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Médico-Legista da Polícia Civil: Medicina Legal Aplicada aos Concursos

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Necropsia médico-legal: técnica, etapas e achados essenciais

Capítulo 5

Tempo estimado de leitura: 13 minutos

+ Exercício

Conceito e finalidade da necropsia médico-legal

A necropsia médico-legal é o exame pericial do cadáver, realizado com técnica padronizada, para esclarecer a causa médica da morte, o mecanismo fisiopatológico, o meio/instrumento vulnerante provável, a dinâmica lesional e a compatibilidade entre achados, história e vestígios. Diferencia-se de uma necropsia clínica por estar orientada a hipóteses investigativas e por exigir descrição minuciosa, reprodutível e auditável dos achados, com documentação fotográfica e coleta dirigida de amostras.

Fluxo pericial completo: etapas e objetivos

1) Identificação e conferências iniciais

Antes de qualquer manipulação, confirme a identificação e registre as condições de recebimento. O objetivo é garantir rastreabilidade e evitar trocas, além de preservar vestígios.

  • Identificação: nome (se houver), sexo aparente, idade aparente, características individualizantes (tatuagens, cicatrizes, malformações), sinais particulares (próteses, aparelhos ortodônticos), e, quando aplicável, número de ocorrência/guia.
  • Condições do corpo e invólucros: tipo de embalagem (saco cadavérico), lacres, integridade, presença de fluidos, odores, sujidades, insetos/larvas, e objetos soltos.
  • Vestuário e pertences: descreva peça a peça (tipo, cor, marcações, rasgos, manchas, perfurações, presença de resíduos). Registre a posição no corpo e se há correspondência com lesões (ex.: perfuração na camisa alinhada a ferida torácica).
  • Preservação de vestígios: antes de lavar/limpar, avalie necessidade de coleta de resíduos (pólvora, fibras, solo, material biológico sob unhas).

2) Documentação fotográfica pericial (padrão mínimo)

A fotografia deve permitir reconstituição do exame por terceiros. Faça imagens em sequência lógica, com escala métrica e identificação do caso quando permitido pelo protocolo institucional.

  • Planos: geral do corpo (anterior/posterior/laterais), médio (segmentos), e close de achados.
  • Escala e orientação: régua ao lado da lesão no mesmo plano; foto perpendicular para reduzir distorção; registre orientação anatômica (cranial/caudal).
  • Antes e depois: fotografe lesões antes de manipular bordas, antes de limpar sangue, e após limpeza suave quando necessário para evidenciar morfologia.
  • Sequência: identificação/vestes → exame externo → achados específicos → cavidades e órgãos → amostras coletadas (quando o protocolo permitir).

3) Exame externo: achados mínimos obrigatórios e descrição padronizada

O exame externo deve ser sistemático (cabeça aos pés), com mensurações e linguagem descritiva. Evite termos conclusivos sem base (“ferida de faca”); prefira “ferida perfurocortante” e descreva características que sustentem a inferência.

  • Dados antropométricos: estatura (cm), peso (kg), compleição, estado nutricional aparente.
  • Condições gerais: higiene, sujidades (terra, graxa), presença de sangue, secreções, vômito, espuma, fuligem.
  • Cabeça e pescoço: couro cabeludo, face, olhos (petéquias conjuntivais), nariz/boca (sangue/espuma), orelhas, dentes, fraturas palpáveis, sinais de compressão cervical (equimoses, escoriações, sulcos).
  • Tórax/abdome/dorso: lesões, deformidades, marcas de atendimento (punções, desfibrilação), cicatrizes cirúrgicas.
  • Membros: lesões defensivas (mãos/antebraços), fraturas, marcas de contenção, punções, edema.
  • Genitália e região perineal: lesões, secreções, sinais de violência sexual quando pertinente (sempre com coleta dirigida).
  • Unhas: integridade, material subungueal (coleta se hipótese de luta/contato).

Como descrever lesões de forma padronizada (modelo prático)

Use sempre: tipo + localização anatômica + medidas + morfologia + margens + coloração + profundidade/planos (quando aplicável) + orientação + achados associados.

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  • Localização: descreva por região anatômica e referência métrica fixa. Ex.: “hemitórax esquerdo, linha hemiclavicular, 6 cm abaixo da clavícula e 3 cm à esquerda da linha média”.
  • Medidas: comprimento × largura (cm) e, quando possível, profundidade (cm) ou “atinge plano muscular/subcutâneo”. Em feridas elípticas, registre eixo maior e menor e a orientação (ex.: “eixo maior oblíquo craniocaudal”).
  • Morfologia: linear, ovalar, estrelada, irregular; presença de pontes dérmicas (sugere laceração), bordas e ângulos (agudos/obtusos), colar de escoriação, tatuagem por pólvora, chamuscamento.
  • Margens: regulares/irregulares, evertidas/invertidas, contusas, escoriadas, com infiltração hemorrágica.
  • Coloração: vermelho-vinhosa, arroxeada, amarelada-esverdeada (equimoses em evolução), enegrecida (fuligem), acastanhada (escoriação seca).
  • Profundidade e planos: superficial, subcutâneo, muscular, cavitário; em feridas penetrantes, descreva trajeto no exame interno (direção, órgãos atingidos).

Exemplo de redação padronizada: “Escoriação linear em face anterior do antebraço direito, terço distal, medindo 4,2 × 0,3 cm, orientação transversal, coloração acastanhada, bordas regulares, sem sangramento ativo.”

Exemplo para ferida perfurocontusa (suspeita de projétil): “Orifício cutâneo circular em hemitórax direito, linha axilar anterior, 12 cm abaixo do acrômio, medindo 0,9 cm de diâmetro, bordas invertidas, halo equimótico de 0,2 cm, colar de escoriação periférico, sem chamuscamento visível.”

4) Exame interno por cavidades: técnica e pontos essenciais

O exame interno deve seguir ordem lógica e reprodutível, com abertura por cavidades e avaliação de órgãos, vasos e trajetos lesivos. Registre presença de líquidos, sangue e ar, e quantifique sempre que possível.

4.1) Cavidade craniana

  • Couro cabeludo: descole e procure infiltrações hemorrágicas, hematomas subgaleais.
  • Calota craniana: fraturas (linha, cominutiva, afundamento), localização e extensão.
  • Meninges e encéfalo: hemorragias (epidural, subdural, subaracnoide), edema, contusões, lacerações. Pese o encéfalo quando protocolo exigir e descreva assimetrias e hérnias.
  • Coleta dirigida: em suspeita de meningite/encefalite, coletar líquor e fragmentos para microbiologia/histopatologia.

4.2) Cavidade cervical (quando pertinente)

  • Dissecção em camadas: procure hemorragias em músculos cervicais, fraturas de hióide e cartilagens laríngeas, lesões vasculares.
  • Vias aéreas: conteúdo (espuma, sangue, fuligem), edema, corpos estranhos.

4.3) Cavidade torácica

  • Ao abrir: registre pneumotórax/hemotórax (quantificar volume), aderências pleurais.
  • Coração: pericárdio (hemopericárdio), peso, cavidades, válvulas, coronárias (aterosclerose/trombose), miocárdio (áreas pálidas/hemorrágicas). Em suspeita de arritmia/morte súbita, coletar amostras padronizadas para histopatologia.
  • Pulmões: peso, edema, congestão, tromboembolismo, contusões, aspiração (conteúdo alimentar), fuligem em vias aéreas (incêndio). Em suspeita de afogamento, correlacionar com achados de vias aéreas e coleta adequada (ver seção de amostras).
  • Grandes vasos: dissecção de aorta e ramos quando há trauma torácico ou suspeita de dissecção/ruptura.

4.4) Cavidade abdominal e pélvica

  • Ao abrir: quantifique hemoperitônio, descreva odor (ex.: conteúdo gastrointestinal), presença de bile, pus.
  • Fígado/baço/rins: lacerações, hematomas subcapsulares, congestão, esteatose aparente, infartos. Pese órgãos quando aplicável.
  • Trato gastrointestinal: conteúdo, hemorragias, perfurações, ulcerações. Em suspeita de intoxicação, priorize coleta de conteúdo gástrico e segmentos.
  • Pâncreas e suprarrenais: hemorragias (trauma), alterações focais.
  • Órgãos pélvicos: bexiga (urina para toxicologia), útero/anexos (quando pertinente), próstata.

4.5) Exame do esqueleto e tecidos moles (quando indicado)

  • Trauma: procure fraturas costais, vertebrais, pélvicas; correlacione com lesões cutâneas e internas.
  • Extremidades: dissecção de trajetos, avaliação de músculos para hemorragia vital.

Coleta de amostras: o que coletar, como coletar e por quê

A coleta deve ser orientada por hipóteses e feita com técnica limpa, recipientes adequados, rotulagem e registro do local de origem da amostra. Sempre que possível, colete amostras “de rotina” em mortes suspeitas e amplie conforme o caso.

1) Histopatologia (anatomia patológica)

Objetivo: confirmar diagnósticos (infarto, miocardite, pneumonia, hepatite), datar lesões, diferenciar vitalidade de artefatos, e esclarecer causas quando macroscopia é inconclusiva.

  • Coletas frequentes (mínimo prático em casos indeterminados): coração (múltiplos fragmentos incluindo septo e parede livre), pulmões (lobos), fígado, rins, baço, encéfalo (quando indicado), e lesões cutâneas/tecidos com hemorragia.
  • Ligação com hipóteses: morte súbita (miocardite/canalopatias com achados sutis), suspeita de asfixia (edema pulmonar inespecífico), sepse (microtrombos, inflamação), agressão (vitalidade de contusões).
  • Cuidados: fragmentos representativos, incluindo borda e centro de lesões; acondicionar em fixador apropriado conforme rotina do serviço.

2) Toxicologia forense

Objetivo: detectar/quantificar álcool, drogas de abuso, medicamentos, venenos e gases, correlacionando com incapacidade, intoxicação fatal ou contribuição para o óbito.

  • Amostras recomendadas: sangue periférico (preferencialmente femoral), urina, humor vítreo, conteúdo gástrico, bile, fígado e rim (em decomposição ou quando sangue é inadequado).
  • Ligação com hipóteses: queda/colisão (álcool e sedativos), morte súbita em jovem (estimulantes), suicídio (superdosagem), ambiente fechado/incêndio (monóxido de carbono e cianeto, conforme protocolo), custódia policial (drogas e antipsicóticos).
  • Boas práticas: evitar sangue de cavidades (contaminação); registrar volume coletado; usar frascos adequados e vedação segura; anotar tempo e local anatômico da coleta.

3) Genética forense (DNA)

Objetivo: identificação humana, vinculação de suspeitos/vítimas, e esclarecimento de contato físico (ex.: luta, violência sexual).

  • Identificação: coletar amostras de referência do cadáver (sangue, músculo, osso/dente em casos degradados).
  • Contato/agressão: swabs de unhas (material subungueal), swabs de áreas com possível toque/arranhões, e coletas em região genital/perineal quando pertinente.
  • Ligação com hipóteses: luta corporal (DNA sob unhas), violência sexual (swabs), corpo carbonizado/decomposto (osso/dente).
  • Cuidados: trocar luvas entre coletas, usar material estéril, evitar contaminação cruzada, secagem/armazenamento conforme protocolo do laboratório.

4) Microbiologia forense (quando pertinente)

Objetivo: investigar infecções fatais (meningococcemia, pneumonia, endocardite), sepse, e surtos/risco ocupacional.

  • Quando solicitar: febre/infecção prévia, achados de pus, consolidação pulmonar, petéquias e suspeita de meningite, morte em contexto hospitalar com suspeita de infecção, ou casos com interesse epidemiológico.
  • Amostras: sangue para hemocultura (quando viável), líquor, fragmentos de pulmão/baço, swabs de lesões purulentas, válvulas cardíacas em suspeita de endocardite.
  • Cuidados: técnica asséptica rigorosa; coletar antes de ampla manipulação; acondicionar e encaminhar rapidamente.

Achados mínimos obrigatórios: o que não pode faltar no registro

No exame externo

  • Identificação e características individualizantes.
  • Descrição de vestes e correspondência com lesões.
  • Registro de todas as lesões com padrão: localização + medidas + morfologia + margens + coloração + profundidade/planos.
  • Sinais de intervenção médica (intubação, punções, drenos) e distinção de lesões terapêuticas vs traumáticas.
  • Achados sugestivos de asfixia (petéquias, congestão, marcas cervicais) descritos sem inferência precipitada.

No exame interno

  • Quantificação de coleções (hemotórax, hemoperitônio, hemopericárdio) quando presentes.
  • Descrição de trajetos lesivos (direção, planos atravessados, órgãos atingidos) em feridas penetrantes.
  • Avaliação de encéfalo/meninges em suspeita de trauma craniano.
  • Avaliação de vias aéreas e conteúdo em suspeita de aspiração, incêndio, afogamento.
  • Descrição de órgãos com alterações macroscópicas relevantes e, quando aplicável, pesos.

Passo a passo prático (roteiro operacional)

  • Passo 1: conferir identificação, lacres e condições de recebimento; fotografar estado inicial.
  • Passo 2: examinar e descrever vestes/pertences; fotografar; coletar vestígios superficiais se necessário (antes de limpeza).
  • Passo 3: exame externo sistemático; medir e descrever lesões com padrão; fotografar geral e detalhes com escala.
  • Passo 4: decidir coletas prévias ao exame interno (ex.: swab subungueal, swabs genitais, resíduos em mãos).
  • Passo 5: abrir cavidades conforme indicação (craniana, cervical, torácica, abdominal/pélvica); quantificar líquidos; fotografar etapas-chave.
  • Passo 6: examinar órgãos e trajetos; correlacionar com lesões externas e com perfurações em vestes.
  • Passo 7: coletar amostras para toxicologia/histopatologia/genética/microbiologia conforme hipóteses; registrar origem anatômica e acondicionamento.
  • Passo 8: revisar se todos os achados mínimos foram descritos; organizar fotos e anotações para redação do laudo.

Checklist operativo (para uso em prova e na rotina)

  • Identificação confirmada e características individualizantes registradas.
  • Condições de recebimento e invólucros descritos e fotografados.
  • Vestuário descrito peça a peça; correspondência com lesões avaliada.
  • Exame externo completo: cabeça/pescoço/tronco/membros/genitália/unhas.
  • Lesões descritas com: localização métrica, medidas, morfologia, margens, coloração, profundidade/planos, orientação.
  • Fotografias: geral + médio + close com escala; antes/depois de limpeza quando necessário.
  • Abertura por cavidades realizada conforme caso; líquidos quantificados (ml) quando possível.
  • Trajetos lesivos descritos com direção e órgãos atingidos; correlação com vestes.
  • Coletas realizadas e justificadas por hipótese: toxicologia (sangue periférico/urina/vítreo/conteúdo gástrico), histo (órgãos-alvo e lesões), genética (referência e contato), microbiologia (asséptica e precoce).
  • Registro de intervenções médicas e diferenciação de lesões terapêuticas.

Questões objetivas de fixação

1) Na descrição de uma lesão cutânea, qual conjunto de elementos é mais adequado para padronização?

A) Apenas tipo e localização anatômica. B) Tipo, localização, medidas, morfologia, margens, coloração e profundidade/planos. C) Apenas hipótese do instrumento vulnerante. D) Tipo, coloração e causa jurídica da morte.

2) Em toxicologia forense, qual amostra é preferível para reduzir contaminação por redistribuição post-mortem?

A) Sangue de cavidade torácica. B) Sangue periférico (ex.: femoral). C) Líquido pleural. D) Lavado gástrico.

3) Qual sequência fotográfica é mais compatível com documentação reprodutível?

A) Apenas closes das lesões. B) Apenas fotos dos órgãos internos. C) Fotos gerais do corpo, depois segmentos, depois close com escala e orientação. D) Fotos sem escala para preservar estética.

4) Em suspeita de luta corporal com arranhões, qual coleta tem maior pertinência para genética forense?

A) Conteúdo gástrico. B) Swab subungueal e de áreas de contato. C) Humor vítreo. D) Fragmento de fígado para histologia.

5) Em suspeita de infecção sistêmica fatal, qual conduta é mais adequada?

A) Coletar microbiologia após lavar extensamente o corpo. B) Coletar amostras com técnica asséptica e encaminhar rapidamente. C) Evitar qualquer coleta para não “contaminar” o caso. D) Coletar apenas sangue de cavidade abdominal.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao planejar a documentação fotográfica em uma necropsia médico-legal, qual sequência de imagens melhor permite que terceiros reconstituam o exame com qualidade pericial?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A documentação mínima deve seguir sequência lógica (geral → segmentos → detalhes), com escala e orientação, para que o exame seja reprodutível e auditável por terceiros.

Próximo capitúlo

Traumatologia forense na Medicina Legal: princípios e classificação das lesões

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