Este capítulo foca na ponte (pons) e no bulbo (medula oblonga) como estruturas do tronco encefálico com marcos externos fortes (pirâmides, olivas, pedúnculos cerebelares) e com “assinaturas” previsíveis em cortes transversais. A meta prática é reconhecer: (1) o que é ventral vs dorsal, (2) o que é medial vs lateral, (3) quais núcleos de nervos cranianos costumam servir de referência, e (4) onde passam as principais vias longas (corticospinal, lemnisco medial, espinotalâmica).
Ponte: marcos anatômicos essenciais
Basis pontis (porção ventral da ponte)
A basis pontis é a porção ventral “abaulada” da ponte. Em cortes, ela se destaca por conter fibras transversas pontinas (pontocerebelares) misturadas a núcleos pontinos, formando um aspecto estriado/reticulado. Entre essas fibras transversas, passam feixes longitudinais, principalmente as fibras corticospinais (e corticobulbares/corticopontinas) descendo em direção ao bulbo.
- Dica de imagem: na ponte, a porção ventral costuma parecer “mais clara e fibrilar” (muita substância branca) com ilhas de cinzenta (núcleos pontinos).
- Relação funcional: a ponte é um grande “hub” de comunicação córtex–cerebelo via núcleos pontinos e fibras transversas.
Pedúnculo cerebelar médio
O pedúnculo cerebelar médio é o maior pedúnculo cerebelar e é composto majoritariamente por fibras pontocerebelares que cruzam a linha média e entram no cerebelo. Em cortes transversais da ponte, ele aparece como uma massa lateral volumosa, contínua com a basis pontis.
- Como reconhecer: procure uma grande estrutura lateral, simétrica, com aspecto de feixe compacto; ela “abraça” lateralmente a ponte.
4º ventrículo e tegmento pontino (porção dorsal)
Dorsalmente, a ponte participa do assoalho do 4º ventrículo. Em cortes, o 4º ventrículo aparece como uma cavidade dorsal (triangular/losangular dependendo do nível). A região entre o ventrículo e a basis pontis é o tegmento, onde ficam muitos núcleos de nervos cranianos e vias ascendentes.
- Regra prática: se você vê 4º ventrículo, você está no tronco encefálico dorsal; a “ponte verdadeira” terá uma basis pontis ventral espessa.
Bulbo: pirâmides, decussação, oliva e pedúnculo cerebelar inferior
Pirâmides bulbares e fibras corticospinais
As pirâmides são duas elevações ventrais longitudinais do bulbo, formadas principalmente por fibras corticospinais. Em corte transversal, elas aparecem como dois feixes ventromediais densos e simétricos.
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Decussação das pirâmides
Na porção caudal do bulbo ocorre a decussação piramidal, onde a maior parte das fibras corticospinais cruza para formar o trato corticospinal lateral. Em cortes nesse nível, a assinatura é a presença de feixes cruzando obliquamente a linha média, “desorganizando” a simetria simples dos feixes ventrais.
- Dica de identificação: se você vê fibras atravessando a linha média na região ventral do bulbo, pense em decussação.
Oliva inferior
A oliva (proeminência lateral ventral do bulbo) corresponde ao núcleo olivar inferior, uma estrutura cinzenta grande e muito característica. Em cortes, a oliva aparece como uma massa cinzenta ondulada/laminada na região anterolateral do bulbo, lateral às pirâmides.
- Como reconhecer: procure uma “ilha” cinzenta grande e lateral, com contorno irregular, em nível rostral do bulbo (bulbo “aberto”, com 4º ventrículo).
Pedúnculo cerebelar inferior
O pedúnculo cerebelar inferior conecta bulbo e cerebelo, carregando múltiplas aferências (incluindo vias proprioceptivas e vestibulares). Em cortes, ele aparece como um feixe dorsal-lateral robusto, próximo à região do 4º ventrículo no bulbo rostral.
- Regra prática: no bulbo rostral, estruturas dorsolaterais volumosas sugerem o pedúnculo cerebelar inferior.
Núcleos de nervos cranianos como referências topográficas (ponte e bulbo)
Em neuroimagem e em cortes anatômicos, alguns núcleos são usados como “pinos de mapa” para orientar medial-lateral e dorsal-ventral. Abaixo, o foco é a topografia relativa (não uma lista exaustiva).
Ponte: referências frequentes
- Núcleo do abducente (VI): tipicamente dorsal e medial, próximo ao assoalho do 4º ventrículo (região do colículo facial). Em cortes, use-o como marcador de “linha média dorsal” na ponte caudal.
- Núcleo motor do facial (VII): mais ventrolateral em relação ao núcleo do VI; as fibras do VII fazem um trajeto curvo ao redor do núcleo do VI (referência clássica para entender por que o VI é um bom marco).
- Núcleos vestibulares (VIII): tendem a ser dorsolaterais na junção pontobulbar, próximos ao 4º ventrículo.
- Núcleo sensitivo principal do trigêmeo (V): na ponte, costuma ser mais lateral no tegmento, servindo como referência para a “metade lateral” pontina.
Bulbo: referências frequentes
- Núcleo do hipoglosso (XII): dorsal e medial, próximo à linha média no assoalho do 4º ventrículo (bulbo aberto). Em cortes, é um excelente marcador do “medial dorsal”.
- Núcleo dorsal do vago (X): dorsal, geralmente mais lateral que o XII, também próximo ao 4º ventrículo.
- Núcleo ambíguo (IX–X): mais ventrolateral no bulbo rostral; útil para lembrar que funções motoras faríngeo-laríngeas se localizam mais lateralmente no tegmento bulbar.
- Núcleo do trato solitário (VII, IX, X): dorsolateral, associado a aferências viscerais e gustativas; aparece como referência na metade dorsal-lateral do bulbo.
- Núcleo espinal do trigêmeo: estende-se caudalmente e costuma ser lateral no bulbo; em cortes, ajuda a “ancorar” a borda lateral do tegmento.
Principais vias longas: onde procurar em cortes
Fibras corticospinais
Ponte: passam principalmente na porção ventral (basis pontis) como feixes longitudinais entre fibras transversas e núcleos pontinos. Bulbo: formam as pirâmides ventromediais; caudalmente, cruzam na decussação.
Lemnisco medial
O lemnisco medial é uma via ascendente (tato discriminativo/propriocepção consciente) que, no tronco, costuma ocupar posição mais medial no tegmento em comparação a outras vias sensitivas. Em cortes de ponte e bulbo rostral, procure-o como uma faixa/feixe relativamente medial, dorsal às estruturas ventrais (basis pontis/pirâmides) e com simetria bilateral.
- Heurística: “lemnisco medial = mais medial e organizado”, frequentemente com formato de banda.
Trato espinotalâmico (sistema anterolateral)
O trato espinotalâmico (dor/temperatura) tende a ocupar posição mais lateral no tegmento do tronco encefálico quando comparado ao lemnisco medial. Em cortes, procure um feixe anterolateral no tegmento, mantendo simetria bilateral.
- Heurística: “espinotalâmico = mais lateral” (especialmente útil quando você já localizou o lemnisco medial).
Roteiro prático: identificação em cortes transversais (ponte)
Passo a passo (ponte)
- Encontre o 4º ventrículo: uma cavidade dorsal. Se ele está presente e a porção ventral é espessa e fibrilar, você provavelmente está na ponte.
- Separe mentalmente ventral (basis) de dorsal (tegmento): a basis é a metade ventral com fibras transversas; o tegmento fica entre basis e 4º ventrículo.
- Procure o pedúnculo cerebelar médio: grandes massas laterais contínuas com a basis pontis. Isso ajuda a confirmar “ponte” e a definir o eixo medial-lateral.
- Localize as vias longas:
- Corticospinais: feixes longitudinais na basis pontis (anteromedial/ventral).
- Lemnisco medial: banda mais medial no tegmento.
- Espinotalâmico: mais lateral no tegmento.
- Use núcleos como âncoras (se visíveis no nível):
- VI (dorsomedial) e relação com fibras do VII (ponte caudal).
- V (mais lateral no tegmento pontino).
- Cheque simetria: estruturas pares (pedúnculos, feixes, núcleos) devem ser espelhadas. Assimetria pode indicar que você está em corte oblíquo ou em nível de transição.
Padrões que ajudam a “bater o olho”
- “Ventral estriado”: fibras transversas pontinas + núcleos pontinos na basis.
- “Lateral volumoso”: pedúnculo cerebelar médio grande.
- “Dorsal cavitário”: 4º ventrículo definindo o dorso.
Roteiro prático: identificação em cortes transversais (bulbo)
Escolha primeiro: bulbo aberto vs bulbo fechado
Antes de procurar núcleos e vias, determine se o bulbo está aberto (com 4º ventrículo dorsal) ou fechado (sem 4º ventrículo visível, mais caudal). Isso muda muito a “geometria” do corte.
Passo a passo (bulbo rostral, “aberto”)
- Procure o 4º ventrículo dorsal: se presente, você está no bulbo aberto (ou junção pontobulbar, dependendo da espessura da basis pontis).
- Identifique as pirâmides: dois feixes ventromediais (corticospinais).
- Procure a oliva inferior: massa cinzenta grande anterolateral, lateral às pirâmides; sua presença forte sugere bulbo rostral.
- Localize o pedúnculo cerebelar inferior: feixe dorsolateral robusto, próximo ao 4º ventrículo.
- Mapeie vias no tegmento:
- Lemnisco medial: mais medial.
- Espinotalâmico: mais lateral.
- Use núcleos dorsais como referência:
- XII (dorsomedial) e X (dorsal, mais lateral).
- Trato solitário e núcleos vestibulares (dorsolaterais, conforme o nível).
Passo a passo (bulbo caudal, “fechado” e decussação)
- Verifique a ausência do 4º ventrículo: o dorso não mostra cavidade ampla; o corte parece mais “compacto”.
- Foque nas pirâmides ventrais: identifique os feixes corticospinais antes de qualquer outra coisa.
- Procure sinais de decussação: fibras cruzando a linha média na região ventral (trajetos oblíquos), com reorganização dos feixes.
- Reaplique o mapa medial-lateral: mesmo com a decussação, mantenha a regra de vias sensitivas (lemnisco mais medial, espinotalâmico mais lateral) como guia, lembrando que o nível caudal pode alterar a forma exata dos feixes.
- Cheque simetria e eixo: na decussação, a simetria pode parecer “menos limpa”; confirme se o corte está perpendicular ao eixo do tronco para não confundir obliquidade com assimetria anatômica.
Tabela de referência rápida (ponte vs bulbo)
| Estrutura | Onde aparece melhor | Posição típica no corte | Como ajuda na identificação |
|---|---|---|---|
| Basis pontis | Ponte | Ventral | Assinatura de fibras transversas + núcleos pontinos |
| Pedúnculo cerebelar médio | Ponte | Lateral volumoso | Confirma nível pontino e delimita lateralidade |
| 4º ventrículo | Ponte dorsal e bulbo rostral | Dorsal | Define “tronco aberto” e orienta dorsal-ventral |
| Pirâmides | Bulbo | Ventromedial | Marca corticospinal; guia para decussação caudal |
| Decussação piramidal | Bulbo caudal | Ventral, cruzando a linha média | Assinatura de nível caudal do bulbo |
| Oliva inferior | Bulbo rostral | Anterolateral | Marco forte do bulbo rostral (olivar) |
| Pedúnculo cerebelar inferior | Bulbo rostral | Dorsolateral | Ajuda a reconhecer a borda dorsolateral do bulbo |
| Lemnisco medial | Ponte e bulbo | Tegmento, mais medial | Organiza o mapa sensitivo medial-lateral |
| Trato espinotalâmico | Ponte e bulbo | Tegmento, mais lateral | Complementa o mapa sensitivo e reforça lateralidade |