Por que “margem” é mais útil do que “lucro” sozinho
Lucro em reais (R$) mostra o resultado final, mas pode enganar quando você compara meses diferentes, produtos diferentes ou mudanças de volume de vendas. Margens transformam o resultado em porcentagem e ajudam a responder perguntas práticas como: “Estou vendendo com folga suficiente?”, “Se eu der desconto, ainda vale a pena?”, “Qual produto sustenta as despesas da empresa?”.
Neste capítulo você vai trabalhar com três medidas que se complementam:
- Margem bruta: mede o quanto sobra após pagar os custos diretamente ligados ao que foi vendido.
- Margem de contribuição: mede o quanto sobra para pagar despesas fixas e gerar lucro, depois de custos e despesas variáveis.
- Lucro líquido: o que sobra no final, depois de todas as despesas (e impostos, se aplicável).
O que você precisa ter em mãos (sem complicar)
Para calcular margens e lucro de forma prática, você precisa apenas de um resumo do período (mês, semana ou trimestre) com:
- Receita do período (de preferência a receita reconhecida no período; se você usa caixa, use recebimentos, mas entenda a diferença na interpretação).
- Custos dos produtos/serviços vendidos (o que varia diretamente com a venda/entrega).
- Despesas variáveis (comissão, taxas de cartão/marketplace, frete pago por você, embalagem por pedido etc.).
- Despesas fixas (aluguel, salários administrativos, contador, internet, ferramentas, pró-labore etc.).
Se você ainda não separa “variável” e “fixa” com perfeição, comece com uma regra simples: se aumenta quando você vende mais, tende a ser variável; se existe mesmo vendendo pouco, tende a ser fixa.
Margem bruta: o primeiro “termômetro” da venda
Conceito
Margem bruta mostra quanto sobra da receita depois de pagar os custos diretamente ligados ao que foi vendido. Ela indica se o seu preço está cobrindo bem o custo do produto/serviço antes de considerar despesas do negócio.
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Fórmula
Lucro Bruto = Receita - Custos
Margem Bruta (%) = (Lucro Bruto / Receita) x 100
Exemplo numérico
Em um mês:
- Receita: R$ 100.000
- Custos (matéria-prima/compra de mercadoria/mão de obra direta): R$ 60.000
Então:
- Lucro Bruto = 100.000 - 60.000 = R$ 40.000
- Margem Bruta = 40.000 / 100.000 = 40%
Como interpretar na prática
- Margem bruta alta dá espaço para pagar despesas e ainda lucrar.
- Margem bruta baixa pode indicar preço baixo, custo alto, desperdício, compras mal negociadas ou mix ruim (vendendo muito do que dá pouca margem).
- Se a margem bruta muda muito de um mês para outro, investigue: mudança de preço, desconto, custo de compra, perdas, retrabalho.
Margem de contribuição: o que realmente “paga a casa”
Conceito
Margem de contribuição é o quanto sobra para cobrir as despesas fixas e gerar lucro, depois de tirar da receita tudo o que é variável (custos e despesas que crescem com as vendas).
Ela é extremamente prática para decisões de preço, desconto e mix de produtos, porque responde: cada venda contribui com quanto para sustentar a empresa?
Fórmulas
Contribuição (R$) = Receita - (Custos Variáveis + Despesas Variáveis)
Margem de Contribuição (%) = Contribuição / Receita
Exemplo numérico (continuação)
Mesmo mês:
- Receita: R$ 100.000
- Custos variáveis: R$ 60.000
- Despesas variáveis: R$ 10.000 (taxas, comissões, fretes por pedido etc.)
Então:
- Contribuição = 100.000 - (60.000 + 10.000) = R$ 30.000
- Margem de contribuição = 30.000 / 100.000 = 30%
Passo a passo prático para calcular no seu mês
Some a receita do período (ex.: total de vendas do mês).
Some os custos variáveis ligados ao que foi vendido (ex.: custo de mercadoria, insumos por serviço, mão de obra direta por produção).
Liste e some as despesas variáveis (ex.: taxas de cartão, comissão, frete por pedido, embalagem por venda).
Subtraia custos variáveis e despesas variáveis da receita.
Divida pela receita para achar a margem em %.
Como usar para decisões rápidas
- Desconto: se você dá desconto, a receita cai, mas custos variáveis podem não cair na mesma proporção. A margem de contribuição mostra se o desconto “come” a contribuição.
- Taxas e comissões: aumentos de taxa reduzem diretamente a contribuição. Se um canal cobra mais, ele precisa compensar com preço maior, volume maior ou custo menor.
- Mix de produtos: produtos com maior margem de contribuição “pagam” melhor as despesas fixas. Vender muito do produto errado pode aumentar faturamento e reduzir lucro.
Lucro líquido: o resultado final (e por que ele pode não virar caixa)
Conceito
Lucro líquido é o que sobra depois de pagar todas as despesas do período (variáveis e fixas). É o número que responde: “a operação do mês foi lucrativa?”.
Fórmulas
Lucro Líquido = Receita - Custos - Despesas (variáveis + fixas)
Margem Líquida (%) = Lucro Líquido / Receita
Exemplo numérico completo
Continuando:
- Receita: R$ 100.000
- Custos variáveis: R$ 60.000
- Despesas variáveis: R$ 10.000
- Despesas fixas: R$ 25.000
Então:
- Lucro Líquido = 100.000 - 60.000 - 10.000 - 25.000 = R$ 5.000
- Margem Líquida = 5.000 / 100.000 = 5%
Modelo simples de demonstrativo (para você copiar)
Você pode montar um resumo mensal assim (em planilha ou sistema):
| Item | Valor (R$) | % da Receita |
|---|---|---|
| Receita | 100.000 | 100% |
| (-) Custos variáveis | 60.000 | 60% |
| = Lucro bruto | 40.000 | 40% |
| (-) Despesas variáveis | 10.000 | 10% |
| = Contribuição | 30.000 | 30% |
| (-) Despesas fixas | 25.000 | 25% |
| = Lucro líquido | 5.000 | 5% |
Esse formato deixa claro onde o resultado está “vazando”: custo, despesas variáveis ou despesas fixas.
Lucro no papel x dinheiro no caixa: como não se confundir
É comum ter lucro e ainda assim sentir falta de dinheiro. Isso acontece porque lucro é uma medida de resultado do período, enquanto caixa depende de quando o dinheiro entra e sai e de outras movimentações que não aparecem como custo/despesa do mês.
Situações típicas em que há lucro, mas o caixa piora
- Vendas a prazo: você registra receita, mas ainda não recebeu. O lucro aparece antes do dinheiro.
- Compra de estoque à vista: o dinheiro sai agora, mas o custo só “aparece” quando vender. O caixa sofre antes do resultado.
- Pagamento de dívidas/parcelamentos: amortização de principal reduz caixa, mas não é despesa operacional do mês (juros normalmente são despesa; principal é pagamento de obrigação).
- Investimentos: compra de máquina/equipamento reduz caixa, mas não entra como despesa integral do mês (em contabilidade, vira ativo e deprecia ao longo do tempo).
Checklist rápido para reconciliar lucro e caixa no mês
- Quanto ficou para receber (clientes)? Se aumentou muito, parte do lucro ainda não virou dinheiro.
- Quanto aumentou o estoque? Se você comprou mais do que vendeu, o caixa saiu antes do resultado.
- Quanto foi pago de dívidas (principal)? Isso consome caixa sem “reduzir” o lucro operacional.
- Houve compras de ativos (equipamentos, reformas)? Consomem caixa e não aparecem como despesa do mês.
Na prática: use margens e lucro para medir desempenho; use o acompanhamento de caixa para garantir fôlego financeiro. Os dois precisam conversar.
Como usar margens para tomar decisões (com números)
1) Aumentar preço (quando a margem não sustenta as despesas)
Se a margem de contribuição está baixa, qualquer despesa fixa “come” o resultado. Exemplo:
- Receita: R$ 100.000
- Margem de contribuição: 20% (R$ 20.000)
- Despesas fixas: R$ 25.000
Resultado: prejuízo de R$ 5.000. Se você conseguir aumentar preço de forma que a margem de contribuição vá para 27% (R$ 27.000), mantendo volume e custos variáveis proporcionais, você passa a ter lucro de R$ 2.000.
Passo a passo:
- Calcule sua margem de contribuição atual.
- Compare com suas despesas fixas:
Contribuição - Fixas. - Simule um aumento de preço (ex.: +5%, +10%) e veja quanto a contribuição sobe.
2) Reduzir custo (quando a margem bruta está apertada)
Se a margem bruta é baixa, o problema costuma estar no custo do que você vende (compra, insumo, desperdício, produtividade). Exemplo:
- Receita: R$ 100.000
- Custos: R$ 70.000
- Margem bruta: 30%
Se você reduzir custos em 5% (de 70.000 para 66.500), o lucro bruto sobe de 30.000 para 33.500. Isso melhora também a contribuição e o lucro líquido, sem depender de vender mais.
Onde procurar redução:
- Renegociação com fornecedor e compras em volume.
- Substituição de insumo mantendo padrão.
- Redução de perdas, retrabalho, devoluções.
- Padronização de processo para gastar menos por unidade.
3) Cortar despesas (quando a contribuição é boa, mas o lucro líquido é baixo)
Se a margem de contribuição é saudável, mas o lucro líquido é pequeno, o “peso” está nas despesas fixas (ou em despesas variáveis que você classificou como fixas/vice-versa). Exemplo:
- Receita: R$ 100.000
- Contribuição: R$ 35.000 (35%)
- Despesas fixas: R$ 33.000
- Lucro líquido: R$ 2.000 (2%)
Um corte de R$ 5.000 em despesas fixas (sem afetar vendas) aumenta o lucro líquido para R$ 7.000 (7%).
Passo a passo:
- Liste despesas fixas por categoria e valor.
- Marque o que é “essencial para operar” vs “melhorável”.
- Priorize cortes com menor impacto em receita (ex.: assinaturas subutilizadas, renegociação de aluguel, serviços redundantes).
4) Ajustar mix de produtos (quando o faturamento cresce e o lucro não)
Dois produtos podem ter o mesmo preço, mas contribuições muito diferentes por causa de custos e despesas variáveis.
| Produto | Preço | Custo variável | Desp. variável | Contribuição (R$) | MC (%) |
|---|---|---|---|---|---|
| A | R$ 100 | R$ 55 | R$ 10 | R$ 35 | 35% |
| B | R$ 100 | R$ 70 | R$ 12 | R$ 18 | 18% |
Se você vende 1.000 unidades:
- Produto A contribui: 1.000 x 35 = R$ 35.000
- Produto B contribui: 1.000 x 18 = R$ 18.000
Se o seu mix muda e você passa a vender mais do Produto B, o faturamento pode ficar igual, mas a contribuição cai e o lucro some.
Passo a passo:
- Calcule contribuição por produto/serviço (mesmo que seja com estimativas).
- Ordene do maior para o menor.
- Crie ações para empurrar o mix: destaque no atendimento, combos, comissão maior para o time, vitrine, estoque disponível.
Erros comuns ao calcular margens (e como evitar)
- Colocar despesas fixas dentro do custo: isso distorce margem bruta e dificulta comparar produtos.
- Esquecer despesas variáveis (taxas e comissões): a margem bruta pode parecer ótima, mas a contribuição fica fraca.
- Usar receita “de nota” e custo “de pagamento” no mesmo cálculo: misturar regimes pode gerar margens irreais. Se você usa números de caixa, use tudo em caixa; se usa competência, mantenha consistência.
- Não separar por canal: taxas e comissões mudam por canal. Calcule contribuição por canal quando possível.
Rotina mensal de 20 minutos para acompanhar sem complicação
Preencha o quadro: Receita, Custos variáveis, Despesas variáveis, Despesas fixas.
Calcule: Margem bruta, Margem de contribuição, Margem líquida.
Compare com o mês anterior: o que mudou em % da receita?
Escolha 1 ação do mês baseada no diagnóstico:
- Margem bruta caiu → atacar custo/desperdício/preço.
- Contribuição caiu → atacar taxas/comissões/descontos/canal.
- Lucro líquido caiu com contribuição estável → atacar despesas fixas.