Metas financeiras de quitar dívidas: priorização, estratégia e cronograma

Capítulo 9

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

O que significa ter uma meta financeira de quitar dívidas

Uma meta de quitar dívidas é um objetivo com foco em eliminar obrigações financeiras existentes por meio de um plano de pagamento que define: quais dívidas serão atacadas primeiro, quanto será pago por mês, em que datas, e quais ações serão tomadas para reduzir juros e risco (como renegociação). Diferente de “pagar o que der”, aqui você transforma dívidas em um projeto com ordem, estratégia e cronograma.

O ponto central é simples: você precisa pagar todas as dívidas, mas não precisa pagar todas do mesmo jeito. A priorização correta reduz o custo total (juros), diminui o risco de consequências graves (perda de bem, corte de serviço, ação judicial) e libera fluxo de caixa mais rápido.

Passo 1 — Inventário completo das dívidas (lista que vira plano)

Antes de escolher estratégia, monte uma lista única com todas as dívidas. Evite “de cabeça”. Use fatura, contrato, app do banco e extratos.

Checklist do que registrar para cada dívida

  • Credor (banco, financeira, loja, pessoa, condomínio etc.).
  • Tipo (cartão rotativo, parcelamento do cartão, empréstimo pessoal, consignado, cheque especial, financiamento, carnê, contas em atraso).
  • Saldo atual (quanto falta pagar hoje).
  • Taxa de juros (ao mês e/ou ao ano). Se não souber, anote “desconhecida” e busque no contrato/fatura.
  • Parcela mínima e data de vencimento.
  • Prazo restante (quantas parcelas faltam).
  • Garantia (há bem em garantia? imóvel/veículo? desconto em folha?).
  • Consequências do atraso (multa, juros, negativação, corte de serviço, busca e apreensão, execução judicial).
  • Possibilidade de desconto (dívida em atraso costuma ter margem de negociação maior; financiamento com garantia costuma ter menos).

Modelo de tabela (copie e preencha)

DívidaSaldoJuros (a.m.)Parcela mín.Venc.PrazoGarantiaRisco do atraso
Cartão X (rotativo)R$ 3.20012%R$ 320Dia 10NãoNegativação rápida
Empréstimo pessoalR$ 8.0003,5%R$ 520Dia 2018xNãoNegativação
Financiamento veículoR$ 24.0001,6%R$ 980Dia 0530xSim (veículo)Busca e apreensão

Passo 2 — Defina o “orçamento de ataque” (quanto sobra para acelerar)

Para quitar dívidas com método, separe mentalmente os pagamentos em duas partes:

  • Pagamentos mínimos obrigatórios: o que você precisa pagar para não entrar em atraso (ou para manter o contrato em dia).
  • Valor extra de ataque: o dinheiro adicional que você direciona para acelerar a quitação de uma dívida por vez.

Seu plano depende do valor extra de ataque. Mesmo que seja pequeno, ele cria progresso mensurável.

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Regra prática de montagem

  • Pague mínimo de todas as dívidas em dia.
  • Escolha uma dívida-alvo para receber todo o valor extra de ataque.
  • Quando a dívida-alvo acabar, redirecione o valor liberado (parcela + extra) para a próxima dívida (efeito “bola de neve” no fluxo de caixa, independentemente da estratégia).

Passo 3 — Critérios de priorização: custo, risco e fluxo de caixa

Existem três critérios principais para decidir a ordem. Você pode usar um só ou combinar.

1) Custo efetivo (juros e encargos)

Priorize a dívida com maior custo (juros mais altos e que crescem rápido). Em geral, cartão rotativo e cheque especial ficam no topo. Mesmo sem saber a taxa exata, você pode identificar pelo tipo: rotativo/cheque especial quase sempre são os mais caros.

2) Risco (consequências do atraso)

Algumas dívidas têm consequências mais graves do que “pagar mais juros”. Exemplos: financiamento com garantia (risco de perder o bem), contas essenciais (risco de corte), condomínio (pode gerar ação), tributos (multas e restrições). Se o risco for alto, pode valer priorizar mesmo com juros menores.

3) Impacto no fluxo de caixa (liberar parcela)

Quitar uma dívida que consome uma parcela grande pode liberar caixa e reduzir estresse. Esse critério é útil quando seu orçamento está apertado e você precisa “respirar” rápido.

Método simples de pontuação (para decidir sem travar)

Dê notas de 1 a 5 para cada dívida em três colunas: Custo, Risco, Fluxo de caixa. Some e ordene do maior para o menor.

DívidaCusto (1-5)Risco (1-5)Fluxo (1-5)Total
Cartão rotativo54312
Financiamento veículo25512
Empréstimo pessoal3339

Empate é comum. Em empate, desempate por: (1) maior risco, depois (2) maior custo.

Passo 4 — Estratégias de pagamento: avalanche e bola de neve

Estratégia 1: Avalanche (maior juros primeiro)

Você paga o mínimo de todas e direciona o valor extra para a dívida com maior taxa de juros. Quando quitar, passa para a próxima maior taxa.

  • Vantagem: tende a minimizar o custo total de juros.
  • Desafio: pode demorar mais para ver dívidas “sumirem” se as mais caras forem grandes.

Estratégia 2: Bola de neve (menor saldo primeiro)

Você paga o mínimo de todas e direciona o valor extra para a dívida com menor saldo. Ao quitar, passa para a próxima menor.

  • Vantagem: gera vitórias rápidas e motivação (reduz o número de boletos).
  • Desafio: pode custar mais juros se dívidas caras ficarem para depois.

Como escolher entre as duas (critério prático)

  • Se você tem disciplina e quer reduzir juros ao máximo: avalanche.
  • Se você está desmotivado, ansioso, ou precisa de progresso visível rápido: bola de neve.
  • Se existe dívida com risco alto (garantia/corte/ação): trate como prioridade de risco antes da estratégia.

Simulações: como montar o cronograma na prática

As simulações abaixo mostram como o mesmo “valor extra de ataque” muda o tempo e o custo. Os números são aproximados e servem para você entender a lógica.

Cenário base (exemplo)

  • Você consegue pagar mínimos e tem R$ 600/mês de valor extra de ataque.
  • Dívidas:
DívidaSaldoJuros a.m.Parcela mínima
A) Cartão rotativoR$ 3.20012%R$ 320
B) Empréstimo pessoalR$ 8.0003,5%R$ 520
C) Loja/carnêR$ 1.2004%R$ 120

Regra do plano: pagar mínimos (320 + 520 + 120) e direcionar os R$ 600 extras para a dívida-alvo.

Simulação 1 — Avalanche (juros maior primeiro)

Ordem: A (12%) → C (4%) → B (3,5%).

  • Fase 1: Dívida A recebe R$ 600 extra + mínimo (na prática, você paga acima do mínimo; o importante é que o extra vai para A). A tende a cair rápido porque o pagamento total fica alto.
  • Fase 2: Ao quitar A, o valor que você pagava nela (mínimo + extra) é redirecionado para C.
  • Fase 3: Depois C, tudo vai para B.

Resultado típico: menos juros totais, e o cronograma fica mais eficiente financeiramente.

Simulação 2 — Bola de neve (menor saldo primeiro)

Ordem: C (R$ 1.200) → A (R$ 3.200) → B (R$ 8.000).

  • Fase 1: Dívida C some rápido, reduzindo o número de contas e liberando o mínimo de R$ 120 para somar ao ataque.
  • Fase 2: O ataque aumenta (R$ 600 + R$ 120) e vai para A.
  • Fase 3: Depois A, o ataque cresce novamente e vai para B.

Resultado típico: mais motivação e sensação de progresso, com possível custo extra de juros se a dívida mais cara não for atacada logo.

Como transformar a simulação em cronograma mensal (modelo)

Crie um cronograma com “fases” e datas fixas de pagamento. Exemplo de estrutura:

MêsDívida-alvoPagamento mínimo (todas)Extra de ataqueObservação
Mês 1AR$ 960R$ 600Revisar juros/encargos na fatura
Mês 2AR$ 960R$ 600Se entrar dinheiro extra, reforçar ataque
Mês 3CR$ 840R$ 920Após quitar A, redirecionar valor

Note que o “mínimo (todas)” muda quando uma dívida é quitada. Isso é o que acelera o plano ao longo do tempo.

Passo 5 — Negociação: reduzir taxa, alongar prazo (com cuidado) e obter desconto

Negociar pode reduzir drasticamente o custo e encurtar o cronograma. O objetivo é um acordo que você consiga cumprir sem voltar ao atraso.

Antes de negociar: prepare três números

  • Valor à vista possível (mesmo que pequeno).
  • Parcela máxima sustentável (o teto que cabe no seu mês).
  • Prazo máximo aceitável (para não “eternizar” a dívida).

O que pedir (em ordem de impacto)

  • Redução de juros (principalmente em cartão/cheque especial/parcelamentos caros).
  • Desconto no saldo (mais comum em dívidas já em atraso/negativadas).
  • Troca por linha mais barata (ex.: substituir rotativo por parcelamento com juros menores, ou consolidar em um empréstimo mais barato).
  • Isenção de multa/encargos mediante pagamento imediato ou entrada.

Cuidados para não piorar

  • Alongar prazo reduz parcela, mas pode aumentar juros totais. Use alongamento como ferramenta de “estabilização” quando necessário, e depois antecipe.
  • Evite “soluções” que criem nova dívida sem reduzir custo (trocar por outra com juros iguais/maiores).
  • Peça para ver o CET (Custo Efetivo Total) quando for trocar/contratar algo novo.

Roteiro curto de negociação (exemplo)

“Quero regularizar essa dívida. Consigo pagar R$ X de entrada hoje e manter parcelas de até R$ Y. Para fechar, preciso de redução de juros/encargos e o valor final total do acordo por escrito. Qual a melhor condição que você consegue?”

Se a primeira proposta vier alta, repita o teto de parcela e peça alternativa: “Com esse valor eu não consigo manter. Qual condição cabe em R$ Y?”

Passo 6 — Organização dos pagamentos: evitar atraso e reduzir fricção

1) Calendário único de vencimentos

Coloque todos os vencimentos em um calendário (digital ou papel). Se possível, alinhe datas para poucos dias do mês (quando o credor permite). Menos datas = menos chance de esquecer.

2) Pagamentos automáticos (com regras de segurança)

  • Ative débito automático para dívidas que você sempre consegue cobrir (ou configure lembretes + pagamento agendado).
  • Mantenha uma margem na conta para evitar devolução por saldo insuficiente.
  • Para cartão, prefira pagar valor fixo planejado (acima do mínimo) em vez de deixar “o sistema decidir”.

3) “Dia do dinheiro” e “dia da dívida”

Crie dois momentos no mês:

  • Dia do dinheiro: quando entra renda, você separa imediatamente mínimos + extra de ataque.
  • Dia da dívida: dia de executar pagamentos e registrar o saldo atualizado.

Passo 7 — Marcos de motivação mensuráveis (sem depender de força de vontade)

Quitar dívidas pode levar meses. Marcos bem definidos evitam desistência e ajudam a manter o ritmo.

Marcos recomendados (escolha 3 a 5)

  • Marco 1: “Zero atrasos por 30 dias” (foco em estabilizar).
  • Marco 2: “Primeira dívida quitada” (independente do valor).
  • Marco 3: “Reduzir o total de parcelas mensais em R$ X” (fluxo de caixa).
  • Marco 4: “Cair abaixo de R$ Y de saldo total” (linha no gráfico).
  • Marco 5: “Quitar dívidas de juros altos” (ex.: cartão/cheque especial zerados).

Como acompanhar sem complicar

  • Tenha um número principal: saldo total das dívidas (soma de todos os saldos).
  • Tenha um número de execução: valor extra de ataque do mês (planejado vs. realizado).
  • Tenha um número de risco: quantidade de contas em atraso (meta: zero).

Plano pronto em 10 passos (resumo operacional)

  1. Liste todas as dívidas em uma tabela (saldo, juros, vencimento, garantia, risco).
  2. Confirme taxas/encargos nos documentos (marque “desconhecida” e busque).
  3. Some os mínimos para saber o “custo de manter tudo em dia”.
  4. Defina o valor extra de ataque mensal (mesmo que pequeno).
  5. Classifique cada dívida por custo, risco e impacto no fluxo de caixa.
  6. Escolha a ordem: avalanche, bola de neve ou prioridade por risco.
  7. Monte o cronograma por fases (uma dívida-alvo por vez).
  8. Negocie onde houver juros altos ou chance de desconto (com teto de parcela).
  9. Automatize pagamentos e centralize vencimentos.
  10. Defina marcos mensuráveis e registre saldos mensalmente.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao montar um plano para quitar dívidas, qual abordagem está mais alinhada com a regra prática de usar o “valor extra de ataque”?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A regra prática é manter todas as dívidas em dia com os mínimos e usar o valor extra para acelerar uma única dívida-alvo. Ao quitá-la, o valor liberado (parcela + extra) passa para a próxima, acelerando o plano ao longo do tempo.

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