Neuroanatomia do mesencéfalo: colículos, pedúnculos cerebrais e substância negra

Capítulo 10

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

Visão geral do mesencéfalo: três “camadas” para orientar o estudo

O mesencéfalo é a porção do tronco encefálico situada entre o diencéfalo (rostral/superior) e a ponte (caudal/inferior). Em cortes axiais, uma forma prática de reconhecer e descrever o mesencéfalo é separá-lo em três compartimentos anteroposteriores: tecto (dorsal, atrás do aqueduto), tegmento (central, ao redor do aqueduto e medialmente aos pedúnculos) e base (ventral, formada principalmente pelo crus cerebri). O aqueduto cerebral (de Sylvius) é o eixo de referência: ele divide o mesencéfalo em uma parte dorsal (tecto) e uma parte ventral (tegmento + base).

Mesencéfalo dorsal (tecto): colículos superiores e inferiores

Colículos superiores (nível rostral)

Os colículos superiores compõem a porção dorsal do mesencéfalo rostral e são marcos importantes em RM por formarem duas elevações simétricas no teto do aqueduto. Funcionalmente, participam de circuitos de orientação visuoespacial e integração visuomotora, conectando-se a sistemas que coordenam movimentos oculares e de cabeça. Em termos anatômicos, pense no colículo superior como um “hub” dorsal que conversa com estruturas do diencéfalo e com núcleos do tronco para ajustar reflexos e respostas rápidas a estímulos visuais.

Colículos inferiores (nível caudal)

Os colículos inferiores ocupam o teto do mesencéfalo caudal e se relacionam com vias auditivas. Em RM, a transição do nível dos colículos superiores para inferiores ajuda a “descer” no mesencéfalo: o teto permanece proeminente, mas o contexto ventral muda (por exemplo, a emergência do nervo troclear se associa ao nível do colículo inferior).

Relação com o aqueduto cerebral

O aqueduto cerebral passa imediatamente ventral ao tecto. Em cortes axiais, ele aparece como um pequeno canal central de líquor. Uma regra de reconhecimento rápido: tecto = estruturas dorsais ao aqueduto; tegmento = estruturas ventrais ao aqueduto, antes da substância negra; base = fibras ventrais ao plano da substância negra.

Tegmento do mesencéfalo: núcleo rubro, vias ascendentes e descendentes

Núcleo rubro: marco do mesencéfalo rostral

O núcleo rubro é um núcleo do tegmento, tipicamente reconhecido no mesencéfalo rostral (nível dos colículos superiores). Em RM, especialmente em sequências sensíveis a ferro (como T2*/SWI), ele pode se destacar por sinal relativamente baixo. Anatomicamente, ele fica dorsomedial à substância negra e ventral ao aqueduto, servindo como um excelente “pino de localização” do tegmento rostral.

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Trajetos gerais de vias no tegmento (mapa mental)

Sem entrar em detalhes já abordados em organização geral do tronco, use este mapa mental para o mesencéfalo:

  • Vias ascendentes: tendem a ocupar porções mais dorsais/centrais do tegmento, próximas ao aqueduto e à linha média, conectando tronco–tálamo–córtex.
  • Vias descendentes (além das do crus): algumas fibras moduladoras e trajetos para núcleos do tronco percorrem o tegmento, mas o grande “feixe de passagem” motor voluntário está mais ventral (crus cerebri).
  • Fascículos longitudinais: trajetos que coordenam olhar e postura costumam ser vistos como sistemas que correm no sentido craniocaudal, frequentemente próximos à linha média do tegmento, o que ajuda a entender por que pequenas lesões paramedianas podem gerar sinais oculomotores.

Base do mesencéfalo: pedúnculos cerebrais (crus cerebri)

O que são os pedúnculos cerebrais na prática de imagem

Em cortes axiais, a porção ventral do mesencéfalo forma duas massas simétricas separadas por uma depressão medial: são os pedúnculos cerebrais, cuja parte mais anterior/ventral é o crus cerebri. Eles são compostos predominantemente por fibras descendentes que conectam córtex a estruturas do tronco e medula. Para reconhecimento rápido em RM: procure o “par” de estruturas ventrais grandes e arredondadas; imediatamente dorsal a elas costuma estar a faixa da substância negra.

Organização geral das fibras no crus cerebri (orientação clínica)

Uma forma útil de lembrar é que o crus cerebri é uma “autoestrada” de fibras corticais. Em termos gerais, ele carrega fibras motoras e fibras córtico-pontinas. Em lesões ventrais do mesencéfalo, déficits motores podem ocorrer por comprometimento dessas fibras. Em leitura de RM, localizar a lesão em relação à substância negra ajuda a decidir se o acometimento é mais tegmentar (núcleos e fascículos) ou mais de base (fibras longas).

Substância negra: fronteira funcional e anatômica entre tegmento e base

Localização e aparência

A substância negra é uma lâmina/placa de substância cinzenta pigmentada (rica em neuromelanina) situada entre o tegmento (dorsal) e o crus cerebri (ventral). Em RM, pode ser melhor apreciada em sequências específicas (neuromelanina) ou indiretamente como uma faixa entre tegmento e pedúnculo. Como marco anatômico, ela funciona como uma “linha de separação”: acima = tegmento; abaixo = base.

Relação com circuitos motores

Sem repetir circuitos dos núcleos da base já discutidos em capítulos anteriores, aqui o ponto prático é: a substância negra é um componente mesencefálico crítico para modulação do movimento. Em termos de imagem e anatomia, sua posição estratégica explica por que alterações mesencefálicas podem se associar a sinais motores e também a alterações oculomotoras quando há extensão para o tegmento.

Nervos cranianos no mesencéfalo: emergência do oculomotor (III) e do troclear (IV)

Nervo oculomotor (III): emergência ventral

O nervo oculomotor emerge na face ventral do mesencéfalo, na fossa interpeduncular, entre os pedúnculos cerebrais. Em corte axial, uma dica é procurar a região medial entre os crus cerebri; clinicamente e em imagem, lesões paramedianas do tegmento rostral podem envolver estruturas relacionadas ao III, enquanto lesões mais ventrais podem afetar fibras de passagem e a zona de emergência.

Nervo troclear (IV): emergência dorsal

O nervo troclear é singular por emergir dorsalmente, associado ao nível do colículo inferior, e então contornar o tronco para a face ventral. Em RM, o nervo em si é fino, mas o valor anatômico é o marco: colículo inferior + saída dorsal ajudam a fixar o nível caudal do mesencéfalo e a diferenciar de cortes mais rostrais.

Cortes axiais padrão do mesencéfalo: roteiro de reconhecimento rápido em RM

Corte axial no nível dos colículos superiores (mesencéfalo rostral)

Objetivo: identificar tecto (colículos superiores), aqueduto, núcleo rubro, substância negra e pedúnculos.

  • Passo 1: ache o aqueduto no centro (pequeno ponto/canal de líquor).
  • Passo 2: olhe dorsal ao aqueduto e identifique o tecto com os colículos superiores (duas elevações simétricas).
  • Passo 3: olhe ventral ao aqueduto e procure no tegmento o núcleo rubro como marco rostral (frequentemente mais evidente em sequências sensíveis a ferro).
  • Passo 4: desça ventralmente até encontrar a substância negra como faixa separando tegmento e base.
  • Passo 5: identifique os pedúnculos cerebrais (crus cerebri) como as duas massas ventrais maiores.

Corte axial no nível dos colículos inferiores (mesencéfalo caudal)

Objetivo: reconhecer o tecto auditivo, a relação com a emergência do IV e a transição para a ponte.

  • Passo 1: aqueduto ainda presente e central (antes de abrir para o IV ventrículo mais caudalmente).
  • Passo 2: tecto com colículos inferiores dorsalmente (marco do nível caudal).
  • Passo 3: tegmento ventral ao aqueduto, com organização mais “compacta” à medida que se aproxima da ponte.
  • Passo 4: substância negra ainda separando tegmento e crus.
  • Passo 5: observe a morfologia global: ao descer, o mesencéfalo tende a dar lugar à ponte (aumento do volume ventral pontino e mudança do contorno anterior).

Fronteiras anatômicas importantes: mesencéfalo com tálamo e com ponte

Fronteira rostral: mesencéfalo–tálamo (diencéfalo)

Na transição superior, estruturas do diencéfalo (especialmente o tálamo) ficam imediatamente rostrais ao mesencéfalo. Em RM, uma estratégia é usar o aqueduto e a mudança de configuração do espaço ventricular: acima, o sistema ventricular se relaciona ao terceiro ventrículo; no mesencéfalo, o líquor se afunila no aqueduto. Além disso, o aparecimento/desaparecimento de marcos do tegmento rostral (como o núcleo rubro) ajuda a “ancorar” o nível mesencefálico.

Fronteira caudal: mesencéfalo–ponte

Inferiormente, a transição para a ponte é percebida pela mudança do contorno ventral (ponte mais volumosa anteriormente) e pela reorganização interna do tronco. Em termos práticos de leitura, quando o aqueduto começa a dar lugar a uma cavidade ventricular mais ampla mais caudalmente e o aspecto ventral se torna mais “pontino”, você está saindo do mesencéfalo. O nível dos colículos inferiores é um bom “último corte” mesencefálico antes da ponte dominar a anatomia.

Quadro-resumo de marcos por compartimento (para revisão rápida)

CompartimentoMarco principalComo reconhecer em axialAssociação útil
Tecto (dorsal)Colículos superiores/inferioresElevações dorsais ao aquedutoSuperior: orientação visuomotora; Inferior: vias auditivas; IV emerge dorsal no nível inferior
Tegmento (central)Núcleo rubro (rostral)Estrutura no tegmento rostral, dorsal à substância negraAjuda a fixar nível dos colículos superiores
FronteiraSubstância negraFaixa entre tegmento e crus cerebriSeparação anatômica e funcional; relevante para sinais motores
Base (ventral)Crus cerebri (pedúnculos)Duas massas ventrais grandesVias descendentes; III emerge entre os pedúnculos

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em um corte axial de RM do mesencéfalo, qual afirmação descreve corretamente a relação entre o aqueduto cerebral, o tecto, o tegmento e a base?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O aqueduto é o eixo de referência: estruturas dorsais a ele formam o tecto; ventralmente fica o tegmento até a substância negra, que marca a transição para a base (crus cerebri) mais ventral.

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Neuroanatomia da ponte e do bulbo: pirâmides, olivas, pedúnculos e núcleos relevantes

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