Orientação rápida: como “entrar” no telencéfalo pela superfície
O telencéfalo (hemisférios cerebrais) é descrito por lobos, separados por sulcos e organizados em giros. Na prática clínica e em imagem, você não “vê” os limites dos lobos como linhas desenhadas: você os infere a partir de marcos constantes. Os quatro marcos mais úteis para delimitação externa são: sulco central, sulco lateral (fissura de Sylvius), sulco parieto-occipital e a incisura pré-occipital. A ínsula é um lobo “oculto”, reconhecido ao abrir o sulco lateral.
Delimitação prática dos lobos (com marcos)
Lobo frontal
- Posterior: limitado pelo sulco central (separa frontal de parietal).
- Inferior: limitado pelo sulco lateral (separa frontal de temporal).
- Anterior: polo frontal (sem sulco “limite”).
Lobo parietal
- Anterior: sulco central.
- Inferior: sulco lateral (na porção posterior, a borda inferior do parietal é inferida pela continuação do sulco lateral e pelos giros supramarginal/angular).
- Posterior: transição para occipital é inferida por uma linha imaginária entre sulco parieto-occipital (na face medial) e incisura pré-occipital (na face lateral/inferior).
Lobo temporal
- Superior: sulco lateral.
- Posterior: limite com occipital também é inferido pela linha parieto-occipital ↔ pré-occipital.
- Inferior: superfície inferior do hemisfério (com giros temporais inferiores e occipitotemporais).
Lobo occipital
- Anterior (limite com parietal/temporal): linha imaginária entre sulco parieto-occipital e incisura pré-occipital.
- Posterior: polo occipital.
Ínsula
- Localização: profunda ao sulco lateral, coberta pelos opérculos frontal, parietal e temporal.
- Como delimitar: ao “abrir” o sulco lateral, aparece um córtex triangular/ovalado com giros curtos anteriores e giros longos posteriores (padrão útil em anatomia e neurocirurgia).
Marcos essenciais: como reconhecer cada um
Sulco central (de Rolando)
O que é: sulco profundo que separa os giros pré-central (frontal) e pós-central (parietal). É o marco mais importante para localizar áreas motoras e somatossensitivas primárias.
Dicas de reconhecimento (vista lateral):
- Procure um sulco quase vertical, no terço médio do hemisfério, que não alcança o sulco lateral (geralmente termina acima dele).
- Na região superior, aproxima-se da fissura inter-hemisférica (borda superomedial).
Sulco lateral (fissura de Sylvius)
O que é: separa temporal (inferior) de frontal/parietal (superiores). Tem um trajeto oblíquo e posterior na face lateral.
Dicas (vista lateral):
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- É o sulco mais evidente na face lateral, abrindo-se como uma “fenda” que aponta para trás e para cima.
- Se você seguir sua porção posterior, chega perto da região do giro supramarginal (que “abraça” a extremidade do sulco lateral).
Sulco parieto-occipital
O que é: sulco bem definido na face medial que separa parietal de occipital.
Dicas (vista medial):
- Procure um sulco vertical posterior que encontra o sulco calcarino formando um “Y”.
- É mais confiável na face medial do que na lateral (onde o limite occipital é menos nítido).
Incisura pré-occipital
O que é: entalhe na borda inferolateral do hemisfério, anterior ao polo occipital.
Uso prático: em conjunto com o sulco parieto-occipital, ajuda a traçar o limite anterior do lobo occipital na face lateral.
Giros de referência clínica/anatômica (o que procurar e onde)
Giro pré-central
Localização: imediatamente anterior ao sulco central (lobo frontal).
Como reconhecer: na vista lateral, é o giro longo que acompanha o sulco central; na vista medial, continua como parte do lóbulo paracentral.
Giro pós-central
Localização: imediatamente posterior ao sulco central (lobo parietal).
Como reconhecer: paralelo ao giro pré-central, porém do lado parietal; também se estende para a face medial.
Giros frontais (superior, médio e inferior)
Localização: na face lateral do lobo frontal, anteriores ao giro pré-central.
- Giro frontal superior: mais próximo da borda superior (convexidade superior).
- Giro frontal médio: entre superior e inferior, geralmente o mais extenso na convexidade.
- Giro frontal inferior: acima do sulco lateral; importante como referência anatômica por estar imediatamente superior à fissura de Sylvius.
Dica prática: se você identificou o sulco lateral, o giro imediatamente acima dele na porção anterior é o giro frontal inferior; acima dele, o frontal médio; e mais superior, o frontal superior.
Giro supramarginal e giro angular (lobo parietal inferior)
Ideia-chave: ambos são giros que “contornam” extremidades de sulcos, o que facilita muito a identificação.
- Giro supramarginal: contorna a extremidade posterior do sulco lateral (parece “abraçar” o final da fissura de Sylvius).
- Giro angular: mais posterior, contorna a extremidade do sulco temporal superior (na prática, fica logo atrás do supramarginal, na junção parieto-temporo-occipital).
Dica prática (vista lateral): encontre o final do sulco lateral → o giro que faz uma alça ao redor é o supramarginal; logo atrás, a alça em torno do sulco temporal superior é o angular.
Giros temporais (superior, médio e inferior)
Localização: na face lateral do lobo temporal, paralelos ao sulco lateral.
- Giro temporal superior: imediatamente abaixo do sulco lateral.
- Giro temporal médio: abaixo do superior, separado por sulco temporal superior.
- Giro temporal inferior: mais inferior na convexidade lateral.
Dica prática: na vista lateral, “conte” de cima para baixo a partir do sulco lateral: primeiro giro temporal superior, depois médio, depois inferior.
Cúneo e giro lingual (face medial do occipital)
Marco central: sulco calcarino (na face medial do occipital) separa duas estruturas importantes.
- Cúneo: fica acima do sulco calcarino, com formato triangular na face medial posterior.
- Giro lingual: fica abaixo do sulco calcarino, alongado na face medial/inferior posterior.
Dica prática (vista medial): identifique o “Y” (parieto-occipital encontrando o calcarino); o calcarino segue para trás: acima dele está o cúneo, abaixo está o giro lingual.
Reconhecimento por vistas: roteiro passo a passo
Vista lateral (convexidade)
- Encontre o sulco lateral: a grande fissura oblíqua separando temporal (abaixo) de frontal/parietal (acima).
- Encontre o sulco central: sulco quase vertical no meio do hemisfério, separando pré-central (anterior) de pós-central (posterior).
- Marque os giros pré- e pós-central imediatamente ao redor do sulco central.
- No frontal anterior, identifique os giros frontais (superior, médio, inferior) acima do sulco lateral.
- No temporal, identifique os giros temporais (superior, médio, inferior) abaixo do sulco lateral.
- No parietal inferior, procure as “alças”: supramarginal contornando o final do sulco lateral e angular logo posterior.
- Delimite o occipital por inferência: localize a incisura pré-occipital na borda inferolateral e imagine a linha até o sulco parieto-occipital (que você verá melhor na face medial).
Vista medial
- Encontre o sulco parieto-occipital: sulco vertical posterior.
- Encontre o sulco calcarino: sulco horizontal/oblíquo posterior que encontra o parieto-occipital (formando um “Y”).
- Identifique cúneo e giro lingual: cúneo acima do calcarino; lingual abaixo.
- Localize a continuação do sulco central na borda superomedial (ajuda a orientar pré- vs pós-central na transição para a face medial).
Vista inferior (base do hemisfério)
Na vista inferior, o objetivo prático é orientar polos e limites e reconhecer a relação temporal–occipital pela borda inferolateral.
- Identifique o polo temporal (anterior e inferior) e o polo occipital (posterior).
- Procure a incisura pré-occipital na borda inferolateral: ela ajuda a “marcar” onde o occipital começa anteriormente.
- Diferencie temporal vs occipital na base: anterior tende a ser temporal; posterior, occipital; o limite exato é inferido pela incisura pré-occipital e pela linha até o sulco parieto-occipital (medial).
Integração com cortes de imagem (axial, coronal, sagital): o que aparece primeiro
Princípio geral
Em cortes, a identificação é mais confiável quando você usa sequência: quais estruturas surgem primeiro ao “varrer” o encéfalo em um plano. Abaixo, um roteiro prático de reconhecimento, pensando em uma progressão típica (sem depender de um protocolo específico).
Plano axial (de inferior para superior)
- Primeiro a aparecer: superfícies inferiores dos lobos temporais (anterolaterais) e regiões posteriores inferiores próximas ao occipital.
- À medida que sobe: o sulco lateral torna-se um marco dominante na convexidade lateral; acima dele, você está em frontal/parietal; abaixo, temporal.
- Mais superior: o sulco central e os giros pré- e pós-central ficam mais evidentes perto do vértex.
- Occipital medial: estruturas como cúneo/lingual são melhor correlacionadas quando o corte axial cruza a região do sulco calcarino (posterior e medial), mas a identificação “pura” é mais direta no sagital/medial.
Plano coronal (de anterior para posterior)
- Primeiro a aparecer: lobo frontal (polo frontal) com giros frontais na convexidade.
- Ao avançar posteriormente: surge a região do sulco lateral; abaixo dele, o temporal fica bem característico.
- Região central: o sulco central é reconhecido quando você vê a transição entre giro pré-central (anterior) e pós-central (posterior) em cortes sucessivos; uma dica é observar a mudança de padrão de giros na convexidade superior.
- Mais posterior: aparecem referências do parietal inferior (supramarginal/angular) na convexidade lateral posterior; e, ao se aproximar do polo occipital, o occipital domina o corte.
Plano sagital (de lateral para medial)
- Primeiro a aparecer (bem lateral): convexidade com giros frontais/temporais/parietais, mas com menos marcos profundos.
- Indo para mais medial: o sulco parieto-occipital torna-se evidente na porção posterior medial.
- Posterior medial: o sulco calcarino aparece claramente, permitindo separar cúneo (acima) e giro lingual (abaixo).
- Leitura prática: se seu objetivo é delimitar occipital com segurança e reconhecer cúneo/lingual, o sagital medial costuma ser o plano mais “didático”.
Tabela-resumo: marco → onde ver melhor → o que ele delimita
| Marco | Vista/plano mais fácil | Uso prático |
|---|---|---|
| Sulco central | Lateral; axial alto; coronal médio | Separa frontal/parietal; localiza giros pré- e pós-central |
| Sulco lateral | Lateral; axial médio; coronal | Separa temporal de frontal/parietal; acesso indireto à ínsula |
| Sulco parieto-occipital | Medial; sagital medial | Limite confiável parietal–occipital |
| Incisura pré-occipital | Lateral/inferior | Ajuda a inferir limite anterior do occipital na face lateral |
| Supramarginal | Lateral | “Alça” no final do sulco lateral |
| Angular | Lateral posterior | “Alça” posterior ao supramarginal, na junção parieto-temporo-occipital |
| Cúneo / Giro lingual | Medial; sagital | Referências occipitais separadas pelo sulco calcarino |