Ideia central: localizar função pela superfície cortical
Na prática clínica, muitas funções corticais são inferidas pela topografia: identificar um sulco ou giro na imagem (TC/RM) e, a partir dele, estimar quais déficits são esperados. Este capítulo organiza as áreas corticais funcionais mais usadas em anatomia clínica por marcos anatômicos, destacando áreas primárias e de associação.
Como usar marcos anatômicos em imagens (passo a passo)
Encontre o sulco central: ele separa o lobo frontal (anterior) do parietal (posterior). Em cortes axiais, procure um sulco profundo próximo ao meio do hemisfério; em reconstruções sagitais, ele costuma ser um sulco quase vertical na convexidade.
Identifique o giro pré-central (anterior ao sulco central): principal referência do córtex motor primário.
Identifique o giro pós-central (posterior ao sulco central): principal referência do córtex somatossensorial primário.
Localize o sulco calcarino na face medial do occipital: referência do córtex visual primário.
Continue em nosso aplicativo e ...- Ouça o áudio com a tela desligada
- Ganhe Certificado após a conclusão
- + de 5000 cursos para você explorar!
Baixar o aplicativo
Localize os giros temporais transversos (de Heschl) na face superior do lobo temporal, dentro da fissura lateral: referência do córtex auditivo primário.
Delimite áreas de associação ao redor das áreas primárias: regiões adjacentes (premotora/suplementar, parietal posterior, temporal posterior, occipital extraestriado) e, na porção anterior do frontal, as regiões pré-frontais.
Córtex motor primário (M1): giro pré-central
Marco anatômico
Giro pré-central, imediatamente anterior ao sulco central, na convexidade lateral. Em imagens, é útil lembrar: pré-central = anterior ao sulco central.
Função essencial
Execução de movimentos voluntários, com controle predominante contralateral do corpo.
Somatotopia (homúnculo motor) como ferramenta de localização
O giro pré-central é organizado de modo somatotópico. Uma regra prática:
Medial (próximo à fissura inter-hemisférica): perna e pé.
Intermediário: tronco e membro superior.
Lateral/inferior: face, língua e laringe.
Aplicação direta: um foco lesional mais superior/medial no pré-central tende a afetar mais membro inferior; mais inferolateral tende a afetar face.
Caixa de correlação: lesões típicas por território
| Topografia no giro pré-central | Déficit motor esperado | Pista clínica |
|---|---|---|
| Porção medial | Paresia contralateral de perna | Dificuldade para marcha, queda do pé |
| Porção lateral | Paresia contralateral de face e mão | Desvio de rima, perda de destreza fina |
| Lesão focal pequena | Déficit restrito (ex.: apenas mão) | “Paresia em território” somatotópico |
Córtex somatossensorial primário (S1): giro pós-central
Marco anatômico
Giro pós-central, imediatamente posterior ao sulco central. Regra prática: pós-central = posterior ao sulco central.
Função essencial
Percepção consciente de tato discriminativo, propriocepção e parte da sensibilidade dolorosa/termal, com predominância contralateral.
Somatotopia (homúnculo sensorial)
A organização é paralela à do motor:
Medial: perna e pé.
Intermediário: tronco e membro superior.
Lateral/inferior: face.
Ferramenta prática: se a queixa é “perdi sensibilidade fina na mão direita”, procure um acometimento no pós-central esquerdo em região intermediária-lateral.
Caixa de correlação: lesões típicas por território
| Topografia no giro pós-central | Déficit sensorial esperado | Teste de leito útil |
|---|---|---|
| Porção lateral | Hipoestesia contralateral de face/mão | Discriminação de dois pontos, estereognosia |
| Porção medial | Hipoestesia contralateral de perna | Propriocepção do hálux, vibração |
| Lesão cortical pequena | Perda sensorial “em faixa” somatotópica | Mapeamento por dermátomos pode não explicar |
Córtex visual primário (V1): ao redor do sulco calcarino
Marco anatômico
Sulco calcarino na face medial do lobo occipital. O córtex visual primário ocupa as margens do sulco (acima e abaixo).
Função essencial
Processamento visual inicial (contraste, orientação, localização), organizado por retinotopia (mapa do campo visual).
Retinotopia como ferramenta de localização (passo a passo)
Confirme que o déficit é de campo visual (ex.: hemianopsia), não de acuidade ocular.
Use a regra: lesão em V1 tende a causar perda contralateral do campo visual.
Considere que regiões mais posteriores do occipital se relacionam mais com a visão central (macular), enquanto regiões mais anteriores se relacionam mais com periferia do campo visual (regra prática de localização, útil para estimar extensão).
Caixa de correlação: lesões típicas por território
| Topografia em torno do calcarino | Déficit visual esperado | Observação prática |
|---|---|---|
| V1 unilateral | Hemianopsia homônima contralateral | Paciente “não vê” metade do mundo visual |
| Lesão posterior extensa | Compromete mais visão central | Queixa de leitura/identificação de detalhes |
| Lesão menor/segmentar | Quadrantanopsia/escotomas | Defeitos parciais do campo visual |
Córtex auditivo primário (A1): giros temporais transversos (Heschl)
Marco anatômico
Giros temporais transversos na face superior do lobo temporal, no interior da fissura lateral. Em RM, muitas vezes é necessário seguir a fissura lateral até a superfície superior temporal para visualizar a região.
Função essencial
Processamento auditivo inicial (frequência, intensidade, temporalidade). A representação auditiva tem forte componente bilateral, o que muda o padrão de déficits em lesões corticais.
Caixa de correlação: lesões típicas por território
| Topografia | Déficit esperado | Interpretação clínica |
|---|---|---|
| A1 unilateral | Dificuldade sutil de localização/integração auditiva | Surdez completa é incomum por bilateralidade |
| Lesões bilaterais extensas | Déficit auditivo cortical importante | Percepção sonora gravemente comprometida |
Áreas de associação: “cinturões” ao redor das áreas primárias
As áreas primárias (M1, S1, V1, A1) são pontos de entrada/saída mais diretos. Ao redor delas existem áreas de associação, que integram informação, planejam ações e atribuem significado. Topograficamente, pense em “anéis” adjacentes às áreas primárias e em grandes territórios de integração (parietal posterior, temporal posterior, occipital extraestriado e frontal anterior).
Associação motora: áreas pré-motoras e suplementares (frontal, anteriores a M1)
Localização topográfica: imediatamente anterior ao giro pré-central, na convexidade frontal (premotora) e mais medial (suplementar). Função: planejamento e seleção de programas motores, coordenação bimanual, sequências.
Caixa de correlação
| Topografia | Achado típico | Exemplo prático |
|---|---|---|
| Frontal anterior a M1 | Apraxia (dificuldade de executar gesto aprendido) | Não consegue “fazer tchau” sob comando, mas move a mão espontaneamente |
| Medial frontal (suplementar) | Dificuldade em iniciar sequências motoras | “Travamento” para começar a andar ou realizar série de movimentos |
Associação somatossensorial: parietal posterior
Localização topográfica: posterior ao giro pós-central, no lobo parietal (regiões parietais superiores/inferiores). Função: integração visuoespacial, esquema corporal, atenção espacial, manipulação de objetos com base em tato e visão.
Caixa de correlação
| Topografia | Achado típico | Como reconhecer |
|---|---|---|
| Parietal posterior (geralmente hemisfério não dominante) | Negligência espacial contralateral | Ignora estímulos do lado esquerdo do prato/folha |
| Parietal posterior | Astereognosia | Não reconhece chave/moeda pelo tato com olhos fechados |
Associação visual: córtex extraestriado (occipital lateral e occípito-temporal)
Localização topográfica: ao redor de V1, estendendo-se para occipital lateral e junções com temporal/parietal. Função: interpretação de forma, cor, movimento e reconhecimento de objetos/rostos (dependendo do subterritório).
Caixa de correlação
| Topografia | Achado típico | Exemplo |
|---|---|---|
| Occípito-temporal | Déficits de reconhecimento visual (agnosias) | Vê o objeto, mas não identifica o que é |
| Occipital lateral | Alterações de processamento visual complexo | Dificuldade com movimento/forma em tarefas específicas |
Associação auditiva e linguagem (temporal posterior e regiões perisilvianas)
Localização topográfica: ao redor do córtex auditivo primário, especialmente temporal superior posterior e regiões próximas à fissura lateral (rede perisilviana). Função: interpretação de sons complexos e, no hemisfério dominante, compreensão de linguagem.
Caixa de correlação
| Topografia | Achado típico | Pista |
|---|---|---|
| Temporal superior posterior (dominante) | Comprometimento de compreensão | Fala fluente, mas com dificuldade de entender comandos |
| Associação auditiva bilateral | Dificuldade em interpretar sons complexos | Ouve, mas “não reconhece” certos sons |
Regiões pré-frontais: função executiva por topografia
As regiões pré-frontais ocupam a porção mais anterior do lobo frontal, à frente das áreas motoras. Em vez de um único “ponto”, é mais útil pensar em subterritórios com tendências funcionais, sempre lembrando que redes distribuídas participam do comportamento.
Dorsolateral pré-frontal (convexidade frontal)
Topografia: porção lateral do frontal anterior. Função: memória de trabalho, planejamento, flexibilidade cognitiva, controle atencional.
Caixa de correlação
| Topografia | Achado típico | Exemplo prático |
|---|---|---|
| Pré-frontal dorsolateral | Disfunção executiva | Dificuldade em organizar tarefas, alternar regras, manter foco |
Orbitofrontal (superfície inferior frontal)
Topografia: face inferior do frontal, acima das órbitas. Função: avaliação de recompensa/punição, inibição comportamental, tomada de decisão social.
Caixa de correlação
| Topografia | Achado típico | Exemplo prático |
|---|---|---|
| Orbitofrontal | Desinibição e impulsividade | Comentários inadequados, decisões arriscadas sem crítica |
Medial pré-frontal/anterior do cíngulo (linha média frontal)
Topografia: porção medial anterior, próxima à linha média. Função: motivação, iniciativa, monitoramento de erro, componente afetivo do comportamento.
Caixa de correlação
| Topografia | Achado típico | Exemplo prático |
|---|---|---|
| Medial pré-frontal | Apatia/abulia | Redução marcante de iniciativa, “não começa” atividades |
Mapa rápido: marcos anatômicos → área → função
| Marco anatômico | Área cortical | Função principal | Déficit típico se lesado |
|---|---|---|---|
| Giro pré-central | Motor primário (M1) | Execução do movimento | Paresia contralateral somatotópica |
| Giro pós-central | Somatossensorial primário (S1) | Tato/propriocepção | Hipoestesia contralateral, perda discriminativa |
| Sulco calcarino (margens) | Visual primário (V1) | Visão inicial | Hemianopsia homônima contralateral |
| Giros temporais transversos | Auditivo primário (A1) | Audição inicial | Déficits auditivos corticais sutis (unilateral) |
| Parietal posterior | Associação somatossensorial | Integração espacial/esquema corporal | Negligência, astereognosia |
| Frontal anterior a M1 | Associação motora | Planejamento motor | Apraxias, dificuldade de iniciar sequências |
| Pré-frontal (dorsolateral/orbitofrontal/medial) | Executivo/comportamental | Planejamento, inibição, motivação | Disfunção executiva, desinibição, apatia |