Neuroanatomia das meninges, espaços meníngeos e seios venosos durais

Capítulo 8

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

As meninges são três camadas que envolvem encéfalo e medula, funcionando como proteção mecânica, compartimentalização e via de drenagem venosa. Do ponto de vista anatômico e de imagem, o mais importante é entender: (1) quais camadas estão aderidas ao osso ou ao encéfalo, (2) quais “espaços” existem de fato e quais são potenciais, e (3) como as pregas da dura-máter formam compartimentos e seios venosos durais.

Dura-máter: camada periosteal, camada meníngea e pregas durais

Organização e relações ósseas básicas

No crânio, a dura-máter tem duas lâminas: a periosteal (aderida à tábua interna dos ossos do crânio) e a meníngea (mais interna). Em muitos pontos elas estão fusionadas; onde se separam, formam os seios venosos durais. Essa aderência ao osso explica por que descolamentos durais tendem a respeitar suturas cranianas em certas coleções.

  • Calvária (frontal, parietais, occipital): superfície interna onde a dura periosteal se fixa firmemente.
  • Base do crânio: aderência dural é particularmente forte em regiões como a porção petrosa do temporal e ao redor de forames, o que influencia trajetos de seios e nervos.

Pregas durais (reflexões) e compartimentos

As pregas são dobras da lâmina meníngea que criam “paredes” internas, estabilizam o encéfalo e delimitam vias venosas. Três estruturas são essenciais:

  • Foice do cérebro (falx cerebri): lâmina vertical na fissura inter-hemisférica, separando parcialmente os hemisférios. Sua borda superior se fixa na calvária ao longo da linha média; a borda inferior é livre e acompanha o corpo caloso.
  • Tenda do cerebelo (tentorium cerebelli): lâmina horizontal que separa compartimento supratentorial (hemisférios) do infratentorial (cerebelo e tronco). Possui incisura tentorial (abertura) por onde passa o mesencéfalo.
  • Diafragma da sela (diaphragma sellae): pequena lâmina sobre a sela túrcica, com abertura para a haste hipofisária; relaciona-se com o seio cavernoso lateralmente.

Aracnoide e pia-máter: interface com o líquor e com o encéfalo

Aracnoide

A aracnoide é uma membrana fina que reveste internamente a dura, mas não é firmemente aderida a ela. Abaixo da aracnoide existe o espaço subaracnoide, preenchido por líquor e atravessado por trabéculas aracnoideas e vasos. A aracnoide forma granulações aracnoideas (vilosidades) que protrudem para os seios durais, participando da reabsorção do líquor.

Pia-máter

A pia é a camada mais íntima, aderida à superfície do encéfalo, acompanhando giros e sulcos. Vasos piais percorrem sua superfície antes de penetrar no parênquima.

Continue em nosso aplicativo e ...
  • Ouça o áudio com a tela desligada
  • Ganhe Certificado após a conclusão
  • + de 5000 cursos para você explorar!
ou continue lendo abaixo...
Download App

Baixar o aplicativo

Espaços meníngeos: epidural, subdural e subaracnoide

Em neuroanatomia aplicada e imagem, a chave é distinguir espaços reais de espaços potenciais e prever o formato das coleções.

Espaço epidural (extradural)

No crânio, o espaço epidural é potencial: surge quando há descolamento da dura periosteal do osso (por sangue, pus ou ar). Como a dura é firmemente aderida às suturas, coleções epidurais tipicamente não cruzam suturas, mas podem cruzar a linha média dependendo do local e das aderências.

  • Implicação anatômica clássica: ruptura arterial (frequentemente artéria meníngea média) pode gerar hematoma epidural com efeito de massa rápido.
  • Formato em imagem: coleção biconvexa/lentiforme, limitada por suturas.

Espaço subdural

Entre dura meníngea e aracnoide existe um espaço potencial (subdural), que se torna real quando há separação por sangue/fluido. Veias de ponte (bridging veins) atravessam do espaço subaracnoide para os seios durais; sua ruptura favorece hematoma subdural.

  • Implicação anatômica: por não estar preso às suturas como o epidural, o subdural pode cruzar suturas, mas tende a ser limitado por reflexões durais (por exemplo, foice e tenda), o que influencia extensão entre compartimentos.
  • Formato em imagem: coleção em crescente (semilunar) ao longo da convexidade.

Espaço subaracnoide

É um espaço real, com líquor, cisternas e vasos. Hemorragia subaracnoide se distribui pelos sulcos e cisternas, acompanhando a anatomia do líquor.

  • Implicação anatômica: sangue pode se acumular em cisternas basais e fissuras, e também alcançar o sistema ventricular dependendo da comunicação e do volume.
  • Formato em imagem: hiperdensidade em sulcos/cisternas na TC; na RM, padrões dependem da sequência e do tempo do sangramento.

Como localizar pregas durais e seios: mapa mental por marcos ósseos

Linha média da calvária e foice do cérebro

Ao longo da linha média interna da calvária, a foice se fixa superiormente. Nessa fixação corre o seio sagital superior. A borda inferior da foice contém o seio sagital inferior.

Junção foice–tenda e região occipital interna

Posteriormente, a foice encontra a tenda na região próxima à protuberância occipital interna (marco ósseo interno). Essa junção abriga o seio reto, que drena para a confluência dos seios (torcular).

Margens da tenda e transição para a base do crânio

As margens laterais/posteriores da tenda se inserem na região occipital e na porção petrosa do temporal, acompanhando o trajeto dos seios transversos que continuam como seios sigmoides até o forame jugular (continuidade com a veia jugular interna).

Sela túrcica e seio cavernoso

O seio cavernoso é um seio venoso dural na base do crânio, lateral à sela túrcica. É um ponto de convergência venosa e de relações neurovasculares importantes: a artéria carótida interna atravessa seu interior, e nervos cranianos percorrem sua parede lateral (relevante para correlação clínico-radiológica).

Seios venosos durais: principais trajetos e conexões

Os seios durais são canais venosos entre lâminas da dura, sem válvulas, que drenam sangue do encéfalo e também recebem líquor via granulações aracnoideas (especialmente no seio sagital superior).

SeioLocalização anatômicaDrenagem típica / continuidadePonto de imagem útil
Seio sagital superiorBorda superior da foice, aderida à calvária na linha médiaVeias corticais superficiais + granulações aracnoideas; drena para confluênciaGranulações podem simular defeitos de enchimento; avaliar morfologia e simetria
Seio sagital inferiorBorda inferior livre da foiceDrena para o seio retoMenor calibre; melhor visto em venografia por RM/TC
Seio retoJunção foice–tendaRecebe sagital inferior e veia cerebral magna; vai à confluênciaImportante em trombose venosa profunda
Seios transversosInserção posterior/lateral da tenda, região occipital internaDa confluência para lateral; continuam como sigmoidesAssimetria de calibre é comum; correlacionar com fluxo e dominância
Seios sigmoidesCurva em “S” na base do crânio, rumo ao forame jugularContinuam como veia jugular internaRelação com mastoide e porção petrosa; útil em infecções otogênicas
Seio cavernosoLateral à sela túrcicaConecta-se a seios petrosos e plexos venosos; recebe veias oftálmicasRealce/defeitos de enchimento e dilatação da veia oftálmica sugerem fístula/trombose

Como essas estruturas aparecem em imagem com contraste

TC com contraste e angio/venografia por TC

  • Seios durais: opacificam com contraste; defeitos de enchimento podem indicar trombose, granulações aracnoideas ou artefatos de fluxo.
  • Pregas durais: podem realçar discretamente; a tenda é frequentemente visível como linha/lamina hiperdensa na TC sem contraste e pode realçar após contraste.
  • Granulações aracnoideas: tipicamente arredondadas/ovais, em locais previsíveis (especialmente no seio sagital superior e transversos), com aspecto de “lacunas” sem sinais de expansão agressiva.

RM com contraste (T1 pós-contraste) e venografia por RM

  • Dura: realce linear fino pode ser normal; espessamento e realce difuso sugerem processos inflamatórios/hipotensão liquórica (correlação clínica necessária).
  • Seios venosos: fluxo normal gera sinal variável nas sequências convencionais; venografia (TOF ou contraste) ajuda a confirmar patência.
  • Seio cavernoso: avalie simetria, calibre, realce e relação com a carótida interna; atenção a sinais indiretos (dilatação de veia oftálmica superior, proptose, edema orbitário).

Diferenciando coleções por compartimento: passo a passo prático

Passo 1 — Identifique o padrão de distribuição

  • Em crescente ao longo da convexidade → sugere subdural.
  • Biconvexo/lentiforme focal → sugere epidural.
  • Preenchendo sulcos e cisternas → sugere subaracnoide.

Passo 2 — Verifique limites anatômicos (suturas e reflexões durais)

  • Epidural: geralmente não cruza suturas.
  • Subdural: pode cruzar suturas, mas tende a respeitar foice (não cruza facilmente a linha média) e pode ser compartimentalizado pela tenda (supratentorial vs infratentorial).
  • Subaracnoide: segue o “mapa do líquor” (sulcos/cisternas), podendo envolver fissuras e cisternas basais.

Passo 3 — Procure sinais acompanhantes que reforçam o compartimento

  • Subdural: pode haver desvio de linha média e apagamento de sulcos; em fases diferentes, densidade/sinal variam (agudo vs crônico).
  • Epidural: frequentemente associado a fratura adjacente; efeito de massa pode ser desproporcional ao volume.
  • Subaracnoide: atenção a sangue em cisternas basais e fissuras; investigar aneurisma/causa vascular conforme protocolo local.

Passo 4 — Use contraste/venografia quando a dúvida for venosa

Quando houver suspeita de trombose de seio dural (cefaleia, edema venoso, hemorragias atípicas), a confirmação exige avaliação do lúmen do seio:

  • Venografia por TC/RM: procura ausência de opacificação, defeitos de enchimento e circulação colateral.
  • Diferencie granulação aracnoidea de trombo: granulações são bem delimitadas, em locais típicos, sem expansão do seio; trombose pode causar aumento de calibre, edema venoso e alterações parenquimatosas.

Aplicações anatômicas rápidas (exemplos práticos)

Exemplo 1: coleção extra-axial após trauma

Na TC, uma coleção hiperdensa biconvexa na região temporoparietal, limitada por suturas, sugere hematoma epidural. A proximidade com a tábua interna e a relação com fratura ajudam a sustentar o diagnóstico anatômico.

Exemplo 2: coleção em crescente com extensão ampla

Uma coleção em crescente ao longo da convexidade frontal-parietal, cruzando suturas, com efeito de massa, é típica de subdural. Avalie se há extensão ao longo da foice (parafalcina) e se respeita compartimentos definidos pela tenda.

Exemplo 3: sangue em cisternas basais

Hiperdensidade em cisternas ao redor do tronco encefálico e nas fissuras sugere hemorragia subaracnoide. O padrão cisternal é uma pista anatômica de que o sangue está no espaço do líquor, não entre dura e aracnoide.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em uma TC de crânio após trauma, qual achado é mais compatível com hematoma epidural e ajuda a diferenciá-lo de coleções subdurais?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O hematoma epidural resulta do descolamento da dura periosteal do osso, formando coleção biconvexa e geralmente limitada pelas suturas. Já o subdural tende a ter formato em crescente e pode cruzar suturas.

Próximo capitúlo

Neuroanatomia do tronco encefálico: organização geral, colunas e nervos cranianos por níveis

Arrow Right Icon
Capa do Ebook gratuito Neuroanatomia Essencial: Organização do Encéfalo, Tronco e Medula
53%

Neuroanatomia Essencial: Organização do Encéfalo, Tronco e Medula

Novo curso

15 páginas

Baixe o app para ganhar Certificação grátis e ouvir os cursos em background, mesmo com a tela desligada.