Como usar casos clínicos guiados para treinar avaliação
Neste capítulo, você vai praticar a avaliação fisioterapêutica por meio de casos progressivos. A ideia é simular o raciocínio de consultório: a anamnese gera hipóteses, os achados direcionam o exame físico, os testes confirmam/descartam hipóteses e o registro (SOAP) organiza a tomada de decisão. Em cada caso, você verá: dados essenciais de anamnese, triagem de sinais de alerta (apenas o que importa no caso), escolha do exame físico, testes e medidas, interpretação, objetivos terapêuticos e um exemplo de SOAP final. Ao final de cada caso, há variações para treinar “e se…?” e um checklist de qualidade com pontos-chave de comunicação com o paciente.
Caso 1 (iniciante): Dor lombar mecânica após esforço
1) Anamnese (dados do caso)
- Identificação: Homem, 32 anos, auxiliar de logística.
- Queixa principal: “Travei a lombar ontem ao levantar uma caixa”.
- Início e mecanismo: Início súbito após flexão com carga; sem queda.
- Localização/irradiação: Dor central e paravertebral lombar baixa; sem irradiação para perna.
- Intensidade: 7/10 ao levantar; 3/10 em repouso.
- Comportamento: Piora com flexão, levantar da cadeira, pegar objetos no chão; melhora com caminhar leve e calor.
- 24h: Sem dor noturna importante; rigidez matinal leve (< 15 min).
- Função: Dificuldade para calçar sapato e pegar filho no colo.
- Histórico: Episódios leves prévios, sem afastamento; sem cirurgia.
- Saúde geral/medicações: Sem comorbidades; analgésico comum.
- Expectativas: Voltar ao trabalho sem medo de “lesionar a coluna”.
2) Sinais de alerta (triagem focada no caso)
- Negados: febre, perda de peso, trauma relevante, dor noturna progressiva, alterações esfincterianas, anestesia em sela, fraqueza progressiva, histórico de câncer, uso crônico de corticoide.
- Decisão: Sem sinais de alerta relevantes no momento; seguir com avaliação musculoesquelética.
3) Hipóteses iniciais (testáveis)
- H1: Lombalgia mecânica por distensão/irritação de estruturas lombares (músculo-ligamentar) com sensibilidade ao movimento.
- H2: Disfunção de controle motor lombopélvico (padrão de flexão com carga).
- H3 (menos provável): Dor referida de articulação sacroilíaca.
4) Exame físico (o que escolher e por quê)
- Inspeção e movimento funcional: sentar-levantar, agachar, pegar objeto do chão (para reproduzir padrão de dor e estratégia motora).
- ADM lombar: flexão, extensão, inclinações e rotações (identificar direção provocativa e limitação).
- Triagem neurológica breve: força e sensibilidade de membros inferiores e reflexos se houver qualquer queixa irradiada (aqui, apenas triagem rápida para segurança).
- Palpação e testes segmentares simples: localizar áreas de maior sensibilidade e rigidez, sem “caçar” achados irrelevantes.
- Medidas de desfecho: escala de dor (NPRS) e um questionário funcional (ex.: ODI ou Roland-Morris) para baseline.
5) Testes e medidas (seleção)
- NPRS: 7/10 movimento, 3/10 repouso.
- ODI (exemplo): 28% (incapacidade moderada).
- ADM: flexão reduzida e dolorosa; extensão levemente limitada e alivia.
- Teste neurodinâmico: não indicado se não há sintomas neurais; manter como opção se surgir irradiação.
- Teste de sacroilíaca: apenas se história e dor sugerirem; aqui, baixa prioridade.
6) Interpretação (o que os achados significam)
- Padrão consistente com lombalgia mecânica com sensibilidade à flexão e melhora relativa com extensão/caminhada.
- Sem sinais de comprometimento neurológico ou sistêmico.
- Fatores contribuintes prováveis: técnica de levantamento, tolerância à carga e controle lombopélvico.
7) Objetivos terapêuticos (exemplos mensuráveis)
- Curto prazo (1–2 semanas): reduzir dor ao levantar de 7/10 para ≤ 3/10; melhorar flexão funcional para calçar sapato com dor ≤ 2/10.
- Médio prazo (3–6 semanas): retornar ao trabalho sem restrição; ODI de 28% para ≤ 10%.
- Critérios de progressão: tolerar agachar e levantar carga leve com técnica adequada e sem aumento de dor nas 24h.
8) Exemplo de SOAP (registro final)
S: Dor lombar baixa iniciada após levantar caixa ontem. Dor 7/10 ao levantar, 3/10 repouso. Piora com flexão e pegar objetos no chão; melhora com caminhada leve e calor. Nega irradiação, parestesias, alterações esfincterianas, febre, perda de peso.
O: ADM lombar: flexão limitada e dolorosa; extensão levemente limitada com alívio relativo. Testes funcionais: sentar-levantar com estratégia de flexão lombar e dor moderada. Triagem neurológica MMII sem déficits. ODI 28%.
A: Quadro compatível com lombalgia mecânica aguda pós-esforço, sem sinais de alerta/comprometimento neurológico. Provável contribuição de padrão de flexão com carga e baixa tolerância a levantamento.
P: Educação sobre curso esperado e manejo de carga; orientar manter atividade dentro da tolerância. Iniciar exercícios graduados (mobilidade/controle motor) e treino de padrão de levantamento. Reavaliar em 1 semana com NPRS e função (ODI) e ajustar progressão.
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9) Variações do caso (treino de raciocínio)
- Se houver dor irradiada abaixo do joelho + parestesia: incluir triagem neurológica completa e testes neurodinâmicos; hipóteses passam a incluir radiculopatia.
- Se dor piorar à noite e não aliviar com repouso: reavaliar sinais de alerta e considerar encaminhamento médico.
- Se extensão piorar muito e flexão aliviar: investigar padrão direcional oposto e ajustar seleção de movimentos/testes.
10) Checklist de qualidade + comunicação
- Qualidade: hipótese clara antes dos testes; medidas de baseline registradas; exame compatível com queixa; triagem de segurança documentada; plano com critérios de reavaliação.
- Comunicação: validar medo de “travar”; explicar diferença entre dor e dano; combinar metas funcionais (calçar sapato, trabalho) e sinais que exigem contato imediato (piora neurológica, alterações esfincterianas).
Caso 2 (intermediário): Dor no ombro com perda de função acima da cabeça
1) Anamnese (dados do caso)
- Identificação: Mulher, 45 anos, professora.
- Queixa principal: Dor no ombro direito ao elevar o braço para pegar objetos no armário.
- Início: Insidioso há 6 semanas, sem trauma.
- Localização/irradiação: Face ântero-lateral do ombro; às vezes desce até o terço médio do braço.
- Intensidade: 6/10 ao elevar; 2/10 repouso.
- Comportamento: Piora com abdução/elevação e vestir blusa; piora ao dormir sobre o lado direito.
- Função: Dificuldade para pentear cabelo e alcançar prateleiras.
- Histórico: Episódio semelhante leve há 1 ano; sem luxação.
- Saúde geral: Sem febre; sem perda de peso; sem dor cervical predominante.
2) Sinais de alerta (triagem focada no caso)
- Negados: trauma importante, deformidade, febre, dor em repouso intensa e progressiva, perda de força súbita importante, sinais neurológicos difusos.
- Atenção: dor noturna ao deitar sobre o ombro (comum em condições subacromiais, mas monitorar evolução).
3) Hipóteses iniciais (testáveis)
- H1: Dor relacionada ao manguito rotador (tendinopatia/irritação) com sensibilidade a carga em elevação.
- H2: Síndrome dolorosa subacromial (dor em arco, compressão relativa).
- H3: Capsulite adesiva inicial (se rigidez global e perda de rotação externa forem marcantes).
- H4 (diferencial): Dor referida cervical (se sintomas cervicais e testes de pescoço positivos).
4) Exame físico (o que escolher e por quê)
- ADM ativa e passiva do ombro: identificar padrão (dor vs rigidez) e comparar lados.
- Força isométrica: abdução, rotação externa/interna (reproduzir dor e estimar tolerância à carga).
- Testes especiais direcionados: selecionar poucos testes com base na hipótese (ex.: testes de impacto/subacromiais e manguito).
- Escápula e controle: observar ritmo escapuloumeral em elevação.
- Triagem cervical breve: se houver queixa de pescoço, formigamento ou dor que muda com movimentos cervicais.
- Desfecho: QuickDASH ou SPADI para baseline.
5) Testes e medidas (seleção)
- QuickDASH (exemplo): 34/100.
- ADM: elevação ativa limitada por dor; passiva quase completa com dor no final do arco; rotação externa preservada.
- Arco doloroso: dor entre ~70–120° de abdução.
- Força isométrica: rotação externa dolorosa e levemente fraca (por dor); abdução dolorosa.
- Testes especiais (exemplo): Hawkins-Kennedy e/ou Neer positivos para dor; teste de resistência do supraespinal doloroso.
6) Interpretação
- Achados favorecem dor relacionada ao manguito/subacromial (dor em arco, dor com resistência, ADM passiva relativamente preservada).
- Menos compatível com capsulite (não há rigidez global marcada, rotação externa preservada).
7) Objetivos terapêuticos
- Curto prazo (2–3 semanas): reduzir dor em elevação de 6/10 para ≤ 3/10; melhorar sono (reduzir despertares por dor).
- Médio prazo (6–8 semanas): elevar braço acima da cabeça para atividades domésticas com dor ≤ 2/10; QuickDASH de 34 para ≤ 15.
- Critérios de progressão: tolerar isometria e depois isotonia de rotadores/abdutores com aumento de carga sem piora sustentada em 24–48h.
8) Exemplo de SOAP
S: Dor no ombro direito há 6 semanas, piora ao elevar braço e vestir blusa, dor ao dormir sobre o lado direito. Dor 6/10 em elevação, 2/10 repouso. Nega trauma.
O: Elevação ativa limitada por dor; passiva quase completa com dor no final do arco. Arco doloroso presente. Isometria de rotação externa dolorosa e levemente fraca por dor. Hawkins/Neer positivos para dor. QuickDASH 34/100.
A: Quadro compatível com dor relacionada ao manguito rotador/subacromial, com sensibilidade à carga em elevação e sem rigidez capsular significativa.
P: Educação sobre modulação de carga e posições de sono; iniciar fortalecimento graduado de rotadores e estabilizadores escapulares e exposição progressiva à elevação. Reavaliar QuickDASH e dor em 3–4 semanas; ajustar carga conforme resposta.
9) Variações do caso
- Se rotação externa passiva estiver muito limitada e dolorosa + rigidez global: hipótese de capsulite sobe; priorizar medidas de ADM e função, e ajustar expectativas de tempo.
- Se houver dor cervical e parestesias: incluir triagem cervical e neurológica; considerar origem cervical.
- Se houver fraqueza súbita após esforço e incapacidade de elevar o braço: suspeitar lesão significativa do manguito; considerar encaminhamento para avaliação médica/imagem conforme contexto.
10) Checklist de qualidade + comunicação
- Qualidade: diferenciar dor vs rigidez (ADM ativa/passiva); registrar medida funcional (QuickDASH/SPADI); selecionar testes especiais coerentes com hipótese; documentar resposta à carga.
- Comunicação: alinhar que “evitar tudo” pode piorar tolerância; negociar adaptações (altura de objetos, pausas) e orientar como monitorar resposta pós-exercício (dor aceitável e duração).
Caso 3 (avançado): Dor cervical com sintomas neurais em membro superior
1) Anamnese (dados do caso)
- Identificação: Homem, 38 anos, analista de TI.
- Queixa principal: Dor no pescoço com formigamento no braço direito.
- Início: Há 3 semanas, após período de trabalho intenso; sem trauma.
- Distribuição: Dor cervical e escapular direita; parestesia em polegar e indicador; às vezes fraqueza ao segurar objetos.
- Comportamento: Piora ao olhar para baixo e ficar sentado; melhora ao apoiar braço e com pausas.
- Intensidade: 5/10 cervical; formigamento intermitente.
- Função: Dificuldade para trabalhar 2h seguidas; medo de “pinçar nervo”.
- Histórico: Episódios de cervicalgia sem irradiação.
- Saúde geral: Sem febre, sem perda de peso, sem história de câncer.
2) Sinais de alerta (triagem focada no caso)
- Checar e documentar: sinais de mielopatia (alteração de marcha, destreza manual, hiperreflexia difusa), dor noturna progressiva, trauma, sintomas sistêmicos.
- No caso: nega alterações de marcha/destreza global; sem sintomas sistêmicos. Sem sinais claros de mielopatia na história, mas sintomas neurais exigem exame neurológico cuidadoso.
3) Hipóteses iniciais (testáveis)
- H1: Radiculopatia cervical (provável C6) por irritação foraminal/discal.
- H2: Dor cervical com dor referida + sensibilização neural (sem déficit objetivo).
- H3: Síndrome do desfiladeiro torácico (menos provável se parestesia é dermatomérica e muda com pescoço).
- H4: Neuropatia periférica (mediano) se sinais forem mais distais e não relacionados ao pescoço.
4) Exame físico (o que escolher e por quê)
- ADM cervical: identificar movimentos que reproduzem/centralizam sintomas.
- Exame neurológico MMSS: força miotomal, sensibilidade dermatomérica, reflexos (para confirmar déficit e gravidade).
- Testes de provocação/alívio: cluster para radiculopatia (ex.: Spurling, distração, ULNT, rotação < 60°) conforme tolerância.
- Triagem de ombro: rápida, para excluir fonte local se necessário.
- Medidas de desfecho: NDI (Neck Disability Index) e escala de dor/parestesia.
5) Testes e medidas (seleção)
- NDI (exemplo): 26%.
- ADM cervical: rotação direita limitada e reproduz formigamento; flexão sustentada piora.
- Neurológico: sensibilidade reduzida em C6 (polegar/indicador); reflexo braquiorradial diminuído à direita; força de extensão de punho 4+/5 (dor/leve fraqueza).
- Testes: Spurling positivo (reproduz parestesia); distração alivia; ULNT mediano positivo para sintomas neurais.
6) Interpretação
- Conjunto de achados sugere radiculopatia cervical com sinais neurológicos leves (sensitivo/reflexo e possível fraqueza discreta).
- Sem sinais de mielopatia na história e no exame básico, mas é essencial monitorar evolução neurológica.
7) Objetivos terapêuticos
- Curto prazo (2 semanas): reduzir frequência/intensidade da parestesia; aumentar tolerância ao trabalho sentado (ex.: de 30 min para 60–90 min com pausas).
- Médio prazo (6–8 semanas): normalizar ou melhorar força/reflexos conforme reavaliação; NDI de 26% para ≤ 10–12%.
- Critérios de alerta durante acompanhamento: piora progressiva de força, perda de destreza, sinais de mielopatia, dor intratável.
8) Exemplo de SOAP
S: Dor cervical há 3 semanas com formigamento em polegar/indicador direitos, piora com flexão cervical e sentado prolongado, melhora com apoio do braço e pausas. Refere leve dificuldade para segurar objetos. Nega febre, perda de peso, alterações de marcha.
O: Rotação cervical direita limitada e reproduz parestesia. Sensibilidade C6 diminuída à direita; reflexo braquiorradial diminuído; extensão de punho 4+/5. Spurling positivo; distração alivia; ULNT mediano positivo. NDI 26%.
A: Achados compatíveis com radiculopatia cervical (provável C6) com déficit neurológico leve. Sem sinais de mielopatia no momento.
P: Educação sobre modulação de sintomas e ergonomia com pausas; exercícios direcionados para reduzir sintomas e melhorar tolerância (ex.: movimentos repetidos conforme resposta, controle cervicoescapular, mobilidade neural graduada). Reavaliar neurológico em 1–2 semanas; se piora de força/destreza, considerar encaminhamento médico.
9) Variações do caso
- Se houver sinais de mielopatia (marcha alterada, hiperreflexia difusa, perda de destreza): prioridade vira segurança e encaminhamento.
- Se não houver déficit neurológico objetivo e ULNT for negativo: hipótese pode migrar para dor referida cervical/miofascial; ajustar testes e foco terapêutico.
- Se sintomas não mudarem com movimentos cervicais, mas piorarem com punho/mão: aumentar suspeita de neuropatia periférica e testar estruturas distais.
10) Checklist de qualidade + comunicação
- Qualidade: documentar dermátomo/miotomo/reflexo; registrar testes de provocação e resposta; definir plano de monitoramento neurológico; registrar critérios de encaminhamento.
- Comunicação: explicar o que é sintoma neural e por que monitorar força/reflexos; orientar sinais de piora que exigem contato; combinar ajustes no trabalho (pausas, altura de tela, apoio de antebraço).
Caso 4 (complexo): Dor no joelho em corredor (sobrecarga) com decisão de carga e retorno
1) Anamnese (dados do caso)
- Identificação: Mulher, 29 anos, corredora recreacional (20–30 km/semana).
- Queixa principal: Dor anterior no joelho esquerdo ao correr e descer escadas.
- Início: Progressivo há 2 meses após aumentar volume e incluir tiros.
- Localização: Retropatelar/anterior difusa; sem travamento verdadeiro.
- Intensidade: 0–1/10 repouso; 5–6/10 em corrida/escadas.
- Comportamento: Piora após 10–15 min de corrida; melhora com redução de volume; piora em agachamento profundo.
- Função: Evita correr; dificuldade em descer escadas após treinos.
- Histórico: Sem trauma; sem cirurgia; já teve dor semelhante leve.
- Fatores de treino: aumento de 30% no volume em 3 semanas; tênis novo; mais descidas.
2) Sinais de alerta (triagem focada no caso)
- Negados: febre, edema importante súbito, incapacidade de sustentar peso, trauma agudo, bloqueio articular verdadeiro, dor noturna progressiva.
- Decisão: quadro típico de sobrecarga; seguir com avaliação musculoesquelética e de controle de carga.
3) Hipóteses iniciais (testáveis)
- H1: Dor femoropatelar relacionada à carga (PFPS) por aumento de demanda e tolerância insuficiente.
- H2: Tendinopatia patelar (se dor for mais localizada no tendão e piorar com saltos).
- H3: Irritação de gordura infrapatelar/retináculo (se dor for muito anterior e sensível a compressão).
- H4 (diferencial): Lesão meniscal (menos provável sem travamento/derrame e sem trauma).
4) Exame físico (o que escolher e por quê)
- Inspeção e testes funcionais: agachamento, step-down, corrida leve no local (reproduzir dor e observar alinhamento/controle).
- ADM e mobilidade: quadril, joelho e tornozelo (restrições que aumentam carga patelofemoral).
- Força e resistência: quadríceps, abdutores/rotadores laterais de quadril, panturrilha (capacidade de absorção de carga).
- Palpação direcionada: tendão patelar, bordas patelares, interlinha (diferenciais).
- Medidas de desfecho: escala de dor em atividades e questionário (ex.: AKPS/Kujala).
- Teste de tolerância à carga: número de repetições em step-down ou agachamento até limiar de dor acordado.
5) Testes e medidas (seleção)
- AKPS/Kujala (exemplo): 68/100.
- Step-down: reproduz dor anterior 5/10 após 8 repetições; observa-se valgo dinâmico leve e queda pélvica.
- Agachamento: dor aumenta em amplitude profunda; melhora ao reduzir profundidade.
- Força: quadríceps com dor em carga; abdutores de quadril com resistência reduzida; panturrilha com fadiga precoce.
- Palpação: tendão patelar sem dor localizada importante; dor difusa retropatelar com compressão em carga (compatível com PFPS).
6) Interpretação
- Quadro consistente com dor femoropatelar relacionada à carga associada a aumento rápido de volume/intensidade e capacidade insuficiente de quadríceps/quadril para demanda atual.
- Sem sinais fortes de tendinopatia patelar (dor localizada) ou menisco (travamento/derrame).
7) Objetivos terapêuticos
- Curto prazo (2–4 semanas): reduzir dor em escadas de 5–6/10 para ≤ 3/10; aumentar tolerância no step-down (ex.: de 8 para 15 repetições com dor ≤ 3/10).
- Médio prazo (6–10 semanas): retornar à corrida com progressão estruturada (ex.: correr 30 min contínuos com dor ≤ 2–3/10 e sem piora no dia seguinte); AKPS 68 para ≥ 85.
- Critérios de retorno: tolerância a exercícios de força e impacto leve, dor controlada e recuperação em 24h.
8) Exemplo de SOAP
S: Dor anterior no joelho esquerdo há 2 meses, piora ao correr (após 10–15 min) e descer escadas, iniciou após aumento de volume e tiros. Sem trauma, sem travamento, sem derrame. Dor 5–6/10 em corrida/escadas.
O: Step-down reproduz dor 5/10 após 8 repetições, com valgo dinâmico leve e queda pélvica. Agachamento profundo aumenta dor; reduzir amplitude diminui sintomas. Força/resistência reduzidas em abdutores de quadril e panturrilha; quadríceps doloroso em carga. AKPS 68/100. Palpação sem dor focal no tendão patelar.
A: Achados compatíveis com dor femoropatelar relacionada à carga, associada a aumento rápido de demanda e capacidade insuficiente de membros inferiores (controle e resistência).
P: Ajuste de carga (reduzir volume/intensidade e evitar descidas/tiros temporariamente), educação sobre monitoramento de dor (limiar e recuperação em 24h). Fortalecimento progressivo de quadríceps e quadril, treino de controle em step-down/agachamento com dosagem. Planejar progressão de corrida por intervalos e reavaliar AKPS e tolerância ao step-down em 3–4 semanas.
9) Variações do caso
- Se houver dor bem localizada no tendão patelar e piora com saltos: hipótese muda para tendinopatia patelar; testes e medidas devem focar em dor localizada e tolerância a carga elástica.
- Se houver derrame após corrida ou travamento verdadeiro: aumentar suspeita intra-articular; considerar encaminhamento/avaliação médica.
- Se tornozelo tiver dorsiflexão muito limitada: pode aumentar demanda no joelho; incluir intervenção e reavaliação do padrão de agachamento/step-down.
10) Checklist de qualidade + comunicação
- Qualidade: quantificar tolerância à carga (repetições/tempo); registrar medida funcional (AKPS); relacionar sintomas ao histórico de treino; definir regras de progressão e reavaliação.
- Comunicação: negociar “o que pode fazer” em vez de apenas proibir corrida; explicar regra prática de monitoramento (dor aceitável durante e recuperação em 24h); alinhar plano de retorno gradual com metas semanais.
Caso 5 (muito avançado): Idoso com dor no quadril e limitação funcional (diferenciais e segurança)
1) Anamnese (dados do caso)
- Identificação: Homem, 67 anos, aposentado.
- Queixa principal: Dor na virilha e lateral do quadril direito ao caminhar.
- Início: Progressivo há 8 meses.
- Comportamento: Piora ao caminhar > 10–15 min e ao levantar da cadeira; melhora com repouso. Rigidez matinal ~20 min.
- Intensidade: 6/10 ao caminhar; 1–2/10 sentado.
- Função: Reduziu caminhadas; dificuldade para calçar meia.
- Histórico: Hipertensão controlada; sem quedas recentes; sem cirurgia de quadril.
- Medicações: anti-hipertensivo; analgésico eventual.
2) Sinais de alerta (triagem focada no caso)
- Checar: dor noturna progressiva, febre, perda de peso, trauma/queda, incapacidade súbita de sustentar peso, história de câncer.
- No caso: nega febre/perda de peso/trauma; dor é mecânica e relacionada à carga. Ainda assim, por idade e duração, documentar triagem e monitorar.
3) Hipóteses iniciais (testáveis)
- H1: Osteoartrose de quadril (dor em virilha, rigidez, limitação de rotação interna e flexão).
- H2: Dor trocantérica (tendinopatia glútea/bursite) se dor lateral e sensível à palpação e decúbito lateral.
- H3: Dor referida lombar (se sintomas mudarem com coluna e houver sinais lombares predominantes).
4) Exame físico (o que escolher e por quê)
- ADM do quadril: especialmente rotação interna e flexão (padrão típico de OA).
- Testes funcionais: sentar-levantar, caminhada curta, subir degrau (reproduzir limitação).
- Força: abdutores/extensores de quadril (impacto em marcha e estabilidade).
- Testes especiais: testes provocativos de quadril (ex.: FADIR/FABER) para reproduzir dor e apoiar hipótese (sem usar isoladamente como diagnóstico).
- Medidas de desfecho: HOOS Jr ou WOMAC; teste de caminhada (ex.: 6MWT) se apropriado.
5) Testes e medidas (seleção)
- HOOS Jr (exemplo): 58/100 (pior função).
- ADM: rotação interna reduzida e dolorosa; flexão limitada; rotação externa relativamente melhor.
- FADIR: reproduz dor em virilha.
- Força: abdutores 4/5 com fadiga; marcha com leve inclinação de tronco para o lado doloroso.
- 6MWT (exemplo): reduzido em relação ao esperado para idade (registrar valor obtido e sintomas).
6) Interpretação
- Conjunto de achados favorece osteoartrose de quadril com impacto funcional (dor mecânica, rigidez, limitação de rotação interna, dor em virilha, piora com carga).
- Componentes contribuintes: fraqueza de abdutores, redução de tolerância à marcha e estratégias compensatórias.
7) Objetivos terapêuticos
- Curto prazo (4 semanas): aumentar tolerância de caminhada de 10–15 min para 20 min com dor ≤ 4/10; melhorar sentar-levantar (reduzir uso de braços).
- Médio prazo (8–12 semanas): HOOS Jr melhorar em magnitude clinicamente relevante; aumentar distância no 6MWT e reduzir limitação para calçar meia (estratégias + mobilidade).
- Monitoramento: acompanhar resposta ao aumento de carga e sinais de piora inesperada.
8) Exemplo de SOAP
S: Dor em virilha/lateral do quadril direito há 8 meses, piora ao caminhar > 10–15 min e ao levantar da cadeira, melhora com repouso. Rigidez matinal ~20 min. Nega febre, perda de peso, trauma.
O: ADM quadril: rotação interna reduzida e dolorosa; flexão limitada. FADIR reproduz dor em virilha. Abdutores 4/5 com fadiga; marcha com compensação. HOOS Jr 58/100. Teste de caminhada com limitação por dor.
A: Achados compatíveis com osteoartrose de quadril com limitação funcional e redução de tolerância à marcha. Sem sinais de alerta sistêmicos no momento.
P: Educação sobre manejo de carga e atividade física segura; programa de fortalecimento progressivo (abdutores/extensores) e mobilidade conforme tolerância; estratégias para atividades (calçar meia, pausas na caminhada). Reavaliar HOOS Jr e tolerância de marcha em 4–6 semanas; considerar comunicação com médico se piora rápida, dor noturna progressiva ou perda funcional acentuada.
9) Variações do caso
- Se a dor for predominantemente lateral e piorar ao deitar sobre o lado: aumentar hipótese de dor trocantérica; priorizar palpação e testes de abdutores e controle de compressão lateral.
- Se houver dor lombar predominante e sintomas mudarem com movimentos da coluna: ampliar avaliação lombar e ajustar hipótese principal.
- Se houver perda de peso inexplicada ou dor noturna progressiva: reclassificar risco e encaminhar para investigação.
10) Checklist de qualidade + comunicação
- Qualidade: registrar medidas funcionais (HOOS/6MWT); documentar padrão de ADM (rotação interna); relacionar achados com limitações (marcha, calçar meia); definir plano de progressão e monitoramento.
- Comunicação: alinhar expectativas (melhora de função e controle de sintomas); discutir estratégias de atividade (intervalos, superfícies, ritmo); combinar sinais para recontato/encaminhamento (piora rápida, dor noturna progressiva, incapacidade súbita).
Modelo rápido de roteiro (para você criar seus próprios casos)
Estrutura mínima (use como template)
1) Anamnese: queixa, início, comportamento, função, contexto (trabalho/treino), histórico e saúde geral. 2) Triagem de segurança: o que foi perguntado e o que foi negado/confirmado. 3) Hipóteses testáveis (2–4): escrever em linguagem clínica e funcional. 4) Exame físico: escolher itens que respondem às hipóteses (movimento/ADM/força/neurológico/testes especiais). 5) Medidas: dor + 1 questionário + 1 teste funcional (quando aplicável). 6) Interpretação: quais hipóteses sobem/descem e por quê. 7) Objetivos: mensuráveis, com prazo e critério de progressão/alta. 8) SOAP: curto, específico, com números. 9) Variações: “se X, então muda Y” (testes, hipótese, conduta). 10) Checklist + comunicação: segurança, clareza, alinhamento de metas e orientações.Erros comuns para evitar (durante os casos)
- Aplicar muitos testes especiais sem hipótese prévia.
- Não registrar baseline (dor, função, teste funcional) e depois não conseguir demonstrar evolução.
- Ignorar fatores de carga (trabalho/treino) e focar apenas em “estrutura dolorida”.
- Não documentar o que foi triado em segurança (mesmo quando tudo é negativo).
- Plano sem critérios: “fazer exercícios” sem dose, sem meta e sem reavaliação.