Manutenção do acesso venoso periférico: permeabilidade, flush, avaliação e boas práticas de manipulação

Capítulo 6

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Conceito e objetivos da manutenção do acesso venoso periférico (AVP)

A manutenção do AVP é o conjunto de rotinas para garantir que o cateter permaneça funcional (permeável) e seguro durante o tempo de uso. Na prática, envolve: avaliar sistematicamente o sítio, confirmar permeabilidade, desinfetar conectores antes de qualquer acesso, realizar flush/lock conforme protocolo local, trocar componentes quando indicado e reduzir manipulações desnecessárias. O foco é prevenir complicações como flebite, infiltração/extravasamento, oclusão, infecção relacionada ao cateter e lesão de pele.

Rotina de manutenção: o que avaliar em toda checagem

1) Avaliação sistemática do sítio e do membro

Em cada checagem (por turno, antes de medicações, antes de coleta pelo AVP, e sempre que houver queixa), inspecione e palpe suavemente o trajeto e o entorno do cateter, comparando com o membro contralateral quando necessário.

  • Dor: espontânea ou à palpação; pergunte ao paciente e observe proteção do membro.
  • Calor: aumento de temperatura local sugere inflamação.
  • Rubor: hiperemia ao redor do sítio ou ao longo da veia.
  • Edema: aumento de volume, “inchaço” local ou distal.
  • Endurecimento: cordão venoso palpável, induração.
  • Exsudato: seroso, purulento ou sangramento persistente; observar também odor e umidade no curativo.

Boas práticas: avalie também integridade do curativo (bordas descoladas, umidade, sujidade), estabilização do cateter (tração, folga, risco de migração) e condição da pele (macerada, lesão por adesivo, prurido).

2) Checagem de permeabilidade (patência) do AVP

Permeabilidade é a capacidade do cateter permitir infusão e/ou aspiração sem resistência anormal e sem sinais locais de complicação. A checagem deve ser feita antes de administrar soluções/medicações e após intervenções que possam alterar o sistema (troca de conector, pausa prolongada, queixa do paciente).

  • Observe sinais indiretos: bomba apitando por oclusão, gotejamento lento, dor durante infusão, edema surgindo durante a administração.
  • Teste com flush (conforme protocolo): resistência, refluxo sanguíneo (quando aplicável), dor ou edema durante o flush sugerem problema.

Atenção: nunca force flush contra resistência. Resistência pode indicar oclusão, dobra do cateter, posicionamento inadequado, flebite ou infiltração inicial.

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Desinfecção de conectores: fricção e tempo

Conectores (ex.: válvula sem agulha, hubs, extensores) devem ser desinfetados antes de cada acesso (medicação, flush, coleta, troca de equipo). O objetivo é reduzir contaminação intraluminal.

Passo a passo prático (desinfecção do conector)

  • 1. Inspecione o conector: presença de sujidade, sangue seco, fissuras, umidade. Se houver sujidade que não possa ser removida com segurança, considerar troca do componente conforme rotina institucional.
  • 2. Friccione toda a superfície de acesso do conector com antisséptico recomendado pelo serviço (comum: álcool 70% ou clorexidina alcoólica, conforme protocolo).
  • 3. Tempo de fricção: mantenha fricção vigorosa por tempo mínimo definido pelo protocolo local (muitas instituições adotam 15–30 segundos).
  • 4. Tempo de secagem: aguarde secagem completa antes de conectar seringa/equipo (secagem é parte do efeito antisséptico).
  • 5. Evite recontaminação: após desinfetar, não toque na área limpa e conecte imediatamente.

Dica prática: padronize a sequência “desinfetar → secar → conectar” e repita sempre, inclusive em acessos rápidos.

Flush e lock: quando, como e cuidados

Conceitos

  • Flush: irrigação do cateter com solução (geralmente SF 0,9%) para verificar patência e limpar o lúmen, reduzindo risco de oclusão e incompatibilidades.
  • Lock: preenchimento do lúmen com solução ao final do uso para manter patência durante períodos sem infusão (pode ser SF 0,9% e, em alguns protocolos específicos, outras soluções; seguir rotina local).

Quando realizar

  • Antes e após administração de medicações IV.
  • Entre medicações incompatíveis.
  • Após coleta de sangue pelo AVP (quando permitido pelo protocolo e condição do acesso).
  • Após troca de conector/extensor.
  • Após períodos de ociosidade, conforme rotina do serviço.

Passo a passo prático (flush seguro)

  • 1. Verifique o sítio (dor, rubor, edema, calor, endurecimento, exsudato) e confirme se não há sinais de infiltração/flebite.
  • 2. Desinfete o conector (fricção + secagem).
  • 3. Conecte a seringa com técnica sem toque na ponta/conexão.
  • 4. Injete lentamente observando: resistência, dor, edema, vazamento no curativo.
  • 5. Se houver resistência/dor/edema: pare imediatamente e reavalie (não force).
  • 6. Finalize conforme protocolo (ex.: técnica pulsátil e pressão positiva, se adotadas pelo serviço).

Observação importante: volumes, tipo de solução, técnica pulsátil e uso de pressão positiva variam por protocolo institucional e tipo de dispositivo. Siga a padronização local e registre o que foi realizado.

Troca de dispositivos/conectores: quando indicar

A troca de componentes do sistema (conector sem agulha, extensor, tampas) deve seguir protocolo local e ocorrer quando houver indicação clínica ou risco de contaminação/funcionamento inadequado.

Indicações frequentes (exemplos práticos)

  • Conector com sangue residual persistente ou sujidade que não se remove com desinfecção adequada.
  • Falha mecânica: fissura, vazamento, encaixe frouxo, tampa danificada.
  • Contaminação acidental: toque direto na área de conexão após desinfecção, queda do componente em superfície não estéril.
  • Oclusões recorrentes associadas ao componente (após excluir dobra do cateter e problemas do sítio).

Boas práticas: ao trocar componentes, minimize desconexões, mantenha o sistema fechado sempre que possível e realize desinfecção rigorosa em cada conexão.

Redução de manipulações desnecessárias

Cada acesso ao sistema aumenta risco de contaminação e falhas. Organize o cuidado para reduzir entradas no cateter.

  • Agrupe administrações quando clinicamente possível (respeitando compatibilidades e horários).
  • Evite “testes” repetidos de refluxo/flush sem indicação.
  • Prefira vias alternativas quando o AVP estiver limítrofe (ex.: dor leve e progressiva) e houver outra opção segura.
  • Padronize checagens (por turno e antes de uso), evitando manipulação fora da rotina.

Padronização por escala: flebite e infiltração (como usar e registrar)

Utilizar escalas torna a avaliação mais objetiva, melhora comunicação entre turnos e orienta condutas. Abaixo estão modelos amplamente usados; adapte à escala oficial da sua instituição.

Escala de flebite (exemplo prático de graduação)

GrauAchados típicosConduta imediata sugerida
0Sem dor, sem rubor, sem edemaManter e seguir rotina
1Rubor ou dor leve no sítioReavaliar com maior frequência; considerar troca se progressão
2Dor + rubor e/ou edemaInterromper infusão; considerar remover e puncionar novo sítio
3Dor ao longo da veia + rubor + endurecimento (cordão)Remover AVP; medidas locais conforme protocolo; notificar
4Como grau 3 + cordão palpável extenso e/ou exsudatoRemover AVP; avaliar complicação infecciosa; conduta médica conforme necessidade

Escala de infiltração/extravasamento (exemplo prático de graduação)

GrauAchados típicosConduta imediata sugerida
0Sem sinaisManter e seguir rotina
1Edema leve, pele fria, com ou sem dorInterromper infusão; elevar membro; reavaliar; geralmente remover
2Edema moderado, dor, possível ruborInterromper; remover; medidas locais; novo acesso em outro sítio
3Edema importante, pele tensa, dor significativaInterromper; remover; avaliar perfusão distal; notificar
4Comprometimento circulatório/necrose/bolhas (especialmente com vesicantes)Emergência: interromper; seguir protocolo de extravasamento; notificar imediatamente

Como aplicar e registrar (passo a passo)

  • 1. Avalie e atribua um grau para flebite e/ou infiltração (se aplicável).
  • 2. Registre achados objetivos: “dor 6/10”, “rubor 2 cm ao redor”, “edema + pele fria”, “cordão palpável”.
  • 3. Registre permeabilidade: presença de resistência no flush, dor ao flush, retorno sanguíneo quando aplicável e permitido.
  • 4. Registre conduta: manteve/retirou/trocou sítio, medidas locais realizadas, comunicação ao enfermeiro responsável/médico quando indicado.
  • 5. Registre reavaliação: horário e evolução (melhora/piora).

Exemplo de anotação: “AVP MSD, sítio sem exsudato. Dor 0/10. Sem rubor/calor. Flebite grau 0. Infiltração grau 0. Conector desinfetado (fricção + secagem). Flush com SF conforme protocolo, sem resistência e sem dor. Mantido.”

Sinais de complicações precoces e condutas imediatas

Flebite (início)

  • Sinais precoces: desconforto local, rubor discreto, sensibilidade ao toque, início de endurecimento.
  • Conduta imediata: interromper infusão se sintomático; reavaliar escala; considerar remoção e novo sítio se grau ≥2 ou progressão; medidas locais conforme protocolo.

Infiltração/extravasamento (início)

  • Sinais precoces: edema discreto durante infusão, pele fria, queimação/dor, fluxo reduzido.
  • Conduta imediata: parar infusão; não forçar flush; avaliar perfusão distal (cor, temperatura, enchimento capilar, sensibilidade); remover AVP na maioria dos casos e puncionar novo sítio; se houver risco de extravasamento de fármacos irritantes/vesicantes, seguir protocolo específico imediatamente.

Oclusão/obstrução

  • Sinais precoces: resistência ao flush, alarme de oclusão na bomba, ausência de fluxo, refluxo ausente (quando esperado).
  • Conduta imediata: verificar dobras/posicionamento do membro, conexões e clamp; reavaliar sítio para infiltração; se persistir resistência, não forçar e considerar troca do sítio/dispositivo conforme avaliação.

Sinais sugestivos de infecção local

  • Sinais precoces: rubor progressivo, calor, dor crescente, exsudato, odor, piora sistêmica sem outra causa.
  • Conduta imediata: remover AVP quando indicado; preservar ponta para cultura apenas se protocolo institucional orientar; notificar; registrar achados e sinais vitais; avaliar necessidade de novo acesso em outro sítio.

Fluxo de decisão: manter vs remover vs trocar sítio

INÍCIO → Avaliar sítio e membro (dor, calor, rubor, edema, endurecimento, exsudato) + curativo + queixa do paciente
   ↓
Há exsudato purulento, dor importante, rubor/calor progressivos, endurecimento em cordão, ou sinais sistêmicos?
   ├─ SIM → REMOVER AVP + notificar + medidas conforme protocolo + novo acesso em outro sítio se necessário
   └─ NÃO
        ↓
Há edema/pele fria/dor durante infusão ou flush (suspeita de infiltração/extravasamento)?
   ├─ SIM → PARAR infusão imediatamente → NÃO forçar flush → avaliar perfusão distal → REMOVER AVP
   │        → seguir protocolo de extravasamento se aplicável → novo acesso em outro sítio
   └─ NÃO
        ↓
Checar permeabilidade com técnica adequada (sem forçar): há resistência persistente ou dor ao flush?
   ├─ SIM → verificar dobras/conexões/clamps → reavaliar sítio
   │        Persistindo → TROCAR SÍTIO (remover e puncionar novo) e/ou trocar componente se indicado
   └─ NÃO
        ↓
Conector/linha com sujidade, sangue residual persistente, dano ou contaminação?
   ├─ SIM → TROCAR COMPONENTE (conector/extensor) conforme protocolo + flush/lock
   └─ NÃO
        ↓
Flebite grau 0–1 e infiltração grau 0, curativo íntegro, sem queixas, patência ok?
   ├─ SIM → MANTER AVP + reduzir manipulações + registrar avaliação/escala
   └─ NÃO → REAVALIAR (escala/risco) → considerar TROCAR SÍTIO conforme gravidade e evolução

Checklist rápido por turno (para padronizar a rotina)

  • Sítio: dor? calor? rubor? edema? endurecimento? exsudato?
  • Curativo: íntegro, seco, limpo, bordas aderidas?
  • Permeabilidade: infusão sem dor/alarme? flush sem resistência?
  • Conector: desinfecção com fricção + secagem antes de cada acesso?
  • Escalas: flebite grau __ / infiltração grau __ (registrar).
  • Plano: manter vs remover vs trocar sítio vs trocar componente (registrar conduta e horário).

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Durante a checagem de permeabilidade de um acesso venoso periférico, o que deve ser feito se houver resistência persistente ao flush ou surgirem dor/edema?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Resistência, dor ou edema durante o flush sugerem complicação (oclusão, infiltração, flebite). A conduta segura é parar e reavaliar, sem forçar, verificando conexões/dobras e o sítio; persistindo, deve-se considerar trocar sítio e/ou componente conforme protocolo.

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Prevenção e manejo de flebite associada ao acesso venoso periférico em enfermagem

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