Neuroanatomia do tronco encefálico: organização geral, colunas e nervos cranianos por níveis

Capítulo 9

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

O tronco encefálico pode ser entendido como um “corredor” vertical que conecta encéfalo e medula, organizado em três andares (mesencéfalo, ponte e bulbo) e em dois grandes compartimentos no corte transversal: tegmento (mais dorsal/central) e base (mais ventral). A lógica interna fica mais fácil quando você lê cada nível sempre na mesma ordem: (1) cavidade ventricular (aqueduto ou 4º ventrículo), (2) marcos ventrais (pedúnculos/pirâmides), (3) vias longas (lemniscos e tratos), (4) colunas de núcleos de nervos cranianos, (5) formação reticular e núcleos moduladores, (6) conexões cerebelares quando houver.

Mapa mental do tronco: tegmento vs base

Base (porção ventral)

  • Função estrutural: concentra fibras descendentes (principalmente corticoespinais/corticobulbares/corticopontinas) e núcleos/relés motores específicos de cada nível.
  • Como reconhecer: é a região mais “compacta” e ventral, formando saliências externas (pedúnculos cerebrais no mesencéfalo, base pontina na ponte, pirâmides no bulbo).

Tegmento (porção dorsal/central)

  • Função estrutural: abriga a maior parte dos núcleos de nervos cranianos, formação reticular, vias ascendentes (lemniscos) e circuitos autonômicos.
  • Como reconhecer: fica entre a cavidade ventricular (aqueduto/4º ventrículo) e a base; costuma conter áreas nucleares e feixes ascendentes.

Colunas de núcleos de nervos cranianos: regra prática

Em vez de memorizar núcleo por núcleo isoladamente, use a regra das colunas no tegmento. No tronco encefálico, os núcleos se organizam aproximadamente do medial para o lateral seguindo o tipo funcional:

  • Mais medial: núcleos motores somáticos (inervam musculatura estriada derivada de somitos; exemplo clássico: núcleos oculomotores).
  • Intermediário: núcleos motores viscerais/parassimpáticos e motores branquiais (músculos derivados de arcos faríngeos; exemplo: núcleo motor do trigêmeo, facial, ambíguo).
  • Mais lateral: núcleos sensitivos (somáticos e viscerais; exemplo: núcleos do trigêmeo e núcleo do trato solitário).

Um jeito de aplicar: ao ver um corte, procure primeiro a cavidade (aqueduto/4º ventrículo) e então “varra” o tegmento do centro para lateral, esperando encontrar colunas motoras mais próximas da linha média e colunas sensitivas mais laterais.

Método de leitura por corte transversal (passo a passo)

Passo 1 — Identifique a cavidade: aqueduto vs 4º ventrículo

  • Aqueduto cerebral sugere mesencéfalo.
  • 4º ventrículo sugere ponte ou bulbo aberto (porção rostral do bulbo).
  • Canal central sugere bulbo fechado (porção caudal do bulbo, antes de “abrir” para o 4º ventrículo).

Passo 2 — Reconheça o “ventral”: pedúnculos, base pontina, pirâmides

  • Mesencéfalo: pedúnculos cerebrais (crus cerebri) ventrais.
  • Ponte: base pontina volumosa com fibras transversas (pontocerebelares).
  • Bulbo: pirâmides (corticoespinal) e, mais lateralmente, oliva (núcleo olivar inferior) em níveis rostrais.

Passo 3 — Localize vias longas “assinatura” (lemniscos e tratos)

  • Lemnisco medial: via ascendente importante no tegmento (posição varia por nível, mas costuma ser uma faixa bem definida).
  • Lemnisco lateral: mais relacionado à via auditiva, típico em ponte/mesencéfalo.
  • Trato espinotalâmico (sistema anterolateral): tende a ser mais lateral no tegmento.
  • Fibras corticoespinais: na base (pedúnculo/pirâmide).

Passo 4 — Encontre as áreas nucleares por colunas (sem “decorar”)

Use a regra: motor medial, sensitivo lateral. Em cada nível, procure “ilhas” de substância cinzenta no tegmento e relacione com nervos cranianos esperados naquele andar.

Passo 5 — Procure formação reticular e núcleos moduladores

A formação reticular ocupa grande parte do tegmento, com limites menos nítidos que os lemniscos. Em termos práticos, quando você já identificou cavidade, base e feixes principais, o “resto” do tegmento central costuma ser reticular (com núcleos específicos embutidos por nível).

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Quadros por nível: marcos externos, internos e nervos cranianos

Mesencéfalo rostral (nível do colículo superior)

O que procurarMarcoComo ajuda na identificação
CavidadeAqueduto cerebralConfirma mesencéfalo
BasePedúnculos cerebrais (crus cerebri)Grande massa ventral de fibras descendentes
TegmentoNúcleo rubro (região central)“Assinatura” do mesencéfalo rostral; fica dorsal aos pedúnculos
DorsoTeto/tecto com colículo superiorRelaciona-se a circuitos visuais reflexos
Nervos cranianos esperadosIII (oculomotor)Núcleos motores próximos à linha média no tegmento

Leitura guiada do corte: aqueduto no centro dorsal; ventralmente, pedúnculos; entre ambos, tegmento com núcleo rubro. Procure núcleos motores do III próximos à linha média e fibras que seguem anteriormente para emergir ventralmente.

Mesencéfalo caudal (nível do colículo inferior)

O que procurarMarcoComo ajuda na identificação
CavidadeAqueduto cerebralMesencéfalo
DorsoColículo inferiorAssocia-se a via auditiva
Via “assinatura”Lemnisco lateralMais evidente em níveis ligados à audição
Nervo craniano esperadoIV (troclear)Único que emerge dorsalmente (ponto de correlação anatômica)
BasePedúnculos cerebraisFibras descendentes ventrais

Leitura guiada do corte: identifique o aqueduto; no teto, colículo inferior; procure feixes auditivos (lemnisco lateral) e, no tegmento, a organização de núcleos motores próximos à linha média. Correlacione com o fato de o IV ter emergência dorsal (marco externo útil quando se estuda a face posterior do tronco).

Ponte (nível médio pontino)

O que procurarMarcoComo ajuda na identificação
Cavidade4º ventrículo (dorsal)Indica ponte/bulbo aberto
BaseBase pontina volumosaPresença de núcleos pontinos e fibras transversas
Conexão cerebelarPedúnculo cerebelar médioGrande massa lateral conectando ponte ao cerebelo
Vias ascendentesLemnisco medial e espinotalâmicoFeixes no tegmento; ajudam a orientar medial/lateral
Nervos cranianos esperadosV, VI, VII, VIII (por níveis)V mais rostral/lateral; VI mais medial; VII/VIII na junção pontobulbar

Leitura guiada do corte: comece pelo 4º ventrículo dorsal. Ventralmente, a base pontina é ampla (diferente do pedúnculo do mesencéfalo e das pirâmides do bulbo). Lateralmente, procure o pedúnculo cerebelar médio. No tegmento, identifique feixes (lemnisco medial mais medial; sistema anterolateral mais lateral). Para núcleos: espere motor mais medial (ex.: VI) e sensitivo mais lateral (componentes do V e VIII).

Bulbo rostral (bulbo “aberto”, nível da oliva)

O que procurarMarcoComo ajuda na identificação
Cavidade4º ventrículoBulbo aberto (porção rostral)
Marco externoOliva (lateral às pirâmides)Assinatura do bulbo rostral
BasePirâmidesFibras corticoespinais ventrais
Conexão cerebelarPedúnculo cerebelar inferiorEstrutura lateral/dorsolateral importante no bulbo
Nervos cranianos esperadosIX, X, XI (porção bulbar), XIIXII tende a ser mais medial (motor); IX/X mais relacionados a colunas branquiais/viscerais e sensitivas

Leitura guiada do corte: identifique o 4º ventrículo e, ventralmente, as pirâmides. Se houver oliva proeminente, você está no bulbo rostral. No tegmento, procure a distribuição em colunas: núcleos motores mais mediais (ex.: XII) e núcleos sensitivos/viscerais mais laterais (ex.: componentes associados a IX/X).

Bulbo caudal (bulbo “fechado”, nível do canal central)

O que procurarMarcoComo ajuda na identificação
CavidadeCanal centralBulbo fechado (mais caudal)
BasePirâmidesPersistem ventralmente
Marco dorsalRegiões grácil e cuneiforme (dorsais)Assinatura de bulbo caudal (núcleos das colunas dorsais)
ViasOrganização de feixes ascendentes/descendentesAjuda a diferenciar de ponte (sem base pontina) e de mesencéfalo (sem aqueduto)
Nervos cranianos esperadosPredomínio de componentes bulbares inferioresMenos núcleos “pontinos”; transição para organização medular

Leitura guiada do corte: se você vê canal central (não 4º ventrículo), está no bulbo caudal. Dorsalmente, procure as regiões relacionadas às colunas dorsais (grácil/cuneiforme). Ventralmente, pirâmides. O tegmento mantém a lógica de colunas, mas com aspecto mais “medular” na transição caudal.

Nervos cranianos por níveis: como usar sem decorar listas

Uma estratégia prática é associar cada andar a um “conjunto provável” e depois confirmar pela posição das colunas no corte:

NívelNervos cranianos mais característicosDica de confirmação no corte
MesencéfaloIII e IVAqueduto + pedúnculos; núcleos motores próximos à linha média; colículos no teto
PonteV, VI, VII, VIII4º ventrículo + base pontina + pedúnculo cerebelar médio; núcleos sensitivos mais laterais
BulboIX, X, XI, XIIPirâmides; oliva no bulbo rostral; canal central no bulbo caudal; núcleos motores mediais (XII) e viscerais/sensitivos mais laterais (IX/X)

Integração com vias ascendentes/descendentes: leitura orientada por “faixas”

Faixa ventral (base): “saída” do córtex

  • Mesencéfalo: fibras descendentes compactadas nos pedúnculos.
  • Ponte: fibras descendentes atravessam a base pontina entre núcleos pontinos e fibras transversas.
  • Bulbo: fibras descendentes formam as pirâmides.

Faixa tegmentar medial: “lemnisco medial” como referência

O lemnisco medial funciona como uma régua: ao identificá-lo, você ganha orientação de medial/lateral e consegue posicionar melhor núcleos e outras vias no tegmento.

Faixa tegmentar lateral: sistema anterolateral e núcleos sensitivos

Estruturas sensitivas tendem a aparecer mais lateralmente. Ao localizar um feixe ascendente lateral (como o sistema anterolateral), espere núcleos sensitivos próximos (coluna sensitiva lateral).

Exercício prático: “5 perguntas” para qualquer corte do tronco

  1. Qual é a cavidade? Aqueduto (mesencéfalo), 4º ventrículo (ponte/bulbo aberto) ou canal central (bulbo fechado).

  2. Qual é o marco ventral? Pedúnculos (mesencéfalo), base pontina (ponte) ou pirâmides (bulbo).

  3. Existe um marco lateral/dorsal típico? Colículos (mesencéfalo), pedúnculo cerebelar médio (ponte), oliva/pedúnculo cerebelar inferior (bulbo rostral), grácil/cuneiforme (bulbo caudal).

  4. Onde estão as vias longas principais? Identifique ao menos uma via descendente na base e uma via ascendente (lemnisco) no tegmento.

  5. Como as colunas nucleares se encaixam? Motor medial, sensitivo lateral; então estime quais nervos cranianos são plausíveis naquele andar.

Erros comuns e correções rápidas

  • Confundir ponte com bulbo rostral: procure base pontina (ponte) versus pirâmides + oliva (bulbo rostral).
  • Confundir mesencéfalo com ponte: o aqueduto é decisivo para mesencéfalo; a ponte tem 4º ventrículo e base pontina ampla.
  • Procurar “um núcleo específico” antes de orientar o corte: primeiro cavidade e marcos ventrais; depois vias; só então núcleos por colunas.
  • Memorizar nervos cranianos como lista solta: use o “andar” (mesencéfalo/ponte/bulbo) e confirme pela posição medial/lateral das colunas.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao analisar um corte transversal do tronco encefálico, qual achado é mais útil para identificar que você está no bulbo caudal (bulbo “fechado”)?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

No bulbo caudal (“fechado”), a cavidade observada é o canal central. O 4º ventrículo sugere ponte ou bulbo aberto, e o aqueduto cerebral indica mesencéfalo.

Próximo capitúlo

Neuroanatomia do mesencéfalo: colículos, pedúnculos cerebrais e substância negra

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