar custo com fornecedor A
Rotina: revisão semanal de margem por canal e por categoria; lista de “produtos com margem abaixo do mínimo”
Objetivo 2: reduzir ruptura nos itens que mais vendem
KPI principal: % dias em ruptura nos Top 20 SKUs (meta: < 3% no mês)
KPIs de direção: cobertura (dias) por SKU; lead time real do fornecedor; pedidos em aberto
Ações: ajustar ponto de pedido; criar compra programada; trocar fornecedor para itens críticos; aumentar estoque de segurança apenas nos itens A
Rotina: checagem diária de “SKUs críticos” e reposição
Objetivo 3: aumentar previsibilidade de caixa
KPI principal: projeção de saldo mínimo em 30 dias (meta: nunca abaixo de R$ X)
KPIs de direção: PMR; % vencido; concentração de pagamentos (picos de saída)
Ações: renegociar vencimentos; incentivar Pix/à vista; política de cobrança por faixa; revisar parcelamento
Rotina: revisão semanal do fluxo e dos vencimentos dos próximos 14 dias
Erros comuns ao definir KPIs (e como evitar)
Ter KPIs demais e nenhum hábito
Se você tem 30 indicadores e não olha nenhum com frequência, reduza para 8 a 12 no total, sendo 4 a 6 no painel executivo e o restante nas páginas de diagnóstico.
Medir só receita e ignorar margem e caixa
Receita sem margem não paga despesas; margem sem caixa pode quebrar por prazo. Em pequenos negócios, sempre combine pelo menos um KPI de vendas, um de margem e um de caixa.
Não separar “problema de preço” de “problema de mix”
Quando a margem cai, pode ser desconto maior, custo maior, ou mudança no mix (vendendo mais itens de baixa margem). Por isso, acompanhe margem por categoria e distribuição de descontos.
Não padronizar cadastros
Sem padronização de categorias, canais e formas de pagamento, os KPIs ficam inconsistentes. Mesmo antes de automatizar tudo, defina listas fechadas (ex.: canais permitidos) e corrija cadastros na origem.