Neuroanatomia aplicada à leitura de imagens: RM e TC do encéfalo, tronco e medula por cortes

Capítulo 15

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

Este capítulo foca em como reconhecer a anatomia em RM e TC por cortes, usando um roteiro repetível. A ideia é reduzir a “procura aleatória” e transformar cada imagem em uma sequência de decisões: qual plano? qual nível? quais âncoras de líquor? o que obrigatoriamente deve aparecer aqui?

1) Primeiro passo: identificar o plano e a orientação

1.1 Planos mais usados

  • Axial: cortes “horizontais” (do vértex para a base). É o plano mais comum para triagem e para localizar núcleos da base, tálamo e tronco.
  • Coronal: cortes “de frente para trás”. Excelente para relações ventrículo–tálamo, cápsula interna e hipocampo (quando aplicável).
  • Sagital: cortes “de lado”. Ótimo para corpo caloso, tronco em perfil, vermis cerebelar e medula cervical.

1.2 Convenções de orientação (evitar erros de lateralidade)

  • Na maioria dos visualizadores, em axial você “olha de baixo para cima”: o lado direito do paciente aparece à esquerda da tela.
  • Em coronal, você “olha de frente”: novamente, direita do paciente costuma aparecer à esquerda da tela.
  • Em sagital, confirme se é corte pela direita ou esquerda (marcação R/L).

Regra prática: antes de nomear qualquer estrutura, localize o marcador R/L e identifique anterior/posterior (ex.: órbitas = anterior; cerebelo = posterior).

2) Segundo passo: reconhecer a modalidade e a sequência (apenas para orientar contraste anatômico)

2.1 TC de crânio (sem contraste, na maioria das leituras anatômicas iniciais)

  • Osso muito hiperdenso (branco), LCR hipodenso (escuro), substância cinzenta levemente mais densa que a branca.
  • Útil para ver bem calota, base do crânio e calcificações; a diferenciação cinzenta/branca é mais sutil do que na RM.

2.2 RM: T1, T2, FLAIR, DWI (padrões visuais rápidos)

SequênciaLCR (ventrículos/cisternas)Cinzenta vs branca (tendência)Uso aqui
T1EscuroBranca relativamente mais clara que cinzentaContornos anatômicos, limites de núcleos e tratos
T2ClaroCinzenta relativamente mais clara que brancaRealçar espaços de líquor como âncoras
FLAIREscuro (LCR suprimido)Cinzenta mais clara que brancaVer parênquima “sem o brilho do LCR”, útil para sulcos e regiões periventriculares
DWIVariável (não use como referência principal de LCR)Contraste próprioUse para orientação anatômica geral, mas confirme estruturas em T1/T2/FLAIR

Regra prática: para “ancorar” níveis por ventrículos/cisternas, T2 ajuda (LCR claro). Para desenhar limites de substância branca, T1 costuma ser mais intuitivo.

3) Terceiro passo: usar ventrículos e cisternas como âncoras de nível

Em leitura por cortes, o caminho mais confiável é começar pelo LCR: ele desenha cavidades e espaços que mudam de forma de maneira previsível ao longo do neuroeixo. Depois, você “pendura” as estruturas sólidas ao redor dessas âncoras.

3.1 Âncoras supratentoriais (encéfalo)

  • Ventrículos laterais: cornos frontal/occipital/temporal e corpo; ajudam a estimar se você está mais anterior, superior ou inferior.
  • Terceiro ventrículo: linha média; quando aparece bem, você está no nível do diencéfalo (tálamo ao redor) e de estruturas profundas.
  • Cisterna suprasselar/quiasmática (base): indica nível de sela/hipotálamo e proximidade de mesencéfalo rostral.
  • Cisterna ambiens (ao redor do mesencéfalo): “abraça” o mesencéfalo em cortes axiais mais baixos.

3.2 Âncoras infratentoriais (tronco e cerebelo)

  • Quarto ventrículo: “losango/triângulo” entre ponte/bulbo e cerebelo; define níveis do tronco.
  • Cisterna magna: posterior ao bulbo e inferior ao cerebelo; indica transição crânio–cervical.
  • Cisternas prepontina e cerebelopontina: ajudam a localizar a face anterior da ponte e o ângulo ponto-cerebelar.

3.3 Âncoras da medula espinal

  • Canal central (nem sempre visível), espaço subaracnoide ao redor da medula (LCR em T2), e o contorno do canal vertebral (TC/RM).
  • Transição bulbo–medular: costuma ser reconhecida pela mudança de morfologia do tronco e pela relação com forame magno/cisterna magna.

4) Roteiro sistemático por corte (o “algoritmo” de leitura anatômica)

Use sempre a mesma ordem. Isso reduz esquecimentos e melhora a velocidade.

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4.1 Algoritmo em 7 passos

  1. Plano e orientação: axial/coronal/sagital + R/L + anterior/posterior.
  2. Sequência/modalidade: TC, T1, T2, FLAIR, DWI (apenas para saber como o LCR e a substância branca vão aparecer).
  3. Nível por âncora de LCR: ventrículos/cisternas/4º ventrículo/cisterna magna.
  4. Compartimento: supratentorial vs infratentorial; acima/abaixo do tentório muda o “mapa” do que é esperado.
  5. Estruturas de linha média: foice, septo, 3º ventrículo, tronco, vermis (dependendo do nível).
  6. Estruturas profundas: tálamo, núcleos da base, cápsula interna (quando presentes no nível).
  7. Córtex e lobos: confirme qual lobo predomina no corte (anterior = frontal; posterior = occipital; inferior lateral = temporal; superior posterior = parietal), usando sulcos e posição relativa aos ventrículos.

Dica de consistência: em cada corte, force-se a dizer em voz alta (ou mentalmente) três coisas: plano, nível, âncora de LCR. Só depois nomeie núcleos e tratos.

5) Localização prática de estruturas-chave por níveis (encéfalo, tronco, cerebelo, medula)

A seguir, um guia de “o que procurar primeiro” em níveis típicos. A intenção é treinar reconhecimento espacial, não repetir descrições extensas já vistas em capítulos anteriores.

5.1 Axial supratentorial: do alto para baixo

Nível A: centro semioval (acima dos ventrículos laterais)

  • Âncora: ausência de ventrículos; sulcos corticais e substância branca ampla.
  • O que localizar: convexidade cortical (lobos), fissura inter-hemisférica, padrão de giros/sulcos, substância branca subcortical.
  • Erro comum: confundir sulcos profundos com fissuras; confirme pela continuidade e simetria.

Nível B: corpo dos ventrículos laterais

  • Âncora: ventrículos laterais visíveis bilateralmente.
  • O que localizar: corpo ventricular, septo/linha média, relação com substância branca periventricular.
  • Checklist rápido: ventrículo lateral (corpo) + córtex frontal/parietal no mesmo corte.

Nível C: núcleos da base e cápsula interna (nível “clássico”)

  • Âncoras: cornos frontais dos ventrículos laterais e/ou 3º ventrículo começando a aparecer; fissura de Sylvius lateral.
  • O que localizar em sequência:
    1. Cabeça do núcleo caudado (adjacente ao corno frontal).
    2. Núcleo lentiforme mais lateral.
    3. Cápsula interna como faixa de substância branca entre caudado/tálamo (medial) e lentiforme (lateral), dependendo do nível (braço anterior/joelho/braço posterior).
    4. Ínsula profunda à fissura de Sylvius, com substância branca subinsular.
  • Regra prática de orientação: do centro para fora: ventrículo → caudado/tálamo (mais medial) → cápsula interna → lentiforme → cápsula externa/claustro/cápsula extrema (quando visíveis) → ínsula.

Nível D: tálamo e terceiro ventrículo

  • Âncora: 3º ventrículo bem definido na linha média.
  • O que localizar: tálamos como massas pareadas laterais ao 3º ventrículo; identificar a transição para regiões mais inferiores (cisternas basais começam a ganhar destaque).
  • Erro comum: chamar tálamo de “núcleo da base”; use a âncora do 3º ventrículo para confirmar o nível diencefálico.

Nível E: cisternas basais e mesencéfalo rostral

  • Âncoras: cisterna suprasselar e cisternas ao redor do mesencéfalo (padrão em “anel” de LCR em T2).
  • O que localizar: pedúnculos cerebrais (anteriores), tegmento (mais central), aqueduto (pequeno ponto/linha de LCR quando visível), colículos em níveis mais caudais.

5.2 Axial infratentorial: ponte e bulbo

Nível F: ponte (com quarto ventrículo)

  • Âncora: 4º ventrículo posterior à ponte; cisterna prepontina anterior.
  • O que localizar: ponte anterior (base pontina), tegmento pontino, pedúnculos cerebelares (laterais), cerebelo posterior.
  • Regra prática: se há 4º ventrículo e uma grande estrutura anterior arredondada (ponte), você está no nível pontino.

Nível G: bulbo (próximo à cisterna magna)

  • Âncoras: cisterna magna posterior/inferior; 4º ventrículo pode afunilar para o canal central.
  • O que localizar: bulbo na linha média anterior ao LCR, cerebelo posterior, transição para junção crânio-cervical.

5.3 Sagital: perfil do neuroeixo (encéfalo–tronco–medula)

  • Âncoras: corpo caloso (superior), 3º ventrículo (linha média), aqueduto, 4º ventrículo, cisterna magna, continuidade com medula cervical.
  • O que localizar: tronco encefálico em três segmentos (mesencéfalo–ponte–bulbo) e cerebelo (vermis em linha média).
  • Uso prático: confirmar “em que altura” está um corte axial/coronal (correlacionar com localizador/scout quando disponível).

5.4 Coronal: relações latero-mediais (útil para cápsula interna e tálamo)

  • Âncoras: ventrículos laterais (corpos/cornos) e 3º ventrículo conforme o nível.
  • O que localizar: simetria dos hemisférios, profundidade da fissura de Sylvius, posição relativa de tálamo e núcleos da base, e a cápsula interna como separador de massas cinzentas profundas.

5.5 Medula espinal por cortes (RM axial e sagital)

  • Âncora: LCR ao redor da medula em T2 (anel claro), e o canal vertebral/ossos em TC.
  • Passo a passo no axial:
    1. Identifique anterior/posterior pela morfologia do canal e elementos posteriores (lâminas/processos espinhosos em TC; elementos posteriores em RM).
    2. Localize o contorno da medula e a substância cinzenta central (formato em “H” quando bem definida).
    3. Divida mentalmente em quadrantes: anterior (motor), posterior (sensitivo), laterais (tratos).
  • Passo a passo no sagital: siga a continuidade bulbo–medula cervical; observe espessamentos e relação com discos/corpos vertebrais (sem entrar em patologia).

6) Estratégias de “triangulação” para não se perder

6.1 Triangulação por três referências fixas

  • LCR (ventrículos/cisternas) define o nível.
  • Osso/base do crânio (na TC e parcialmente na RM) define anterior/posterior e proximidade da base.
  • Estrutura de linha média (3º ventrículo, tronco, vermis) confirma simetria e evita confusão direita/esquerda.

6.2 Quando a imagem está “difícil”: volte para o que é mais fácil

  • Se não reconhece núcleos profundos, volte e identifique primeiro: ventrículos/cisternas + fissura de Sylvius + linha média.
  • Se o contraste não ajuda (ex.: DWI), use a série T1/T2/FLAIR para nomear estruturas e depois retorne à sequência inicial.

7) Exercícios guiados (sem imagem): simule a leitura por níveis

Faça os exercícios como se estivesse narrando uma leitura. A meta é treinar o roteiro, não “decorar” listas.

Exercício 1: axial supratentorial alto (centro semioval)

  • Tarefa: descreva em 20–30 segundos: plano, orientação, e três estruturas que você espera ver.
  • Perguntas-guia: há ventrículos? qual lobo predomina na porção anterior do corte? onde está a fissura inter-hemisférica?
  • Auto-checagem: se você citou tálamo ou núcleos da base, provavelmente está baixo demais para este nível.

Exercício 2: axial no nível dos núcleos da base/cápsula interna

  • Tarefa: identifique a âncora (corno frontal/3º ventrículo) e descreva o “caminho do centro para fora”.
  • Sequência sugerida de fala: “ventrículo lateral → caudado → cápsula interna → lentiforme → ínsula”.
  • Auto-checagem: confirme a fissura de Sylvius lateral para validar a posição da ínsula.

Exercício 3: axial no nível do tálamo e 3º ventrículo

  • Tarefa: localize o 3º ventrículo e nomeie as estruturas imediatamente laterais a ele.
  • Perguntas-guia: o 3º ventrículo está centrado? as massas laterais são simétricas? há sinais de cisternas basais já evidentes?

Exercício 4: axial infratentorial no nível da ponte

  • Tarefa: identifique 4º ventrículo, ponte e cerebelo no mesmo corte.
  • Perguntas-guia: onde está a cisterna prepontina? o 4º ventrículo está posterior à ponte? quais estruturas laterais conectam ponte e cerebelo (pedúnculos)?

Exercício 5: axial na junção bulbo–medular

  • Tarefa: diferencie bulbo de medula cervical alta usando âncoras de LCR e relação com forame magno/cisterna magna.
  • Perguntas-guia: o espaço de LCR posterior é amplo (cisterna magna)? o 4º ventrículo ainda aparece ou já afunilou?

Exercício 6: medula em RM axial (nível cervical)

  • Tarefa: identifique anterior/posterior, contorno medular e substância cinzenta central.
  • Perguntas-guia: o LCR em T2 forma um anel claro? a substância cinzenta tem formato em “H”? onde você colocaria mentalmente os quadrantes anterior/posterior?

8) Checklists de marcos obrigatórios por corte (para usar como “lista de verificação”)

8.1 Checklist axial supratentorial (alto)

  • Plano/orientação confirmados (R/L; anterior/posterior)
  • Fissura inter-hemisférica identificada
  • Convexidade cortical e sulcos principais do corte
  • Presença/ausência de ventrículos laterais (define se está acima ou no nível ventricular)

8.2 Checklist axial no nível ventricular (corpo/cornos)

  • Ventrículos laterais (qual porção: corno frontal/corpo/corno occipital/temporal)
  • Lobo predominante anterior e posterior no corte
  • Fissura de Sylvius (se visível) para orientar lateralidade e profundidade

8.3 Checklist axial no nível núcleos da base/cápsula interna

  • Corno frontal e/ou corpo do ventrículo lateral
  • Cabeça do caudado (adjacente ao ventrículo)
  • Núcleo lentiforme (mais lateral)
  • Cápsula interna (faixa de substância branca entre massas cinzentas)
  • Ínsula (profunda à fissura de Sylvius)

8.4 Checklist axial no nível tálamo/3º ventrículo

  • 3º ventrículo na linha média
  • Tálamos laterais ao 3º ventrículo
  • Cisternas basais (se o corte for mais inferior)

8.5 Checklist axial infratentorial (ponte)

  • 4º ventrículo (posterior)
  • Ponte (anterior ao 4º ventrículo)
  • Cerebelo (posterior/lateral)
  • Cisterna prepontina (anterior à ponte, quando visível)

8.6 Checklist axial infratentorial (bulbo/junção crânio-cervical)

  • Cisterna magna (posterior/inferior)
  • Bulbo na linha média anterior ao LCR
  • Transição para medula cervical (mudança de morfologia e relação com forame magno)

8.7 Checklist medular (RM axial)

  • Anterior/posterior confirmados por referências ósseas/elementos posteriores
  • Contorno da medula e espaço subaracnoide ao redor
  • Substância cinzenta central (quando visível) e divisão mental em quadrantes

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao aplicar um roteiro sistemático para reconhecer a anatomia em cortes de RM/TC, qual estratégia ajuda mais a definir o nível do corte antes de nomear estruturas profundas?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O LCR em ventrículos e cisternas funciona como a âncora mais confiável para definir o nível do corte, pois muda de forma previsível. Depois disso, as estruturas sólidas ao redor são identificadas com mais segurança.

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