Neuroanatomia das conexões do telencéfalo: corpo caloso, cápsula interna e corona radiata

Capítulo 4

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

Substância branca hemisférica como arquitetura de conectividade

A substância branca do telencéfalo pode ser entendida como um “sistema de cabos” que conecta regiões corticais entre si, conecta os dois hemisférios e leva/recebe informações entre córtex e estruturas profundas. Para organizar o raciocínio anatômico (e a leitura de neuroimagem), é útil separar as fibras em três grupos: associação (mesmo hemisfério), comissurais (entre hemisférios) e projeção (córtex ↔ diencéfalo/tronco/medula).

Mapa mental rápido (trajetos gerais)

ASSOCIAÇÃO (intra-hemisféricas): córtex ↔ córtex (mesmo lado)  COMISSURAIS (inter-hemisféricas): córtex ↔ córtex (lado oposto)  PROJEÇÃO: córtex ↔ tálamo / núcleos da base / tronco / medula

Na prática, em cortes axiais e coronais, você verá essas fibras como faixas de substância branca com posições relativamente constantes em relação a ventrículos laterais, tálamo e núcleos da base (caudado, putâmen e globo pálido).

Fibras de associação: conectividade dentro do mesmo hemisfério

As fibras de associação conectam áreas corticais do mesmo lado. Podem ser curtas (em “U”, entre giros adjacentes) ou longas (fascículos que percorrem grandes distâncias). Em neuroimagem, os fascículos longos são melhor inferidos por sua topografia (e vistos diretamente em tractografia por DTI), mas é possível reconhecer regiões onde eles passam.

Fascículo longitudinal superior (FLS)

Trajeto geral: conecta regiões frontais com parietais e temporais superiores, formando um grande “arco” lateral e superior ao redor da ínsula.

  • Onde procurar: substância branca lateral, acima e lateral à ínsula, próxima ao opérculo frontoparietal.
  • Em cortes axiais: aparece como substância branca lateral, entre córtex e a região periventricular, acompanhando o contorno do hemisfério.
  • Relações úteis: fica mais superficial do que a cápsula externa/extrema e mais lateral do que a cápsula interna.

Fascículo longitudinal inferior (FLI)

Trajeto geral: conecta lobo occipital a regiões temporais (especialmente temporais inferiores), seguindo um caminho ventral.

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  • Onde procurar: substância branca ventral do lobo temporal e occipital, próxima ao assoalho do corno temporal e ao corno occipital do ventrículo lateral.
  • Em cortes coronais posteriores: tende a ser inferolateral ao ventrículo lateral (corno occipital) e medial ao córtex occipital lateral.

Fascículo unciforme

Trajeto geral: conecta polo temporal/anterior do lobo temporal com regiões orbitofrontais; faz uma “curva em gancho” (uncus = gancho) na base do cérebro.

  • Onde procurar: substância branca anteroinferior, na transição frontotemporal, próxima à região da ínsula anterior e do polo temporal.
  • Dica de imagem: em cortes axiais baixos (nível do polo temporal), pense em um feixe que “vira” do temporal anterior para o frontal inferior.

Fascículo do cíngulo (cingulum)

Trajeto geral: corre dentro do giro do cíngulo e continua em direção parahipocampal, formando um “anel” medial ao redor do corpo caloso.

  • Onde procurar: substância branca imediatamente acima do corpo caloso (porção supracalosal) e depois seguindo para a região medial temporal.
  • Em cortes coronais: aparece como faixa de substância branca medial, superior ao corpo caloso e inferior ao córtex do cíngulo.

Fibras comissurais: conectividade entre hemisférios

As fibras comissurais cruzam a linha média para conectar áreas homólogas (ou relacionadas) dos dois hemisférios. O principal feixe é o corpo caloso, mas também existem a comissura anterior e a comissura posterior.

Corpo caloso: joelho, tronco e esplênio

O corpo caloso é a maior comissura do encéfalo. Em cortes sagitais medianos ele é muito evidente, mas em cortes axiais/coronais você o reconhece pela posição central e relação íntima com os ventrículos laterais.

ParteLocalização/formaRelações anatômicas úteisComo aparece em cortes
Joelho (genu)Porção anterior, curvatura para baixo e para frenteAnterior aos cornos frontais dos ventrículos lateraisAxial anterior: faixa branca medial anterior; Coronal anterior: arco branco acima dos cornos frontais
Tronco (corpo)Porção média, mais horizontalForma o “teto” do corpo do ventrículo lateral; cíngulo acimaAxial médio: banda branca central; Coronal médio: estrutura branca acima do ventrículo lateral
EsplênioPorção posterior, mais espessaPróximo aos cornos occipitais; relação com região pineal posterior (mais dorsal)Axial posterior: massa branca posterior na linha média; Coronal posterior: espessamento branco acima dos cornos occipitais

Comissura anterior

Trajeto geral: pequena comissura que cruza anteriormente, conectando principalmente regiões temporais anteriores e estruturas olfatórias/anteriores (dependendo da subdivisão anatômica).

  • Onde procurar: na linha média, anterior às colunas do fórnix e próxima à parede anterior do terceiro ventrículo (nível do forame interventricular/área anterior do diencéfalo).
  • Em cortes coronais anteriores: pequeno ponto/linha de substância branca na base do septo/área anterior, inferior ao corpo caloso.

Comissura posterior

Trajeto geral: pequena comissura dorsal, relacionada à região do teto do mesencéfalo e área pré-tectal.

  • Onde procurar: na linha média, próxima à região pineal e ao aqueduto cerebral (dorsal ao terceiro ventrículo posterior).
  • Em cortes axiais altos posteriores: estrutura pequena e mediana, posterior ao terceiro ventrículo.

Fibras de projeção: corona radiata e cápsula interna

As fibras de projeção conectam o córtex a estruturas profundas. Duas “peças” são essenciais para a orientação espacial: corona radiata (em leque, mais superior) e cápsula interna (mais compacta, profunda). Um modo prático de pensar: a corona radiata é a “abertura” superior das fibras; ao descerem, elas se “afunilam” e passam pela cápsula interna.

Corona radiata

Conceito: conjunto de fibras de projeção que se espalham em leque na substância branca subcortical, superior aos núcleos da base e ao tálamo.

  • Onde procurar: acima do nível do tálamo/núcleos da base, na substância branca profunda sob o córtex.
  • Em cortes axiais superiores: grande área de substância branca central, com sulcos e giros periféricos; não há ainda a “forma em V” típica da cápsula interna.
  • Relação com ventrículos: fica ao redor e acima do corpo do ventrículo lateral; a substância branca periventricular é parte importante desse território.

Cápsula interna: braço anterior, joelho e braço posterior

Conceito: feixe compacto de fibras de projeção que passa entre núcleos da base e tálamo. É uma referência anatômica central em neuroimagem por ser profunda, relativamente simétrica e por delimitar compartimentos.

Relações-chave (essenciais):

  • Medialmente: cabeça do núcleo caudado (mais anterior) e tálamo (mais posterior).
  • Lateralmente: núcleo lentiforme (putâmen e globo pálido).
  • Superiormente: continua com a corona radiata.
  • Inferiormente: continua com fibras que descem em direção ao tronco encefálico (sem necessidade de detalhar pedúnculos aqui).
SegmentoEntre quais estruturas?Como reconhecer em imagem
Braço anteriorEntre cabeça do caudado (medial) e núcleo lentiforme (lateral)Axial no nível dos núcleos da base (anterior): faixa branca anteromedial ao putâmen; ajuda a separar caudado do lentiforme
JoelhoCurvatura entre braço anterior e posteriorAxial: ponto de “dobradiça” do V da cápsula interna; costuma estar próximo ao forame interventricular em níveis médios
Braço posteriorEntre tálamo (medial) e núcleo lentiforme (lateral)Axial no nível do tálamo: faixa branca posterolateral ao tálamo; é a porção mais lembrada em correlação com AVC lacunar

Esquema espacial (axial, simplificado):

Medial → lateral  (anterior)  Caudado | Braço anterior da cápsula interna | Lentiforme  (posterior)  Tálamo  | Braço posterior da cápsula interna | Lentiforme

Como identificar em cortes coronais (passo a passo prático)

Use um método consistente: primeiro localize ventrículos, depois núcleos da base/tálamo, e então procure as faixas de substância branca que os separam.

Passo 1: ache os ventrículos laterais

  • Coronal anterior: cornos frontais (mais separados).
  • Coronal médio: corpo do ventrículo lateral, mais próximo do corpo caloso.
  • Coronal posterior: cornos occipitais e aproximação do esplênio.

Passo 2: identifique núcleos da base e tálamo pelo “andar” do corte

  • Mais anterior: predomina a cabeça do caudado junto ao ventrículo lateral.
  • Mais médio: aparece o núcleo lentiforme lateralmente.
  • Mais posterior: o tálamo torna-se grande e medial.

Passo 3: encontre a cápsula interna como “linha branca separadora”

  • Braço anterior: faixa branca entre caudado (medial) e lentiforme (lateral).
  • Joelho: mudança de direção da faixa branca (transição).
  • Braço posterior: faixa branca entre tálamo (medial) e lentiforme (lateral).

Passo 4: acima disso, reconheça a corona radiata

  • Subindo alguns cortes (mais superior), a cápsula interna “se abre” e vira uma área ampla de substância branca: corona radiata.

Passo 5: na linha média, identifique o corpo caloso e o cíngulo

  • Corpo caloso: banda branca central superior aos ventrículos.
  • Cíngulo: substância branca imediatamente acima do corpo caloso, sob o córtex do giro do cíngulo.

Como identificar em cortes axiais (passo a passo prático)

Passo 1: determine o nível do corte

  • Axiais altos: sem núcleos da base evidentes → pense em corona radiata.
  • Axiais médios: núcleos da base e tálamo visíveis → pense em cápsula interna.
  • Axiais posteriores: esplênio do corpo caloso e cornos occipitais mais evidentes.

Passo 2: no nível dos núcleos da base, use o “V” da cápsula interna

  • Procure uma área branca em forma de V/boomerang: a porção anterior do V é o braço anterior, o vértice é o joelho e a porção posterior é o braço posterior.
  • Medial ao braço anterior: cabeça do caudado.
  • Medial ao braço posterior: tálamo.
  • Lateral aos dois: núcleo lentiforme.

Passo 3: localize o corpo caloso como teto ventricular

  • Em axiais médios, o corpo caloso aparece como substância branca medial superior aos ventrículos laterais; anteriormente enfatiza o joelho, posteriormente o esplênio.

Relações com tálamo, núcleos da base e ventrículos (pontos de ancoragem)

  • Ventrículos laterais: servem como “mapa” para a substância branca periventricular; o corpo caloso forma o teto do corpo ventricular e se relaciona com os cornos frontal/occipital (joelho/esplênio).
  • Núcleo caudado: acompanha a parede lateral do ventrículo lateral; a cápsula interna (braço anterior) separa caudado do núcleo lentiforme.
  • Núcleo lentiforme (putâmen + globo pálido): lateral à cápsula interna; é um marco para reconhecer o braço anterior e posterior.
  • Tálamo: medial ao braço posterior da cápsula interna; quando o tálamo aparece grande no corte, você está em um nível em que o braço posterior é particularmente evidente.

Esquemas de trajetos gerais (sem neurofisiologia)

Associação (exemplos de “rotas”)

Frontal ↔ Parietal/Temporal superior: Fascículo longitudinal superior  Occipital ↔ Temporal inferior: Fascículo longitudinal inferior  Temporal anterior ↔ Orbitofrontal: Unciforme  Medial frontal ↔ Medial parietal/temporal: Cíngulo

Comissurais (exemplos de “pontes”)

Hemisfério E ↔ Hemisfério D: Corpo caloso (joelho = anterior, tronco = médio, esplênio = posterior)  Conexões anteriores adicionais: Comissura anterior  Conexões posteriores/dorsais pequenas: Comissura posterior

Projeção (afunilamento)

Córtex (disperso)  → Corona radiata (leque)  → Cápsula interna (compacta)  → Estruturas profundas (tálamo/tronco)

Pontos-chave de correlação em neuroimagem

  • Simetria: corpo caloso e cápsula interna costumam ser simétricos; assimetrias chamam atenção em lesões focais.
  • “Linha separadora”: em cortes no nível dos núcleos da base, a cápsula interna é a principal faixa branca que separa caudado/tálamo (medial) do lentiforme (lateral).
  • Periventricular: substância branca ao redor dos ventrículos laterais é uma região frequente de achados em RM (por exemplo, hiperintensidades em T2/FLAIR); descreva sempre a relação com cornos frontal/corpo/corno occipital.
  • Corpo caloso como referência anteroposterior: joelho (anterior) e esplênio (posterior) ajudam a orientar o nível do corte e a posição dos cornos ventriculares.
  • Corona radiata vs cápsula interna: se as fibras parecem amplas e superiores, pense em corona radiata; se parecem compactas e profundas entre tálamo/caudado e lentiforme, pense em cápsula interna.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em um corte axial no nível dos núcleos da base, qual relação anatômica ajuda a identificar o braço posterior da cápsula interna?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

No nível em que o tálamo e os núcleos da base estão visíveis, o braço posterior da cápsula interna é reconhecido como a “linha branca separadora” entre o tálamo (medial) e o núcleo lentiforme (lateral).

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Neuroanatomia dos núcleos da base e circuitos anatômicos essenciais

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