Modelos práticos de fluxos de decisão na Avaliação Fisioterapêutica: do atendimento ao plano

Capítulo 16

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

O que são fluxos de decisão e por que usar na avaliação

Fluxos de decisão são modelos práticos (tipo “checklist com caminhos”) que organizam o raciocínio clínico em etapas curtas: identificar risco, definir a hipótese mais provável, escolher testes e medidas que confirmem/negem essa hipótese e, por fim, transformar achados em objetivos e plano. A vantagem é reduzir omissões, padronizar a documentação mínima e tornar a tomada de decisão mais rápida e auditável.

Use os fluxos abaixo como modelos prontos. Você pode imprimir, adaptar para sua área (ortopedia, neuro, cardio) e incorporar ao seu registro (ex.: anexar ao prontuário como “folha de decisão”).

Fluxo 1 — Triagem de red flags e decisão de encaminhamento

Objetivo do fluxo

Decidir com segurança entre: (a) atendimento fisioterapêutico habitual; (b) atendimento com cautela e monitoramento; (c) encaminhamento não urgente; (d) encaminhamento urgente/emergência.

Fluxograma (modelo pronto)

INÍCIO (queixa principal)  →  Checagem rápida de risco (perguntas-chave + sinais observáveis)  →  Classificar gravidade  →  Conduta e documentação mínima
EtapaPontos de checagem (o que observar)Perguntas-chave (o que perguntar)Decisão
1) Checagem imediataEstado geral, palidez, sudorese fria, confusão, dispneia, dor torácica, incapacidade súbita de sustentar peso, febre alta aparente“Você está com falta de ar agora?”, “Dor no peito?”, “Desmaiou ou quase desmaiou?”, “Perdeu força de repente?”, “Teve queda importante?”Se sim para sinais graves: interromper avaliação e acionar suporte/encaminhar emergência
2) Red flags por sistemasPerda de peso inexplicada, febre persistente, dor noturna progressiva, histórico de câncer, imunossupressão, trauma relevante, uso crônico de corticoide, sinais neurológicos progressivos“Teve febre nos últimos dias?”, “Perdeu peso sem querer?”, “Histórico de câncer?”, “A dor acorda você e piora com o tempo?”, “Teve trauma importante?”Se presentes: avaliar urgência (encaminhamento imediato vs. não urgente)
3) Red flags específicas (exemplos comuns)Sinais de cauda equina, suspeita de fratura, infecção, trombose venosa profunda, síndrome coronariana, AVC“Alterou controle de urina/fezes?”, “Dormência em sela?”, “Dor/inchaço em panturrilha com calor local?”, “Fraqueza facial ou fala enrolada?”Se suspeita: encaminhar conforme gravidade e protocolo local
4) Se não há red flagsQuadro estável, sinais vitais aceitáveis, sem piora rápida“O que piora/melhora?”, “Qual sua principal limitação?”Prosseguir para fluxos específicos (musculoesquelético, neuro, cardio)

Critérios práticos de decisão (sem repetir conteúdo de capítulos anteriores)

  • Encaminhamento urgente/emergência: sinais de instabilidade, déficit neurológico agudo/progressivo importante, dor torácica com sintomas associados, dispneia importante, suspeita de TVP/AVC, alterações esfincterianas com sinais compatíveis.
  • Encaminhamento não urgente (médico): sintomas sistêmicos persistentes sem instabilidade, dor noturna progressiva, perda de peso inexplicada, falha terapêutica com piora progressiva, suspeita de condição não musculoesquelética.
  • Atendimento com cautela: quadro sem red flags, mas com fatores de risco (ex.: comorbidades relevantes, uso de anticoagulante, pós-operatório recente). Exige monitoramento e rechecagens.

Documentação mínima (checklist)

  • Red flags investigadas (marcar: presentes/ausentes) e quais.
  • Sinais observados e sinais vitais disponíveis no momento (se aplicável).
  • Decisão tomada (tratar/monitorar/encaminhar) e justificativa clínica em 1–2 frases.
  • Orientações dadas ao paciente (incluindo sinais de piora e quando procurar serviço).
  • Se encaminhou: destino (UPA, emergência, médico), meio (por conta própria/acompanhar/ambulância) e comunicação realizada.

Fluxo 2 — Dor musculoesquelética sem red flags: hipótese → testes → medidas → objetivos

Objetivo do fluxo

Transformar uma queixa musculoesquelética comum em um caminho operacional: levantar hipóteses testáveis, escolher testes que mudem a probabilidade, medir baseline e derivar objetivos e plano inicial.

Fluxograma (modelo pronto)

Queixa MSK sem red flags  →  Definir padrão (localização + comportamento + função)  →  2–3 hipóteses principais  →  Testes direcionados (confirmar/descartar)  →  Medidas de baseline  →  Objetivos + plano inicial + reavaliação

Passo a passo prático (com pontos de checagem)

PassoPonto de checagemPerguntas-chaveSaída (o que registrar/decidir)
1) Definir o padrãoRegião, irradiação, início, mecanismo, comportamento (mecânico vs. inflamatório), fatores de alívio/piora, impacto funcional“O que você não consegue fazer hoje?”, “Qual movimento piora mais?”, “Melhora com repouso ou com movimento?”, “Tem rigidez matinal? Quanto tempo?”Frase-síntese do padrão (ex.: “dor mecânica no ombro ao elevar braço, piora com carga, sem sintomas sistêmicos”)
2) Selecionar 2–3 hipótesesHipóteses devem ser testáveis e concorrentes (não uma lista longa)“O que mais explica a limitação principal?”Lista curta de hipóteses (ex.: tendinopatia, capsulite inicial, dor referida cervical)
3) Escolher testes que mudem decisãoPriorizar testes com impacto em conduta (não “testar tudo”)“Se esse teste der positivo/negativo, o que muda no plano?”Sequência de testes (A→B→C) com critério de interpretação
4) Medidas de baselineMedir o que será reavaliado em curto prazo (1–3 semanas) e o que importa para o paciente“De 0 a 10, qual a dor no pior momento?”, “Qual tarefa é a mais importante para voltar?”2–5 medidas (dor, função, amplitude/força, teste funcional, desfecho)
5) Objetivos e plano inicialObjetivos devem ter critério mensurável e prazo“Qual melhora seria significativa para você?”Objetivos + intervenções iniciais + educação + dose + critérios de progressão
6) Rechecagem programadaDefinir quando reavaliar e quais sinais indicam mudança de rota“Se piorar X, você me avisa/retorna antes”Data/condição de reavaliação e critérios de escalonamento/encaminhamento

Modelo preenchido (exemplo rápido)

  • Padrão: dor lombar mecânica há 10 dias após esforço, piora ao flexionar e ao sentar, melhora ao caminhar, sem sintomas sistêmicos.
  • Hipóteses (2–3): (1) dor discogênica/irritação mecânica; (2) dor miofascial paravertebral; (3) dor referida de quadril (menos provável).
  • Testes direcionados: triagem neurológica breve de MMII + movimentos repetidos (resposta direcional) + teste funcional (sentar-levantar) para reproduzir/quantificar.
  • Medidas: NRS dor (pior/atual), PSFS (2 atividades), tempo no sentar-levantar 5x, amplitude de flexão (critério funcional), tolerância a sentar (min).
  • Objetivos: reduzir NRS pior de 8→4 em 2 semanas; aumentar tolerância a sentar de 10→30 min; melhorar PSFS em 3 pontos.

Documentação mínima (checklist)

  • Padrão da dor e principal limitação funcional (1–2 frases).
  • Hipóteses principais (2–3) e hipótese prioritária.
  • Testes realizados e resultados relevantes (positivos/negativos que mudam conduta).
  • Medidas de baseline (com valores).
  • Objetivos mensuráveis e plano inicial (incluindo critérios de progressão e reavaliação).

Fluxo 3 — Suspeita neurológica: triagem → critérios de gravidade → plano

Objetivo do fluxo

Organizar a tomada de decisão quando a queixa sugere envolvimento neurológico: diferenciar urgência, definir se é central/periférico provável, estabelecer prioridades de segurança e montar um plano inicial com monitoramento.

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Fluxograma (modelo pronto)

Sintoma sugestivo de neuro  →  Triagem rápida (início + progressão + sinais focais)  →  Classificar gravidade (urgente vs. não urgente)  →  Perfil provável (central vs periférico)  →  Plano + medidas + rechecagens

Triagem rápida (perguntas-chave e checagens)

DomínioPerguntas-chavePontos de checagemInterpretação prática
Início e evolução“Começou de repente ou aos poucos?”, “Está piorando rapidamente?”Progressão em horas/dias, flutuação, episódiosInício súbito/progressivo rápido aumenta urgência
Sinais focais“Teve fala enrolada?”, “Visão dupla?”, “Fraqueza em um lado?”, “Perdeu coordenação?”Assimetria de força, face, coordenação, marcha, nível de consciênciaSugere acometimento central e necessidade de avaliação médica imediata
Sensibilidade e dor“Dormência/choque?”, “Queimação?”, “Distribuição em faixa/dermátomo?”Padrão dermatomal vs. difuso, alodinia, parestesiaAjuda a diferenciar periférico (raiz/nervo) vs. central
Função autonômica“Mudou urina/fezes?”, “Tontura ao levantar?”Retenção/incontinência, hipotensão posturalPode indicar gravidade/necessidade de encaminhamento

Critérios de gravidade (decisão)

  • Encaminhar urgente/emergência se houver: início súbito de déficit neurológico, piora rápida, sinais de AVC, alteração de consciência, convulsão nova, perda importante de força progressiva, sinais compatíveis com compressão medular/cauda equina.
  • Encaminhar não urgente (médico/neurologia) se: sintomas persistentes sem instabilidade, déficits leves estáveis, suspeita de neuropatia periférica progressiva, dor neuropática refratária, necessidade de investigação etiológica.
  • Fisioterapia com monitoramento se: quadro estável, sem sinais de gravidade, com hipótese funcional/periférica provável e medidas de segurança definidas.

Plano inicial orientado por perfil (sem repetir protocolos de exame)

Perfil provávelFoco do planoMedidas/checagens de acompanhamentoGatilhos de escalonamento
Periférico (radiculopatia/neuropatia)Controle de sintomas, função, educação de proteção, progressão de carga conforme tolerânciaForça segmentar-chave, sensibilidade em área-alvo, dor neuropática (escala), teste funcional específicoPiora de força, aumento de área de dormência, dor noturna intensa progressiva
Central (suspeita leve/estável já avaliada)Segurança, marcha/equilíbrio, função, prevenção de quedas, treino orientado a tarefaTeste de marcha, equilíbrio, fadiga, sinais vitais durante esforçoNovos sinais focais, quedas repetidas, piora rápida de coordenação

Documentação mínima (checklist)

  • Motivo da suspeita neurológica (sintomas e padrão).
  • Início, progressão e presença/ausência de sinais de gravidade investigados.
  • Decisão: tratar/monitorar/encaminhar e justificativa.
  • Medidas funcionais escolhidas para reavaliar (com valores).
  • Plano inicial e instruções de segurança (incluindo gatilhos de retorno/urgência).

Fluxo 4 — Queixa cardiorrespiratória: sinais vitais → tolerância ao esforço → conduta

Objetivo do fluxo

Estruturar a avaliação quando a queixa envolve dispneia, fadiga, baixa tolerância ao esforço, tosse, desconforto torácico atípico ou descondicionamento: checar segurança, quantificar tolerância e decidir conduta (exercício, monitoramento, encaminhamento).

Fluxograma (modelo pronto)

Queixa cardio/resp  →  Checar sinais vitais e sintomas atuais  →  Classificar risco imediato  →  Teste de tolerância ao esforço (submáximo) + monitoramento  →  Conduta (treino/educação/encaminhamento) + rechecagens

Passo a passo prático com pontos de checagem

PassoPontos de checagemPerguntas-chaveDecisão/ação
1) Sintomas atuaisDispneia em repouso, dor torácica, palpitações, tontura, cianose, edema importante“Está com falta de ar agora?”, “Dor no peito agora?”, “Tontura ao mínimo esforço?”Se sintomas importantes em repouso: não testar esforço; encaminhar conforme gravidade
2) Sinais vitais basaisPA, FC, FR, SpO2, temperatura (quando pertinente), percepção de esforço/dispneia“Usa oxigênio?”, “Teve piora recente?”Se fora de faixa segura para exercício: adiar teste, orientar e/ou encaminhar
3) Estratificar riscoComorbidades, medicações, história recente (infecção, internação), limitação funcional“Consegue subir um lance de escada?”, “Quantas pausas precisa ao caminhar?”Definir se fará teste leve, moderado ou apenas avaliação funcional observacional
4) Teste submáximoMonitorar FC, SpO2, sintomas, escala de dispneia/esforço, recuperação“Qual seu nível de falta de ar agora (0–10)?”, “Consegue continuar?”Interromper se sinais/sintomas de alerta durante o teste; registrar resposta
5) CondutaDefinir dose inicial, pausas, progressão, educação de autogerenciamento“Qual atividade você precisa recuperar primeiro?”Plano com parâmetros (intensidade, duração, frequência) e critérios de progressão

Pontos de interrupção durante esforço (checagem operacional)

  • Piora importante de dispneia desproporcional, dor torácica, tontura, confusão.
  • Queda relevante de SpO2 em relação ao basal ou dessaturação sustentada.
  • Palidez intensa, sudorese fria, instabilidade de marcha.
  • Recuperação muito lenta (sintomas persistem após repouso).

Documentação mínima (checklist)

  • Sintomas atuais e triagem de risco imediato (presentes/ausentes).
  • Sinais vitais basais (valores) e critérios usados para decidir testar ou não.
  • Teste aplicado (qual), parâmetros monitorados e resposta (pico e recuperação).
  • Conduta: dose inicial (intensidade/duração/frequência), orientações e sinais de alerta.
  • Plano de reavaliação: quando repetir medidas e quais metas funcionais serão acompanhadas.

Como usar estes fluxos no dia a dia (implementação rápida)

Modelo de “folha única” para anexar ao prontuário

Você pode transformar cada fluxo em uma folha de marcação rápida. Estrutura sugerida:

  • Topo: queixa principal + data + contexto (primeira consulta/retorno).
  • Bloco 1: triagem de risco (itens SIM/NÃO) + decisão.
  • Bloco 2: hipótese(s) + testes-chave realizados + resultados relevantes.
  • Bloco 3: medidas de baseline (2–5) com valores.
  • Bloco 4: objetivos mensuráveis + plano inicial + critérios de progressão + gatilhos de encaminhamento.

Regra prática de consistência (para não se perder no fluxo)

  • Se um item muda a conduta, ele precisa estar documentado.
  • Se um teste não muda a decisão, ele é candidato a ser removido do seu fluxo.
  • Se uma medida não será reavaliada, ela não é prioridade como baseline.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao montar uma “folha única” para anexar ao prontuário usando fluxos de decisão, qual princípio ajuda a decidir o que deve obrigatoriamente ser registrado?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O fluxo recomenda consistência: se algo muda a conduta, deve ser documentado; se um teste não muda a decisão, pode ser removido; e medidas que não serão reavaliadas não são prioridade como baseline.

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