Materiais e preparação do procedimento de punção venosa periférica e coleta de sangue

Capítulo 3

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Objetivo e conceito do preparo para punção venosa periférica e coleta

A preparação do procedimento é o conjunto de ações para garantir que a punção venosa periférica (PVP) e/ou a coleta de sangue ocorram com o material correto, na ordem certa e com mínima interrupção durante a técnica. Na prática, isso significa: selecionar o dispositivo adequado ao objetivo (infusão, transfusão, coleta), organizar uma bandeja funcional, checar integridade/validade dos itens, preparar identificação/etiquetas e alinhar o paciente (informação, conforto, posicionamento e manejo de ansiedade/dor).

Lista de materiais (checklist) e critérios de seleção

1) Materiais para punção venosa periférica (cateter e acessórios)

  • Cateter venoso periférico (CVP) em diferentes calibres (ex.: 14G, 16G, 18G, 20G, 22G, 24G). Critério: escolher o menor calibre que atenda ao objetivo terapêutico e às características da veia, reduzindo trauma e risco de complicações.
  • Conector sem agulha (valvulado/neutral/positivo conforme protocolo institucional). Critério: compatibilidade com o sistema de infusão e rotina de desinfecção e troca.
  • Extensor (prolongador) com ou sem clamp. Critério: útil para reduzir manipulação direta do cateter, facilitar fixação e diminuir tração no sítio.
  • Equipo de infusão (macro/microgotas) quando houver instalação de soro/medicação. Critério: microgotas para controle mais fino de volume/velocidade; macro para infusões usuais conforme prescrição.
  • Soluções para flush (conforme rotina): geralmente SF 0,9% em seringa (ex.: 10 mL) ou ampolas para preparo. Critério: usar seringa de volume adequado (comumente 10 mL) para reduzir pressão no cateter; seguir protocolo institucional para volume e frequência.
  • Dispositivo de fixação (filme transparente estéril, estabilizador, fitas hipoalergênicas). Critério: estabilização efetiva para evitar deslocamento e flebite mecânica; considerar pele frágil e alergias a adesivos.
  • Dispositivos de segurança: cateter com mecanismo de proteção da agulha, coletores rígidos para perfurocortantes. Critério: priorizar materiais com engenharia de segurança e descarte imediato após uso.

2) Materiais para coleta de sangue (seleção do dispositivo)

  • Sistema a vácuo (porta-agulha + agulha múltipla + tubos). Indicação: rotina laboratorial, múltiplos tubos, padronização de volumes. Atenção: veias muito finas podem colabar; considerar butterfly com adaptador para vácuo.
  • Butterfly (scalp) com adaptador para tubos a vácuo ou conexão para seringa. Indicação: veias pequenas/fragilizadas, difícil acesso, necessidade de maior controle do ângulo e estabilidade. Atenção: considerar volume morto do equipo e ordem/volume de tubos conforme protocolo.
  • Seringa + agulha ou butterfly. Indicação: quando é necessário controle manual do vácuo (veias frágeis, risco de hemólise/colabamento), ou quando não há sistema a vácuo disponível. Atenção: transferir para tubos com dispositivo apropriado (transfer device) para reduzir risco de acidente e hemólise; evitar injetar sangue com pressão excessiva.
  • Tubos de coleta (com aditivos específicos). Critério: selecionar conforme exames solicitados e rotina do laboratório; preparar a sequência conforme protocolo institucional.

3) Materiais de apoio (bandeja e organização)

  • Garrote (preferir de fácil higienização ou descartável conforme rotina).
  • Gazes e curativo compressivo.
  • Antisséptico conforme protocolo institucional (não detalhar técnica; apenas garantir disponibilidade e apresentação adequada).
  • Recipiente para descarte de perfurocortantes e resíduos.
  • Etiquetas de identificação e caneta apropriada (quando aplicável), ou impressões do sistema.
  • Requisição/exames (física ou eletrônica) e conferência de exames/jejum quando exigido pela rotina.
  • Material para conforto: travesseiro/apoio de braço, cobertor se necessário, compressa morna quando indicada pela rotina para facilitar dilatação venosa.

Critérios práticos para seleção do calibre do cateter e do dispositivo

Calibre do cateter periférico: lógica de escolha

O calibre (G) é inversamente proporcional ao diâmetro: quanto menor o número, maior o diâmetro. Cateteres maiores permitem maior fluxo, porém aumentam o risco de trauma em veias pequenas. A decisão deve equilibrar: objetivo clínico, viscosidade do infundido (ex.: hemocomponentes), urgência, condição da rede venosa e tempo previsto de terapia.

Dispositivo de coleta: lógica de escolha

  • Preferir sistema a vácuo quando a rede venosa é adequada e há necessidade de múltiplos tubos com volumes padronizados.
  • Preferir butterfly quando a veia é pequena, superficial, móvel ou quando o paciente tem histórico de punções difíceis; também quando é necessário maior estabilidade durante a coleta.
  • Preferir seringa quando se deseja reduzir o vácuo aplicado (veias frágeis) ou quando há risco de colabamento com tubos a vácuo; usar técnica de transferência segura para os tubos.

Quadro de decisão: calibre vs objetivo

Objetivo principalCalibre sugerido (referência)Racional práticoObservações de seleção
Hidratação/manutenção (infusão usual)20G–22GBom equilíbrio entre fluxo e menor traumaPreferir 22G em veias finas/idosos; 20G quando há previsão de volumes maiores
Medicações irritantes/vesicantes (quando permitido em acesso periférico)20G (ou maior se veia comportar)Maior estabilidade e melhor fluxo reduzem tempo de contatoPriorizar veia calibrosa e bom retorno; considerar necessidade de acesso alternativo conforme protocolo/medicação
Transfusão de hemocomponentes18G–20GFluxo adequado para transfusão com menor risco de hemólise por restrição18G quando há necessidade de maior velocidade e veia adequada; 20G é frequentemente aceitável conforme rotina
Reposição rápida/urgência (alto fluxo)14G–16G–18GMaior diâmetro permite alto fluxoUsar apenas se veia comportar e houver indicação clínica; exige boa estabilização
Coleta de sangue (sem necessidade de manter acesso)Dispositivo de coleta (vácuo/butterfly/seringa) mais do que calibre de cateterO foco é qualidade da amostra e confortoButterfly/seringa para veias frágeis; sistema a vácuo para rotina e múltiplos tubos
Pediatria/neonatal/veias muito finas22G–24GMenor trauma e melhor adaptação à veiaFluxo limitado; planejar terapia e compatibilidade com infusões

Dica prática: se há chance real de transfusão ou necessidade de contraste/infusão mais rápida, planeje o calibre desde o início para evitar repunções.

Preparo do paciente (antes de abrir materiais)

Identificação e alinhamento com a solicitação

  • Confirmar identificação do paciente conforme rotina institucional (ex.: nome completo e outro identificador).
  • Conferir exames solicitados, requisitos (ex.: jejum, horário, medicações em uso) e prioridade (rotina/urgência).
  • Verificar alergias relevantes (adesivos, antissépticos, látex, medicamentos) e registrar/adequar materiais (ex.: fita hipoalergênica).

Explicação do procedimento e consentimento verbal

  • Explicar em linguagem simples: o que será feito (punção e/ou coleta), sensação esperada (picada/pressão), tempo aproximado e cuidados após.
  • Checar compreensão e obter consentimento verbal conforme rotina do serviço.
  • Orientar o paciente a avisar se sentir tontura, náusea, dor intensa, formigamento ou mal-estar.

Manejo de dor e ansiedade (medidas rápidas e aplicáveis)

  • Avaliar ansiedade e experiências prévias (ex.: histórico de síncope em coleta).
  • Oferecer estratégias simples: respiração lenta, desviar o olhar, posição mais confortável, apoio do braço.
  • Se histórico de desmaio: considerar coleta/punção com paciente em posição mais segura (ex.: semissentado ou conforme rotina), com observação mais próxima.

Posicionamento

  • Posicionar o membro com apoio (travesseiro/apoio de braço), evitando hiperextensão do cotovelo.
  • Garantir iluminação adequada e acesso fácil à bandeja, mantendo o paciente confortável e o profissional com boa ergonomia.

Organização da bandeja: montagem eficiente

Princípios de organização

  • Separar por etapas: punção (cateter/dispositivo), coleta (tubos/dispositivo), fixação (curativos), flush/conexões (extensor/conector/seringa), descarte (perfurocortante).
  • Deixar itens de uso imediato acessíveis (garrote, gaze, dispositivo de punção/coleta).
  • Evitar abrir materiais antes de confirmar que tudo está disponível e que o paciente está pronto.

Checagem de validade e integridade

  • Verificar validade de cateter, conectores, extensores, equipos, tubos e soluções.
  • Inspecionar embalagem: lacre íntegro, sem umidade, rasgos ou sinais de violação.
  • Conferir compatibilidade de conexões (Luer, adaptadores) para evitar improvisos durante o procedimento.

Preparo de etiquetas e identificação de amostras

  • Preparar etiquetas antes da punção, conferindo dados do paciente e exames.
  • Planejar onde as etiquetas serão colocadas após a coleta (evitar colar em superfícies inadequadas ou perder a sequência).
  • Se houver impressão à beira-leito, garantir que o equipamento esteja disponível e funcional antes de iniciar.

Passo a passo prático: preparação completa (PVP e/ou coleta)

Roteiro 1: quando o objetivo é instalar um cateter periférico (com possibilidade de coleta associada)

  1. Confirmar objetivo: infusão? transfusão? medicação irritante? apenas acesso preventivo? Isso define calibre e acessórios.
  2. Selecionar calibre do cateter usando o quadro de decisão e a avaliação da veia (calibre/fragilidade).
  3. Separar conexões: conector sem agulha + extensor (se utilizado) + seringa de flush (conforme rotina) + curativo de fixação.
  4. Montar previamente (quando permitido pela rotina): deixar extensor e conector prontos para conexão imediata após a punção, reduzindo tempo de manipulação no sítio.
  5. Organizar bandeja em ordem de uso: punção → conexão/flush → fixação → descarte.
  6. Preparar etiquetas se houver coleta associada e separar tubos necessários.
  7. Checar paciente: identificação, alergias, explicação e consentimento verbal; posicionar membro e garantir conforto.

Roteiro 2: quando o objetivo é apenas coleta de sangue

  1. Conferir exames e requisitos (jejum/horário/urgência) conforme rotina.
  2. Escolher dispositivo: sistema a vácuo (rotina/múltiplos tubos), butterfly (veia difícil), seringa (controle de vácuo).
  3. Separar tubos necessários e organizar na sequência definida pelo protocolo institucional.
  4. Preparar etiquetas e deixar prontas para aplicação imediata após a coleta, evitando troca de amostras.
  5. Organizar bandeja: garrote, gaze, dispositivo de coleta, tubos, curativo e descarte.
  6. Orientar paciente: explicar etapas, solicitar que mantenha o braço apoiado e que avise se houver mal-estar.

Exemplos práticos de seleção (situações comuns)

Exemplo 1: paciente em antibioticoterapia EV, veias finas e dor à punção

  • Escolha provável: 22G com extensor e boa estabilização.
  • Justificativa: menor trauma em veia fina; extensor reduz tração e manipulação direta.
  • Planejamento: preparar flush em seringa adequada e curativo que respeite pele sensível; checar alergia a adesivos.

Exemplo 2: paciente com solicitação de hemograma, eletrólitos e coagulação (múltiplos tubos)

  • Escolha provável: sistema a vácuo se veia adequada; butterfly + adaptador se veia pequena.
  • Justificativa: padroniza volumes e agiliza múltiplas coletas.
  • Planejamento: separar tubos e etiquetas antes, para reduzir tempo de garroteamento.

Exemplo 3: paciente com possibilidade de transfusão nas próximas horas

  • Escolha provável: 18G–20G (conforme veia) já na primeira punção.
  • Justificativa: evita repunção para adequar calibre quando a transfusão for liberada.
  • Planejamento: selecionar curativo/estabilização robusta e garantir compatibilidade com equipos e conectores.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Durante a preparação para coleta de sangue em um paciente com veias frágeis e risco de colabamento, qual escolha de dispositivo é mais adequada para reduzir o vácuo aplicado e melhorar o controle da coleta?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Em veias frágeis, a seringa permite controlar manualmente o vácuo, reduzindo o risco de colabamento. Após a coleta, a transferência para tubos deve ser feita com dispositivo apropriado para diminuir acidente e hemólise.

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