Dilatação térmica: por que os corpos “aumentam” quando aquecidos
Quando a temperatura de um corpo aumenta, suas partículas passam a vibrar com maior intensidade. Em muitos materiais, isso faz com que a distância média entre as partículas aumente, resultando em um aumento das dimensões do corpo. Esse fenômeno é chamado dilatação térmica.
A dilatação não acontece “porque o corpo fica mais quente e quer crescer”, mas porque a estrutura microscópica responde ao aumento de agitação térmica. Na prática, isso pode ser desejável (facilitar abrir um pote com tampa metálica) ou problemático (deformações em trilhos, pontes, tubulações, cabos).
O que muda com a temperatura: comprimento, área e volume
- Dilatação linear: variação do comprimento (barras, trilhos, fios).
- Dilatação superficial: variação da área (chapas metálicas, placas).
- Dilatação volumétrica: variação do volume (blocos, sólidos em geral; e também líquidos, com comportamento próprio).
Em sólidos, as três dilatações existem ao mesmo tempo: ao aquecer uma barra, ela aumenta o comprimento, mas também a espessura e a largura (mesmo que pouco). Em muitos problemas, escolhe-se o modelo (linear, superficial ou volumétrico) conforme a geometria e o que é relevante medir.
Dilatação linear (mais usada em exercícios e aplicações)
A expressão típica para a dilatação linear é:
ΔL = L0 · α · ΔT
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Onde:
- ΔL: variação do comprimento (m, cm, mm…)
- L0: comprimento inicial (antes do aquecimento/resfriamento)
- α: coeficiente de dilatação linear do material
- ΔT: variação de temperatura (
ΔT = Tfinal − Tinicial)
Como identificar L0, ΔT e α sem confundir
- L0 é sempre o valor “antes” da mudança de temperatura. Se o enunciado diz “um fio de 20 m a 10 °C é aquecido até 60 °C”, então
L0 = 20 m. - ΔT é a diferença entre temperaturas final e inicial. No exemplo:
ΔT = 60 − 10 = 50 °C. (Para variações, °C e K têm o mesmo tamanho de intervalo, então pode usar ΔT em °C ou em K, desde que coerente.) - α vem do material (tabela, dado do problema). Ele indica “quanto o material dilata por unidade de comprimento e por grau de temperatura”.
Unidades e coerência dimensional (ponto-chave)
Para que ΔL saia em unidade de comprimento, α deve ter unidade de “por temperatura”:
- Se
ΔTestá em °C, entãoαcostuma ser dado em°C⁻¹. - Se
ΔTestá em K, entãoαpode ser dado emK⁻¹.
Verificação rápida (análise dimensional):
[ΔL] = [L0] · [α] · [ΔT] = m · (1/°C) · °C = m
Se você colocar L0 em metros e quiser ΔL em milímetros, pode converter no final (ou trabalhar tudo em mm desde o início).
Passo a passo prático (modelo de resolução)
- Liste os dados: identifique
L0,Tinicial,Tfinal,α. - Calcule ΔT:
ΔT = Tfinal − Tinicial. - Aplique a fórmula:
ΔL = L0 · α · ΔT. - Interprete o sinal: se
ΔT > 0, geralmenteΔL > 0(dilata). SeΔT < 0,ΔL < 0(contrai). - Se pedirem o comprimento final:
L = L0 + ΔL.
Exemplo aplicado 1: trilho/ponte (por que existem juntas de dilatação)
Uma barra metálica de L0 = 12 m sofre aumento de temperatura de ΔT = 40 °C. Para um metal com α = 1,2×10⁻⁵ °C⁻¹, a variação de comprimento é:
ΔL = 12 · (1,2×10⁻⁵) · 40 = 5,76×10⁻³ mConvertendo: 5,76×10⁻³ m = 5,76 mm.
Em estruturas longas (pontes, viadutos, trilhos), milímetros por trecho se acumulam ao longo de dezenas/centenas de metros. Sem espaço para dilatar, surgem tensões internas, empenamentos e trincas. As juntas de dilatação são “folgas controladas” para permitir esse movimento.
Exemplo aplicado 2: fios elétricos (por que ficam mais “caídos” no calor)
Cabos aéreos se alongam com o aumento de temperatura. Como estão presos em postes, o aumento de comprimento tende a aumentar a flecha (o “caimento”). Isso é considerado no projeto para evitar que o cabo fique muito baixo em dias quentes ou muito tensionado em dias frios.
Em exercícios, o foco costuma ser calcular ΔL e discutir o efeito qualitativo (mais alongamento → mais folga).
Exemplo aplicado 3: tampa metálica em pote (dilatação desejável)
Ao aquecer a tampa metálica (por exemplo, com água quente), ela dilata. Como a tampa é um anel/rosca, o aumento do diâmetro efetivo pode reduzir o aperto e facilitar abrir o pote. Aqui, a dilatação é útil.
Observação prática: o vidro do pote também pode aquecer e dilatar, mas a tampa metálica costuma responder mais rapidamente ao aquecimento localizado e pode ter coeficiente diferente, favorecendo o efeito.
Dilatação superficial e volumétrica (ideia e relações usuais)
Quando um sólido dilata, não é só o comprimento que muda. Uma placa aumenta sua área e um bloco aumenta seu volume. Para muitos materiais isotrópicos (mesmas propriedades em todas as direções) e para pequenas variações de temperatura, usa-se:
- Dilatação superficial:
ΔA = A0 · β · ΔT - Dilatação volumétrica:
ΔV = V0 · γ · ΔT
Em muitos cursos, adota-se a aproximação:
β ≈ 2αγ ≈ 3α
Isso faz sentido porque a área depende de duas dimensões lineares e o volume depende de três. Essa relação é uma aproximação válida para pequenas dilatações em sólidos isotrópicos.
Como escolher entre linear, superficial e volumétrica
- Use linear quando o objeto é “comprido” e a medida relevante é o comprimento (trilhos, barras, fios).
- Use superficial quando a grandeza relevante é a área (chapas, placas, lâminas; por exemplo, variação de área de uma placa que precisa encaixar).
- Use volumétrica quando a grandeza relevante é o volume (blocos, peças maciças, encaixes volumétricos; e também recipientes e conteúdos, com cuidado em situações envolvendo líquidos).
Passo a passo prático (superficial e volumétrica)
- Identifique
A0ouV0(valor inicial). - Calcule
ΔT. - Use
ΔA = A0·β·ΔTouΔV = V0·γ·ΔT. - Se necessário, calcule o valor final:
A = A0 + ΔAouV = V0 + ΔV. - Cheque unidades:
βeγtambém têm unidade°C⁻¹(ouK⁻¹), eΔAsai em unidade de área,ΔVem unidade de volume.
Quando a dilatação é desejável ou problemática
| Situação | O que acontece | Por que importa |
|---|---|---|
| Juntas de dilatação em pontes/viadutos | Permitem variação de comprimento | Evita trincas, empenamento e esforços excessivos |
| Trilhos e estruturas metálicas longas | Dilatação acumulada ao longo do comprimento | Sem folga, pode ocorrer flambagem/deformação |
| Fios elétricos aéreos | Alongam no calor e contraem no frio | Afeta altura do cabo e tensão mecânica |
| Tampa metálica em pote | Dilata e afrouxa o encaixe | Facilita abrir (dilatação útil) |
| Encaixes de precisão (máquinas) | Peças mudam dimensões | Pode travar, folgar ou perder alinhamento |
Erros comuns e como evitar
- Confundir L0 com ΔL:
L0é o comprimento inicial;ΔLé a variação. Se pedirem “quanto aumentou”, éΔL, nãoL. - Esquecer de calcular ΔT: não use
Tfinaldireto na fórmula; use a diferençaΔT. - Unidades inconsistentes: se
L0está em cm e você quer resposta em m, converta. Seαestá em°C⁻¹, useΔTem °C (ou converta tudo para K e useK⁻¹). - Sinal de ΔT: resfriamento dá
ΔTnegativo e, em geral,ΔLnegativo (contração).
Exercícios guiados (com organização do raciocínio)
Exercício 1 — Dilatação linear direta
Uma barra de aço tem L0 = 2,50 m a 20 °C. Ela é aquecida até 120 °C. Considere α = 1,2×10⁻⁵ °C⁻¹. Calcule ΔL e o comprimento final L.
- Dados:
L0 = 2,50 m;T_i = 20 °C;T_f = 120 °C;α = 1,2×10⁻⁵ °C⁻¹ - ΔT:
ΔT = 120 − 20 = 100 °C - Aplicação:
ΔL = 2,50 · 1,2×10⁻⁵ · 100 - Comprimento final:
L = L0 + ΔL
Exercício 2 — Encontrando α a partir de medidas
Uma haste tem L0 = 1,80 m. Ao aquecer de 10 °C para 60 °C, seu comprimento aumenta ΔL = 1,08 mm. Determine α.
- Converter unidades:
ΔL = 1,08 mm = 1,08×10⁻³ m - ΔT:
ΔT = 60 − 10 = 50 °C - Isolar α:
α = ΔL / (L0·ΔT) - Checar unidade: deve resultar em
°C⁻¹
Exercício 3 — Dilatação superficial (usando β ≈ 2α)
Uma placa quadrada tem área inicial A0 = 0,50 m². Ela sofre aquecimento de ΔT = 80 °C. O material tem α = 2,0×10⁻⁵ °C⁻¹. Estime ΔA.
- Estimar β:
β ≈ 2α = 4,0×10⁻⁵ °C⁻¹ - Aplicar:
ΔA = A0·β·ΔT
Exercício 4 — Dilatação volumétrica (usando γ ≈ 3α)
Um bloco tem volume inicial V0 = 1,2×10⁻³ m³ e é aquecido em ΔT = 50 °C. Para o material, α = 1,6×10⁻⁵ °C⁻¹. Estime ΔV e o volume final.
- Estimar γ:
γ ≈ 3α = 4,8×10⁻⁵ °C⁻¹ - Aplicar:
ΔV = V0·γ·ΔT - Final:
V = V0 + ΔV
Organização de dados (modelo para montar sua tabela antes de calcular)
Use o quadro abaixo para organizar qualquer problema de dilatação. Preencha com o que o enunciado fornece e com o que você calcula (como ΔT).
| Grandeza | Símbolo | Valor | Unidade |
|---|---|---|---|
| Comprimento inicial | L0 | m (ou cm, mm) | |
| Variação de comprimento | ΔL | m (ou cm, mm) | |
| Área inicial | A0 | m² | |
| Variação de área | ΔA | m² | |
| Volume inicial | V0 | m³ | |
| Variação de volume | ΔV | m³ | |
| Temperatura inicial | T_i | °C ou K | |
| Temperatura final | T_f | °C ou K | |
| Variação de temperatura | ΔT | °C ou K | |
| Coef. dilatação linear | α | °C⁻¹ ou K⁻¹ | |
| Coef. dilatação superficial | β | °C⁻¹ ou K⁻¹ | |
| Coef. dilatação volumétrica | γ | °C⁻¹ ou K⁻¹ |