Visão geral do mesencéfalo: três “camadas” para orientar o estudo
O mesencéfalo é a porção do tronco encefálico situada entre o diencéfalo (rostral/superior) e a ponte (caudal/inferior). Em cortes axiais, uma forma prática de reconhecer e descrever o mesencéfalo é separá-lo em três compartimentos anteroposteriores: tecto (dorsal, atrás do aqueduto), tegmento (central, ao redor do aqueduto e medialmente aos pedúnculos) e base (ventral, formada principalmente pelo crus cerebri). O aqueduto cerebral (de Sylvius) é o eixo de referência: ele divide o mesencéfalo em uma parte dorsal (tecto) e uma parte ventral (tegmento + base).
Mesencéfalo dorsal (tecto): colículos superiores e inferiores
Colículos superiores (nível rostral)
Os colículos superiores compõem a porção dorsal do mesencéfalo rostral e são marcos importantes em RM por formarem duas elevações simétricas no teto do aqueduto. Funcionalmente, participam de circuitos de orientação visuoespacial e integração visuomotora, conectando-se a sistemas que coordenam movimentos oculares e de cabeça. Em termos anatômicos, pense no colículo superior como um “hub” dorsal que conversa com estruturas do diencéfalo e com núcleos do tronco para ajustar reflexos e respostas rápidas a estímulos visuais.
Colículos inferiores (nível caudal)
Os colículos inferiores ocupam o teto do mesencéfalo caudal e se relacionam com vias auditivas. Em RM, a transição do nível dos colículos superiores para inferiores ajuda a “descer” no mesencéfalo: o teto permanece proeminente, mas o contexto ventral muda (por exemplo, a emergência do nervo troclear se associa ao nível do colículo inferior).
Relação com o aqueduto cerebral
O aqueduto cerebral passa imediatamente ventral ao tecto. Em cortes axiais, ele aparece como um pequeno canal central de líquor. Uma regra de reconhecimento rápido: tecto = estruturas dorsais ao aqueduto; tegmento = estruturas ventrais ao aqueduto, antes da substância negra; base = fibras ventrais ao plano da substância negra.
Tegmento do mesencéfalo: núcleo rubro, vias ascendentes e descendentes
Núcleo rubro: marco do mesencéfalo rostral
O núcleo rubro é um núcleo do tegmento, tipicamente reconhecido no mesencéfalo rostral (nível dos colículos superiores). Em RM, especialmente em sequências sensíveis a ferro (como T2*/SWI), ele pode se destacar por sinal relativamente baixo. Anatomicamente, ele fica dorsomedial à substância negra e ventral ao aqueduto, servindo como um excelente “pino de localização” do tegmento rostral.
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Trajetos gerais de vias no tegmento (mapa mental)
Sem entrar em detalhes já abordados em organização geral do tronco, use este mapa mental para o mesencéfalo:
- Vias ascendentes: tendem a ocupar porções mais dorsais/centrais do tegmento, próximas ao aqueduto e à linha média, conectando tronco–tálamo–córtex.
- Vias descendentes (além das do crus): algumas fibras moduladoras e trajetos para núcleos do tronco percorrem o tegmento, mas o grande “feixe de passagem” motor voluntário está mais ventral (crus cerebri).
- Fascículos longitudinais: trajetos que coordenam olhar e postura costumam ser vistos como sistemas que correm no sentido craniocaudal, frequentemente próximos à linha média do tegmento, o que ajuda a entender por que pequenas lesões paramedianas podem gerar sinais oculomotores.
Base do mesencéfalo: pedúnculos cerebrais (crus cerebri)
O que são os pedúnculos cerebrais na prática de imagem
Em cortes axiais, a porção ventral do mesencéfalo forma duas massas simétricas separadas por uma depressão medial: são os pedúnculos cerebrais, cuja parte mais anterior/ventral é o crus cerebri. Eles são compostos predominantemente por fibras descendentes que conectam córtex a estruturas do tronco e medula. Para reconhecimento rápido em RM: procure o “par” de estruturas ventrais grandes e arredondadas; imediatamente dorsal a elas costuma estar a faixa da substância negra.
Organização geral das fibras no crus cerebri (orientação clínica)
Uma forma útil de lembrar é que o crus cerebri é uma “autoestrada” de fibras corticais. Em termos gerais, ele carrega fibras motoras e fibras córtico-pontinas. Em lesões ventrais do mesencéfalo, déficits motores podem ocorrer por comprometimento dessas fibras. Em leitura de RM, localizar a lesão em relação à substância negra ajuda a decidir se o acometimento é mais tegmentar (núcleos e fascículos) ou mais de base (fibras longas).
Substância negra: fronteira funcional e anatômica entre tegmento e base
Localização e aparência
A substância negra é uma lâmina/placa de substância cinzenta pigmentada (rica em neuromelanina) situada entre o tegmento (dorsal) e o crus cerebri (ventral). Em RM, pode ser melhor apreciada em sequências específicas (neuromelanina) ou indiretamente como uma faixa entre tegmento e pedúnculo. Como marco anatômico, ela funciona como uma “linha de separação”: acima = tegmento; abaixo = base.
Relação com circuitos motores
Sem repetir circuitos dos núcleos da base já discutidos em capítulos anteriores, aqui o ponto prático é: a substância negra é um componente mesencefálico crítico para modulação do movimento. Em termos de imagem e anatomia, sua posição estratégica explica por que alterações mesencefálicas podem se associar a sinais motores e também a alterações oculomotoras quando há extensão para o tegmento.
Nervos cranianos no mesencéfalo: emergência do oculomotor (III) e do troclear (IV)
Nervo oculomotor (III): emergência ventral
O nervo oculomotor emerge na face ventral do mesencéfalo, na fossa interpeduncular, entre os pedúnculos cerebrais. Em corte axial, uma dica é procurar a região medial entre os crus cerebri; clinicamente e em imagem, lesões paramedianas do tegmento rostral podem envolver estruturas relacionadas ao III, enquanto lesões mais ventrais podem afetar fibras de passagem e a zona de emergência.
Nervo troclear (IV): emergência dorsal
O nervo troclear é singular por emergir dorsalmente, associado ao nível do colículo inferior, e então contornar o tronco para a face ventral. Em RM, o nervo em si é fino, mas o valor anatômico é o marco: colículo inferior + saída dorsal ajudam a fixar o nível caudal do mesencéfalo e a diferenciar de cortes mais rostrais.
Cortes axiais padrão do mesencéfalo: roteiro de reconhecimento rápido em RM
Corte axial no nível dos colículos superiores (mesencéfalo rostral)
Objetivo: identificar tecto (colículos superiores), aqueduto, núcleo rubro, substância negra e pedúnculos.
- Passo 1: ache o aqueduto no centro (pequeno ponto/canal de líquor).
- Passo 2: olhe dorsal ao aqueduto e identifique o tecto com os colículos superiores (duas elevações simétricas).
- Passo 3: olhe ventral ao aqueduto e procure no tegmento o núcleo rubro como marco rostral (frequentemente mais evidente em sequências sensíveis a ferro).
- Passo 4: desça ventralmente até encontrar a substância negra como faixa separando tegmento e base.
- Passo 5: identifique os pedúnculos cerebrais (crus cerebri) como as duas massas ventrais maiores.
Corte axial no nível dos colículos inferiores (mesencéfalo caudal)
Objetivo: reconhecer o tecto auditivo, a relação com a emergência do IV e a transição para a ponte.
- Passo 1: aqueduto ainda presente e central (antes de abrir para o IV ventrículo mais caudalmente).
- Passo 2: tecto com colículos inferiores dorsalmente (marco do nível caudal).
- Passo 3: tegmento ventral ao aqueduto, com organização mais “compacta” à medida que se aproxima da ponte.
- Passo 4: substância negra ainda separando tegmento e crus.
- Passo 5: observe a morfologia global: ao descer, o mesencéfalo tende a dar lugar à ponte (aumento do volume ventral pontino e mudança do contorno anterior).
Fronteiras anatômicas importantes: mesencéfalo com tálamo e com ponte
Fronteira rostral: mesencéfalo–tálamo (diencéfalo)
Na transição superior, estruturas do diencéfalo (especialmente o tálamo) ficam imediatamente rostrais ao mesencéfalo. Em RM, uma estratégia é usar o aqueduto e a mudança de configuração do espaço ventricular: acima, o sistema ventricular se relaciona ao terceiro ventrículo; no mesencéfalo, o líquor se afunila no aqueduto. Além disso, o aparecimento/desaparecimento de marcos do tegmento rostral (como o núcleo rubro) ajuda a “ancorar” o nível mesencefálico.
Fronteira caudal: mesencéfalo–ponte
Inferiormente, a transição para a ponte é percebida pela mudança do contorno ventral (ponte mais volumosa anteriormente) e pela reorganização interna do tronco. Em termos práticos de leitura, quando o aqueduto começa a dar lugar a uma cavidade ventricular mais ampla mais caudalmente e o aspecto ventral se torna mais “pontino”, você está saindo do mesencéfalo. O nível dos colículos inferiores é um bom “último corte” mesencefálico antes da ponte dominar a anatomia.
Quadro-resumo de marcos por compartimento (para revisão rápida)
| Compartimento | Marco principal | Como reconhecer em axial | Associação útil |
|---|---|---|---|
| Tecto (dorsal) | Colículos superiores/inferiores | Elevações dorsais ao aqueduto | Superior: orientação visuomotora; Inferior: vias auditivas; IV emerge dorsal no nível inferior |
| Tegmento (central) | Núcleo rubro (rostral) | Estrutura no tegmento rostral, dorsal à substância negra | Ajuda a fixar nível dos colículos superiores |
| Fronteira | Substância negra | Faixa entre tegmento e crus cerebri | Separação anatômica e funcional; relevante para sinais motores |
| Base (ventral) | Crus cerebri (pedúnculos) | Duas massas ventrais grandes | Vias descendentes; III emerge entre os pedúnculos |