Medição de temperatura em termologia: termômetros, leitura e incerteza

Capítulo 3

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

O que significa “medir temperatura” na prática

Medir temperatura é comparar o estado térmico de um sistema (água, ar, metal, corpo humano) com um instrumento calibrado que muda alguma propriedade física de forma previsível quando sua própria temperatura muda. Para a leitura ser correta, o sensor do termômetro precisa atingir equilíbrio térmico com o objeto medido. Se você lê antes desse equilíbrio, a indicação tende a ficar “no caminho” entre a temperatura inicial do termômetro e a do objeto.

Na prática, três pontos dominam a qualidade da medição: faixa de uso (intervalo de temperaturas em que o instrumento funciona bem), tempo de resposta (quanto demora para estabilizar) e condições de contato (como o sensor troca calor com o sistema).

Como termômetros comuns funcionam (visão operacional)

1) Termômetro de líquido em vidro (álcool ou outro líquido)

Como indica a temperatura: um líquido dentro de um capilar se expande quando aquece e contrai quando esfria. A altura da coluna é lida numa escala marcada no vidro.

  • Faixa de uso: depende do líquido e da construção. Em geral, é bom para temperaturas moderadas e medições estáveis; não é ideal para mudanças muito rápidas.
  • Tempo de resposta: costuma ser mais lento, porque o bulbo e o líquido precisam trocar calor até estabilizar.
  • Cuidados típicos: ler no nível dos olhos para evitar erro de paralaxe; aguardar estabilização; evitar encostar o bulbo em paredes do recipiente (pode medir a parede, não o líquido).

2) Termômetro bimetálico (ponteiro/mostrador)

Como indica a temperatura: duas lâminas metálicas unidas, com dilatações diferentes, curvam-se ao variar a temperatura. Essa curvatura movimenta um ponteiro em um mostrador.

  • Faixa de uso: comum em aplicações domésticas e industriais leves (fornos, geladeiras, ambiente). Funciona bem em faixas relativamente amplas, mas a precisão pode ser limitada.
  • Tempo de resposta: intermediário; depende da massa do sensor e do contato com o meio.
  • Cuidados típicos: evitar vibração e choques; garantir que a haste/sensor esteja na região representativa do meio (não perto de portas, resistências, correntes de ar).

3) Termômetro digital (sensor eletrônico)

Como indica a temperatura: um sensor (frequentemente um termistor ou RTD) muda uma propriedade elétrica com a temperatura. O circuito converte isso em um valor numérico no visor.

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  • Faixa de uso: varia muito conforme o modelo e o tipo de sonda. Alguns são para uso clínico, outros para cozinha, laboratório ou processos.
  • Tempo de resposta: pode ser rápido, especialmente com sondas metálicas finas; ainda assim, precisa de tempo para estabilizar.
  • Cuidados típicos: observar se o instrumento mostra “estável” (alguns têm indicador); evitar molhar partes não seladas; conferir se a sonda é adequada para imersão e para a faixa de temperatura.

Equilíbrio térmico e tempo de resposta: como saber quando ler

Mesmo com um termômetro “rápido”, a leitura correta exige esperar a estabilização. Um jeito operacional de decidir é observar a variação no visor/escala:

  • Digital: aguarde até a leitura parar de mudar (ou mudar menos que a resolução do instrumento por alguns segundos).
  • Líquido em vidro: aguarde até a coluna parar de subir/descer.
  • Bimetálico: aguarde até o ponteiro parar de se mover perceptivelmente.

O tempo necessário depende de: diferença de temperatura entre sensor e objeto, material do sensor, agitação do líquido, e se há bom contato térmico. Em líquidos, mexer suavemente (sem encostar o sensor no recipiente) costuma reduzir o tempo de resposta e melhorar a representatividade.

Boas práticas de medição: posição do sensor, contato e interferências

Posicionamento do sensor

  • Em líquidos: mergulhe o sensor na região central do volume, longe das paredes e do fundo. Em recipientes no fogão, o fundo pode estar mais quente que o líquido (gradiente térmico).
  • Em ar: evite proximidade de janelas, saídas de ar-condicionado, lâmpadas e eletrônicos que aquecem. Dê tempo para o sensor “se adaptar” ao ambiente.
  • Em superfícies sólidas: prefira sensores de contato (sonda) e garanta pressão/contato uniforme. Superfícies brilhantes podem enganar sensores infravermelhos (se usados), mas aqui o foco é contato direto.

Contato térmico e representatividade

  • Não encostar no recipiente: ao medir um líquido, encostar o bulbo/sonda na parede pode puxar a leitura para a temperatura da parede.
  • Profundidade de imersão: respeite a marca de imersão (quando existir) ou mergulhe o suficiente para que a parte sensível esteja totalmente no meio.
  • Agitação controlada: mexer suavemente o líquido reduz estratificação (camadas com temperaturas diferentes).

Evitar fontes externas de erro

  • Mãos e respiração: segurar a haste muito perto do sensor ou soprar próximo pode aquecer localmente e alterar a leitura.
  • Radiação térmica: proximidade de chama, resistência elétrica, sol direto ou lâmpadas incandescentes pode aquecer o sensor sem representar o meio.
  • Evaporação e correntes de ar: em líquidos quentes, evaporação pode resfriar a superfície; em ar, correntes podem mudar rapidamente a leitura.

Resolução do instrumento e como interpretar a leitura

Resolução é o menor incremento que o instrumento consegue indicar. Ela limita quantas casas decimais fazem sentido registrar.

  • Digital: se o visor mostra 25,0 °C, a resolução típica é 0,1 °C (mas isso não garante que a incerteza seja 0,1 °C; é apenas o “passo” de leitura).
  • Líquido em vidro: a resolução depende do espaçamento das marcas. Se as divisões são de 1 °C, geralmente você estima entre marcas (por exemplo, 25,5 °C) com cuidado, mas essa estimativa aumenta a incerteza.
  • Bimetálico: a resolução é a menor divisão do mostrador; leituras entre divisões são aproximações.

Regra prática para registro: não anote mais dígitos do que o instrumento consegue justificar. Se a resolução é 1 °C, registrar 25,37 °C não faz sentido.

Noções básicas de erro e incerteza na medição de temperatura

Uma medição sempre vem acompanhada de uma incerteza, que representa a faixa plausível em torno do valor indicado. Em vez de tratar a leitura como “exata”, registramos como um intervalo.

Fontes comuns de incerteza

  • Resolução (leitura): limite do instrumento para discriminar variações pequenas.
  • Tempo de estabilização: ler antes do equilíbrio térmico gera diferença sistemática (tende a subestimar ou superestimar dependendo do caso).
  • Contato térmico: mau contato ou posição inadequada faz o sensor medir algo diferente do que se deseja (parede do copo, camada superficial, etc.).
  • Calibração: instrumentos podem ter desvio (offset). Mesmo sem calibrar formalmente, é importante reconhecer que pode existir um erro sistemático.
  • Variação do próprio sistema: a água pode não estar homogênea; o ambiente pode estar mudando.

Como registrar a incerteza (formato recomendado)

Use a forma: T = (valor) ± (incerteza) °C. Exemplos:

  • T = 25,0 ± 0,1 °C (típico de um digital com resolução de 0,1 °C, assumindo boa estabilização)
  • T = 26 ± 1 °C (típico de um instrumento com divisões de 1 °C)

Uma regra operacional simples quando não há especificação do fabricante disponível: adotar uma incerteza de leitura aproximada de metade da menor divisão (instrumento analógico) ou 1 unidade do último dígito (digital), e aumentar essa incerteza se as condições de medição forem ruins (sem estabilização, mau contato, gradientes).

Passo a passo: atividade prática simulada de medição (gelo, ambiente e aquecida)

Objetivo: praticar estabilização, boas práticas e registro com incerteza, comparando leituras em três situações.

Materiais (simulados ou reais)

  • 1 termômetro (escolha um: líquido em vidro, bimetálico ou digital com sonda)
  • 3 recipientes (copos ou béqueres)
  • Água e gelo
  • Fonte de aquecimento (água previamente aquecida ou aquecedor) para a amostra quente
  • Colher para agitação suave
  • Papel/planilha para registro

Preparação das amostras

  • Amostra A (água com gelo): encha um copo com água e adicione bastante gelo. Aguarde 2–3 minutos e mexa suavemente para aproximar uma mistura homogênea.
  • Amostra B (água ambiente): água parada em um copo por alguns minutos no local da medição.
  • Amostra C (água aquecida): água quente em um copo. Evite ebulição vigorosa; a ideia é ter uma temperatura elevada, mas segura para o termômetro.

Procedimento de medição (repita para A, B e C)

  1. Verifique a faixa: confirme que a temperatura esperada está dentro da faixa do termômetro (especialmente na amostra quente).
  2. Posicione o sensor: mergulhe o sensor no centro do líquido, sem tocar paredes/fundo. Se for termômetro de vidro, mantenha o bulbo totalmente imerso (conforme o modelo).
  3. Promova homogeneidade: mexa suavemente o líquido com a colher e, em seguida, pare de mexer e mantenha o sensor parado no centro.
  4. Espere estabilizar: observe a leitura até ficar estável (sem variação perceptível). Registre também um tempo de estabilização aproximado (ex.: 20 s, 60 s).
  5. Registre com resolução e incerteza: anote o valor com o número de casas compatível com a resolução e escreva a incerteza no formato T = ... ± ... °C.
  6. Repita 3 vezes: faça três leituras na mesma amostra, retirando e recolocando o sensor (ou aguardando alguns segundos entre leituras). Isso ajuda a perceber repetibilidade.

Tabela de registro (modelo)

AmostraLeitura 1Leitura 2Leitura 3Tempo de estabilizaçãoRegistro final (com ±)Observações
A (água + gelo)________ sT = __ ± __ °Ctocou parede? mexeu? havia muito gelo?
B (ambiente)________ sT = __ ± __ °Ccorrente de ar? copo na mão?
C (aquecida)________ sT = __ ± __ °Cestratificação? mexeu antes de medir?

Comparação e interpretação das leituras

  • Consistência interna: se as três leituras de uma mesma amostra variam mais do que a incerteza estimada, algo no procedimento está instável (falta de equilíbrio, gradiente no líquido, contato com parede, etc.).
  • Diferenças entre amostras: espere A ser a menor, B intermediária e C a maior. Se não ocorrer, revise: faixa do termômetro, estabilização, posição do sensor e homogeneidade.
  • Tempo de resposta observado: compare os tempos de estabilização entre amostras e entre tipos de termômetro. Em geral, maior diferença de temperatura inicial tende a exigir mais tempo para estabilizar.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao medir a temperatura de um líquido com um termômetro, qual procedimento aumenta a chance de obter uma leitura representativa do líquido e com menor erro por contato?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A leitura correta exige equilíbrio térmico e boa representatividade. Em líquidos, posicionar o sensor no centro, evitar contato com o recipiente, promover homogeneidade com agitação suave e esperar estabilizar reduz erros por gradientes e por medir a parede/fundo.

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Dilatação térmica em termologia: linear, superficial e volumétrica

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