Mobilização precoce e prevenção de quedas no pós-operatório mediato

Capítulo 11

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

Conceito e objetivos da mobilização precoce no pós-operatório mediato

No pós-operatório mediato, a mobilização precoce é a retomada planejada e progressiva de mudanças de decúbito, sedestação, ortostatismo e deambulação, com foco em recuperar função, autonomia e segurança. O objetivo prático é aumentar tolerância ao esforço e independência para atividades básicas (sentar, levantar, caminhar até o banheiro), reduzindo eventos adversos como quedas, intolerância ortostática e piora da dor durante o movimento.

Critérios clínicos para iniciar mobilização

Checklist de prontidão (antes de tirar do leito)

  • Nível de consciência e cooperação: desperto, orientado o suficiente para seguir comandos simples e comunicar sintomas (tontura, náusea, dor).
  • Estabilidade clínica: sem sinais de instabilidade aguda; sinais vitais dentro de limites aceitáveis para o caso e sem necessidade de escalonamento imediato de suporte.
  • Controle de dor para movimento: dor em repouso e ao movimento em nível que permita participação (ex.: paciente consegue inspirar profundamente e mover membros sem interromper por dor intensa). Planejar analgesia antes da mobilização quando indicado.
  • Força e controle motor mínimos: consegue sustentar tronco sentado com apoio e movimentar membros inferiores para transferência (mesmo com auxílio).
  • Risco de sangramento/complicação local: sem evidência de sangramento ativo ou piora súbita de edema/dor no sítio cirúrgico ao mobilizar; curativo e dispositivos íntegros.
  • Oxigenação adequada para esforço leve: sem dessaturação em repouso e com possibilidade de monitorizar durante a atividade quando necessário.
  • Prescrição/limitações específicas: respeitar restrições de carga, amplitude de movimento, uso de órteses, precauções de coluna/abdome, e orientações da equipe cirúrgica e fisioterapia.

Quando adiar e reavaliar

  • Tontura importante em repouso, síncope prévia recente, náusea intensa ou sonolência excessiva.
  • Dor intensa não controlada que impede cooperação ou gera proteção muscular marcada.
  • Dessaturação em repouso ou piora evidente ao mínimo esforço.
  • Fraqueza súbita, déficit neurológico novo, ou incapacidade de sustentar sedestação com segurança.

Preparação para mobilização segura

1) Planejamento do momento e analgesia

  • Sincronize com analgesia: programe a mobilização para 30–60 minutos após analgesia (conforme via e protocolo institucional), especialmente para primeira saída do leito.
  • Combine metas curtas: primeira tentativa pode ser apenas sentar à beira do leito e permanecer 2–5 minutos, se tolerado.
  • Explique o que será feito: descreva etapas e peça para o paciente avisar imediatamente se houver tontura, escurecimento visual, sudorese fria, falta de ar ou dor intensa.

2) Avaliação ortostática prática (tolerância postural)

Use uma abordagem em etapas, observando sintomas e sinais durante a mudança de posição:

  • Supino: verifique conforto, cor, sudorese, queixas e, quando indicado, sinais vitais basais.
  • Sedestação: eleve cabeceira, depois sente à beira do leito com pés apoiados; aguarde 1–3 minutos; observe tontura, palidez, náusea, instabilidade de tronco.
  • Ortostatismo: levantar com apoio; manter 30–60 segundos antes de iniciar marcha; reavaliar sintomas.

Sinais de intolerância ortostática: tontura, visão turva, fraqueza súbita, sudorese fria, palidez, taquicardia desproporcional, queda de pressão, náusea. Se ocorrer, retorne à posição segura (sentado ou deitado), eleve pernas se necessário e comunique a equipe conforme gravidade.

3) Dispositivos, fios e organização do ambiente

  • Mapeie tudo o que está conectado: acesso venoso, bombas de infusão, oxigênio, drenos, sonda urinária, monitorização, curativos e órteses.
  • Fixação e folga: garanta que linhas tenham folga suficiente para o movimento e estejam fixadas para evitar tração. Posicione bombas e suportes do lado de saída do leito.
  • Drenos e bolsas: mantenha abaixo do nível de inserção quando aplicável e presos ao suporte/andador; evite que arrastem no chão.
  • Calçado e roupas: usar calçado fechado antiderrapante; ajustar camisola/roupa para não enroscar.
  • Ambiente: retirar obstáculos, secar piso, ajustar altura do leito, travar rodas, garantir iluminação, posicionar cadeira firme com braços se necessário.

Técnica de auxílio: sentar, levantar e caminhar

Princípios de segurança e ergonomia

  • Use cinto de marcha (quando disponível e indicado) para controle do tronco e prevenção de queda.
  • Base ampla e joelhos flexionados: proteja sua coluna; evite puxar pelo braço do paciente.
  • Comandos curtos: “Vire de lado”, “Pés no chão”, “Incline o tronco para frente”, “Empurre com as mãos”, “Fique em pé e pare”.
  • Um passo por vez: não avance para a próxima etapa se a anterior não estiver estável.

1) Do decúbito para sedestação à beira do leito (passo a passo)

  • Preparar: elevar cabeceira parcialmente; travar cama; posicionar o paciente próximo à borda.
  • Virar em bloco (quando indicado): orientar a virar para o lado, mantendo alinhamento do tronco conforme restrições cirúrgicas.
  • Pernas para fora: auxiliar a trazer as pernas para fora do leito enquanto o tronco é elevado com apoio no ombro/escápula (não puxar pelo braço).
  • Estabilizar: manter o paciente sentado com pés apoiados; observar 1–3 minutos; incentivar respiração calma.
  • Ajustar sintomas: se tontura leve, manter sentado e reavaliar; se piorar, retornar ao leito.

2) De sentado para em pé (transferência) (passo a passo)

  • Posicionar: pés alinhados sob os joelhos, um pouco afastados; paciente na borda do leito; calçado antiderrapante.
  • Dispositivo de apoio: andador ou bengala posicionados à frente (se prescritos). Se usar andador, orientar a não puxá-lo para levantar; levantar empurrando o leito/cadeira.
  • Comando: “Incline o tronco para frente, nariz sobre os dedos do pé, empurre com as mãos e levante”.
  • Assistência: segurar pelo cinto de marcha e estabilizar joelhos se houver risco de ceder.
  • Pausa em pé: manter 30–60 segundos; checar tontura, falta de ar, dor intensa, instabilidade.

3) Início da marcha e deambulação assistida (passo a passo)

  • Primeiros passos: iniciar com passos curtos; orientar olhar para frente; evitar giros rápidos.
  • Ritmo: caminhar devagar; parar se houver qualquer sintoma de alarme.
  • Gestão de dispositivos: um profissional pode conduzir suporte de soro/oxigênio enquanto outro mantém controle do paciente; manter linhas do lado externo, sem cruzar pernas.
  • Retorno seguro: ao final, virar com passos curtos até a cadeira/leito; sentir a superfície atrás das pernas; sentar lentamente.

Avaliação de risco de queda no pós-operatório mediato

Fatores de risco frequentes

  • Paciente: idade avançada, histórico de quedas, fraqueza, tontura, déficit visual, delirium/confusão, urgência urinária, medo de cair.
  • Tratamento: sedativos/hipnóticos, opioides, anti-hipertensivos, diuréticos; efeitos como sonolência e hipotensão ortostática.
  • Condição pós-operatória: dor ao movimento, limitação funcional, anemia, desidratação, restrições de carga, uso de órteses.
  • Ambiente: piso molhado, iluminação inadequada, campainha inacessível, cabos no trajeto, cama alta, ausência de calçado adequado.

Estratificação prática e conduta

Independentemente da escala institucional, classifique o paciente em baixo, moderado ou alto risco com base em: (1) estado mental, (2) marcha/força, (3) sintomas ortostáticos, (4) medicações sedativas, (5) necessidade de dispositivos e (6) urgência para ir ao banheiro. Para alto risco, planeje mobilização sempre assistida, com monitorização mais próxima e metas menores.

Medidas ambientais e organizacionais para prevenção de quedas

  • Leito: altura baixa, rodas travadas, escada/banquinho estável se necessário; grades conforme protocolo e avaliação (evitar contenção inadequada).
  • Trajeto livre: remover mesas, lixeiras, cabos; organizar suporte de soro e oxigênio do lado de saída.
  • Iluminação: luz noturna para idas ao banheiro; óculos e aparelhos auditivos disponíveis.
  • Campainha e itens essenciais: ao alcance (água, telefone, lenços), reduzindo tentativas de levantar sozinho.
  • Banheiro: barras de apoio, assento elevado quando indicado, piso seco, cadeira higiênica se necessário.
  • Calçado: antiderrapante; evitar meias lisas.

Orientação ao paciente e família (mensagens-chave)

  • Não levantar sozinho nas primeiras vezes ou enquanto houver tontura/sonolência.
  • Chamar a equipe antes de ir ao banheiro; planejar horários regulares para reduzir urgência.
  • Levantar em etapas: sentar, esperar, levantar, esperar, caminhar.
  • Relatar sintomas imediatamente: tontura, falta de ar, palpitação, dor forte, fraqueza, náusea.
  • Uso correto de dispositivos: como apoiar no andador/bengala; não se apoiar em suportes de soro instáveis.
  • Família como apoio seguro: pode acompanhar e avisar a equipe, mas não deve realizar transferências sozinho sem orientação.

Monitorização durante a deambulação: o que observar e como agir

Sinais de alerta durante sedestação/ortostatismo/marcha

  • Tontura ou pré-síncope: parar imediatamente, sentar em cadeira próxima ou retornar ao leito; reavaliar tolerância ortostática.
  • Dessaturação: se houver queda relevante da saturação ou dispneia, interromper, ofertar suporte conforme prescrição/protocolo e comunicar.
  • Dor intensa: se a dor impedir a marcha ou alterar padrão de movimento (marcha antálgica importante), interromper e replanejar com analgesia e metas menores.
  • Fraqueza/instabilidade: joelhos cedendo, arrastar pés, incapacidade de manter tronco; aumentar nível de assistência e considerar dispositivo/apoio adicional.
  • Náusea/sudorese fria/palidez: sinais de intolerância; interromper e posicionar com segurança.

Intervenções imediatas padronizadas (sequência prática)

  1. Parar a marcha e estabilizar o paciente (cinto de marcha/apoio).
  2. Sentar em cadeira próxima ou retornar ao leito com passos curtos.
  3. Reavaliar sintomas e, quando indicado, sinais vitais e saturação.
  4. Registrar o evento e comunicar a equipe conforme gravidade e protocolos.

Progressão diária de metas funcionais (modelo prático)

A progressão deve ser individualizada, mas um modelo útil é definir metas mensuráveis por dia, com critérios de avanço: ausência de sintomas limitantes, estabilidade postural e recuperação rápida após esforço.

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Dia/EtapaMeta funcionalCritérios de tolerânciaSe não tolerar
Etapa 1Sedestação à beira do leito 2–5 min (2–3x/dia)Sem tontura moderada/intensa; tronco estávelReduzir tempo; repetir após analgesia e hidratação conforme plano
Etapa 2Ortostatismo 30–60 s + 3–10 passos no quartoSem pré-síncope; marcha com apoio seguroVoltar para sedestação; reavaliar ortostatismo e necessidade de 2 profissionais
Etapa 3Caminhar até a porta/quadro do leito (10–30 m) 2–3x/diaDispneia leve; saturação e dor aceitáveis; sem instabilidadeDiminuir distância; pausas programadas; ajustar dispositivos
Etapa 4Caminhar no corredor (30–100 m) + treino de ida ao banheiro com supervisãoRecupera em 1–3 min após parar; sem sintomas de alarmeRetornar à etapa anterior e investigar fatores limitantes (dor, ortostatismo, fadiga)
Etapa 5Maior independência: transferências com mínima assistência e caminhadas programadasSegurança consistente; uso correto de dispositivoManter supervisão e reforçar educação/ambiente

Como definir metas no plantão

  • Meta de posição: “Sentar na poltrona por 20 minutos após o café”.
  • Meta de marcha: “Caminhar 2 vezes no corredor até o marco X”.
  • Meta de autonomia: “Transferência leito-poltrona com 1 profissional e andador”.
  • Meta de segurança: “Chamar antes de levantar; campainha ao alcance; calçado sempre”.

Registro de enfermagem: tolerância, assistência e intercorrências

Elementos mínimos a documentar

  • Data/hora e etapa realizada (sedestação, ortostatismo, deambulação).
  • Nível de assistência: independente, supervisão, 1 pessoa, 2 pessoas; uso de cinto de marcha.
  • Dispositivos: andador/bengala, oxigênio, suporte de soro, drenos/sondas (sem tração, íntegros).
  • Distância/tempo: metros aproximados ou marcos (até a porta, até o banheiro) e duração.
  • Sintomas durante/apos: tontura, dispneia, náusea, fadiga, dor ao movimento (com escala), necessidade de pausa.
  • Parâmetros quando indicados: saturação e sinais vitais antes/durante/depois, especialmente em pacientes de maior risco.
  • Intercorrências e condutas: interrupção por dessaturação, retorno ao leito, analgesia administrada, comunicação ao médico/fisioterapia.
  • Educação realizada: orientações ao paciente/família e resposta/adesão.

Exemplo de evolução (modelo)

Mobilização PO mediato: sedestação à beira do leito por 5 min, sem tontura. Transferência para ortostatismo com 1 profissional + cinto de marcha; manteve em pé 60 s. Deambulou 20 m no corredor com andador e suporte de soro; pausa única por fadiga leve. Dor ao movimento 4/10, tolerável. SpO2 96% pré e 94% pós, recuperou em 2 min. Orientado a chamar antes de levantar e usar calçado antiderrapante. Sem tração de dispositivos, curativo íntegro.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Durante a primeira saída do leito no pós-operatório mediato, qual conduta aumenta a segurança da mobilização e ajuda a prevenir quedas?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A mobilização deve ser planejada e progressiva, preferencialmente após analgesia, com etapas (sedestação, ortostatismo e marcha) e monitorização de sintomas como tontura, palidez e fraqueza, reduzindo risco de queda.

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