O que é mix de produtos (e por que ele decide seu lucro)
Mix de produtos é a combinação planejada do que você vende (categorias, modelos, tamanhos, cores, estilos e ocasiões) em quantidades coerentes com a demanda. Na prática, ele define duas coisas ao mesmo tempo: giro (velocidade de venda) e margem (quanto sobra por peça). Um mix bem montado evita dois erros comuns: (1) ter “muita variedade que não vende” e (2) ter “pouca variedade que limita a venda”.
Para o marketing de moda, o mix é o “cardápio” que sustenta campanhas, vitrines, conteúdo e ofertas. Se o estoque não tem grade, cor e preço coerentes, o marketing até gera tráfego, mas a conversão cai (falta tamanho, falta cor, falta opção de entrada ou de upgrade).
Mix como ponte entre compra/estoque e marketing
- Compra: define profundidade (quantidade por SKU) e amplitude (quantos SKUs).
- Estoque: mostra o que está “vendável” (com grade completa) e o que está travando venda (grade quebrada).
- Marketing: escolhe quais famílias de produtos vão receber destaque (itens heróis), quais vão compor looks (complementos) e quais viram ofertas táticas sem destruir margem.
Como organizar o mix: categorias, estilos, ocasiões, cores e grade
1) Estruture por categorias (o esqueleto do mix)
Comece separando seu mix em categorias que façam sentido para a compra do cliente e para sua operação. Exemplo (ajuste ao seu negócio):
- Top: camisetas, blusas, camisas, tricôs
- Bottom: jeans, alfaiataria, saias, shorts
- One-piece: vestidos, macacões
- Outerwear: jaquetas, blazers, casacos
- Calçados (se houver)
- Acessórios: cintos, bolsas, bijus, lenços
Regra prática: categorias que “puxam look” (ex.: vestido, jeans, blazer) tendem a ser boas candidatas a itens heróis. Categorias que “finalizam” (ex.: cinto, brinco, bolsa) são excelentes complementos para elevar ticket.
2) Organize por ocasiões (o motor de comunicação)
Ocasião é uma forma simples de conectar estoque ao marketing, porque vira tema de vitrine e campanha. Exemplos:
- Ouça o áudio com a tela desligada
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Baixar o aplicativo
- Trabalho (alfaiataria, camisas, sapatos)
- Casual (t-shirts, jeans, tênis)
- Festa (vestidos, brilho, salto, clutch)
- Viagem (conforto, sobreposições, peças versáteis)
- Fitness (se aplicável)
Use a ocasião para montar “cápsulas” no estoque: um conjunto de peças que se combinam e que você consegue comunicar como solução completa (look pronto).
3) Defina estilos (para evitar mix “sem identidade”)
Mesmo sem entrar em branding, o estilo ajuda a manter coerência e reduzir encalhe. Exemplo de agrupamentos práticos:
- Básico (alta recorrência, bom giro)
- Contemporâneo (tendências moderadas)
- Fashion (tendência forte, maior risco, maior apelo)
Regra prática para risco: quanto mais fashion, menor a profundidade (menos unidades por SKU) e maior a necessidade de “janela de venda” curta (marketing mais intenso no lançamento).
4) Planeje cores (venda e reposição)
Uma forma simples de planejar cores é dividir em:
- Neutros: preto, branco, off-white, cinza, bege, marinho (base de giro e reposição)
- Cores de acento: 2 a 4 cores da estação (geram novidade e desejo)
- Estampas: use como “picos” de interesse, mas com controle de profundidade
Conexão com marketing: neutros sustentam campanhas contínuas (“essenciais”), acentos e estampas sustentam picos (“novidades da semana”, “drops”).
5) Construa grade de tamanhos (para não perder venda por ruptura)
Grade é a distribuição de unidades por tamanho. Sem grade, você até vende no início, mas perde conversão quando sobram apenas tamanhos extremos. Para montar grade, você precisa de duas decisões: quais tamanhos oferecer e qual proporção.
Exemplo de grade base (ajuste ao seu histórico):
| Categoria | Tamanhos | Proporção sugerida |
|---|---|---|
| Blusas (P-M-G) | P / M / G | 25% / 45% / 30% |
| Calças (36-38-40-42) | 36 / 38 / 40 / 42 | 15% / 35% / 35% / 15% |
| Vestidos (P-M-G) | P / M / G | 20% / 50% / 30% |
Regra prática: se você não tem histórico, comece com uma grade “centrada” (mais unidades nos tamanhos médios) e ajuste em 2 a 4 semanas com base nas vendas e nas solicitações em loja/online (tamanho mais pedido e tamanho que sobra).
Roteiro prático: montar uma grade básica e um mix vendável
Passo 1 — Liste seus SKUs por categoria e marque o papel de cada peça
Crie uma planilha simples com colunas: Categoria, SKU, Cor, Tamanho, Custo, Preço, Papel (Herói / Complemento / Básico de reposição / Tendência).
Definições rápidas:
- Herói: peça com alto apelo, fácil de comunicar, que “puxa” tráfego e prova de valor.
- Complemento: peça que aumenta ticket e fecha look (cinto, brinco, terceira peça, calçado).
- Básico de reposição: recorrente, previsível, sustenta caixa.
- Tendência: novidade com risco maior; exige marketing de lançamento.
Passo 2 — Verifique “vendabilidade” por grade (não só por quantidade)
Uma peça só é realmente vendável quando tem grade minimamente completa. Faça um diagnóstico por SKU:
- Grade completa: todos os tamanhos-chave disponíveis (ótimo para campanha).
- Grade parcial: faltam tamanhos médios (cuidado com anúncio e vitrine).
- Grade quebrada: sobrou 1 ou 2 tamanhos (melhor usar como complemento, outlet interno ou ação de giro).
Regra prática de marketing: não coloque como destaque principal (anúncio, vitrine, “novidade”) um SKU com grade quebrada. Isso gera frustração, derruba conversão e aumenta atendimento improdutivo (“tem no M?”).
Passo 3 — Monte uma “cápsula” por ocasião (look completo)
Escolha uma ocasião prioritária da semana/mês e monte uma cápsula com:
- 1 a 2 itens heróis (ex.: blazer + calça, vestido midi)
- 2 a 4 peças de base (ex.: camisa, t-shirt premium, regata)
- 2 a 5 complementos (ex.: cinto, brinco, bolsa, sapato)
Isso vira: vitrine, sequência de posts, provador/atendimento guiado e kits/combos.
Passo 4 — Crie uma “escada de preços” dentro da cápsula
Escada de preços é ter opções de entrada, meio e topo para o cliente subir o ticket sem sentir salto brusco. Exemplo (ocasião trabalho):
- Entrada: t-shirt premium / regata (R$ 79–129)
- Meio: camisa / calça (R$ 179–299)
- Topo: blazer / vestido / sapato (R$ 349–699)
Regra prática: se sua cápsula só tem “topo”, você perde volume. Se só tem “entrada”, você vende giro mas sofre para fechar margem.
Precificação para moda: vender com margem e com giro
Conceitos essenciais (sem complicar)
- Custo do produto: custo de compra + impostos + frete + embalagem (se aplicável) + custos diretos para colocar a peça à venda.
- Markup: multiplicador aplicado ao custo para chegar no preço.
- Margem bruta: (Preço − Custo) / Preço.
- Desconto máximo saudável: limite de desconto que ainda preserva margem mínima.
Markup e margem: como calcular
Fórmulas:
Preço = Custo × MarkupMargem bruta (%) = (Preço - Custo) / PreçoExemplo: custo R$ 80, markup 2,5
Preço = 80 × 2,5 = R$ 200Margem = (200 - 80) / 200 = 0,60 = 60%Use markup como ponto de partida, mas ajuste com: percepção de valor, concorrência local, elasticidade (o quanto o cliente aceita pagar) e papel da peça no mix (herói, complemento, reposição).
Ancoragem de preço (como vender o “meio”)
Ancoragem é apresentar um preço mais alto como referência para tornar o preço-alvo mais atraente. Na moda, isso funciona bem com “terceira peça” e itens premium.
- Exemplo: expor blazer premium (R$ 599) ao lado de blazer básico (R$ 399). O básico vira “bom negócio” sem desconto.
- Em página de produto: mostrar “look completo” com item topo + itens meio. O cliente compara dentro do seu universo, não fora.
Cuidados: ancoragem precisa ser honesta (produto realmente superior) e disponível em grade para não gerar frustração.
Escada de preços (arquitetura do mix)
Monte faixas por categoria para evitar “buracos”:
- Camisetas: R$ 69 / 99 / 129
- Calças: R$ 199 / 249 / 299 / 349
- Vestidos: R$ 229 / 299 / 399 / 499
Regra prática: tenha pelo menos 3 degraus por categoria-chave (entrada, meio, topo). Isso facilita upsell no atendimento e no online (“versão premium”, “tecido melhor”, “modelagem mais estruturada”).
Combos e kits (aumentar ticket sem destruir margem)
Combo bom é aquele que dá vantagem ao cliente e mantém margem porque aumenta o valor total da compra e reduz custo de aquisição/atendimento por item.
Estruturas de combo que preservam margem:
- Desconto no segundo item: “Leve 2, ganhe 20% no item de menor valor”. Protege o herói.
- Combo com complemento: “Blazer + cinto com 15% no cinto”. Você desconta onde a margem costuma ser maior.
- Preço fechado por look: “Look trabalho por R$ X” (calça + camisa + acessório). O desconto é diluído.
Checklist do combo saudável:
- O desconto incide mais em itens de alta margem (geralmente complementos), não no herói.
- O combo usa itens com boa disponibilidade de grade.
- O combo ajuda a girar uma categoria que está lenta sem “queimar” a categoria que está forte.
Desconto máximo: calcule antes de anunciar
Para não destruir margem, defina um limite de desconto por categoria. Um jeito rápido é calcular o desconto máximo para manter uma margem mínima.
Fórmula (com margem mínima desejada):
Preço mínimo = Custo / (1 - Margem mínima)Exemplo: custo R$ 80, margem mínima 45%
Preço mínimo = 80 / (1 - 0,45) = 80 / 0,55 = R$ 145,45Se o preço cheio é R$ 200, o desconto máximo sem cair abaixo de 45% de margem é:
Desconto máximo = 1 - (Preço mínimo / Preço cheio) = 1 - (145,45 / 200) = 27,3%Regra prática: desconto sem conta vira prejuízo. Faça essa conta para 5 a 10 itens principais e você cria uma “tabela de limites” para a equipe.
Itens heróis e complementos: como desenhar para elevar ticket médio
Como escolher um item herói
Um item herói deve cumprir pelo menos 3 critérios:
- Apelo visual: rende foto, vitrine, vídeo e “antes/depois” de styling.
- Versatilidade: combina com várias bases (jeans, alfaiataria, saia).
- Grade forte: disponível nos tamanhos-chave e em cores vendáveis.
- Preço âncora: ajuda a posicionar a escada (pode ser meio ou topo, dependendo da estratégia).
Exemplos de heróis comuns: blazer bem cortado, jeans com modelagem campeã, vestido “salva look”, tênis curinga, camisa de tecido superior.
Como desenhar complementos que realmente vendem
Complemento não é “qualquer acessório”. Ele precisa ter função clara no look e no atendimento:
- Função estética: finaliza e dá intenção (cinto marca cintura, brinco ilumina rosto).
- Função de solução: resolve um problema (segunda pele, modelador, alça, meia invisível).
- Função de upgrade: eleva percepção (bolsa estruturada, terceira peça).
Regra prática: para cada herói em destaque, tenha pelo menos 3 complementos prontos para sugestão (no físico: perto do provador/ilha; no online: “complete o look”).
Script de atendimento e vitrine para elevar ticket
- 1) Comece pelo herói: “Esse blazer é a peça principal do look.”
- 2) Ofereça base: “Prefere com calça reta ou jeans?”
- 3) Faça o upgrade com complemento: “Com esse cinto a silhueta fica mais marcada; quer provar?”
- 4) Feche com item de recorrência: “Leva também a regata segunda pele para usar com transparência?”
Ofertas que giram sem queimar preço: táticas por situação de estoque
1) Quando a grade está quebrada
- Oferta discreta (sem vitrine principal): “últimas unidades” por tamanho.
- Bundle com herói: desconto no item quebrado ao comprar o herói (protege o preço do herói).
- Canal específico: separar uma arara/aba “últimas peças” para não contaminar percepção do restante.
2) Quando há excesso de uma cor/estampa
- Reposicionamento: mude a combinação (styling) e a ocasião (ex.: estampa vira “viagem” em vez de “festa”).
- Combo temático: “kit viagem” com desconto no item de menor valor.
3) Quando a categoria está lenta, mas o herói está forte
- Empurre complementos: desconto progressivo em acessórios (ex.: 10% no 2º, 15% no 3º).
- Brinde condicionado: brinde de baixo custo percebido alto (ex.: lenço) acima de um valor mínimo, em vez de desconto direto.
Sazonalidade e calendário de coleções: como ajustar mix e preço
Planejamento por janelas (antes, durante e depois)
- Pré-lançamento (2–3 semanas antes): foque em heróis com grade cheia e cores-chave; evite queimar preço cedo.
- Lançamento (primeiras 2 semanas): preço cheio, ancoragem e escada de preços; combos leves (benefício no complemento).
- Meio de ciclo: reforço de best-sellers (reposições) e entrada de novidades menores (drops) para manter tráfego.
- Fim de ciclo: ações de giro em itens de risco (tendência, estampas) e grades quebradas, com limites de desconto calculados.
Checklist de calendário para não errar a mão no desconto
- Quais datas/ocasiões vão puxar demanda (ex.: volta ao trabalho, festas, férias)?
- Quais heróis precisam estar com grade completa nessas semanas?
- Quais itens de risco precisam vender cedo (tendência) para não virar liquidação pesada?
- Qual é o desconto máximo por categoria para manter margem mínima?
Passo a passo: do mix à oferta (um método replicável)
Passo 1 — Escolha 1 ocasião e 1 herói para a semana
Exemplo: “Trabalho” + “Blazer”. Garanta grade e cores neutras disponíveis.
Passo 2 — Monte a escada de preços ao redor do herói
- Entrada: regata/t-shirt
- Meio: camisa/calça
- Topo: blazer premium ou sapato
Passo 3 — Selecione 3 complementos com alta margem e alta compatibilidade
Exemplo: cinto + brinco + bolsa pequena. Priorize itens que funcionem com vários looks.
Passo 4 — Defina a oferta sem mexer no preço do herói
Modelos prontos:
- Modelo A: “Na compra do blazer, 15% no cinto.”
- Modelo B: “Leve 2 peças e ganhe 20% na de menor valor.”
- Modelo C: “Look completo por R$ X” (desconto diluído e calculado).
Passo 5 — Valide margem com a conta do preço mínimo
Antes de publicar a oferta, calcule o preço mínimo de cada item com sua margem mínima e simule o carrinho (herói + base + complemento). Se o carrinho ainda entrega a margem mínima, a oferta está aprovada.
Passo 6 — Execute com regras de exposição (para não derrubar conversão)
- Destaque principal: apenas itens com grade forte.
- Itens com grade quebrada: usar como “últimas unidades” ou como desconto condicionado.
- Complementos: sempre próximos do herói (vitrine/ilha/provador) e no online como “complete o look”.