Manejo de drenos e dispositivos no pós-operatório: permeabilidade, débito e complicações

Capítulo 8

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Conceitos essenciais: por que drenos e dispositivos são usados no pós-operatório

Drenos e dispositivos no pós-operatório têm a finalidade de remover líquidos e gases do sítio cirúrgico ou cavidades, reduzir acúmulos (seroma, hematoma), permitir monitorização indireta de sangramento e de vazamentos (biliar, urinário, intestinal) e favorecer a cicatrização ao diminuir tensão e espaço morto. O manejo de enfermagem foca em três pilares: permeabilidade (o sistema precisa drenar), mensuração do débito (o que sai e quanto sai orienta condutas) e prevenção de complicações (obstrução, tração, desconexão, contaminação e saída acidental).

Tipos comuns de drenos: sucção versus gravidade

Drenos de sucção (sistema fechado)

Usam pressão negativa para aspirar o conteúdo para um reservatório. Exemplos comuns incluem reservatórios tipo bulbo ou coletores com mola/pressão. Em geral, são sistemas fechados, o que reduz risco de contaminação e permite mensuração mais precisa.

  • Princípio de funcionamento: a pressão negativa “puxa” o líquido do leito cirúrgico para o reservatório.
  • Implicação prática: se o reservatório perde vácuo (tampa aberta, falha na compressão), o débito pode reduzir sem que o problema seja clínico, apenas mecânico.

Drenos por gravidade (sistema aberto ou semiaberto)

Dependem do gradiente de altura para escoamento. Exemplos incluem drenos conectados a bolsa coletora sem sucção ativa. Podem ser mais suscetíveis a refluxo e contaminação se manuseados inadequadamente.

  • Princípio de funcionamento: o líquido escoa quando há caminho livre e o coletor está em posição inferior ao ponto de inserção.
  • Implicação prática: posicionamento e fixação são determinantes para manter o fluxo.

Fixação, posicionamento e prevenção de tração/acotovelamento

Fixação segura do dreno e do coletor

  • Fixação ao paciente: manter o dreno estabilizado (ex.: com fita/ancoragem apropriada) para reduzir tração no ponto de inserção.
  • Fixação do coletor: prender o reservatório/bolsa à roupa ou suporte, evitando que fique “pendurado” pelo tubo.
  • Alívio de tensão: deixar uma folga de segurança no tubo (sem excesso que favoreça dobras), reduzindo risco de tração durante mobilização.

Posicionamento abaixo do nível da ferida (quando aplicável)

Em drenos por gravidade e em muitos sistemas de sucção, manter o coletor abaixo do nível do sítio de inserção ajuda a evitar refluxo e favorece drenagem. Atenção: em alguns dispositivos específicos, a equipe cirúrgica pode orientar posicionamento diferente; seguir prescrição e protocolo institucional.

Prevenção de acotovelamento e compressão do tubo

  • Inspecionar o trajeto do tubo em cada mudança de decúbito e antes/depois de deambulação.
  • Evitar que o tubo passe sob o corpo do paciente, grades do leito, travesseiros ou faixas de contenção.
  • Observar dobras (“cotovelos”), pinçamentos e conexões frouxas.

Manutenção de sistema fechado e manipulação segura

Por que manter fechado

Sistemas fechados reduzem risco de infecção e permitem avaliação mais confiável do débito. Aberturas desnecessárias aumentam contaminação e podem alterar a pressão do sistema (no caso de sucção).

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Boas práticas de enfermagem

  • Higiene das mãos e técnica asséptica ao manipular conexões, tampas e portas de drenagem.
  • Checar conexões: firmes, sem vazamentos, sem rachaduras no reservatório.
  • Evitar desconexões: não separar tubo e coletor para “esvaziar mais rápido” ou “lavar”, a menos que haja protocolo/prescrição.
  • Troca/limpeza do coletor apenas conforme rotina institucional e orientação do fabricante/protocolo.

Ordenha (“milking/stripping”) do dreno: somente quando prescrita ou protocolada

A ordenha pode aumentar pressão negativa local, causar trauma tecidual e alterar o débito. Portanto, deve ser feita apenas se houver prescrição ou protocolo institucional claro.

Quando indicada por protocolo/prescrição: suspeita de obstrução por coágulo/depósito no tubo, com redução do débito e sinais compatíveis, após checagem de dobras e posicionamento.

Cuidados se for realizar:

  • Usar luvas e técnica conforme protocolo.
  • Estabilizar o tubo próximo ao ponto de inserção para evitar tração.
  • Executar movimentos suaves e progressivos, observando retorno de fluxo e conforto do paciente.
  • Registrar que a manobra foi realizada e o efeito observado (retorno de débito, aspecto).

Mensuração e registro do débito: como avaliar volume, cor, consistência e odor

O que registrar (mínimo essencial)

  • Volume (mL) por período (ex.: por turno, por hora quando indicado, e total em 24h).
  • Cor (serossanguinolento, sanguinolento, seroso, amarelado, esverdeado, marrom, etc.).
  • Consistência (aquoso, espesso, com coágulos, com grumos, purulento).
  • Odor (ausente, fétido, característico de conteúdo entérico).
  • Integridade do sistema (fechado, vácuo presente em sucção, conexões íntegras).
  • Condição do sítio de inserção (umidade, vazamento ao redor, hiperemia, dor local, fixação).

Passo a passo prático: mensurar e esvaziar reservatório de sucção (ex.: bulbo)

  1. Preparar material: recipiente graduado, EPIs conforme risco, gaze/álcool conforme protocolo, identificação para amostra se solicitada.
  2. Higienizar as mãos e calçar luvas.
  3. Verificar o sistema: se há dobras, tração, desconexão, e se o reservatório está adequadamente comprimido (vácuo).
  4. Abrir a porta/tampa do reservatório evitando tocar superfícies internas.
  5. Drenar o conteúdo no recipiente graduado, sem respingar.
  6. Mensurar o volume e observar cor/consistência/odor.
  7. Restabelecer a sucção: comprimir o reservatório e fechar a tampa para manter pressão negativa (conforme modelo).
  8. Recolocar o coletor em posição segura (preso à roupa/suporte), evitando tração.
  9. Descartar o conteúdo conforme rotina institucional.
  10. Registrar imediatamente no prontuário: volume, características, horário, condições do sistema e intercorrências.

Passo a passo prático: mensurar débito em dreno por gravidade com bolsa coletora

  1. Higienizar as mãos e usar EPIs conforme risco.
  2. Garantir posicionamento da bolsa abaixo do nível de inserção e sem contato com o chão.
  3. Verificar o trajeto do tubo (sem dobras/pinçamentos).
  4. Ler o volume pela graduação da bolsa (se disponível) ou drenar para recipiente graduado conforme protocolo.
  5. Observar características (cor/consistência/odor) e presença de gás/espuma quando relevante.
  6. Manter sistema fechado: abrir a válvula apenas o necessário e fechar adequadamente.
  7. Registrar volume e características, além de qualquer alteração súbita.

Exemplos práticos de descrição de débito (modelo de registro)

ExemploComo registrar
Débito esperado no início08:00 – Dreno sucção: 45 mL serossanguinolento, sem odor, sem coágulos. Reservatório com vácuo presente. Sítio de inserção seco, fixação íntegra.
Redução importante do débito14:00 – Dreno gravidade: 5 mL seroso (redução em relação ao turno anterior). Tubo sem dobras, bolsa abaixo do nível da inserção, conexões íntegras. Sem vazamento peridreno. Mantida vigilância e comunicado enfermeiro responsável conforme protocolo.
Alteração de aspecto20:00 – Dreno sucção: 30 mL amarelado espesso, odor fétido. Pele peri-inserção hiperemiada e dolorosa. Notificado cirurgião/enfermagem líder; coletada amostra conforme prescrição.

Sinais de complicação: o que observar e como agir

1) Obstrução do dreno (entupimento)

Sinais comuns: queda ou ausência de débito sem explicação mecânica aparente, distensão/dor local, vazamento ao redor do sítio (o líquido “procura saída”), presença de coágulos/depósitos visíveis no tubo, reservatório de sucção sem enchimento apesar de suspeita clínica de acúmulo.

Condutas de enfermagem:

  • Checar primeiro causas simples: dobras, pinçamentos, coletor acima do nível da inserção, conexões frouxas, vácuo ausente.
  • Reorganizar posicionamento e fixação, garantindo fluxo livre.
  • Se houver protocolo/prescrição, realizar ordenha de forma segura; se não houver, não realizar e comunicar.
  • Monitorar sinais locais (tensão, dor, aumento de drenagem ao redor) e comunicar a equipe cirúrgica/enfermeiro responsável.
  • Registrar achados e intervenções.

2) Saída acidental (deslocamento/retirada)

Sinais comuns: dreno visivelmente fora do lugar, marca de fixação deslocada, aumento súbito de vazamento no curativo ao redor, queixa de “puxão” durante mobilização.

Condutas de enfermagem:

  • Não reintroduzir o dreno no trajeto.
  • Cobrir o local com curativo estéril conforme protocolo e controlar vazamento local.
  • Manter o dispositivo retirado em recipiente/embalagem apropriada se solicitado para avaliação (seguir rotina institucional).
  • Comunicar imediatamente a equipe cirúrgica e registrar circunstância (momento, atividade, integridade do dreno, volume recente).
  • Reforçar medidas preventivas: fixação, folga do tubo, orientação ao paciente antes de mobilizar.

3) Aumento abrupto do débito

Sinais comuns: aumento súbito do volume em curto período, mudança para aspecto mais sanguinolento, enchimento rápido do reservatório.

Condutas de enfermagem:

  • Confirmar mensuração (repetir leitura, checar se houve esvaziamento prévio e horário).
  • Avaliar o sistema: vazamentos, desconexões, perda de vácuo (em sucção) e posicionamento.
  • Inspecionar o sítio de inserção e curativo ao redor para sangramento externo.
  • Comunicar prontamente a equipe responsável, informando volume, tempo, aspecto e condições do sistema.
  • Manter monitorização do débito em intervalos menores conforme orientação.

4) Conteúdo sugestivo de fístula ou vazamento (fecaloide, biliar, urinário)

Sinais de alerta no aspecto:

  • Fecaloide: marrom, turvo, com odor forte característico, podendo conter partículas.
  • Biliar: amarelo-esverdeado/verde, aspecto mais líquido, odor característico.
  • Urinário: amarelo claro, odor de urina, grande volume em algumas situações.

Condutas de enfermagem:

  • Tratar como achado crítico: não descartar sem avaliação quando houver solicitação de amostra; seguir prescrição para coleta.
  • Manter sistema fechado e evitar manipulações desnecessárias.
  • Checar se há correlação com dieta/medicações (quando aplicável) sem atrasar comunicação.
  • Comunicar imediatamente a equipe cirúrgica/enfermeiro responsável, descrevendo volume e características.
  • Registrar detalhadamente e, se prescrito, separar amostra identificada para análise.

5) Infecção no sítio de inserção ou no trajeto

Sinais comuns: hiperemia progressiva, calor, dor local, secreção purulenta, odor fétido, maceração por vazamento ao redor, fixação suja/úmida.

Condutas de enfermagem:

  • Manter pele seca e protegida; trocar curativo ao redor conforme protocolo e necessidade por saturação.
  • Evitar oclusão inadequada que retenha umidade ao redor do ponto de inserção.
  • Comunicar achados e seguir prescrição para coleta/cultura quando indicada.
  • Reforçar técnica asséptica em todas as manipulações do sistema.

Checklist rápido por turno: permeabilidade, débito e segurança do dispositivo

  • Permeabilidade: tubo sem dobras/pinçamentos, coletor na posição correta, conexões íntegras, vácuo presente (se sucção).
  • Débito: volume mensurado e registrado; cor/consistência/odor descritos; tendência comparada ao turno anterior.
  • Sítio de inserção: fixação firme, pele íntegra, sem vazamento significativo ao redor, sem sinais de infecção.
  • Segurança: coletor preso e protegido contra tração; paciente orientado a não puxar e a solicitar ajuda para mobilizar.
  • Intercorrências: obstrução, desconexão, saída acidental, aumento abrupto, aspecto fecaloide/biliar/urinário comunicados e registrados.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao observar queda importante do débito em um dreno no pós-operatório, qual conduta inicial de enfermagem está mais alinhada à manutenção da permeabilidade e prevenção de complicações?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Antes de qualquer manobra, deve-se checar e corrigir causas mecânicas (dobras, pinçamentos, coletor acima do nível, conexões frouxas e ausência de vácuo em sucção). Ordenha só quando prescrita/protocolada, e desconexões aumentam risco de contaminação.

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