Microbiologia essencial: protozoários — organização celular, ciclos e patogenicidade

Capítulo 6

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

Protozoários como eucariontes unicelulares: o que isso implica na prática

Protozoários são microrganismos eucariontes unicelulares. Isso significa que, mesmo sendo uma única célula, possuem estruturas internas especializadas (organelas) que organizam funções como obtenção de energia, digestão, locomoção e reprodução. Essa organização celular ajuda a explicar por que muitos protozoários alternam entre formas móveis (para colonizar e invadir tecidos) e formas resistentes (para sobreviver fora do hospedeiro).

Principais organelas e estruturas funcionais

  • Núcleo: armazena o DNA e coordena expressão gênica; em alguns grupos pode haver mais de um núcleo ou núcleos com funções distintas.
  • Mitocôndrias (ou formas modificadas): produção de energia; em protozoários adaptados a ambientes pobres em oxigênio, podem existir organelas derivadas (ex.: hidrogenossomos/mitossomos), o que influencia sensibilidade a fármacos e metabolismo.
  • Complexo de Golgi e retículo endoplasmático: síntese e tráfego de proteínas, incluindo moléculas de superfície usadas em adesão e evasão imune.
  • Vacuólos: alimentares (digestão) e contráteis (osmorregulação, especialmente em ambientes aquáticos).
  • Citoesqueleto e membrana: sustentação, mudança de forma e motilidade; também participam de processos de invasão celular e formação de estruturas de adesão.

Motilidade: como se movem e por que isso importa para patogenicidade

A motilidade não é apenas “locomoção”: ela influencia colonização, disseminação no hospedeiro, adesão a mucosas e até a capacidade de escapar de barreiras físicas (muco, fluxo intestinal, cílios respiratórios).

Flagelos

Estruturas longas e móveis que impulsionam o protozoário em meio líquido. Em muitos parasitas, o flagelo também participa de adesão e organização do citoesqueleto.

  • Exemplo clínico: Giardia duodenalis possui flagelos e um disco adesivo que permite fixação no intestino delgado, favorecendo diarreia e má absorção.

Cílios

Estruturas curtas e numerosas, batendo de forma coordenada. São comuns em protozoários de vida livre; entre os patógenos humanos, são menos frequentes, mas o conceito é importante para reconhecer estratégias de movimentação e alimentação por correntes.

Pseudópodes

Extensões temporárias do citoplasma, usadas para movimento e captura de alimento (fagocitose). A capacidade de deformar-se facilita atravessar tecidos e interagir com células do hospedeiro.

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  • Exemplo clínico: Entamoeba histolytica utiliza pseudópodes para invasão da mucosa intestinal e pode causar colite invasiva e abscesso hepático.

Formas de resistência: cistos e oocistos (transmissão e persistência ambiental)

Muitos protozoários alternam entre uma forma ativa (geralmente chamada trofozoíto) e uma forma resistente (cisto ou oocisto). Essa alternância é central para entender surtos, transmissão fecal-oral e falhas de controle sanitário.

Cisto

Forma com parede protetora, metabolismo reduzido e alta resistência ambiental. Em geral, é a forma infectante em transmissão fecal-oral.

  • Giardia: cistos são eliminados nas fezes e sobrevivem em água; ingestão de poucos cistos pode causar infecção.
  • Entamoeba: cistos permitem transmissão; trofozoítos são mais frágeis fora do hospedeiro.

Oocisto

Estrutura associada a certos protozoários (especialmente apicomplexos) que protege estágios infectantes. Pode exigir esporulação no ambiente para tornar-se plenamente infectante, o que afeta o tempo entre contaminação e risco máximo.

  • Cryptosporidium: oocistos são muito resistentes e podem persistir em água; associados a diarreia aquosa, grave em imunossuprimidos.
  • Toxoplasma gondii: oocistos eliminados por felinos podem contaminar solo/água; também há transmissão por cistos teciduais em carnes.

Passo a passo prático: como inferir risco ambiental a partir da forma eliminada

  1. Identifique a forma de eliminação: cisto/oocisto (resistente) versus trofozoíto (frágil).
  2. Mapeie o veículo provável: água/alimentos crus/solo (mais compatíveis com cistos/oocistos) versus contato direto muito recente (mais compatível com formas frágeis).
  3. Considere dose infectante e resistência: protozoários com baixa dose infectante e formas resistentes tendem a causar surtos.
  4. Defina barreiras de prevenção: saneamento, tratamento de água, higiene de alimentos, controle de reservatórios/animais, proteção ocupacional.

Ciclos de vida: diretos e indiretos (com vetores) e por que os estágios mudam

O ciclo de vida descreve como o protozoário alterna estágios (formas morfológicas e funcionais) para completar reprodução e transmissão. Mudanças de estágio costumam estar ligadas a: (1) sobreviver fora do hospedeiro, (2) invadir tecidos específicos, (3) escapar do sistema imune, (4) adaptar-se a um vetor.

Ciclo direto (um hospedeiro; geralmente fecal-oral)

No ciclo direto, o protozoário completa seu desenvolvimento em um único hospedeiro, e a transmissão ocorre frequentemente por ingestão de cistos/oocistos.

Exemplo geral (modelo didático):

  • Ingestão de cisto/oocisto em água/alimento contaminado.
  • Excistação no trato gastrointestinal (liberação da forma ativa).
  • Multiplicação local (frequentemente por divisão assexuada).
  • Encistação (formação de cistos) antes da eliminação.
  • Eliminação nas fezes e persistência no ambiente.

Ciclo indireto (dois hospedeiros; presença de vetor)

No ciclo indireto, há pelo menos dois hospedeiros: um vertebrado (humano ou reservatório) e um vetor (geralmente artrópode). O protozoário muda de forma para se adaptar a ambientes muito diferentes: sangue/tecidos do vertebrado e intestino/glândulas salivares do vetor.

Exemplo: malária (Plasmodium)

  • Vetor: mosquito Anopheles.
  • Transmissão: inoculação de esporozoítos durante a picada.
  • Fase hepática: invasão de hepatócitos e multiplicação (pode ser assintomática inicialmente).
  • Fase sanguínea: invasão de hemácias, ciclos de multiplicação e ruptura celular, associados a febre periódica e anemia.
  • Gametócitos: formas que serão ingeridas pelo mosquito, permitindo continuidade do ciclo.

Exemplo: doença de Chagas (Trypanosoma cruzi)

  • Vetor: triatomíneo (barbeiro).
  • Transmissão: formas infectantes presentes nas fezes do vetor entram por pele lesionada ou mucosas.
  • Fase tecidual: invasão celular e multiplicação intracelular, com dano a tecidos (especialmente cardíaco e digestivo).

Exemplo: leishmaniose (Leishmania)

  • Vetor: flebotomíneo (mosquito-palha).
  • Transmissão: inoculação de promastigotas na pele.
  • Fase em macrófagos: transformação em amastigotas e multiplicação intracelular, associada a lesões cutâneas ou doença visceral dependendo da espécie.

Passo a passo prático: como “ler” um ciclo e prever pontos de controle

  1. Localize a forma infectante para humanos (ex.: cisto ingerido; esporozoíto inoculado; forma em fezes do vetor).
  2. Identifique o nicho no hospedeiro (lúmen intestinal, macrófagos, hemácias, fígado, SNC).
  3. Marque onde ocorre multiplicação (isso costuma correlacionar com dano tecidual e sintomas).
  4. Determine a forma que sai do humano (cisto nas fezes; gametócitos no sangue; parasita em pele para vetor).
  5. Defina intervenções em cada etapa: saneamento/água; controle vetorial; barreiras físicas; diagnóstico e tratamento para reduzir reservatório.

Patogenicidade: invasão, dano tecidual e evasão imune

Protozoários causam doença por combinação de: adesão e colonização, invasão de células/tecidos, destruição celular direta, inflamação induzida e evasão do sistema imune. A manifestação clínica frequentemente reflete o tecido-alvo e o tipo de resposta inflamatória.

Mecanismos comuns de invasão e dano

  • Adesão a mucosas: permite persistência apesar do peristaltismo e muco (ex.: Giardia no intestino delgado).
  • Citotoxicidade e degradação de matriz: enzimas/proteínas que facilitam penetração em mucosa e formação de úlceras (ex.: Entamoeba histolytica).
  • Invasão intracelular: protege contra anticorpos e favorece disseminação (ex.: Leishmania em macrófagos; Toxoplasma em várias células).
  • Sequestro/alteração de células sanguíneas: invasão de hemácias e alterações de adesividade podem causar obstrução microvascular e anemia (ex.: Plasmodium falciparum).

Evasão imune: por que algumas infecções persistem ou recidivam

  • Variação antigênica: troca de proteínas de superfície para escapar de anticorpos, favorecendo infecção prolongada (ex.: Trypanosoma brucei em tripanossomíase africana).
  • Vida intracelular em fagócitos: sobrevivência dentro de macrófagos ao interferir com mecanismos microbicidas (ex.: Leishmania).
  • Modulação de resposta inflamatória: alteração de citocinas e recrutamento celular, influenciando gravidade e cronicidade.
  • Formas resistentes: cistos/oocistos permitem reinfecção e manutenção em ambientes contaminados.

Doenças representativas: ligação entre ciclo, mecanismo e clínica

Giardíase (Giardia duodenalis)

Transmissão: fecal-oral por ingestão de cistos em água/alimentos; comum em locais com saneamento inadequado e em surtos hídricos.

Mecanismo: adesão ao epitélio do intestino delgado, alterando absorção e barreira mucosa.

Manifestações: diarreia, flatulência, dor abdominal, esteatorreia e perda de peso por má absorção.

Prevenção: tratamento adequado de água, higiene das mãos, cuidado com alimentos crus; atenção a ambientes coletivos (creches) e atividades aquáticas.

Amebíase invasiva (Entamoeba histolytica)

Transmissão: ingestão de cistos; a forma ativa pode invadir mucosa.

Mecanismo: invasão e destruição tecidual, com ulcerações; pode disseminar via circulação porta e formar abscesso hepático.

Manifestações: disenteria (diarreia com sangue e muco), dor abdominal; em casos extraintestinais, dor em hipocôndrio direito e febre.

Prevenção: saneamento, água segura, higiene alimentar; identificação e tratamento para reduzir transmissão.

Criptosporidiose (Cryptosporidium)

Transmissão: ingestão de oocistos resistentes, frequentemente por água; pode ocorrer em piscinas e surtos comunitários.

Mecanismo: infecção do epitélio intestinal, levando a secreção e má absorção; oocistos são altamente resistentes no ambiente.

Manifestações: diarreia aquosa; em imunossuprimidos, pode ser prolongada e grave.

Prevenção: proteção de mananciais, filtração/tratamento de água, higiene; cuidado adicional em populações vulneráveis.

Toxoplasmose (Toxoplasma gondii)

Transmissão: ingestão de cistos teciduais em carne malcozida ou oocistos do ambiente (solo/água contaminados por fezes de felinos).

Mecanismo: invasão intracelular e disseminação; formação de cistos em tecidos pode levar a persistência e reativação em imunossuprimidos.

Manifestações: frequentemente assintomática; pode causar linfadenopatia; em gestantes, risco de infecção congênita; em imunossuprimidos, encefalite.

Prevenção: cozinhar carnes adequadamente, higiene ao manipular solo/alimentos, cuidados com caixas de areia (especialmente gestantes), água segura.

Malária (Plasmodium)

Transmissão: vetor Anopheles inocula esporozoítos; fase hepática seguida de fase eritrocitária.

Mecanismo: invasão e ruptura de hemácias (anemia, febre); em P. falciparum, adesão de hemácias parasitadas ao endotélio pode causar complicações graves.

Manifestações: febre, calafrios, anemia, esplenomegalia; formas graves incluem alterações neurológicas e insuficiência orgânica.

Prevenção: controle vetorial (mosquiteiros, repelentes, eliminação de criadouros), quimioprofilaxia em áreas indicadas, diagnóstico e tratamento precoces para reduzir transmissão.

Leishmaniose (cutânea/mucosa/visceral) (Leishmania)

Transmissão: flebotomíneo inocula promastigotas; parasita se estabelece em macrófagos como amastigota.

Mecanismo: sobrevivência intracelular em fagócitos e inflamação crônica; a forma clínica depende da espécie e da resposta imune do hospedeiro.

Manifestações: lesões cutâneas ulceradas; comprometimento mucoso em algumas formas; na visceral, febre prolongada, hepatoesplenomegalia e citopenias.

Prevenção: proteção contra picadas, controle vetorial e de reservatórios quando aplicável, manejo ambiental.

Doença de Chagas (Trypanosoma cruzi)

Transmissão: contaminação por fezes do triatomíneo em pele/mucosas; também pode ocorrer por via oral (alimentos contaminados) em surtos.

Mecanismo: invasão intracelular e inflamação; persistência pode levar a dano crônico, especialmente em coração e trato gastrointestinal.

Manifestações: fase aguda pode ser inespecífica; fase crônica pode evoluir com cardiomiopatia, arritmias e alterações digestivas (megaesôfago/megacólon).

Prevenção: melhoria habitacional e controle do vetor, higiene e controle de alimentos em áreas de risco, triagem em doação de sangue e em gestantes conforme protocolos locais.

Quadro comparativo: forma infectante, via de transmissão e alvo principal

AgenteForma infectante (humano)Via principalNicho/alvoPonto-chave de prevenção
GiardiaCistoFecal-oral (água/alimentos)Intestino delgado (lúmen/epitélio)Água segura e higiene
Entamoeba histolyticaCistoFecal-oralCólon; pode atingir fígadoSaneamento e higiene alimentar
CryptosporidiumOocistoÁgua (alta resistência)IntestinoProteção de água e filtração
ToxoplasmaOocisto/cisto tecidualSolo/água; carneTecidos diversos; SNC em reativaçãoCarne bem cozida e higiene
PlasmodiumEsporozoítoPicada de AnophelesFígado e hemáciasControle vetorial e diagnóstico precoce
LeishmaniaPromastigotaPicada de flebotomíneoMacrófagos (pele/visceral)Evitar picadas e controle vetorial
T. cruziForma em fezes do vetorContato com fezes do triatomíneo; via oralTecidos (coração/digestivo)Controle do vetor e segurança alimentar

Aplicação prática: raciocínio rápido para suspeitar do tipo de protozoário

Passo a passo prático (triagem conceitual)

  1. Se o quadro é diarreia e há risco hídrico: pense em protozoários com cistos/oocistos (ex.: Giardia, Cryptosporidium), especialmente em surtos.
  2. Se há disenteria e dor abdominal intensa: considere invasão de mucosa (ex.: Entamoeba histolytica).
  3. Se há febre periódica e anemia em área endêmica: avalie ciclo com vetor e fase sanguínea (ex.: Plasmodium).
  4. Se há lesão cutânea crônica após picadas: considere parasitas de macrófagos transmitidos por vetor (ex.: Leishmania).
  5. Se há risco em gestação ou imunossupressão: priorize agentes com persistência tecidual e reativação (ex.: Toxoplasma).

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao avaliar risco de surtos por água contaminada, qual raciocínio melhor relaciona a forma eliminada pelo protozoário com a persistência ambiental e a transmissão?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Cistos e oocistos possuem parede protetora e alta resistência ambiental, permitindo persistência em água/alimentos e facilitando a transmissão fecal-oral. Trofozoítos são mais frágeis fora do hospedeiro, e motilidade não define resistência ambiental.

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