Margem e lucro na prática: medir resultado sem complicação

Capítulo 5

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Por que “margem” é mais útil do que “lucro” sozinho

Lucro em reais (R$) mostra o resultado final, mas pode enganar quando você compara meses diferentes, produtos diferentes ou mudanças de volume de vendas. Margens transformam o resultado em porcentagem e ajudam a responder perguntas práticas como: “Estou vendendo com folga suficiente?”, “Se eu der desconto, ainda vale a pena?”, “Qual produto sustenta as despesas da empresa?”.

Neste capítulo você vai trabalhar com três medidas que se complementam:

  • Margem bruta: mede o quanto sobra após pagar os custos diretamente ligados ao que foi vendido.
  • Margem de contribuição: mede o quanto sobra para pagar despesas fixas e gerar lucro, depois de custos e despesas variáveis.
  • Lucro líquido: o que sobra no final, depois de todas as despesas (e impostos, se aplicável).

O que você precisa ter em mãos (sem complicar)

Para calcular margens e lucro de forma prática, você precisa apenas de um resumo do período (mês, semana ou trimestre) com:

  • Receita do período (de preferência a receita reconhecida no período; se você usa caixa, use recebimentos, mas entenda a diferença na interpretação).
  • Custos dos produtos/serviços vendidos (o que varia diretamente com a venda/entrega).
  • Despesas variáveis (comissão, taxas de cartão/marketplace, frete pago por você, embalagem por pedido etc.).
  • Despesas fixas (aluguel, salários administrativos, contador, internet, ferramentas, pró-labore etc.).

Se você ainda não separa “variável” e “fixa” com perfeição, comece com uma regra simples: se aumenta quando você vende mais, tende a ser variável; se existe mesmo vendendo pouco, tende a ser fixa.

Margem bruta: o primeiro “termômetro” da venda

Conceito

Margem bruta mostra quanto sobra da receita depois de pagar os custos diretamente ligados ao que foi vendido. Ela indica se o seu preço está cobrindo bem o custo do produto/serviço antes de considerar despesas do negócio.

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Fórmula

Lucro Bruto = Receita - Custos

Margem Bruta (%) = (Lucro Bruto / Receita) x 100

Exemplo numérico

Em um mês:

  • Receita: R$ 100.000
  • Custos (matéria-prima/compra de mercadoria/mão de obra direta): R$ 60.000

Então:

  • Lucro Bruto = 100.000 - 60.000 = R$ 40.000
  • Margem Bruta = 40.000 / 100.000 = 40%

Como interpretar na prática

  • Margem bruta alta dá espaço para pagar despesas e ainda lucrar.
  • Margem bruta baixa pode indicar preço baixo, custo alto, desperdício, compras mal negociadas ou mix ruim (vendendo muito do que dá pouca margem).
  • Se a margem bruta muda muito de um mês para outro, investigue: mudança de preço, desconto, custo de compra, perdas, retrabalho.

Margem de contribuição: o que realmente “paga a casa”

Conceito

Margem de contribuição é o quanto sobra para cobrir as despesas fixas e gerar lucro, depois de tirar da receita tudo o que é variável (custos e despesas que crescem com as vendas).

Ela é extremamente prática para decisões de preço, desconto e mix de produtos, porque responde: cada venda contribui com quanto para sustentar a empresa?

Fórmulas

Contribuição (R$) = Receita - (Custos Variáveis + Despesas Variáveis)

Margem de Contribuição (%) = Contribuição / Receita

Exemplo numérico (continuação)

Mesmo mês:

  • Receita: R$ 100.000
  • Custos variáveis: R$ 60.000
  • Despesas variáveis: R$ 10.000 (taxas, comissões, fretes por pedido etc.)

Então:

  • Contribuição = 100.000 - (60.000 + 10.000) = R$ 30.000
  • Margem de contribuição = 30.000 / 100.000 = 30%

Passo a passo prático para calcular no seu mês

  1. Some a receita do período (ex.: total de vendas do mês).

  2. Some os custos variáveis ligados ao que foi vendido (ex.: custo de mercadoria, insumos por serviço, mão de obra direta por produção).

  3. Liste e some as despesas variáveis (ex.: taxas de cartão, comissão, frete por pedido, embalagem por venda).

  4. Subtraia custos variáveis e despesas variáveis da receita.

  5. Divida pela receita para achar a margem em %.

Como usar para decisões rápidas

  • Desconto: se você dá desconto, a receita cai, mas custos variáveis podem não cair na mesma proporção. A margem de contribuição mostra se o desconto “come” a contribuição.
  • Taxas e comissões: aumentos de taxa reduzem diretamente a contribuição. Se um canal cobra mais, ele precisa compensar com preço maior, volume maior ou custo menor.
  • Mix de produtos: produtos com maior margem de contribuição “pagam” melhor as despesas fixas. Vender muito do produto errado pode aumentar faturamento e reduzir lucro.

Lucro líquido: o resultado final (e por que ele pode não virar caixa)

Conceito

Lucro líquido é o que sobra depois de pagar todas as despesas do período (variáveis e fixas). É o número que responde: “a operação do mês foi lucrativa?”.

Fórmulas

Lucro Líquido = Receita - Custos - Despesas (variáveis + fixas)

Margem Líquida (%) = Lucro Líquido / Receita

Exemplo numérico completo

Continuando:

  • Receita: R$ 100.000
  • Custos variáveis: R$ 60.000
  • Despesas variáveis: R$ 10.000
  • Despesas fixas: R$ 25.000

Então:

  • Lucro Líquido = 100.000 - 60.000 - 10.000 - 25.000 = R$ 5.000
  • Margem Líquida = 5.000 / 100.000 = 5%

Modelo simples de demonstrativo (para você copiar)

Você pode montar um resumo mensal assim (em planilha ou sistema):

ItemValor (R$)% da Receita
Receita100.000100%
(-) Custos variáveis60.00060%
= Lucro bruto40.00040%
(-) Despesas variáveis10.00010%
= Contribuição30.00030%
(-) Despesas fixas25.00025%
= Lucro líquido5.0005%

Esse formato deixa claro onde o resultado está “vazando”: custo, despesas variáveis ou despesas fixas.

Lucro no papel x dinheiro no caixa: como não se confundir

É comum ter lucro e ainda assim sentir falta de dinheiro. Isso acontece porque lucro é uma medida de resultado do período, enquanto caixa depende de quando o dinheiro entra e sai e de outras movimentações que não aparecem como custo/despesa do mês.

Situações típicas em que há lucro, mas o caixa piora

  • Vendas a prazo: você registra receita, mas ainda não recebeu. O lucro aparece antes do dinheiro.
  • Compra de estoque à vista: o dinheiro sai agora, mas o custo só “aparece” quando vender. O caixa sofre antes do resultado.
  • Pagamento de dívidas/parcelamentos: amortização de principal reduz caixa, mas não é despesa operacional do mês (juros normalmente são despesa; principal é pagamento de obrigação).
  • Investimentos: compra de máquina/equipamento reduz caixa, mas não entra como despesa integral do mês (em contabilidade, vira ativo e deprecia ao longo do tempo).

Checklist rápido para reconciliar lucro e caixa no mês

  • Quanto ficou para receber (clientes)? Se aumentou muito, parte do lucro ainda não virou dinheiro.
  • Quanto aumentou o estoque? Se você comprou mais do que vendeu, o caixa saiu antes do resultado.
  • Quanto foi pago de dívidas (principal)? Isso consome caixa sem “reduzir” o lucro operacional.
  • Houve compras de ativos (equipamentos, reformas)? Consomem caixa e não aparecem como despesa do mês.

Na prática: use margens e lucro para medir desempenho; use o acompanhamento de caixa para garantir fôlego financeiro. Os dois precisam conversar.

Como usar margens para tomar decisões (com números)

1) Aumentar preço (quando a margem não sustenta as despesas)

Se a margem de contribuição está baixa, qualquer despesa fixa “come” o resultado. Exemplo:

  • Receita: R$ 100.000
  • Margem de contribuição: 20% (R$ 20.000)
  • Despesas fixas: R$ 25.000

Resultado: prejuízo de R$ 5.000. Se você conseguir aumentar preço de forma que a margem de contribuição vá para 27% (R$ 27.000), mantendo volume e custos variáveis proporcionais, você passa a ter lucro de R$ 2.000.

Passo a passo:

  1. Calcule sua margem de contribuição atual.
  2. Compare com suas despesas fixas: Contribuição - Fixas.
  3. Simule um aumento de preço (ex.: +5%, +10%) e veja quanto a contribuição sobe.

2) Reduzir custo (quando a margem bruta está apertada)

Se a margem bruta é baixa, o problema costuma estar no custo do que você vende (compra, insumo, desperdício, produtividade). Exemplo:

  • Receita: R$ 100.000
  • Custos: R$ 70.000
  • Margem bruta: 30%

Se você reduzir custos em 5% (de 70.000 para 66.500), o lucro bruto sobe de 30.000 para 33.500. Isso melhora também a contribuição e o lucro líquido, sem depender de vender mais.

Onde procurar redução:

  • Renegociação com fornecedor e compras em volume.
  • Substituição de insumo mantendo padrão.
  • Redução de perdas, retrabalho, devoluções.
  • Padronização de processo para gastar menos por unidade.

3) Cortar despesas (quando a contribuição é boa, mas o lucro líquido é baixo)

Se a margem de contribuição é saudável, mas o lucro líquido é pequeno, o “peso” está nas despesas fixas (ou em despesas variáveis que você classificou como fixas/vice-versa). Exemplo:

  • Receita: R$ 100.000
  • Contribuição: R$ 35.000 (35%)
  • Despesas fixas: R$ 33.000
  • Lucro líquido: R$ 2.000 (2%)

Um corte de R$ 5.000 em despesas fixas (sem afetar vendas) aumenta o lucro líquido para R$ 7.000 (7%).

Passo a passo:

  1. Liste despesas fixas por categoria e valor.
  2. Marque o que é “essencial para operar” vs “melhorável”.
  3. Priorize cortes com menor impacto em receita (ex.: assinaturas subutilizadas, renegociação de aluguel, serviços redundantes).

4) Ajustar mix de produtos (quando o faturamento cresce e o lucro não)

Dois produtos podem ter o mesmo preço, mas contribuições muito diferentes por causa de custos e despesas variáveis.

ProdutoPreçoCusto variávelDesp. variávelContribuição (R$)MC (%)
AR$ 100R$ 55R$ 10R$ 3535%
BR$ 100R$ 70R$ 12R$ 1818%

Se você vende 1.000 unidades:

  • Produto A contribui: 1.000 x 35 = R$ 35.000
  • Produto B contribui: 1.000 x 18 = R$ 18.000

Se o seu mix muda e você passa a vender mais do Produto B, o faturamento pode ficar igual, mas a contribuição cai e o lucro some.

Passo a passo:

  1. Calcule contribuição por produto/serviço (mesmo que seja com estimativas).
  2. Ordene do maior para o menor.
  3. Crie ações para empurrar o mix: destaque no atendimento, combos, comissão maior para o time, vitrine, estoque disponível.

Erros comuns ao calcular margens (e como evitar)

  • Colocar despesas fixas dentro do custo: isso distorce margem bruta e dificulta comparar produtos.
  • Esquecer despesas variáveis (taxas e comissões): a margem bruta pode parecer ótima, mas a contribuição fica fraca.
  • Usar receita “de nota” e custo “de pagamento” no mesmo cálculo: misturar regimes pode gerar margens irreais. Se você usa números de caixa, use tudo em caixa; se usa competência, mantenha consistência.
  • Não separar por canal: taxas e comissões mudam por canal. Calcule contribuição por canal quando possível.

Rotina mensal de 20 minutos para acompanhar sem complicação

  1. Preencha o quadro: Receita, Custos variáveis, Despesas variáveis, Despesas fixas.

  2. Calcule: Margem bruta, Margem de contribuição, Margem líquida.

  3. Compare com o mês anterior: o que mudou em % da receita?

  4. Escolha 1 ação do mês baseada no diagnóstico:

    • Margem bruta caiu → atacar custo/desperdício/preço.
    • Contribuição caiu → atacar taxas/comissões/descontos/canal.
    • Lucro líquido caiu com contribuição estável → atacar despesas fixas.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao decidir se um desconto ainda “vale a pena” sem colocar a empresa no prejuízo, qual indicador é o mais adequado para avaliar o impacto da venda sobre as despesas e o lucro?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A margem de contribuição mostra quanto cada venda deixa disponível após custos e despesas variáveis para cobrir despesas fixas e formar lucro, sendo ideal para avaliar descontos, taxas e mix.

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