O que são “necessidades nutricionais” na infância
Na infância, o corpo cresce rapidamente e também amadurece funções importantes (ossos, músculos, cérebro, imunidade). “Necessidades nutricionais” são as quantidades e a qualidade de energia e nutrientes que a criança precisa para sustentar: 1) crescimento (altura e peso), 2) desenvolvimento (aprendizagem, coordenação, linguagem), 3) manutenção do organismo (imunidade, pele, sangue, hormônios) e 4) atividade física e brincadeiras. Na prática, isso se traduz em oferecer refeições variadas ao longo do dia, com alimentos de diferentes grupos, em porções adequadas para a idade.
Principais nutrientes e suas funções no crescimento e desenvolvimento
Energia (calorias)
A energia vem principalmente de carboidratos e gorduras, e em menor parte das proteínas. Crianças precisam de energia para brincar, aprender e crescer. Quando a energia é insuficiente, pode haver perda de peso, cansaço, irritabilidade e dificuldade de concentração; quando é excessiva e com baixa qualidade (muitos ultraprocessados), pode favorecer ganho de peso e piora da qualidade da dieta.
- Boas fontes: arroz, batata, mandioca, aveia, pães e massas (preferir integrais quando aceitos), frutas, azeite, abacate, castanhas (em formas seguras para a idade), laticínios, carnes, ovos.
Proteínas
Proteínas são “tijolos” para construir e reparar tecidos (músculos, pele, órgãos) e também participam de enzimas, hormônios e anticorpos. Na infância, ajudam diretamente no crescimento e na recuperação após doenças.
- Fontes animais: carnes, frango, peixe, ovos, leite, iogurte, queijos.
- Fontes vegetais: feijões, lentilha, grão-de-bico, ervilha, soja/tofu, pasta de amendoim (quando apropriado), aveia.
- Dica prática: combinar leguminosas (feijão, lentilha) com cereais (arroz, milho, pão) melhora o perfil de aminoácidos.
Gorduras (com foco em qualidade)
Gorduras são essenciais para o cérebro, para absorção de vitaminas (A, D, E, K) e para fornecer energia concentrada. Na infância, a qualidade da gordura importa mais do que “cortar gordura”.
- Preferir: azeite, abacate, sementes e castanhas (trituradas/moídas ou em pastas conforme idade), peixes (fontes de ômega-3), ovos.
- Evitar excesso: frituras frequentes, embutidos e produtos com gordura trans.
Carboidratos
Carboidratos são a principal fonte de energia para o corpo e para o cérebro. Os melhores são os que vêm com fibras, vitaminas e minerais.
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- Boas escolhas: arroz, feijão (apesar de ser leguminosa, contribui com carboidrato e fibra), batata, mandioca, milho, aveia, frutas, pães e massas com menor grau de processamento.
- Limitar: bebidas açucaradas, doces frequentes, biscoitos recheados e cereais açucarados, pois “ocupam espaço” na alimentação e reduzem a ingestão de nutrientes.
Fibras
Fibras ajudam o intestino a funcionar bem, aumentam saciedade, contribuem para microbiota intestinal e podem melhorar a qualidade geral da dieta. O objetivo é incluir fibras ao longo do dia, sem exageros que reduzam o apetite em crianças pequenas.
- Fontes: frutas com casca (quando possível), legumes, verduras, feijões e lentilhas, aveia, pães integrais.
- Sinal de ajuste: se houver constipação, aumentar água e fibras gradualmente (não de uma vez).
Ferro
Ferro é essencial para formar hemoglobina (transporte de oxigênio no sangue) e para o desenvolvimento cognitivo. A deficiência de ferro pode causar anemia, cansaço, palidez e queda de rendimento escolar.
- Fontes com melhor absorção (ferro heme): carnes, frango, peixe, fígado (com orientação profissional para frequência).
- Fontes vegetais: feijão, lentilha, grão-de-bico, ervilha, folhas verde-escuras.
- Como melhorar a absorção: incluir vitamina C na mesma refeição (laranja, acerola, kiwi, morango, tomate).
- O que pode atrapalhar: excesso de leite/laticínios muito próximo das refeições ricas em ferro pode reduzir a absorção em algumas crianças; ajuste horários se houver suspeita de baixa ingestão de ferro.
Cálcio
Cálcio é fundamental para ossos e dentes e participa da contração muscular e do funcionamento nervoso. A infância é uma fase-chave para “construir reserva óssea”.
- Fontes: leite, iogurte, queijos, bebidas vegetais fortificadas (quando usadas), sardinha com espinha, couve, brócolis, gergelim/tahine.
- Dica prática: distribuir ao longo do dia (ex.: um lácteo no café da manhã e outro no lanche) costuma funcionar melhor do que concentrar tudo em uma refeição.
Zinco
Zinco apoia crescimento, imunidade, cicatrização e paladar. Inadequação pode se associar a infecções frequentes, apetite baixo e crescimento mais lento.
- Fontes: carnes, frango, ovos, leite e derivados, feijões, grão-de-bico, sementes (ex.: abóbora), castanhas (em formas seguras).
Vitamina D
Vitamina D ajuda na absorção de cálcio e na saúde óssea, além de participar da imunidade. A principal fonte costuma ser a exposição solar adequada, e a alimentação contribui em menor proporção.
- Fontes alimentares: peixes gordos (sardinha, salmão), gema de ovo, alimentos fortificados (alguns leites e bebidas).
- Observação importante: em muitas crianças, a suplementação é necessária conforme orientação do pediatra, especialmente em casos de pouca exposição solar, pele mais escura, uso constante de protetor, ou risco clínico.
Vitaminas do complexo B (B1, B2, B3, B6, B9/folato, B12)
As vitaminas do complexo B participam do metabolismo de energia, do sistema nervoso e da formação de células do sangue. Na infância, ajudam a sustentar crescimento, disposição e aprendizagem.
- Fontes gerais: carnes, ovos, leite e derivados (B12 especialmente), feijões e lentilhas (folato e outras), verduras verde-escuras (folato), cereais e pães (alguns são fortificados), castanhas e sementes.
- Atenção especial: crianças com dieta vegetariana estrita precisam de acompanhamento para garantir B12 adequada (muitas vezes via suplementação orientada).
Como distribuir nutrientes nas refeições do dia a dia (com exemplos práticos)
Uma forma simples de organizar o prato e garantir variedade é pensar em “blocos” em cada refeição principal: 1) um alimento energético (cereal ou tubérculo), 2) uma leguminosa (feijão/lentilha/grão-de-bico), 3) uma proteína (animal ou vegetal), 4) legumes e verduras, 5) uma fruta (na sobremesa ou no lanche). Nem todo prato precisa ter todos os itens, mas ao longo do dia a soma deve cobrir os grupos.
Modelo prático para almoço e jantar
- Base energética: arroz, macarrão, batata, mandioca, polenta, cuscuz.
- Leguminosa: feijão, lentilha, grão-de-bico, ervilha.
- Proteína: frango, carne, peixe, ovo, tofu, ou porção maior de leguminosa quando não houver proteína animal.
- Legumes e verduras: crus e/ou cozidos (cores variadas).
- Gordura de boa qualidade: azeite no prato, abacate, sementes moídas em preparações.
Combinações exemplo (fáceis de repetir na semana):
- Arroz + feijão + frango desfiado + abóbora cozida + salada de tomate (vitamina C ajuda o ferro do feijão).
- Arroz + lentilha + ovo mexido + brócolis + laranja de sobremesa.
- Purê de batata + carne moída + feijão + cenoura e ervilha + manga.
- Macarrão com molho de tomate + almôndegas + salada de folhas + feijão (porção pequena) para reforçar ferro e fibras.
- Peixe assado + arroz + feijão + couve refogada + fruta.
Café da manhã: energia + proteína + fruta (ou fibra)
O café da manhã costuma ser mais aceito quando é simples e repetível. A meta é incluir uma fonte de energia (pão/aveia/tapioca), uma fonte de proteína (leite/iogurte/ovo/queijo/pasta de amendoim) e, quando possível, uma fruta.
- Pão + queijo + banana.
- Iogurte natural + aveia + fruta picada.
- Ovo mexido + pão + mamão.
- Vitamina de leite (ou bebida fortificada) com fruta + aveia (sem excesso de açúcar).
Lanches: fruta + fonte de proteína (e/ou gordura boa)
Lanches equilibrados ajudam a manter energia estável e evitam “beliscos” de baixa qualidade. Uma regra prática é: 1 fruta + 1 proteína (ou proteína + gordura boa).
- Maçã/pera + iogurte.
- Banana + pasta de amendoim (camada fina) em pão ou tapioca.
- Uvas + cubos de queijo.
- Vitamina de fruta com iogurte.
- Sanduíche pequeno de frango desfiado ou ovo.
- Grão-de-bico assado crocante (para crianças maiores) + fruta.
Passo a passo prático: montando um dia alimentar “base”
- Escolha 2 refeições principais (almoço e jantar) com: cereal/tubérculo + leguminosa + proteína + legumes/verduras.
- Garanta 2 a 3 momentos com cálcio ao longo do dia (ex.: leite no café, iogurte no lanche, queijo em uma refeição), ajustando conforme tolerância e orientação.
- Inclua ferro diariamente (feijão/lentilha + carne/ovo em algum momento) e associe uma fruta rica em vitamina C em uma das refeições.
- Planeje 2 lanches usando a regra “fruta + proteína”.
- Varie as cores dos vegetais (verde-escuro, laranja, vermelho) ao longo da semana para cobrir vitaminas e minerais.
- Observe o apetite real: crianças variam muito de um dia para o outro; foque na qualidade e na rotina, não em “prato sempre limpo”.
Tamanhos de porção aproximados por faixa etária (sem cálculos)
As porções abaixo são referências práticas. O apetite varia com crescimento, atividade física e fases (picos de fome e fases de seletividade). Use como ponto de partida e ajuste observando crescimento, energia e sinais de saciedade.
| Grupo alimentar | 1–3 anos (por refeição) | 4–6 anos (por refeição) | 7–10 anos (por refeição) |
|---|---|---|---|
| Cereal/tubérculo (arroz, massa, batata) | 2–4 colheres de sopa | 4–6 colheres de sopa | 6–8 colheres de sopa |
| Leguminosa (feijão, lentilha) | 1–2 colheres de sopa | 2–3 colheres de sopa | 3–4 colheres de sopa |
| Proteína (carne/frango/peixe) | 1–2 colheres de sopa bem cheias (ou 1 ovo pequeno) | 2–3 colheres de sopa (ou 1 ovo) | 3–4 colheres de sopa (ou 1–2 ovos conforme refeição) |
| Legumes/verduras | 1–2 colheres de sopa (ou “um punhado” pequeno) | 2–3 colheres de sopa | 3–5 colheres de sopa |
| Fruta | 1/2 a 1 unidade pequena | 1 unidade pequena a média | 1 unidade média (ou 1 fatia grande) |
| Lácteos (leite/iogurte) | 120–180 ml ou 1 pote pequeno | 180–200 ml ou 1 pote | 200 ml ou 1 pote |
Leituras rápidas de porção com a mão (para crianças maiores): proteína do tamanho da palma da criança; carboidrato (arroz/massa) do tamanho do punho; legumes e verduras ocupando pelo menos “meio prato” quando a aceitação é boa (ou pequenas porções repetidas ao longo do dia quando há seletividade).
Sinais comuns de inadequação alimentar (o que observar)
Sinais gerais
- Queda ou estagnação no crescimento (roupas deixam de apertar por muito tempo, perda de peso, ou ganho muito acelerado).
- Cansaço frequente, sonolência excessiva, pouca disposição para brincar.
- Seletividade intensa e persistente com recusa de grupos inteiros (ex.: não come nenhuma fruta/nenhum legume) por semanas a meses.
- Constipação (fezes ressecadas, dor para evacuar) ou diarreia recorrente.
- Infecções frequentes e recuperação lenta.
Sinais que podem sugerir falta de nutrientes específicos (não substituem diagnóstico)
- Possível baixa de ferro: palidez, cansaço, falta de apetite, irritabilidade, queda de atenção.
- Possível baixa de cálcio/vitamina D: dor óssea inespecífica, fraqueza muscular, pouca exposição solar e baixa ingestão de fontes de cálcio (necessita avaliação).
- Possível baixa de zinco: apetite baixo, infecções repetidas, cicatrização lenta, alteração de paladar.
- Possível baixa de vitaminas do complexo B: cansaço, irritabilidade, feridas na boca, língua dolorida (especialmente se dieta muito restrita).
- Baixa ingestão de fibras/água: intestino preso, fezes duras, dor abdominal.
Quando buscar avaliação profissional
- Se houver perda de peso, queda importante do apetite ou atraso de crescimento percebido por familiares ou na consulta de rotina.
- Se a criança apresentar palidez persistente, cansaço marcante, tonturas, ou baixo rendimento escolar associado a sonolência.
- Se houver seletividade alimentar severa (pouquíssimos alimentos aceitos), engasgos frequentes, vômitos recorrentes, ou grande ansiedade nas refeições.
- Se houver constipação importante que não melhora com ajustes simples (água, frutas, feijões, verduras) ou se houver sangue nas fezes.
- Se a família estiver considerando restrições alimentares (ex.: retirar grupos por conta própria) ou dietas específicas (vegetariana estrita, sem leite, sem glúten) para garantir adequação de ferro, cálcio, B12 e vitamina D.
- Se houver suspeita de necessidade de suplementação (ferro, vitamina D, B12), pois a dose e o tempo dependem de avaliação clínica e, muitas vezes, exames.