Neuroanatomia da ponte e do bulbo: pirâmides, olivas, pedúnculos e núcleos relevantes

Capítulo 11

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Este capítulo foca na ponte (pons) e no bulbo (medula oblonga) como estruturas do tronco encefálico com marcos externos fortes (pirâmides, olivas, pedúnculos cerebelares) e com “assinaturas” previsíveis em cortes transversais. A meta prática é reconhecer: (1) o que é ventral vs dorsal, (2) o que é medial vs lateral, (3) quais núcleos de nervos cranianos costumam servir de referência, e (4) onde passam as principais vias longas (corticospinal, lemnisco medial, espinotalâmica).

Ponte: marcos anatômicos essenciais

Basis pontis (porção ventral da ponte)

A basis pontis é a porção ventral “abaulada” da ponte. Em cortes, ela se destaca por conter fibras transversas pontinas (pontocerebelares) misturadas a núcleos pontinos, formando um aspecto estriado/reticulado. Entre essas fibras transversas, passam feixes longitudinais, principalmente as fibras corticospinais (e corticobulbares/corticopontinas) descendo em direção ao bulbo.

  • Dica de imagem: na ponte, a porção ventral costuma parecer “mais clara e fibrilar” (muita substância branca) com ilhas de cinzenta (núcleos pontinos).
  • Relação funcional: a ponte é um grande “hub” de comunicação córtex–cerebelo via núcleos pontinos e fibras transversas.

Pedúnculo cerebelar médio

O pedúnculo cerebelar médio é o maior pedúnculo cerebelar e é composto majoritariamente por fibras pontocerebelares que cruzam a linha média e entram no cerebelo. Em cortes transversais da ponte, ele aparece como uma massa lateral volumosa, contínua com a basis pontis.

  • Como reconhecer: procure uma grande estrutura lateral, simétrica, com aspecto de feixe compacto; ela “abraça” lateralmente a ponte.

4º ventrículo e tegmento pontino (porção dorsal)

Dorsalmente, a ponte participa do assoalho do 4º ventrículo. Em cortes, o 4º ventrículo aparece como uma cavidade dorsal (triangular/losangular dependendo do nível). A região entre o ventrículo e a basis pontis é o tegmento, onde ficam muitos núcleos de nervos cranianos e vias ascendentes.

  • Regra prática: se você vê 4º ventrículo, você está no tronco encefálico dorsal; a “ponte verdadeira” terá uma basis pontis ventral espessa.

Bulbo: pirâmides, decussação, oliva e pedúnculo cerebelar inferior

Pirâmides bulbares e fibras corticospinais

As pirâmides são duas elevações ventrais longitudinais do bulbo, formadas principalmente por fibras corticospinais. Em corte transversal, elas aparecem como dois feixes ventromediais densos e simétricos.

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Decussação das pirâmides

Na porção caudal do bulbo ocorre a decussação piramidal, onde a maior parte das fibras corticospinais cruza para formar o trato corticospinal lateral. Em cortes nesse nível, a assinatura é a presença de feixes cruzando obliquamente a linha média, “desorganizando” a simetria simples dos feixes ventrais.

  • Dica de identificação: se você vê fibras atravessando a linha média na região ventral do bulbo, pense em decussação.

Oliva inferior

A oliva (proeminência lateral ventral do bulbo) corresponde ao núcleo olivar inferior, uma estrutura cinzenta grande e muito característica. Em cortes, a oliva aparece como uma massa cinzenta ondulada/laminada na região anterolateral do bulbo, lateral às pirâmides.

  • Como reconhecer: procure uma “ilha” cinzenta grande e lateral, com contorno irregular, em nível rostral do bulbo (bulbo “aberto”, com 4º ventrículo).

Pedúnculo cerebelar inferior

O pedúnculo cerebelar inferior conecta bulbo e cerebelo, carregando múltiplas aferências (incluindo vias proprioceptivas e vestibulares). Em cortes, ele aparece como um feixe dorsal-lateral robusto, próximo à região do 4º ventrículo no bulbo rostral.

  • Regra prática: no bulbo rostral, estruturas dorsolaterais volumosas sugerem o pedúnculo cerebelar inferior.

Núcleos de nervos cranianos como referências topográficas (ponte e bulbo)

Em neuroimagem e em cortes anatômicos, alguns núcleos são usados como “pinos de mapa” para orientar medial-lateral e dorsal-ventral. Abaixo, o foco é a topografia relativa (não uma lista exaustiva).

Ponte: referências frequentes

  • Núcleo do abducente (VI): tipicamente dorsal e medial, próximo ao assoalho do 4º ventrículo (região do colículo facial). Em cortes, use-o como marcador de “linha média dorsal” na ponte caudal.
  • Núcleo motor do facial (VII): mais ventrolateral em relação ao núcleo do VI; as fibras do VII fazem um trajeto curvo ao redor do núcleo do VI (referência clássica para entender por que o VI é um bom marco).
  • Núcleos vestibulares (VIII): tendem a ser dorsolaterais na junção pontobulbar, próximos ao 4º ventrículo.
  • Núcleo sensitivo principal do trigêmeo (V): na ponte, costuma ser mais lateral no tegmento, servindo como referência para a “metade lateral” pontina.

Bulbo: referências frequentes

  • Núcleo do hipoglosso (XII): dorsal e medial, próximo à linha média no assoalho do 4º ventrículo (bulbo aberto). Em cortes, é um excelente marcador do “medial dorsal”.
  • Núcleo dorsal do vago (X): dorsal, geralmente mais lateral que o XII, também próximo ao 4º ventrículo.
  • Núcleo ambíguo (IX–X): mais ventrolateral no bulbo rostral; útil para lembrar que funções motoras faríngeo-laríngeas se localizam mais lateralmente no tegmento bulbar.
  • Núcleo do trato solitário (VII, IX, X): dorsolateral, associado a aferências viscerais e gustativas; aparece como referência na metade dorsal-lateral do bulbo.
  • Núcleo espinal do trigêmeo: estende-se caudalmente e costuma ser lateral no bulbo; em cortes, ajuda a “ancorar” a borda lateral do tegmento.

Principais vias longas: onde procurar em cortes

Fibras corticospinais

Ponte: passam principalmente na porção ventral (basis pontis) como feixes longitudinais entre fibras transversas e núcleos pontinos. Bulbo: formam as pirâmides ventromediais; caudalmente, cruzam na decussação.

Lemnisco medial

O lemnisco medial é uma via ascendente (tato discriminativo/propriocepção consciente) que, no tronco, costuma ocupar posição mais medial no tegmento em comparação a outras vias sensitivas. Em cortes de ponte e bulbo rostral, procure-o como uma faixa/feixe relativamente medial, dorsal às estruturas ventrais (basis pontis/pirâmides) e com simetria bilateral.

  • Heurística: “lemnisco medial = mais medial e organizado”, frequentemente com formato de banda.

Trato espinotalâmico (sistema anterolateral)

O trato espinotalâmico (dor/temperatura) tende a ocupar posição mais lateral no tegmento do tronco encefálico quando comparado ao lemnisco medial. Em cortes, procure um feixe anterolateral no tegmento, mantendo simetria bilateral.

  • Heurística: “espinotalâmico = mais lateral” (especialmente útil quando você já localizou o lemnisco medial).

Roteiro prático: identificação em cortes transversais (ponte)

Passo a passo (ponte)

  1. Encontre o 4º ventrículo: uma cavidade dorsal. Se ele está presente e a porção ventral é espessa e fibrilar, você provavelmente está na ponte.
  2. Separe mentalmente ventral (basis) de dorsal (tegmento): a basis é a metade ventral com fibras transversas; o tegmento fica entre basis e 4º ventrículo.
  3. Procure o pedúnculo cerebelar médio: grandes massas laterais contínuas com a basis pontis. Isso ajuda a confirmar “ponte” e a definir o eixo medial-lateral.
  4. Localize as vias longas:
    • Corticospinais: feixes longitudinais na basis pontis (anteromedial/ventral).
    • Lemnisco medial: banda mais medial no tegmento.
    • Espinotalâmico: mais lateral no tegmento.
  5. Use núcleos como âncoras (se visíveis no nível):
    • VI (dorsomedial) e relação com fibras do VII (ponte caudal).
    • V (mais lateral no tegmento pontino).
  6. Cheque simetria: estruturas pares (pedúnculos, feixes, núcleos) devem ser espelhadas. Assimetria pode indicar que você está em corte oblíquo ou em nível de transição.

Padrões que ajudam a “bater o olho”

  • “Ventral estriado”: fibras transversas pontinas + núcleos pontinos na basis.
  • “Lateral volumoso”: pedúnculo cerebelar médio grande.
  • “Dorsal cavitário”: 4º ventrículo definindo o dorso.

Roteiro prático: identificação em cortes transversais (bulbo)

Escolha primeiro: bulbo aberto vs bulbo fechado

Antes de procurar núcleos e vias, determine se o bulbo está aberto (com 4º ventrículo dorsal) ou fechado (sem 4º ventrículo visível, mais caudal). Isso muda muito a “geometria” do corte.

Passo a passo (bulbo rostral, “aberto”)

  1. Procure o 4º ventrículo dorsal: se presente, você está no bulbo aberto (ou junção pontobulbar, dependendo da espessura da basis pontis).
  2. Identifique as pirâmides: dois feixes ventromediais (corticospinais).
  3. Procure a oliva inferior: massa cinzenta grande anterolateral, lateral às pirâmides; sua presença forte sugere bulbo rostral.
  4. Localize o pedúnculo cerebelar inferior: feixe dorsolateral robusto, próximo ao 4º ventrículo.
  5. Mapeie vias no tegmento:
    • Lemnisco medial: mais medial.
    • Espinotalâmico: mais lateral.
  6. Use núcleos dorsais como referência:
    • XII (dorsomedial) e X (dorsal, mais lateral).
    • Trato solitário e núcleos vestibulares (dorsolaterais, conforme o nível).

Passo a passo (bulbo caudal, “fechado” e decussação)

  1. Verifique a ausência do 4º ventrículo: o dorso não mostra cavidade ampla; o corte parece mais “compacto”.
  2. Foque nas pirâmides ventrais: identifique os feixes corticospinais antes de qualquer outra coisa.
  3. Procure sinais de decussação: fibras cruzando a linha média na região ventral (trajetos oblíquos), com reorganização dos feixes.
  4. Reaplique o mapa medial-lateral: mesmo com a decussação, mantenha a regra de vias sensitivas (lemnisco mais medial, espinotalâmico mais lateral) como guia, lembrando que o nível caudal pode alterar a forma exata dos feixes.
  5. Cheque simetria e eixo: na decussação, a simetria pode parecer “menos limpa”; confirme se o corte está perpendicular ao eixo do tronco para não confundir obliquidade com assimetria anatômica.

Tabela de referência rápida (ponte vs bulbo)

EstruturaOnde aparece melhorPosição típica no corteComo ajuda na identificação
Basis pontisPonteVentralAssinatura de fibras transversas + núcleos pontinos
Pedúnculo cerebelar médioPonteLateral volumosoConfirma nível pontino e delimita lateralidade
4º ventrículoPonte dorsal e bulbo rostralDorsalDefine “tronco aberto” e orienta dorsal-ventral
PirâmidesBulboVentromedialMarca corticospinal; guia para decussação caudal
Decussação piramidalBulbo caudalVentral, cruzando a linha médiaAssinatura de nível caudal do bulbo
Oliva inferiorBulbo rostralAnterolateralMarco forte do bulbo rostral (olivar)
Pedúnculo cerebelar inferiorBulbo rostralDorsolateralAjuda a reconhecer a borda dorsolateral do bulbo
Lemnisco medialPonte e bulboTegmento, mais medialOrganiza o mapa sensitivo medial-lateral
Trato espinotalâmicoPonte e bulboTegmento, mais lateralComplementa o mapa sensitivo e reforça lateralidade

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em um corte transversal do tronco encefálico, você identifica uma banda sensitiva relativamente organizada situada mais medial no tegmento, dorsal às estruturas ventrais. Qual via longa essa descrição sugere?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O lemnisco medial tende a ocupar posição mais medial no tegmento e costuma ter aspecto de banda relativamente organizada. Já o trato espinotalâmico é mais lateral, e as fibras corticospinais predominam ventralmente (basis pontis/pirâmides).

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Neuroanatomia do cerebelo: lobos, vermis, pedúnculos e núcleos profundos

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