Nutrição básica no envelhecimento: manutenção de massa muscular, saúde óssea e energia

Capítulo 3

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Mudanças do envelhecimento que afetam a alimentação

No envelhecimento, o corpo passa por alterações que podem reduzir a ingestão de alimentos e, ao mesmo tempo, aumentar o risco de perda de massa muscular, fragilidade óssea e cansaço. Entender essas mudanças ajuda a ajustar a alimentação de forma prática.

1) Redução de apetite e saciedade mais rápida

É comum sentir menos fome e “encher” com pouca comida. Isso pode levar a comer menos proteína e menos energia ao longo do dia, favorecendo perda de peso involuntária e redução de massa muscular.

2) Alterações de paladar e olfato

O paladar pode ficar menos intenso, e o olfato também. A pessoa pode achar a comida “sem gosto” e comer menos. Em vez de aumentar sal ou açúcar, priorize temperos naturais (alho, cebola, ervas, limão, vinagre, páprica, cúrcuma) e variações de textura e temperatura (morno, frio, cremoso, crocante quando possível).

3) Mastigação e dentição

Dentes frágeis, próteses mal ajustadas, dor ao mastigar e boca seca podem reduzir o consumo de carnes, frutas e vegetais crus. Isso impacta diretamente proteína, fibras e micronutrientes.

4) Digestão e intestino

Algumas pessoas têm digestão mais lenta, refluxo, gases ou constipação. Isso pode limitar o volume das refeições e reduzir a variedade alimentar. Ajustes de fibras, líquidos e escolhas menos gordurosas em certas refeições podem ajudar, mantendo a densidade nutricional.

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5) Mobilidade e fadiga

Dificuldade para ir ao mercado, carregar compras e cozinhar pode levar a refeições repetitivas e pobres em nutrientes. Estratégias como preparo em lote, itens prontos saudáveis e lanches planejados reduzem o esforço diário.

6) Uso de medicamentos

Medicamentos podem alterar apetite, paladar, causar náuseas, constipação ou interferir na absorção de nutrientes. Exemplos comuns: diuréticos podem aumentar perdas de minerais; alguns antiácidos podem reduzir absorção de vitamina B12; certos antidepressivos e analgésicos podem afetar apetite e intestino. Oriente a pessoa a relatar mudanças ao profissional de saúde e a não ajustar doses por conta própria.

Prioridades nutricionais no envelhecimento (o que focar primeiro)

Proteína distribuída ao longo do dia (massa muscular)

A manutenção de massa muscular depende de estímulo (movimento/força, quando possível) e de proteína suficiente. No envelhecimento, o corpo pode precisar de um estímulo proteico mais frequente para “ligar” a síntese muscular.

  • Meta prática: incluir uma fonte de proteína em todas as refeições e lanches principais.
  • Fontes fáceis: ovos, iogurte, leite, queijos, frango desfiado, peixe macio, carne moída bem cozida, leguminosas (feijão, lentilha, grão-de-bico), tofu.
  • Para quem come pouco: priorizar proteína primeiro no prato e usar preparações mais macias (omelete, mexido, ensopados, cremes com leguminosas batidas).

Cálcio e vitamina D (saúde óssea)

O osso precisa de cálcio e vitamina D para manter estrutura e reduzir risco de fraturas. A ingestão pode cair quando a pessoa reduz laticínios ou tem pouco apetite.

  • Fontes de cálcio: leite, iogurte, queijos, bebidas fortificadas, sardinha com espinha (quando bem macia), couve e brócolis (contribuem, mas geralmente não substituem laticínios sozinhos).
  • Vitamina D: depende muito de exposição solar e, em muitos casos, de suplementação orientada por profissional. Alimentos têm pouca vitamina D (alguns peixes e ovos ajudam, mas raramente atingem a necessidade).

Fibras (intestino, glicemia e saciedade saudável)

Fibras ajudam no funcionamento intestinal e no controle de glicose e colesterol. No idoso, o desafio é aumentar fibras sem causar desconforto e sem reduzir demais a ingestão de energia.

  • Fontes bem toleradas: aveia, frutas macias (banana, mamão), legumes cozidos, feijão bem cozido, chia/linhaça (em pequenas quantidades).
  • Dica: aumentar aos poucos e observar gases/distensão; ajustar textura (cozido, amassado, em purê) quando necessário.

Gorduras de boa qualidade (energia e proteção cardiovascular)

Quando o apetite é baixo, gorduras boas ajudam a elevar energia da refeição sem aumentar muito o volume.

  • Boas escolhas: azeite de oliva, abacate, castanhas (quando mastigação permitir), pasta de amendoim, sementes.
  • Uso prático: 1 colher de sopa de azeite no prato ou no purê; pasta de amendoim em vitamina ou mingau.

Micronutrientes importantes (anemia, imunidade, cognição)

Alguns micronutrientes merecem atenção especial por quedas de ingestão e/ou absorção.

  • Vitamina B12: risco maior de deficiência por menor absorção e uso de certos medicamentos; fontes: carnes, ovos, leite e derivados. Pode exigir avaliação e suplementação.
  • Ferro: importante para prevenir anemia; fontes: carnes, feijões, lentilha. Combinar leguminosas com vitamina C (laranja, limão, acerola) pode ajudar na absorção.
  • Zinco: participa de imunidade e cicatrização; fontes: carnes, laticínios, leguminosas, sementes.
  • Potássio e magnésio: presentes em frutas, verduras, leguminosas; atenção em quem usa diuréticos ou tem doença renal (necessita orientação individual).

Energia suficiente (evitar perda de peso involuntária)

Perder peso sem querer no envelhecimento pode significar perda de músculo e piora de força. Se a pessoa está emagrecendo, a prioridade é aumentar densidade calórica e proteica com refeições menores e mais frequentes.

Estratégia central: refeições menores, mais frequentes e mais “fortes”

Quando o volume é limitado, a solução é aumentar a densidade nutricional: mais proteína, cálcio e energia em porções pequenas.

Passo a passo para organizar o dia alimentar

  1. Defina 5 a 6 momentos de alimentação (ex.: café da manhã, lanche, almoço, lanche, jantar, ceia).
  2. Em 3 desses momentos, garanta proteína “principal” (ex.: ovos no café, feijão + carne moída no almoço, iogurte proteico/queijo no lanche ou jantar).
  3. Inclua 1 a 2 reforços calóricos por dia (azeite, leite em pó, pasta de amendoim, abacate), escolhendo os que a pessoa tolera melhor.
  4. Planeje 2 opções de lanche proteico rápido para dias de pouco apetite (ex.: iogurte + aveia; vitamina de leite + banana + pasta de amendoim).
  5. Monitore sinais práticos: perda de peso, roupas mais largas, fraqueza para levantar da cadeira, queda de apetite persistente, constipação. Se presentes, intensificar densidade nutricional e buscar avaliação.

Como enriquecer refeições sem aumentar muito o volume

Enriquecimento com leite em pó

O leite em pó aumenta proteína e cálcio em preparações comuns.

  • Como usar: misturar 1 a 2 colheres de sopa em mingau, purê de batata/mandioquinha, sopas cremosas, vitaminas, iogurte natural.
  • Dica: dissolver primeiro em um pouco de líquido morno para evitar grumos.

Enriquecimento com azeite

O azeite aumenta energia e melhora palatabilidade.

  • Como usar: adicionar 1 colher de sopa em purês, legumes cozidos, arroz, sopas prontas no prato (evitar ferver por muito tempo para preservar sabor).

Pasta de amendoim e outras pastas

Boa para elevar energia e um pouco de proteína, útil quando há baixo apetite.

  • Como usar: 1 colher de sopa em vitamina de banana com leite; em mingau de aveia; em iogurte.
  • Atenção: escolher versões sem açúcar adicionado quando possível; observar tolerância digestiva.

Ovos (versáteis e macios)

  • Ideias: ovo mexido cremoso, omelete com queijo, ovo cozido bem macio amassado com azeite.
  • Para mastigação fraca: preferir mexido/omelete; evitar ovo frito crocante.

Iogurte e preparações lácteas

  • Ideias: iogurte natural com leite em pó + fruta amassada; vitamina com leite, iogurte e aveia; coalhada com azeite e ervas (tipo “pasta” macia).

Leguminosas (feijão, lentilha, grão-de-bico)

São fonte de proteína vegetal, fibras e minerais. Para melhor tolerância e mastigação:

  • Textura: cozinhar bem e, se necessário, bater parte do feijão para virar creme.
  • Combinações práticas: sopa de lentilha batida com legumes; purê de grão-de-bico (tipo homus) mais macio; feijão amassado com arroz bem cozido.

Cuidados para dentição frágil e baixa força de mastigação

Escolha de texturas seguras e confortáveis

O objetivo é manter proteína e fibras sem exigir mastigação intensa.

  • Proteínas mais macias: carne moída bem cozida e úmida, frango desfiado em molho, peixe cozido, ovos, tofu, iogurte, queijos macios.
  • Vegetais: preferir cozidos (abobrinha, cenoura, chuchu, brócolis bem macio) e em purês/cremes.
  • Frutas: amassadas (banana, mamão), cozidas (maçã cozida), ou em vitamina.

Passo a passo para adaptar uma refeição “difícil” em versão macia

  1. Troque o corte: em vez de bife, use carne moída ou frango desfiado.
  2. Adicione umidade: faça com molho (tomate, caldo, creme de legumes) para facilitar deglutição.
  3. Cozinhe mais: ponto bem macio, sem partes duras.
  4. Modifique a forma: desfiar, picar bem pequeno, amassar ou bater parcialmente.
  5. Enriqueça: finalize com azeite e/ou leite em pó no purê/sopa, ou inclua queijo/iogurte na preparação.

Exemplos práticos de refeições pequenas e nutritivas

MomentoOpçãoComo enriquecer
Café da manhãOvos mexidos cremosos + mingau de aveiaLeite em pó no mingau + 1 fio de azeite nos ovos
LancheIogurte natural + fruta amassadaAdicionar leite em pó e 1 colher de pasta de amendoim
AlmoçoArroz bem cozido + feijão amassado + carne moída ao molhoAzeite no prato + legumes bem cozidos
LancheVitamina de leite + banana + aveiaAdicionar leite em pó e pasta de amendoim
JantarSopa cremosa de lentilha batida com legumesFinalizar com azeite e queijo ralado fino (se tolerado)
CeiaLeite morno ou iogurteLeite em pó para aumentar proteína e cálcio

Sinais de alerta para ajustar o plano alimentar

  • Perda de peso involuntária nas últimas semanas ou meses.
  • Queda de força (dificuldade para levantar da cadeira, subir poucos degraus, carregar objetos leves).
  • Baixo apetite persistente ou náuseas frequentes.
  • Constipação que não melhora com ajustes graduais de fibras e líquidos.
  • Dor ao mastigar, prótese mal ajustada, feridas na boca ou engasgos.

Nesses casos, além de reforçar refeições pequenas e densas, é indicado buscar avaliação de nutricionista e equipe de saúde para investigar causas (medicações, saúde bucal, deficiências nutricionais, depressão, problemas gastrointestinais) e ajustar condutas.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Para um idoso com pouco apetite e saciedade rápida, qual estratégia ajuda a evitar perda de peso e de massa muscular sem aumentar muito o volume das refeições?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Com apetite baixo, a prioridade é manter energia e proteína em porções pequenas. Refeições menores e mais frequentes, com proteína distribuída ao longo do dia e reforços como azeite/leite em pó, aumentam a densidade nutricional sem exigir grande volume.

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