Neuroanatomia das vias sensoriais e motoras: mapa anatômico de tratos no neuroeixo

Capítulo 14

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

Mapa anatômico progressivo das principais vias longas

Neste capítulo, o foco é construir um “mapa de navegação” ao longo do neuroeixo para três sistemas de tratos: colunas dorsais–lemnisco medial (CD–LM), sistema anterolateral (SAL/espinotalâmico) e trato corticospinal (CST). A ideia prática é sempre responder a quatro perguntas anatômicas: (1) onde nasce, (2) onde cruza (decussa), (3) onde corre em cada nível (posição relativa), (4) onde termina (tálamo/córtex).

Regra de ouro para localização

  • CD–LM cruza no bulbo (decussação sensitiva) e sobe como lemnisco medial.
  • SAL cruza na medula (comissura branca anterior) e sobe anterolateralmente.
  • CST cruza no bulbo caudal (decussação piramidal) e desce no funículo lateral (principalmente).

1) Colunas dorsais–Lemnisco medial (CD–LM)

Origem e primeiro neurônio (marco anatômico)

As fibras entram pela raiz dorsal e ascendem ipsilateralmente nas colunas dorsais até o bulbo. Em termos de “mapa”, pense em dois feixes no dorso da medula:

  • Fascículo grácil: mais medial (informação de membros inferiores e tronco inferior).
  • Fascículo cuneiforme: mais lateral (membros superiores e tronco superior; aparece acima de níveis torácicos altos).

Primeira sinapse e decussação principal

No bulbo, as fibras terminam nos núcleos grácil e cuneiforme (dorsais). A partir daí, fibras arqueadas internas cruzam a linha média formando a decussação sensitiva e organizam-se como lemnisco medial.

Destino talâmico e cortical (em termos anatômicos)

O lemnisco medial projeta-se ao tálamo (núcleo ventral póstero-lateral, VPL), e daí segue para o córtex somatossensorial primário (topografia somatotópica preservada, mas o capítulo enfatiza o trajeto e a posição).

2) Sistema anterolateral (SAL / trato espinotalâmico)

Origem e entrada na medula

As fibras entram pela raiz dorsal e fazem sinapse no corno posterior. O ponto-chave para localização é que o SAL cruza cedo na medula.

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Decussação principal (medula)

Após sinapse, neurônios de segunda ordem cruzam pela comissura branca anterior (em geral a poucos segmentos do nível de entrada) e passam a ascender no funículo anterolateral contralateral.

Posição relativa e destino

O SAL sobe no quadrante anterolateral da medula e, no tronco encefálico, mantém-se em posição mais lateral quando comparado ao lemnisco medial. O destino clássico para “mapa” é o VPL talâmico, com projeção subsequente ao córtex somatossensorial.

3) Trato corticospinal (CST)

Origem cortical e trajeto supratentorial (apenas marcos necessários)

O CST origina-se no córtex motor e desce por estruturas profundas até alcançar o tronco. Para o mapa do neuroeixo, o essencial é reconhecer sua forma no tronco e o ponto de cruzamento.

Tronco encefálico e decussação piramidal

No bulbo ventral, o CST forma as pirâmides. No bulbo caudal, ocorre a decussação piramidal:

  • Trato corticospinal lateral: fibras que cruzam e descem no funículo lateral contralateral (maioria).
  • Trato corticospinal anterior: fibras que permanecem mais anteriores e cruzam segmentarmente em níveis medulares (menor proporção; útil para lembrar que nem toda fibra cruza no bulbo).

Destino segmentar

As fibras terminam em interneurônios e motoneurônios do corno anterior (organização segmentar). Para localização clínica, o ponto crítico é: acima da decussação piramidal o déficit motor por lesão do CST tende a ser contralateral; abaixo, tende a ser ipsilateral.

Diagramas comparativos por nível (medula → bulbo → ponte → mesencéfalo)

Os diagramas abaixo são “mapas de posição relativa” (dorsal/ventral, medial/lateral). Use-os como referência rápida ao interpretar cortes axiais em neuroimagem ou correlação sindrômica.

A) Medula espinal (corte axial: orientação)

DORSAL (posterior)  [Colunas dorsais: Grácil (medial) | Cuneiforme (lateral)]  <-- CD (ipsilateral)  LATERAL: [CST lateral]            ANTEROLATERAL: [SAL/espinotalâmico]  VENTRAL (anterior)
  • CD: dorsal, bem posterior; grácil medial, cuneiforme lateral.
  • SAL: anterolateral, já contralateral após cruzar na comissura branca anterior.
  • CST lateral: lateral (pós-decussação piramidal), próximo ao funículo lateral.

B) Bulbo (medula oblonga)

O bulbo é o nível em que as três vias “mudam de forma” de maneira mais didática: CD vira lemnisco medial após cruzar; CST cruza nas pirâmides; SAL segue mais lateral.

BULBO (esquemático)  DORSAL: [Núcleos grácil/cuneiforme] --(fibras arqueadas internas cruzam)--> [Lemnisco medial (LM)]  VENTRAL: [Pirâmides (CST)] --(decussação piramidal caudal)--> [CST lateral]  LATERAL: [SAL/espinotalâmico] (ascende)
  • Decussação sensitiva: no bulbo (CD → LM).
  • Decussação piramidal: bulbo caudal (CST).
  • SAL: já cruzado na medula; mantém trajeto ascendente.

C) Ponte

Na ponte, pense em “faixas”: o lemnisco medial tende a ocupar posição mais medial do que o SAL. O CST segue em posição mais ventral (base pontina), como feixes longitudinais.

PONTE (esquemático)  VENTRAL (base): [CST em feixes longitudinais]  TEGMENTO: [LM mais medial]   [SAL mais lateral]

D) Mesencéfalo

No mesencéfalo, o CST concentra-se nos pedúnculos cerebrais (porção ventral). As vias sensitivas (LM e SAL) seguem no tegmento, com o padrão relativo “LM mais medial, SAL mais lateral” como regra prática de orientação.

MESENCÉFALO (esquemático)  VENTRAL: [Pedúnculo cerebral: CST]  TEGMENTO: [LM (medial)]   [SAL (lateral)]

Passo a passo prático para localizar um trato em um corte axial

Passo 1 — Identifique o nível pelo “marco grosseiro”

  • Medula: cornos bem definidos; colunas dorsais evidentes.
  • Bulbo: pirâmides ventrais; núcleos grácil/cuneiforme dorsais; oliva (quando presente) ajuda a orientar.
  • Ponte: base pontina volumosa (ventral) e tegmento dorsal.
  • Mesencéfalo: pedúnculos cerebrais ventrais; aqueduto e colículos como referência dorsal.

Passo 2 — Marque mentalmente o eixo dorsal–ventral e medial–lateral

Antes de “caçar” tratos, fixe a linha média e a face dorsal/ventral do corte. Muitos erros de localização vêm de inversão de orientação.

Passo 3 — Aplique as três regras de posição

  • CD/LM: dorsal na medula; vira LM medial no tronco após cruzar no bulbo.
  • SAL: anterolateral na medula; no tronco tende a permanecer mais lateral que o LM.
  • CST: ventral no tronco (pirâmides/pedúnculos); na medula, principalmente lateral (CST lateral).

Passo 4 — Determine o lado do déficit esperado pela decussação

  • CD–LM: lesão na medula → déficit sensorial ipsilateral; lesão acima da decussação sensitiva (bulbo rostral e acima) → contralateral.
  • SAL: lesão na medula → déficit sensorial contralateral (geralmente iniciando alguns níveis abaixo do nível da lesão, por causa do trajeto antes de cruzar).
  • CST: lesão acima da decussação piramidal → fraqueza contralateral; abaixo → ipsilateral.

Correlação com lesões: hemissecção medular (síndrome de Brown-Séquard como mapa)

Em hemissecção, o valor didático é ver como as três vias “se separam” espacialmente na medula e como isso determina lateralidade.

ViaOnde está na medulaJá cruzou?Achado típico em hemissecção (lado da lesão)
CD (grácil/cuneiforme)Colunas dorsais (posterior)Não (cruza no bulbo)Déficit ipsilateral abaixo da lesão
CST lateralFunículo lateralSim (cruzou no bulbo caudal)Fraqueza ipsilateral abaixo da lesão
SAL (espinotalâmico)AnterolateralSim (cruza na medula)Déficit contralateral abaixo da lesão (frequentemente com “poupança” de 1–2 segmentos)

Como exercício de localização: em um corte axial de medula, desenhe uma linha vertical dividindo direita/esquerda e marque três áreas: posterior (CD), lateral (CST), anterolateral (SAL). Depois, “apague” metade do corte e derive a lateralidade do déficit usando apenas os pontos de decussação.

Correlação com síndromes de tronco: padrões por localização (medial vs lateral)

No tronco encefálico, muitos quadros sindrômicos se organizam por territórios mediais e laterais. Para este capítulo, o objetivo é reconhecer onde passam LM, SAL e CST e prever combinações de sinais.

Regra prática: “medial tende a pegar CST e LM; lateral tende a pegar SAL”

  • Lesões mediais (paramedianas) no tronco: maior chance de envolver CST (ventral/medial) e lemnisco medial (mais medial no tegmento).
  • Lesões laterais: maior chance de envolver o SAL (mais lateral) e estruturas laterais adjacentes (o capítulo anterior detalha núcleos e nervos; aqui foque no “corredor” dos tratos).

Bulbo: contraste medial vs lateral (mapa de tratos)

TerritórioTratos mais prováveisPadrão de lateralidade esperado
Bulbo medialCST (pirâmide), LM (após decussação sensitiva)Fraqueza contralateral (CST acima da decussação piramidal) + déficit sensorial do LM contralateral (LM já cruzado)
Bulbo lateralSAL (anterolateral/lateral)Déficit sensorial do SAL contralateral

Ponte e mesencéfalo: mantenha o “layout”

Em ponte e mesencéfalo, a lógica de mapa se mantém: CST ventral (base/pedúnculo), LM mais medial no tegmento, SAL mais lateral. Assim, uma lesão ventral tende a “pegar motor”; uma lesão tegmentar medial tende a “pegar LM”; uma lesão tegmentar lateral tende a “pegar SAL”.

Quadro-resumo: origem, decussação, posição e destino

ViaOrigem (marco)Decussação principalPosição típica (medula/tronco)Destino
CD–LMColunas dorsais (grácil/cuneiforme)Bulbo: fibras arqueadas internas (decussação sensitiva)Medula: dorsal; Tronco: LM mais medialVPL talâmico → córtex somatossensorial
SAL (espinotalâmico)Corno posteriorMedula: comissura branca anteriorMedula: anterolateral; Tronco: mais lateral que LMVPL talâmico (principal) → córtex somatossensorial
CSTCórtex motorBulbo caudal: decussação piramidal (principal)Tronco: ventral (pirâmides/pedúnculos); Medula: funículo lateral (principal)Corno anterior (via interneurônios/motoneurônios)

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em uma hemissecção medular, qual combinação de achados abaixo é mais compatível com o acometimento conjunto das vias CD (colunas dorsais) e CST lateral no lado da lesão?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Na medula, a via CD ainda não cruzou (cruza no bulbo), causando déficit ipsilateral. O CST lateral já cruzou no bulbo caudal e desce no funículo lateral, portanto uma lesão medular o afeta ipsilateralmente abaixo do nível.

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Neuroanatomia aplicada à leitura de imagens: RM e TC do encéfalo, tronco e medula por cortes

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