Mapa anatômico progressivo das principais vias longas
Neste capítulo, o foco é construir um “mapa de navegação” ao longo do neuroeixo para três sistemas de tratos: colunas dorsais–lemnisco medial (CD–LM), sistema anterolateral (SAL/espinotalâmico) e trato corticospinal (CST). A ideia prática é sempre responder a quatro perguntas anatômicas: (1) onde nasce, (2) onde cruza (decussa), (3) onde corre em cada nível (posição relativa), (4) onde termina (tálamo/córtex).
Regra de ouro para localização
- CD–LM cruza no bulbo (decussação sensitiva) e sobe como lemnisco medial.
- SAL cruza na medula (comissura branca anterior) e sobe anterolateralmente.
- CST cruza no bulbo caudal (decussação piramidal) e desce no funículo lateral (principalmente).
1) Colunas dorsais–Lemnisco medial (CD–LM)
Origem e primeiro neurônio (marco anatômico)
As fibras entram pela raiz dorsal e ascendem ipsilateralmente nas colunas dorsais até o bulbo. Em termos de “mapa”, pense em dois feixes no dorso da medula:
- Fascículo grácil: mais medial (informação de membros inferiores e tronco inferior).
- Fascículo cuneiforme: mais lateral (membros superiores e tronco superior; aparece acima de níveis torácicos altos).
Primeira sinapse e decussação principal
No bulbo, as fibras terminam nos núcleos grácil e cuneiforme (dorsais). A partir daí, fibras arqueadas internas cruzam a linha média formando a decussação sensitiva e organizam-se como lemnisco medial.
Destino talâmico e cortical (em termos anatômicos)
O lemnisco medial projeta-se ao tálamo (núcleo ventral póstero-lateral, VPL), e daí segue para o córtex somatossensorial primário (topografia somatotópica preservada, mas o capítulo enfatiza o trajeto e a posição).
2) Sistema anterolateral (SAL / trato espinotalâmico)
Origem e entrada na medula
As fibras entram pela raiz dorsal e fazem sinapse no corno posterior. O ponto-chave para localização é que o SAL cruza cedo na medula.
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Decussação principal (medula)
Após sinapse, neurônios de segunda ordem cruzam pela comissura branca anterior (em geral a poucos segmentos do nível de entrada) e passam a ascender no funículo anterolateral contralateral.
Posição relativa e destino
O SAL sobe no quadrante anterolateral da medula e, no tronco encefálico, mantém-se em posição mais lateral quando comparado ao lemnisco medial. O destino clássico para “mapa” é o VPL talâmico, com projeção subsequente ao córtex somatossensorial.
3) Trato corticospinal (CST)
Origem cortical e trajeto supratentorial (apenas marcos necessários)
O CST origina-se no córtex motor e desce por estruturas profundas até alcançar o tronco. Para o mapa do neuroeixo, o essencial é reconhecer sua forma no tronco e o ponto de cruzamento.
Tronco encefálico e decussação piramidal
No bulbo ventral, o CST forma as pirâmides. No bulbo caudal, ocorre a decussação piramidal:
- Trato corticospinal lateral: fibras que cruzam e descem no funículo lateral contralateral (maioria).
- Trato corticospinal anterior: fibras que permanecem mais anteriores e cruzam segmentarmente em níveis medulares (menor proporção; útil para lembrar que nem toda fibra cruza no bulbo).
Destino segmentar
As fibras terminam em interneurônios e motoneurônios do corno anterior (organização segmentar). Para localização clínica, o ponto crítico é: acima da decussação piramidal o déficit motor por lesão do CST tende a ser contralateral; abaixo, tende a ser ipsilateral.
Diagramas comparativos por nível (medula → bulbo → ponte → mesencéfalo)
Os diagramas abaixo são “mapas de posição relativa” (dorsal/ventral, medial/lateral). Use-os como referência rápida ao interpretar cortes axiais em neuroimagem ou correlação sindrômica.
A) Medula espinal (corte axial: orientação)
DORSAL (posterior) [Colunas dorsais: Grácil (medial) | Cuneiforme (lateral)] <-- CD (ipsilateral) LATERAL: [CST lateral] ANTEROLATERAL: [SAL/espinotalâmico] VENTRAL (anterior)- CD: dorsal, bem posterior; grácil medial, cuneiforme lateral.
- SAL: anterolateral, já contralateral após cruzar na comissura branca anterior.
- CST lateral: lateral (pós-decussação piramidal), próximo ao funículo lateral.
B) Bulbo (medula oblonga)
O bulbo é o nível em que as três vias “mudam de forma” de maneira mais didática: CD vira lemnisco medial após cruzar; CST cruza nas pirâmides; SAL segue mais lateral.
BULBO (esquemático) DORSAL: [Núcleos grácil/cuneiforme] --(fibras arqueadas internas cruzam)--> [Lemnisco medial (LM)] VENTRAL: [Pirâmides (CST)] --(decussação piramidal caudal)--> [CST lateral] LATERAL: [SAL/espinotalâmico] (ascende)- Decussação sensitiva: no bulbo (CD → LM).
- Decussação piramidal: bulbo caudal (CST).
- SAL: já cruzado na medula; mantém trajeto ascendente.
C) Ponte
Na ponte, pense em “faixas”: o lemnisco medial tende a ocupar posição mais medial do que o SAL. O CST segue em posição mais ventral (base pontina), como feixes longitudinais.
PONTE (esquemático) VENTRAL (base): [CST em feixes longitudinais] TEGMENTO: [LM mais medial] [SAL mais lateral]D) Mesencéfalo
No mesencéfalo, o CST concentra-se nos pedúnculos cerebrais (porção ventral). As vias sensitivas (LM e SAL) seguem no tegmento, com o padrão relativo “LM mais medial, SAL mais lateral” como regra prática de orientação.
MESENCÉFALO (esquemático) VENTRAL: [Pedúnculo cerebral: CST] TEGMENTO: [LM (medial)] [SAL (lateral)]Passo a passo prático para localizar um trato em um corte axial
Passo 1 — Identifique o nível pelo “marco grosseiro”
- Medula: cornos bem definidos; colunas dorsais evidentes.
- Bulbo: pirâmides ventrais; núcleos grácil/cuneiforme dorsais; oliva (quando presente) ajuda a orientar.
- Ponte: base pontina volumosa (ventral) e tegmento dorsal.
- Mesencéfalo: pedúnculos cerebrais ventrais; aqueduto e colículos como referência dorsal.
Passo 2 — Marque mentalmente o eixo dorsal–ventral e medial–lateral
Antes de “caçar” tratos, fixe a linha média e a face dorsal/ventral do corte. Muitos erros de localização vêm de inversão de orientação.
Passo 3 — Aplique as três regras de posição
- CD/LM: dorsal na medula; vira LM medial no tronco após cruzar no bulbo.
- SAL: anterolateral na medula; no tronco tende a permanecer mais lateral que o LM.
- CST: ventral no tronco (pirâmides/pedúnculos); na medula, principalmente lateral (CST lateral).
Passo 4 — Determine o lado do déficit esperado pela decussação
- CD–LM: lesão na medula → déficit sensorial ipsilateral; lesão acima da decussação sensitiva (bulbo rostral e acima) → contralateral.
- SAL: lesão na medula → déficit sensorial contralateral (geralmente iniciando alguns níveis abaixo do nível da lesão, por causa do trajeto antes de cruzar).
- CST: lesão acima da decussação piramidal → fraqueza contralateral; abaixo → ipsilateral.
Correlação com lesões: hemissecção medular (síndrome de Brown-Séquard como mapa)
Em hemissecção, o valor didático é ver como as três vias “se separam” espacialmente na medula e como isso determina lateralidade.
| Via | Onde está na medula | Já cruzou? | Achado típico em hemissecção (lado da lesão) |
|---|---|---|---|
| CD (grácil/cuneiforme) | Colunas dorsais (posterior) | Não (cruza no bulbo) | Déficit ipsilateral abaixo da lesão |
| CST lateral | Funículo lateral | Sim (cruzou no bulbo caudal) | Fraqueza ipsilateral abaixo da lesão |
| SAL (espinotalâmico) | Anterolateral | Sim (cruza na medula) | Déficit contralateral abaixo da lesão (frequentemente com “poupança” de 1–2 segmentos) |
Como exercício de localização: em um corte axial de medula, desenhe uma linha vertical dividindo direita/esquerda e marque três áreas: posterior (CD), lateral (CST), anterolateral (SAL). Depois, “apague” metade do corte e derive a lateralidade do déficit usando apenas os pontos de decussação.
Correlação com síndromes de tronco: padrões por localização (medial vs lateral)
No tronco encefálico, muitos quadros sindrômicos se organizam por territórios mediais e laterais. Para este capítulo, o objetivo é reconhecer onde passam LM, SAL e CST e prever combinações de sinais.
Regra prática: “medial tende a pegar CST e LM; lateral tende a pegar SAL”
- Lesões mediais (paramedianas) no tronco: maior chance de envolver CST (ventral/medial) e lemnisco medial (mais medial no tegmento).
- Lesões laterais: maior chance de envolver o SAL (mais lateral) e estruturas laterais adjacentes (o capítulo anterior detalha núcleos e nervos; aqui foque no “corredor” dos tratos).
Bulbo: contraste medial vs lateral (mapa de tratos)
| Território | Tratos mais prováveis | Padrão de lateralidade esperado |
|---|---|---|
| Bulbo medial | CST (pirâmide), LM (após decussação sensitiva) | Fraqueza contralateral (CST acima da decussação piramidal) + déficit sensorial do LM contralateral (LM já cruzado) |
| Bulbo lateral | SAL (anterolateral/lateral) | Déficit sensorial do SAL contralateral |
Ponte e mesencéfalo: mantenha o “layout”
Em ponte e mesencéfalo, a lógica de mapa se mantém: CST ventral (base/pedúnculo), LM mais medial no tegmento, SAL mais lateral. Assim, uma lesão ventral tende a “pegar motor”; uma lesão tegmentar medial tende a “pegar LM”; uma lesão tegmentar lateral tende a “pegar SAL”.
Quadro-resumo: origem, decussação, posição e destino
| Via | Origem (marco) | Decussação principal | Posição típica (medula/tronco) | Destino |
|---|---|---|---|---|
| CD–LM | Colunas dorsais (grácil/cuneiforme) | Bulbo: fibras arqueadas internas (decussação sensitiva) | Medula: dorsal; Tronco: LM mais medial | VPL talâmico → córtex somatossensorial |
| SAL (espinotalâmico) | Corno posterior | Medula: comissura branca anterior | Medula: anterolateral; Tronco: mais lateral que LM | VPL talâmico (principal) → córtex somatossensorial |
| CST | Córtex motor | Bulbo caudal: decussação piramidal (principal) | Tronco: ventral (pirâmides/pedúnculos); Medula: funículo lateral (principal) | Corno anterior (via interneurônios/motoneurônios) |