Microbiologia essencial: fungos — leveduras, bolores e dimorfismo

Capítulo 5

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

Célula fúngica: componentes-chave e por que importam

Fungos são eucariotos: possuem núcleo, organelas (como mitocôndrias) e um citoesqueleto mais complexo. Dois elementos estruturais são centrais para entender biologia, diagnóstico e tratamento: a parede celular e a membrana plasmática.

Parede celular: quitina e glucanos

A parede celular fúngica é rígida e dinâmica, responsável por forma, proteção osmótica e interação com o hospedeiro. Seus principais polímeros são:

  • Quitina: polímero de N-acetilglicosamina, confere resistência mecânica (pense como “vergalhões” estruturais).
  • Glucanos (especialmente β-1,3-glucano e β-1,6-glucano): formam uma rede que dá sustentação e serve de “andaime” para outras moléculas.
  • Manoproteínas: proteínas glicosiladas expostas na superfície, importantes para adesão e reconhecimento imunológico.

Implicação prática: componentes de parede (como β-glucanos) podem ser alvos de testes laboratoriais e de fármacos que inibem sua síntese.

Membrana plasmática: ergosterol

Em fungos, o principal esterol de membrana é o ergosterol, que regula fluidez e integridade da membrana. Isso é essencial porque muitos antifúngicos atuam:

  • ligando-se ao ergosterol e formando poros na membrana;
  • ou inibindo enzimas da via de síntese do ergosterol.

Diferenças essenciais: fungos vs bactérias vs células humanas

CaracterísticaFungosBactériasCélulas humanas
Organização celularEucariotos (núcleo e organelas)Procariontes (sem núcleo)Eucariotos
Parede celularQuitina + glucanosPeptidoglicanoAusente
Esterol de membranaErgosterolGeralmente ausenteColesterol
Tamanho típicoMaior que bactériasMenorMaior que fungos unicelulares
Alvos terapêuticos comunsParede (glucanos) e ergosterolParede (peptidoglicano), ribossomosEvitar alvos compartilhados

Leitura clínica rápida: como humanos não têm parede celular e usam colesterol (não ergosterol), é possível explorar essas diferenças para tratar infecções fúngicas com seletividade relativa (ainda assim, efeitos adversos existem).

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Morfologias fúngicas: leveduras, hifas, micélio e esporos

Leveduras

Leveduras são fungos unicelulares, geralmente arredondados/ovais, que se multiplicam por brotamento ou fissão. Em amostras clínicas, podem aparecer como células isoladas ou em agrupamentos, às vezes com estruturas alongadas (pseudohifas) dependendo da espécie e do ambiente.

Exemplo prático de interpretação: em um esfregaço de secreção, observar células ovais brotando sugere morfologia leveduriforme; a presença de pseudohifas pode indicar maior capacidade de invasão tecidual em certos contextos.

Hifas e micélio

Hifas são filamentos tubulares que crescem por extensão apical. O conjunto de hifas forma o micélio, uma rede que explora o substrato e absorve nutrientes.

  • Hifas septadas: possuem septos (divisórias) com poros, permitindo fluxo de citoplasma e organelas.
  • Hifas cenocíticas (não septadas): longos tubos multinucleados com poucos septos.

Implicação diagnóstica: o padrão de hifas (septação, ramificação, largura) é uma pista morfológica importante em microscopia e cultura.

Esporos (propágulos)

Esporos são unidades de dispersão e/ou resistência. Podem ser formados por vias assexuadas ou sexuadas. Em bolores, estruturas produtoras de esporos frequentemente são visíveis em cultura e ajudam na identificação.

Importante: em ambiente, esporos podem ser inalados; em indivíduos suscetíveis, isso pode iniciar infecções respiratórias ou reações alérgicas.

Dimorfismo fúngico: mudança de forma, virulência e diagnóstico

Dimorfismo é a capacidade de certos fungos alternarem entre duas formas principais conforme o ambiente, tipicamente:

  • Forma filamentosa (bolor/hifas) no ambiente;
  • Forma leveduriforme em tecidos do hospedeiro.

Essa transição é influenciada por sinais como temperatura, CO2, disponibilidade de nutrientes e estresse do hospedeiro.

Como o dimorfismo se conecta à virulência

  • Adaptação ao hospedeiro: a forma leveduriforme pode favorecer sobrevivência em tecidos, evasão imune e disseminação.
  • Invasão tecidual: em alguns fungos, estruturas filamentosas facilitam penetração e dano local.
  • Expressão de fatores de superfície: a mudança morfológica pode alterar adesinas, composição da parede e exposição de antígenos.

Como o dimorfismo afeta o diagnóstico

O laboratório pode observar morfologias diferentes dependendo de onde o fungo está:

  • No tecido: pode predominar a forma leveduriforme (ou estruturas específicas).
  • Na cultura em condições ambientais: pode aparecer como bolor com hifas e estruturas de esporulação.

Consequência prática: interpretar um exame exige correlacionar tipo de amostra (tecido, escarro, pele), condições de incubação e morfologia esperada.

Reprodução fúngica: assexuada e sexuada

Reprodução assexuada (rápida e comum)

Na reprodução assexuada, não há fusão de gametas; o objetivo é multiplicação e dispersão eficiente.

  • Brotação (típica de leveduras): uma célula “mãe” forma um broto que cresce e se separa.
  • Fragmentação: partes do micélio se quebram e cada fragmento pode originar novo crescimento.
  • Esporos assexuados: produzidos por estruturas especializadas (variam conforme o grupo), facilitam dispersão pelo ar/água.

Reprodução sexuada (variabilidade e adaptação)

Na reprodução sexuada, ocorre recombinação genética, aumentando variabilidade e potencial de adaptação. Em termos gerais, envolve:

  • Plasmogamia: fusão de citoplasma entre células compatíveis.
  • Cariogamia: fusão dos núcleos.
  • Meiose: geração de esporos sexuais com recombinação.

Implicação prática: variabilidade pode influenciar resistência a antifúngicos, adaptação ambiental e diferenças fenotípicas observadas em laboratório.

Condições que favorecem crescimento fúngico (e como isso aparece na prática)

Fungos são heterotróficos e absorvem nutrientes do ambiente. Em geral, toleram condições que inibem muitas bactérias, como pH mais ácido e menor atividade de água.

Fatores ambientais

  • Umidade: favorece crescimento de bolores em superfícies e materiais orgânicos.
  • Temperatura: muitos crescem bem em temperaturas moderadas; patógenos humanos precisam tolerar 35–37 °C.
  • pH: vários fungos toleram pH ácido (relevante para pele e mucosas).
  • Oxigênio: a maioria é aeróbia; algumas leveduras podem crescer em baixa disponibilidade de O2.
  • Nutrientes: matéria orgânica, açúcares e lipídios podem sustentar crescimento (ex.: áreas úmidas da pele).

Passo a passo prático: como raciocinar sobre risco de proliferação em um ambiente

  1. Identifique fonte de umidade (vazamento, condensação, pouca ventilação).
  2. Verifique substrato (madeira, papel, tecido, poeira orgânica, alimentos).
  3. Considere temperatura local (ambientes mornos e úmidos aceleram crescimento).
  4. Avalie circulação de ar (ambientes fechados acumulam esporos).
  5. Defina intervenção: reduzir umidade, remover material contaminado, limpar superfícies e melhorar ventilação.

Esse raciocínio é útil tanto para controle ambiental (mofo em casa/hospital) quanto para entender por que certas micoses são mais comuns em áreas do corpo quentes e úmidas.

Importância ecológica: decomposição e simbioses

Decomposição e ciclagem de nutrientes

Bolores e outros fungos degradam moléculas complexas (celulose, lignina, queratina), reciclando carbono e nutrientes no ecossistema. A capacidade de secretar enzimas extracelulares e absorver os produtos da digestão é uma marca do metabolismo fúngico.

Simbioses

  • Micorrizas: associação entre fungos e raízes de plantas; o fungo melhora absorção de água e minerais, e recebe carboidratos.
  • Líquens: associação entre fungo e organismo fotossintetizante; importante em colonização de ambientes e formação de solo.

Conexão com saúde: a mesma habilidade de aderir, formar bioestruturas e tolerar estresse ambiental pode contribuir para persistência em superfícies e materiais.

Importância médica: micoses superficiais, subcutâneas e sistêmicas

Micoses superficiais

Afetam camadas mais externas (estrato córneo, pelos, unhas) e tendem a se beneficiar de calor, umidade e microlesões. Frequentemente causam descamação, prurido e alterações em unhas/pelos.

  • Exemplos de quadros: lesões anulares descamativas na pele, intertrigo em dobras, onicomicose (unhas espessadas e frágeis).
  • Pista morfológica: presença de hifas/fragmentos em amostras de pele/unha pode sugerir fungo filamentoso; leveduras podem predominar em mucosas e algumas áreas úmidas.

Micoses subcutâneas

Ocorrem após inoculação traumática (espinhos, farpas, solo), com lesões nodulares e possível extensão ao longo de vasos linfáticos.

  • Raciocínio clínico: história de trauma + exposição ambiental + lesão crônica sugere investigação para fungos subcutâneos.

Micoses sistêmicas

Envolvem órgãos internos, frequentemente iniciando por via respiratória (inalação de esporos) e podendo disseminar, especialmente em pessoas com imunossupressão.

  • Dimorfismo como pista: alguns patógenos apresentam forma ambiental (bolor) e forma tecidual (levedura), o que influencia como aparecem em cultura versus amostras do paciente.
  • Gravidade variável: desde doença pulmonar localizada até disseminação para múltiplos órgãos.

Passo a passo prático: conectando morfologia ao diagnóstico laboratorial

O objetivo é integrar tipo de amostra, forma esperada e método de observação.

  1. Defina o sítio de infecção: pele/unha/cabelo (superficial), subcutâneo (nódulos), respiratório/sistêmico (profundo).
  2. Escolha a amostra adequada: raspado de pele, fragmento de unha, secreção, escarro, biópsia (conforme o caso).
  3. Antecipe a morfologia provável: leveduras (células brotantes), hifas (filamentos), estruturas mistas (pseudohifas), ou mudança por dimorfismo.
  4. Interprete com contexto: a mesma espécie pode ter aparência diferente em tecido versus cultura; correlacione com sinais clínicos e local de coleta.
  5. Considere alvos estruturais: parede (quitina/glucanos) e membrana (ergosterol) ajudam a entender por que certos testes e antifúngicos funcionam.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Por que antifúngicos podem ter seletividade relativa ao atingir a parede celular fúngica ou o ergosterol da membrana?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A seletividade relativa vem de diferenças estruturais: fungos têm parede celular (quitina/glucanos) e ergosterol na membrana, enquanto células humanas não têm parede e usam colesterol. Assim, fármacos podem mirar componentes menos presentes no hospedeiro.

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