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Qualidade de Software com Métricas: Do Bug ao Indicador de Processo

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Métricas de suporte e experiência de atendimento ao cliente

Capítulo 10

Tempo estimado de leitura: 0 minutos

+ Exercício

O que são métricas de suporte e experiência de atendimento

Métricas de suporte e experiência de atendimento ao cliente são indicadores que descrevem, de forma mensurável, como a organização responde a solicitações, incidentes, dúvidas e reclamações após o usuário perceber um problema ou precisar de orientação. Elas conectam a qualidade do software “vivida” pelo cliente com a capacidade do time (suporte, operações e engenharia) de entender, priorizar, resolver e comunicar. Na prática, essas métricas ajudam a responder perguntas como: o cliente consegue ser atendido sem esforço? O tempo de resposta é adequado ao impacto? O problema é resolvido na primeira interação? O cliente recebe atualizações claras? Há recorrência do mesmo tipo de solicitação?

Essas métricas não substituem indicadores técnicos do sistema; elas complementam a visão ao medir o que acontece quando a experiência do usuário “vira um ticket”. Um produto pode estar estável e ainda assim gerar alto volume de contatos por confusão de uso, documentação insuficiente, falhas intermitentes ou falta de transparência na comunicação. Por isso, métricas de suporte são úteis para: (1) priorizar melhorias de produto com base em dor real do cliente; (2) dimensionar e treinar equipes de atendimento; (3) reduzir custo de suporte por meio de prevenção (melhor UX, melhores mensagens de erro, automação, base de conhecimento); (4) identificar gargalos entre suporte e engenharia (triagem, escalonamento, correção, validação).

Princípios para usar métricas de suporte sem distorcer o comportamento

1) Medir o que importa para o cliente e para o processo

Algumas métricas são fáceis de coletar, mas induzem atalhos. Por exemplo, “fechar tickets rapidamente” pode aumentar reaberturas e reduzir qualidade. Prefira um conjunto balanceado: velocidade (tempo), qualidade (resolução, reabertura), esforço do cliente (quantas interações), e percepção (CSAT/CES).

2) Definições operacionais consistentes

Para comparar períodos e equipes, defina claramente eventos e estados: quando começa o “tempo de primeira resposta”? Quando um ticket é considerado “resolvido”? O que conta como “reabertura”? Como tratar tickets duplicados? Sem essas definições, a métrica vira ruído.

3) Segmentação obrigatória

Uma média geral esconde problemas. Segmente por: canal (chat, e-mail, telefone), tipo (incidente, dúvida, solicitação), severidade/impacto, produto/módulo, cliente (plano, região), horário (pico), e origem (interno/externo). A mesma meta de tempo para todos os casos tende a ser injusta e ineficiente.

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4) Métricas como instrumento de melhoria, não de punição

Atendimento é um sistema: ferramentas, base de conhecimento, autonomia, processos de escalonamento e qualidade do produto influenciam mais do que esforço individual. Use métricas para identificar causas e remover impedimentos.

Principais métricas de suporte (operacionais)

Volume de tickets e taxa de contato

Volume de tickets é a contagem de solicitações em um período. Sozinho, ele não indica qualidade (pode crescer por aumento de base de usuários), então combine com taxa de contato, que normaliza pelo uso.

  • Taxa de contato = (número de tickets no período) / (número de usuários ativos, contas ativas ou transações) × 1000 (ou outra base).
  • Interpretação: se a taxa sobe, há aumento de fricção, falhas ou confusão; se cai, pode indicar melhoria real ou dificuldade do cliente em encontrar suporte (ver “taxa de abandono”).

Tempo de primeira resposta (FRT)

FRT (First Response Time) mede quanto tempo o cliente espera até receber a primeira resposta humana (ou uma resposta útil automatizada, se você definir assim). É um indicador de percepção imediata: mesmo que a solução demore, uma resposta rápida reduz ansiedade.

  • Defina se conta apenas horário comercial ou 24/7.
  • Use percentis (p50, p90) em vez de apenas média, pois a cauda longa importa.

Tempo até resolução (TTR)

TTR (Time to Resolution) mede o tempo desde a abertura até a resolução confirmada. É sensível a escalonamentos e dependências com engenharia. Também deve ser analisado por severidade e tipo.

  • Evite “resolver” sem confirmação quando o cliente não respondeu; crie um estado “aguardando cliente” separado.
  • Use faixas: p50/p90 e distribuição por buckets (0–4h, 4–24h, 1–3d, etc.).

Backlog e envelhecimento (aging)

Backlog é o número de tickets abertos. O aging mede há quanto tempo tickets permanecem abertos. Um backlog estável pode esconder envelhecimento crescente em casos complexos.

  • Métrica útil: % de tickets abertos há mais de X dias, por severidade.
  • Objetivo: evitar “dívida de atendimento” que degrada a experiência e aumenta recontatos.

Taxa de reabertura

Reabertura ocorre quando um ticket fechado volta a ser aberto pelo cliente ou pelo suporte (ex.: solução incompleta, comunicação confusa, bug persistente). É um indicador de qualidade da resolução.

  • Taxa de reabertura = tickets reabertos / tickets resolvidos.
  • Segmente por agente, categoria e tipo de solução (workaround vs correção definitiva).

Resolução no primeiro contato (FCR)

FCR (First Contact Resolution) mede a proporção de casos resolvidos sem escalonamento e sem múltiplas interações. É um bom indicador de autonomia, qualidade da base de conhecimento e clareza do produto.

  • Defina “primeiro contato”: uma interação? uma sessão de chat? um dia?
  • Não force FCR em incidentes complexos; segmente por tipo.

Taxa de escalonamento e tempo de handoff

Escalonamento é quando o caso sai do suporte de primeira linha para especialistas (N2/N3) ou engenharia. A taxa de escalonamento e o tempo de handoff (tempo até alguém assumir após escalonar) revelam gargalos de triagem e filas internas.

  • Taxa de escalonamento = tickets escalonados / tickets totais.
  • Tempo de handoff = timestamp de escalonamento → timestamp de primeira ação do time receptor.

Taxa de abandono e tempo de espera (canais síncronos)

Em chat/telefone, o cliente pode desistir antes de ser atendido. Taxa de abandono e tempo de espera são críticos para dimensionamento.

  • Taxa de abandono = atendimentos iniciados e abandonados / atendimentos iniciados.
  • Combine com “recontato após abandono” para estimar frustração.

Métricas de experiência (percepção do cliente)

CSAT (Customer Satisfaction)

CSAT mede satisfação após o atendimento (ex.: nota 1–5). É simples e popular, mas sensível ao viés de resposta (clientes muito satisfeitos ou muito insatisfeitos respondem mais).

  • Boa prática: perguntar logo após a resolução e incluir campo de comentário.
  • Analise CSAT por categoria, canal, severidade e agente, e não apenas o valor global.

CES (Customer Effort Score)

CES mede o esforço do cliente para resolver o problema (ex.: “Foi fácil resolver sua solicitação?”). Em suporte, CES costuma ser mais acionável do que CSAT, pois aponta fricção no processo.

  • Combine CES com número de interações e tempo total do cliente (quando possível).

NPS relacional vs NPS transacional

NPS transacional pode ser aplicado ao atendimento específico (“o quanto você recomendaria com base nesta interação?”). Já o NPS relacional mede a relação com a marca/produto e sofre influência de preço, funcionalidades e expectativas. Para melhoria do suporte, o transacional tende a ser mais direto.

Qualidade de comunicação e transparência

Nem toda experiência ruim vem do tempo de resolução; muitas vezes vem de falta de atualização. Métricas úteis:

  • Tempo até primeira atualização em incidentes (quando a solução não é imediata).
  • Cadência de atualizações (ex.: a cada X horas para incidentes críticos).
  • Taxa de tickets sem resposta do suporte por mais de X horas (silêncio percebido).

Como transformar tickets em indicadores de qualidade do produto

Taxonomia de categorias e causas

Para que métricas de suporte alimentem melhoria do produto, é necessário classificar tickets com consistência. Uma taxonomia prática separa: tipo de solicitação (incidente, dúvida, solicitação de melhoria, acesso/conta), área do produto (módulo), e causa raiz (quando conhecida).

Exemplo de causas raiz (adaptável):

  • Bug confirmado
  • Configuração incorreta do cliente
  • Uso incorreto por falta de orientação
  • Limitação conhecida do produto
  • Documentação ausente/insuficiente
  • Performance degradada
  • Integração externa indisponível
  • Solicitação de funcionalidade

O objetivo não é “acertar sempre” na abertura, mas reduzir a ambiguidade ao longo do fluxo. Uma boa prática é permitir atualização da categoria após triagem.

Deflexão de tickets (autoatendimento) com cuidado

Deflexão é quando o cliente resolve sem abrir ticket (base de conhecimento, FAQ, mensagens no produto, assistente). Medir deflexão é útil, mas é fácil superestimar. Em vez de declarar “deflexão” apenas por visualização de artigo, use sinais mais fortes:

  • Visualizou artigo e não abriu ticket sobre o mesmo tema em X horas/dias.
  • Concluiu um fluxo guiado (wizard) e não retornou com erro.
  • Resolveu via bot com confirmação explícita (“isso resolveu?”).

Métrica sugerida: Taxa de autoatendimento bem-sucedido = sessões de autoatendimento com confirmação de resolução / sessões de autoatendimento iniciadas.

Recorrência e “top drivers”

Uma das análises mais valiosas é identificar os principais motivadores de contato: categorias que mais geram tickets e mais consomem tempo. Combine volume e esforço interno.

  • Esforço interno pode ser aproximado por: tempo médio de atendimento, número de interações, necessidade de escalonamento.
  • Crie um ranking mensal: (volume × peso de esforço) por categoria.

Exemplo de peso simples:

score_categoria = volume * (1 + 0.5*taxa_escalonamento + 0.3*taxa_reabertura)

Esse score não é “verdade absoluta”, mas ajuda a priorizar investigações e melhorias.

Passo a passo prático para implementar um painel de métricas de suporte

Passo 1: Definir objetivos e perguntas

Escolha 3 a 5 perguntas que o painel deve responder. Exemplos:

  • Estamos respondendo rápido o suficiente por severidade e canal?
  • Estamos resolvendo com qualidade (sem reaberturas e com alto FCR)?
  • Quais temas mais geram contato e quais estão crescendo?
  • Onde o fluxo trava (handoff, fila de engenharia, aguardando cliente)?

Passo 2: Padronizar estados do ticket e timestamps

Defina estados mínimos e como eles são usados:

  • Novo (aberto)
  • Em atendimento (alguém assumiu)
  • Aguardando cliente (pausa controlada)
  • Escalonado (para N2/N3/engenharia)
  • Resolvido (solução aplicada, aguardando confirmação se necessário)
  • Fechado (encerrado)

Timestamps recomendados: abertura, primeira resposta, primeira ação, escalonamento, primeira ação do time receptor, resolução, fechamento, reabertura.

Passo 3: Criar uma taxonomia mínima e treinável

Comece pequeno para garantir adesão. Sugestão inicial:

  • Tipo: incidente / dúvida / solicitação
  • Área: 5 a 10 módulos principais
  • Causa (quando aplicável): bug / doc / configuração / limitação / integração externa

Inclua exemplos de classificação em um guia curto e revise semanalmente amostras para calibrar.

Passo 4: Definir métricas e fórmulas (com segmentação)

Selecione um conjunto enxuto para o painel principal:

  • Taxa de contato (por 1000 usuários/contas/transações)
  • FRT p50 e p90 (por canal e severidade)
  • TTR p50 e p90 (por tipo e severidade)
  • Backlog total e % > X dias (por severidade)
  • FCR (para dúvidas e solicitações simples)
  • Taxa de reabertura (por categoria)
  • CSAT e/ou CES (por canal e categoria)

Evite colocar 30 gráficos no início; prefira poucos indicadores com drill-down por filtros.

Passo 5: Instrumentar coleta e qualidade dos dados

Garanta que o sistema de tickets registre eventos automaticamente sempre que possível. Pontos de atenção:

  • Respostas automáticas: decidir se contam como primeira resposta (se forem úteis e personalizadas, podem contar; se forem genéricas, melhor não).
  • Mesclagem de tickets duplicados: manter rastreio para não distorcer volume e reabertura.
  • Horário comercial: se usar, deixe explícito e mantenha uma versão 24/7 para incidentes críticos.

Passo 6: Criar rotinas de revisão (operacional e de melhoria)

Use duas cadências:

  • Diária/semanal (operação): backlog, aging, FRT/TTR recentes, abandono, incidentes em andamento.
  • Mensal (melhoria): top drivers, categorias em crescimento, reaberturas, escalonamentos, oportunidades de autoatendimento e mudanças no produto.

Para a revisão mensal, leve 3 itens por categoria: evidência (métricas), exemplos reais (tickets), e hipótese de causa (produto/processo/documentação).

Passo a passo prático para reduzir volume de contatos sem “esconder” o suporte

Passo 1: Identificar as 3 categorias com maior impacto

Use o ranking de top drivers (volume × esforço). Selecione as três categorias que mais consomem tempo e/ou geram insatisfação (CSAT baixo, CES alto, reabertura alta).

Passo 2: Ler amostras e mapear padrões

Para cada categoria, leia 20 a 30 tickets recentes e anote:

  • Qual era o objetivo do cliente?
  • Em que etapa ele travou?
  • Quais mensagens de erro apareceram?
  • O que o suporte precisou pedir (logs, prints, passos)?
  • O que resolveu de fato?

Esse mapeamento transforma “categoria” em ações concretas (melhorar UX, melhorar mensagem, automatizar verificação, criar artigo, corrigir bug).

Passo 3: Escolher intervenção adequada (produto, conteúdo ou processo)

Três tipos comuns de intervenção:

  • Produto: validações, mensagens de erro acionáveis, fluxos guiados, telas de status, melhorias de performance, correções.
  • Conteúdo: artigo curto com passo a passo, vídeos curtos, checklist, exemplos de configuração.
  • Processo: macros de resposta, formulários de abertura com campos obrigatórios, automação para coletar diagnóstico.

Evite “resolver” apenas com macros se a causa é recorrente e previsível; isso reduz esforço do agente, mas não reduz contato.

Passo 4: Medir antes e depois com janela de tempo e controle

Defina uma janela (ex.: 4 semanas antes e 4 depois) e compare:

  • Taxa de contato da categoria
  • FRT/TTR (se a intervenção afetou o fluxo)
  • Reabertura
  • CSAT/CES

Se possível, compare com um grupo de clientes que não recebeu a mudança (ex.: rollout gradual) para reduzir efeito de sazonalidade.

Passo 5: Padronizar e escalar o que funcionou

Quando uma intervenção reduz contatos e melhora experiência, transforme em padrão: atualizar base de conhecimento, treinar suporte, ajustar formulários e criar alertas para regressões (ex.: se a taxa de contato da categoria subir novamente).

Exemplos práticos de métricas aplicadas a cenários comuns

Cenário A: aumento de tickets “não consigo acessar”

Sinais típicos:

  • Taxa de contato sobe, especialmente em horários específicos
  • FRT pode estar bom, mas TTR cresce por dependência de validação
  • CES alto (muito esforço do cliente)

Ações guiadas por métricas:

  • Segmentar por origem (reset de senha, MFA, bloqueio, SSO)
  • Medir FCR para “reset de senha” (deveria ser alto)
  • Se FCR baixo, criar fluxo de autoatendimento e mensagens claras no produto
  • Medir queda na taxa de contato e no CES após mudança

Cenário B: reabertura alta em “integração com API”

Sinais típicos:

  • Reabertura alta e muitos escalonamentos
  • Comentários indicam “funcionou por um tempo e parou”

Ações guiadas por métricas:

  • Classificar subcausas: autenticação, rate limit, payload inválido, timeout
  • Criar respostas padronizadas com checklist de diagnóstico
  • Adicionar exemplos de erro e correção na documentação
  • Instrumentar mensagens de erro para serem mais acionáveis (ex.: indicar campo inválido)
  • Medir redução de reabertura e aumento de FCR em dúvidas

Cenário C: CSAT baixo apesar de tempos bons

Sinais típicos:

  • FRT e TTR dentro do esperado
  • CSAT baixo e comentários mencionam “resposta genérica” ou “não entendi”

Ações guiadas por métricas:

  • Analisar qualidade de comunicação: número de interações, clareza, presença de passos reproduzíveis
  • Treinar escrita técnica: respostas com contexto, passos, confirmação e próximos passos
  • Adicionar campo obrigatório no ticket: “o que você esperava que acontecesse?”
  • Medir CES e reabertura após treinamento

Armadilhas comuns e como evitá-las

Otimizar apenas velocidade

Se o time é cobrado apenas por FRT/TTR, pode fechar tickets cedo demais, gerar reaberturas e reduzir CSAT. Balanceie com reabertura e FCR.

Comparar canais sem ajustar expectativas

Chat tende a exigir resposta imediata; e-mail tolera mais espera. Compare dentro do mesmo canal e use metas diferentes por canal e severidade.

Ignorar “aguardando cliente”

Se você não separa esse estado, TTR fica inflado e incentiva o time a fechar tickets para “parar o relógio”. Defina claramente quando o relógio pausa e quando retoma.

Taxonomia complexa demais

Muitas categorias geram baixa qualidade de classificação. Comece com poucas, revise e só então expanda.

Não fechar o ciclo com engenharia e produto

Sem um fluxo de feedback, suporte vira apenas “apagador de incêndio”. Use top drivers, reabertura e escalonamento para criar uma fila de melhorias priorizada por impacto no cliente e no custo de atendimento.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Por que é importante segmentar as métricas de suporte (por canal, tipo e severidade) em vez de acompanhar apenas uma média geral?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A segmentação é obrigatória porque uma média única pode mascarar caudas longas e casos críticos. Ao separar por canal, tipo e severidade, é possível definir metas adequadas, identificar gargalos e melhorar o processo sem distorcer o comportamento.

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