O que é pesquisa de mercado na moda (e por que ela reduz “achismos”)
Pesquisa de mercado na moda é o processo de coletar e organizar informações sobre clientes, concorrentes e contexto de consumo para tomar decisões de produto e marketing com base em evidências. Na prática, ela responde perguntas como: quem compra, por que compra, quanto paga, quais alternativas existem e o que está faltando.
Para não depender de opinião pessoal, trabalhe com três camadas de evidência:
- Observação do mercado (o que marcas fazem e como o público reage).
- Voz do cliente (entrevistas e questionários com pessoas do público).
- Dados comportamentais (buscas, engajamento, comentários, padrões de compra).
Mapa do mercado fashion: como enxergar o cenário em 60–120 minutos
Passo 1 — Defina o recorte (para não pesquisar “moda” inteira)
Antes de olhar concorrentes, escreva seu recorte em uma frase:
- Categoria: ex.: moda fitness, alfaiataria casual, moda praia, streetwear, plus size, infantil.
- Público: ex.: mulheres 25–40 que trabalham híbrido; homens 18–28 que valorizam streetwear.
- Ocasião de uso: ex.: trabalho, treino, eventos, dia a dia.
- Faixa de preço pretendida: ex.: entrada, intermediário, premium.
Exemplo de recorte: “Moda casual de trabalho para mulheres 28–45, com peças confortáveis e elegantes, ticket médio de R$ 180–350 por peça”.
Passo 2 — Liste concorrentes diretos e indiretos
Concorrentes diretos vendem solução muito parecida (mesma categoria e público). Indiretos resolvem o mesmo problema de forma diferente (ou disputam o mesmo orçamento).
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- Diretos: marcas com estética, faixa de preço e ocasião de uso semelhantes.
- Indiretos: brechós premium, fast fashion, marcas de acessórios que “substituem” a compra de roupa, marketplaces, costureiras sob medida, aluguel de roupas.
Crie uma lista inicial com 8–15 marcas (5–8 diretas e 3–7 indiretas). Use buscas por termos do seu recorte e observe quem aparece com frequência.
Passo 3 — Faça uma tabela de análise comparativa (posicionamento, sortimento, preço, comunicação e avaliações)
Monte uma planilha com colunas fixas e preencha para cada marca. Abaixo um modelo que você pode copiar.
| Marca | Direta/Indireta | Posicionamento (promessa) | Sortimento (mix) | Faixa de preço | Materiais/modelagem | Comunicação (tom/canais) | Prova social (avaliações) | Pontos fortes | Fragilidades |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Ex.: Marca A | Direta | “Elegância prática” | Camisas, calças, vestidos | R$ 199–499 | Viscose/alfaiataria leve | Instagram + e-mail | 4,6/5; elogios ao caimento | Fotos fortes; entrega rápida | Poucos tamanhos; transparência |
Como preencher cada campo sem achismo:
- Posicionamento: leia a bio, o “sobre”, slogans, destaques e a primeira dobra do site. Resuma em 5–8 palavras.
- Sortimento: conte categorias e profundidade (quantas opções por categoria). Observe cores, estampas, básicos vs. tendência.
- Faixa de preço: anote mínimo, mediano e máximo por categoria-chave (ex.: calça, vestido, top). Se houver promoções frequentes, registre.
- Comunicação: identifique tom (aspiracional, técnico, divertido), frequência, formatos (reels, fotos editoriais, UGC), e chamadas (desconto, qualidade, propósito).
- Avaliações: leia comentários em posts, avaliações no site, reclamações públicas e respostas da marca. Extraia padrões (ex.: “tamanho pequeno”, “tecido quente”, “demora”).
Passo 4 — Observe a jornada de compra e a “conveniência”
Oportunidades muitas vezes estão em como a marca vende, não apenas no produto. Verifique:
- Guia de medidas: existe? é claro? tem medidas da peça e do corpo?
- Fotos e vídeos: mostram caimento em corpos diferentes? tem zoom do tecido?
- Política de troca: simples? prazo? custo do frete?
- Prazos e frete: transparência antes do checkout?
- Atendimento: tempo de resposta, linguagem, solução de problemas.
Registre o que gera fricção e o que gera confiança. Isso vira oportunidade de diferenciação.
Como analisar concorrentes com profundidade (checklists práticos)
Checklist de posicionamento
- Qual problema a marca promete resolver?
- Qual atributo principal ela vende: preço, qualidade, exclusividade, conforto, tendência, sustentabilidade, performance?
- Quais palavras se repetem (ex.: “atemporal”, “premium”, “feito no Brasil”, “modelagem perfeita”)?
- Qual é o “inimigo” implícito: roupa que amassa, que aperta, que não veste bem, que é genérica?
Checklist de sortimento (mix e lacunas)
- Quais são as 3 categorias mais fortes?
- Há peças “herói” (best-sellers) repetidas em cores/tecidos?
- Existe coerência de coleção (paleta, estilo) ou é muito disperso?
- Há grade completa de tamanhos? (PP ao GG, plus, petite, tall)
- Há variações de comprimento (curto/regular/long)?
Checklist de preço (estrutura e percepção de valor)
- Preço por categoria (top, bottom, vestido, outerwear).
- Ticket médio estimado (média dos itens mais vendidos).
- Descontos: raros (premium) ou frequentes (giro)?
- O que justifica o preço: tecido, acabamento, design, produção local, garantia, experiência?
Checklist de comunicação (o que a marca ensina e prova)
- Conteúdo é mais “look do dia” ou mais educativo (tecido, cuidado, caimento)?
- Usa pessoas reais (UGC) ou editorial?
- Mostra bastidores (produção, prova, modelagem)?
- Como lida com dúvidas: responde comentários? tem FAQ?
Checklist de avaliações (mineração de dores e desejos)
Ao ler avaliações e comentários, categorize em:
- Caimento/modelagem: apertado, largo, cava, comprimento, cintura.
- Conforto: tecido pinica, esquenta, marca, limita movimento.
- Qualidade: costura, bolinhas, desbota, zíper.
- Expectativa vs realidade: cor diferente, transparência, foto enganosa.
- Entrega/atendimento: atraso, troca, suporte.
Transforme comentários em frases objetivas. Ex.: “A calça é linda, mas a cintura é baixa e fica desconfortável ao sentar”. Isso aponta oportunidade de modelagem.
Métodos práticos de pesquisa com potenciais clientes
Entrevistas rápidas (10–15 minutos) — roteiro e execução
Entrevistas curtas são ideais para entender motivações e barreiras. Faça de 8 a 15 entrevistas com pessoas do público.
Como recrutar:
- Convide pessoas do seu círculo estendido (amigos de amigos) que se encaixem no recorte.
- Aborde em comunidades e grupos relacionados ao estilo/ocasião (sem vender; apenas pesquisa).
- Ofereça um agradecimento simples (ex.: cupom futuro, brinde simbólico) se fizer sentido.
Roteiro (perguntas abertas):
- Quando foi a última vez que você comprou [categoria]? O que motivou?
- O que você mais odeia nessa compra (provar, tamanho, tecido, preço, entrega)?
- Quais marcas você considera? Por quê?
- O que te faz desistir de comprar online?
- Qual faixa de preço você considera “justa” para [peça] e o que precisa ter para valer?
- Você já teve problema de tamanho/modelagem? Conte um exemplo.
- Se existisse uma marca perfeita para você, o que ela teria?
Como registrar: anote frases literais e marque tags (ex.: “comprimento”, “transparência”, “troca”, “tecido fresco”). Depois conte frequência de tags.
Questionários (rápidos e objetivos) — modelo enxuto
Questionário serve para medir frequência e prioridades. Faça com 50–200 respostas, se possível.
Boas práticas:
- 10–12 perguntas no máximo.
- Use múltipla escolha e escalas (1 a 5) para facilitar análise.
- Inclua 1–2 perguntas abertas para capturar nuances.
Exemplo de perguntas:
- Com que frequência você compra [categoria]? (mensal/bimestral/trimestral/raramente)
- Onde você compra mais? (loja física/online/ambos)
- O que pesa mais na decisão? (marque até 3) preço, caimento, tecido, durabilidade, estilo, marca, sustentabilidade, praticidade de troca
- Qual sua maior dificuldade ao comprar [categoria]? (lista + “outro”)
- Qual faixa de preço você paga hoje por [peça]? (intervalos)
- De 1 a 5, quão importante é: guia de medidas detalhado / fotos em corpos diferentes / entrega rápida / tecido natural / personalização
- Pergunta aberta: “O que faria você trocar sua marca atual por outra?”
Como analisar: cruze “dificuldade” com “faixa de preço” e “importâncias”. Ex.: se “caimento” é top 1 e muitos reclamam de “cintura apertada”, isso direciona modelagem e comunicação.
Análise de tendências aplicada ao seu público (sem virar “moda do momento”)
Tendência útil é a que encaixa no estilo de vida e no orçamento do público. Em vez de perseguir novidades, use tendências como hipóteses de produto e comunicação.
Passo a passo para filtrar tendências
- 1) Liste microtendências observáveis: cores recorrentes, tipos de peça, detalhes (recortes, assimetrias), tecidos, silhuetas.
- 2) Pergunte “onde isso entra na vida do meu público?” Ex.: uma tendência de transparência pode não servir para trabalho; pode virar detalhe sutil (manga, sobreposição).
- 3) Adapte para o seu posicionamento: se você é “conforto e elegância”, traduza tendência em modelagem e tecido (ex.: alfaiataria com elastano, cintura ajustável).
- 4) Defina nível de risco: tendência alta (mais arriscada) vs. variação de básico (menos arriscada).
Exemplo prático: se o público quer “roupa de trabalho que não amassa”, uma tendência de tecidos tecnológicos pode virar oportunidade: camisas com tecido de baixa amassabilidade e comunicação focada em praticidade.
Leitura de dados de busca e comportamento em redes sociais
Dados de busca: como extrair intenção de compra
Buscas revelam o que as pessoas querem resolver. Você pode analisar:
- Termos com dor: “calça que não marca”, “vestido que não amassa”, “sutiã sem aro confortável”.
- Termos com corpo/medida: “calça para quadril largo”, “blazer para baixinha”, “jeans para cintura fina e quadril largo”.
- Termos com ocasião: “look para entrevista de emprego”, “roupa para trabalhar no calor”.
- Termos com material: “linho não amassa” (pode indicar desejo e frustração).
Passo a passo:
- 1) Liste 20–40 palavras-chave do seu recorte (peça + dor + público + ocasião).
- 2) Observe variações sugeridas em mecanismos de busca e perguntas relacionadas.
- 3) Agrupe por intenção: resolver problema, comparar, comprar, aprender.
- 4) Priorize grupos com alta recorrência e alta aderência ao seu posicionamento.
Redes sociais: como identificar padrões sem se perder em “likes”
Em redes sociais, foque em sinais de demanda e objeção:
- Conteúdos que geram salvamentos (indicam intenção futura): guias de medidas, combinações, “como escolher tamanho”.
- Comentários com perguntas repetidas: “tem forro?”, “marca?”, “serve em quadril largo?”, “qual o tecido?”.
- UGC espontâneo: pessoas mostrando como a peça veste na vida real.
- Reclamações recorrentes: atraso, troca difícil, transparência, foto enganosa.
Mini-método (30 minutos): escolha 5 marcas e analise 10 posts de maior engajamento de cada uma. Em uma tabela, anote: tema do post, formato, promessa, dúvidas nos comentários, elogios e críticas. Conte repetições.
Transformando achados em oportunidades (as “lacunas” que viram produto e proposta)
Oportunidade é uma lacuna clara entre o que o público quer e o que o mercado entrega. Abaixo estão tipos comuns de lacunas na moda e como reconhecê-las.
Lacunas de tamanho e grade
- Sinais: comentários “não tem meu tamanho”, “GG pequeno”, “plus sem estilo”, “manga curta”.
- Oportunidade: grade inclusiva, variação de comprimento (petite/tall), guia de medidas com medidas da peça.
- Exemplo: lançar calças em 3 comprimentos e comunicar “escolha seu comprimento” com prova em modelos de alturas diferentes.
Lacunas de modelagem e caimento
- Sinais: “marca barriga”, “cava abre”, “puxa no quadril”, “não dá para levantar o braço”.
- Oportunidade: ajustes de modelagem, tecidos com elasticidade adequada, testes em corpos reais do público.
- Exemplo: blazer com recorte e elastano para mobilidade + conteúdo mostrando movimento (sentar, levantar, dirigir).
Lacunas de estilo (estética) com funcionalidade
- Sinais: público quer “arrumado sem esforço”, mas encontra peças desconfortáveis ou muito básicas.
- Oportunidade: peças versáteis (trabalho → casual), paleta coordenada, “cápsulas” por ocasião.
- Exemplo: coleção de 12 peças que formam 30 looks, com guia de combinações.
Lacunas de preço vs. valor percebido
- Sinais: reclamações “caro pelo que entrega” ou “barato mas dura pouco”.
- Oportunidade: ajustar materiais/acabamentos para sustentar preço, ou criar linha de entrada com design inteligente.
- Exemplo: manter design premium, mas reduzir complexidade de costura em itens de entrada e comunicar claramente o que muda.
Lacunas de conveniência (compra, entrega, troca, informação)
- Sinais: dúvidas repetidas, abandono por medo de errar tamanho, reclamações de troca.
- Oportunidade: guia de tamanho comparativo, atendimento rápido, política de troca simples, fotos e vídeos mais informativos.
- Exemplo: “compre 2 tamanhos, devolva 1” (quando viável) ou consultoria de tamanho via chat com perguntas padronizadas.
Lacunas de sustentabilidade (sem greenwashing)
- Sinais: público pergunta “de onde vem?”, “tem certificação?”, “qual tecido?”.
- Oportunidade: transparência de materiais, durabilidade, reparo, produção local, redução de desperdício.
- Exemplo: oferecer serviço de ajuste/reparo e comunicar custo por uso (durabilidade) com dados simples.
Lacunas de personalização
- Sinais: pedidos por ajustes, iniciais, escolha de comprimento, combinação de cores.
- Oportunidade: personalização limitada (controlada) para não explodir complexidade: barra, alça, monograma, escolha de cor em best-sellers.
- Exemplo: vestido com 2 opções de comprimento + 3 cores, mantendo produção organizada.
Como validar hipóteses com critérios objetivos (antes de investir pesado)
Depois de mapear lacunas, transforme cada uma em uma hipótese testável. Use um formato simples:
Hipótese: Se eu oferecer [solução] para [público], então vou obter [resultado mensurável] porque [insight da pesquisa].Exemplo:
Se eu lançar uma calça de alfaiataria com 3 comprimentos e cintura confortável para mulheres 28–45, então terei taxa de conversão maior que 1,5% na página do produto, porque a principal reclamação nas avaliações foi “comprimento curto” e “cintura apertada”.Critérios objetivos para priorizar oportunidades (matriz rápida)
Dê nota de 1 a 5 para cada critério e some:
- Frequência da dor (aparece muito em entrevistas/comentários?).
- Disposição a pagar (o público pagaria mais por isso?).
- Diferenciação (poucos concorrentes entregam bem?).
- Viabilidade (você consegue produzir com qualidade e consistência?).
- Clareza de comunicação (dá para explicar em uma frase?).
Regra prática: priorize hipóteses com nota alta em frequência + diferenciação + viabilidade. Se a dor é rara ou a solução é difícil de entregar, deixe para depois.
Validações leves (sem estoque grande)
- Teste de mensagem: crie 2–3 versões de promessa (ex.: “não amassa”, “cintura confortável”, “3 comprimentos”) e veja qual gera mais respostas e perguntas.
- Pré-lista de interesse: convide pessoas a entrarem em uma lista para receber aviso do lançamento; meça taxa de inscrição.
- Protótipo com prova real: faça 1–3 amostras e teste em 5–10 pessoas do público; registre ajustes necessários.
- Teste de preço: apresente duas faixas de preço em questionário (sem “promoção”) e meça intenção de compra.
Checklist de validação (o que precisa ficar claro)
- Quem compra (perfil e ocasião).
- Qual dor é resolvida (em linguagem do cliente).
- Como você resolve (atributos do produto + experiência).
- Prova (teste de caimento, fotos reais, detalhes do tecido, política de troca).
- Métrica (o que define “deu certo”: inscrições, respostas, conversão, repetição de compra).
Exercício guiado: do dado à oportunidade em 1 página
Preencha o quadro abaixo para organizar sua pesquisa e sair com 3 oportunidades priorizadas.
| Fonte | Achado (frase do cliente/dado) | Tipo de lacuna | Ideia de solução | Como validar em 7 dias | Métrica |
|---|---|---|---|---|---|
| Avaliações | “O tecido é bonito, mas marca e fica transparente” | Modelagem/Material | Forro + tecido mais encorpado + fotos com teste de transparência | Protótipo + teste com 8 pessoas | Nota de conforto > 4/5 |
| Entrevistas | “Não compro online porque erro o tamanho” | Conveniência | Guia de medidas da peça + consultoria de tamanho | Teste de mensagem + simulação de atendimento | Redução de dúvidas repetidas |
| Busca | “calça para quadril largo e cintura fina” aparece recorrente | Modelagem/Tamanho | Modelagem específica + comunicação direcionada | Landing com lista de interesse | Taxa de inscrição |