Neuroanatomia cortical funcional por marcos anatômicos: áreas primárias e associação

Capítulo 3

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

Ideia central: localizar função pela superfície cortical

Na prática clínica, muitas funções corticais são inferidas pela topografia: identificar um sulco ou giro na imagem (TC/RM) e, a partir dele, estimar quais déficits são esperados. Este capítulo organiza as áreas corticais funcionais mais usadas em anatomia clínica por marcos anatômicos, destacando áreas primárias e de associação.

Como usar marcos anatômicos em imagens (passo a passo)

  1. Encontre o sulco central: ele separa o lobo frontal (anterior) do parietal (posterior). Em cortes axiais, procure um sulco profundo próximo ao meio do hemisfério; em reconstruções sagitais, ele costuma ser um sulco quase vertical na convexidade.

  2. Identifique o giro pré-central (anterior ao sulco central): principal referência do córtex motor primário.

  3. Identifique o giro pós-central (posterior ao sulco central): principal referência do córtex somatossensorial primário.

  4. Localize o sulco calcarino na face medial do occipital: referência do córtex visual primário.

    Continue em nosso aplicativo e ...
    • Ouça o áudio com a tela desligada
    • Ganhe Certificado após a conclusão
    • + de 5000 cursos para você explorar!
    ou continue lendo abaixo...
    Download App

    Baixar o aplicativo

  5. Localize os giros temporais transversos (de Heschl) na face superior do lobo temporal, dentro da fissura lateral: referência do córtex auditivo primário.

  6. Delimite áreas de associação ao redor das áreas primárias: regiões adjacentes (premotora/suplementar, parietal posterior, temporal posterior, occipital extraestriado) e, na porção anterior do frontal, as regiões pré-frontais.

Córtex motor primário (M1): giro pré-central

Marco anatômico

Giro pré-central, imediatamente anterior ao sulco central, na convexidade lateral. Em imagens, é útil lembrar: pré-central = anterior ao sulco central.

Função essencial

Execução de movimentos voluntários, com controle predominante contralateral do corpo.

Somatotopia (homúnculo motor) como ferramenta de localização

O giro pré-central é organizado de modo somatotópico. Uma regra prática:

  • Medial (próximo à fissura inter-hemisférica): perna e pé.

  • Intermediário: tronco e membro superior.

  • Lateral/inferior: face, língua e laringe.

Aplicação direta: um foco lesional mais superior/medial no pré-central tende a afetar mais membro inferior; mais inferolateral tende a afetar face.

Caixa de correlação: lesões típicas por território

Topografia no giro pré-centralDéficit motor esperadoPista clínica
Porção medialParesia contralateral de pernaDificuldade para marcha, queda do pé
Porção lateralParesia contralateral de face e mãoDesvio de rima, perda de destreza fina
Lesão focal pequenaDéficit restrito (ex.: apenas mão)“Paresia em território” somatotópico

Córtex somatossensorial primário (S1): giro pós-central

Marco anatômico

Giro pós-central, imediatamente posterior ao sulco central. Regra prática: pós-central = posterior ao sulco central.

Função essencial

Percepção consciente de tato discriminativo, propriocepção e parte da sensibilidade dolorosa/termal, com predominância contralateral.

Somatotopia (homúnculo sensorial)

A organização é paralela à do motor:

  • Medial: perna e pé.

  • Intermediário: tronco e membro superior.

  • Lateral/inferior: face.

Ferramenta prática: se a queixa é “perdi sensibilidade fina na mão direita”, procure um acometimento no pós-central esquerdo em região intermediária-lateral.

Caixa de correlação: lesões típicas por território

Topografia no giro pós-centralDéficit sensorial esperadoTeste de leito útil
Porção lateralHipoestesia contralateral de face/mãoDiscriminação de dois pontos, estereognosia
Porção medialHipoestesia contralateral de pernaPropriocepção do hálux, vibração
Lesão cortical pequenaPerda sensorial “em faixa” somatotópicaMapeamento por dermátomos pode não explicar

Córtex visual primário (V1): ao redor do sulco calcarino

Marco anatômico

Sulco calcarino na face medial do lobo occipital. O córtex visual primário ocupa as margens do sulco (acima e abaixo).

Função essencial

Processamento visual inicial (contraste, orientação, localização), organizado por retinotopia (mapa do campo visual).

Retinotopia como ferramenta de localização (passo a passo)

  1. Confirme que o déficit é de campo visual (ex.: hemianopsia), não de acuidade ocular.

  2. Use a regra: lesão em V1 tende a causar perda contralateral do campo visual.

  3. Considere que regiões mais posteriores do occipital se relacionam mais com a visão central (macular), enquanto regiões mais anteriores se relacionam mais com periferia do campo visual (regra prática de localização, útil para estimar extensão).

Caixa de correlação: lesões típicas por território

Topografia em torno do calcarinoDéficit visual esperadoObservação prática
V1 unilateralHemianopsia homônima contralateralPaciente “não vê” metade do mundo visual
Lesão posterior extensaCompromete mais visão centralQueixa de leitura/identificação de detalhes
Lesão menor/segmentarQuadrantanopsia/escotomasDefeitos parciais do campo visual

Córtex auditivo primário (A1): giros temporais transversos (Heschl)

Marco anatômico

Giros temporais transversos na face superior do lobo temporal, no interior da fissura lateral. Em RM, muitas vezes é necessário seguir a fissura lateral até a superfície superior temporal para visualizar a região.

Função essencial

Processamento auditivo inicial (frequência, intensidade, temporalidade). A representação auditiva tem forte componente bilateral, o que muda o padrão de déficits em lesões corticais.

Caixa de correlação: lesões típicas por território

TopografiaDéficit esperadoInterpretação clínica
A1 unilateralDificuldade sutil de localização/integração auditivaSurdez completa é incomum por bilateralidade
Lesões bilaterais extensasDéficit auditivo cortical importantePercepção sonora gravemente comprometida

Áreas de associação: “cinturões” ao redor das áreas primárias

As áreas primárias (M1, S1, V1, A1) são pontos de entrada/saída mais diretos. Ao redor delas existem áreas de associação, que integram informação, planejam ações e atribuem significado. Topograficamente, pense em “anéis” adjacentes às áreas primárias e em grandes territórios de integração (parietal posterior, temporal posterior, occipital extraestriado e frontal anterior).

Associação motora: áreas pré-motoras e suplementares (frontal, anteriores a M1)

Localização topográfica: imediatamente anterior ao giro pré-central, na convexidade frontal (premotora) e mais medial (suplementar). Função: planejamento e seleção de programas motores, coordenação bimanual, sequências.

Caixa de correlação

TopografiaAchado típicoExemplo prático
Frontal anterior a M1Apraxia (dificuldade de executar gesto aprendido)Não consegue “fazer tchau” sob comando, mas move a mão espontaneamente
Medial frontal (suplementar)Dificuldade em iniciar sequências motoras“Travamento” para começar a andar ou realizar série de movimentos

Associação somatossensorial: parietal posterior

Localização topográfica: posterior ao giro pós-central, no lobo parietal (regiões parietais superiores/inferiores). Função: integração visuoespacial, esquema corporal, atenção espacial, manipulação de objetos com base em tato e visão.

Caixa de correlação

TopografiaAchado típicoComo reconhecer
Parietal posterior (geralmente hemisfério não dominante)Negligência espacial contralateralIgnora estímulos do lado esquerdo do prato/folha
Parietal posteriorAstereognosiaNão reconhece chave/moeda pelo tato com olhos fechados

Associação visual: córtex extraestriado (occipital lateral e occípito-temporal)

Localização topográfica: ao redor de V1, estendendo-se para occipital lateral e junções com temporal/parietal. Função: interpretação de forma, cor, movimento e reconhecimento de objetos/rostos (dependendo do subterritório).

Caixa de correlação

TopografiaAchado típicoExemplo
Occípito-temporalDéficits de reconhecimento visual (agnosias)Vê o objeto, mas não identifica o que é
Occipital lateralAlterações de processamento visual complexoDificuldade com movimento/forma em tarefas específicas

Associação auditiva e linguagem (temporal posterior e regiões perisilvianas)

Localização topográfica: ao redor do córtex auditivo primário, especialmente temporal superior posterior e regiões próximas à fissura lateral (rede perisilviana). Função: interpretação de sons complexos e, no hemisfério dominante, compreensão de linguagem.

Caixa de correlação

TopografiaAchado típicoPista
Temporal superior posterior (dominante)Comprometimento de compreensãoFala fluente, mas com dificuldade de entender comandos
Associação auditiva bilateralDificuldade em interpretar sons complexosOuve, mas “não reconhece” certos sons

Regiões pré-frontais: função executiva por topografia

As regiões pré-frontais ocupam a porção mais anterior do lobo frontal, à frente das áreas motoras. Em vez de um único “ponto”, é mais útil pensar em subterritórios com tendências funcionais, sempre lembrando que redes distribuídas participam do comportamento.

Dorsolateral pré-frontal (convexidade frontal)

Topografia: porção lateral do frontal anterior. Função: memória de trabalho, planejamento, flexibilidade cognitiva, controle atencional.

Caixa de correlação

TopografiaAchado típicoExemplo prático
Pré-frontal dorsolateralDisfunção executivaDificuldade em organizar tarefas, alternar regras, manter foco

Orbitofrontal (superfície inferior frontal)

Topografia: face inferior do frontal, acima das órbitas. Função: avaliação de recompensa/punição, inibição comportamental, tomada de decisão social.

Caixa de correlação

TopografiaAchado típicoExemplo prático
OrbitofrontalDesinibição e impulsividadeComentários inadequados, decisões arriscadas sem crítica

Medial pré-frontal/anterior do cíngulo (linha média frontal)

Topografia: porção medial anterior, próxima à linha média. Função: motivação, iniciativa, monitoramento de erro, componente afetivo do comportamento.

Caixa de correlação

TopografiaAchado típicoExemplo prático
Medial pré-frontalApatia/abuliaRedução marcante de iniciativa, “não começa” atividades

Mapa rápido: marcos anatômicos → área → função

Marco anatômicoÁrea corticalFunção principalDéficit típico se lesado
Giro pré-centralMotor primário (M1)Execução do movimentoParesia contralateral somatotópica
Giro pós-centralSomatossensorial primário (S1)Tato/propriocepçãoHipoestesia contralateral, perda discriminativa
Sulco calcarino (margens)Visual primário (V1)Visão inicialHemianopsia homônima contralateral
Giros temporais transversosAuditivo primário (A1)Audição inicialDéficits auditivos corticais sutis (unilateral)
Parietal posteriorAssociação somatossensorialIntegração espacial/esquema corporalNegligência, astereognosia
Frontal anterior a M1Associação motoraPlanejamento motorApraxias, dificuldade de iniciar sequências
Pré-frontal (dorsolateral/orbitofrontal/medial)Executivo/comportamentalPlanejamento, inibição, motivaçãoDisfunção executiva, desinibição, apatia

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em uma RM, identifica-se uma lesão unilateral ao redor do sulco calcarino na face medial do lobo occipital. Qual déficit é mais esperado e como ele se relaciona com a organização funcional dessa área?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O sulco calcarino é o principal marco anatômico de V1. Lesões unilaterais em V1 tipicamente causam perda contralateral do campo visual, como hemianopsia homônima, devido à organização retinotópica e predominância contralateral.

Próximo capitúlo

Neuroanatomia das conexões do telencéfalo: corpo caloso, cápsula interna e corona radiata

Arrow Right Icon
Capa do Ebook gratuito Neuroanatomia Essencial: Organização do Encéfalo, Tronco e Medula
20%

Neuroanatomia Essencial: Organização do Encéfalo, Tronco e Medula

Novo curso

15 páginas

Baixe o app para ganhar Certificação grátis e ouvir os cursos em background, mesmo com a tela desligada.