Conceitos essenciais: por que drenos e dispositivos são usados no pós-operatório
Drenos e dispositivos no pós-operatório têm a finalidade de remover líquidos e gases do sítio cirúrgico ou cavidades, reduzir acúmulos (seroma, hematoma), permitir monitorização indireta de sangramento e de vazamentos (biliar, urinário, intestinal) e favorecer a cicatrização ao diminuir tensão e espaço morto. O manejo de enfermagem foca em três pilares: permeabilidade (o sistema precisa drenar), mensuração do débito (o que sai e quanto sai orienta condutas) e prevenção de complicações (obstrução, tração, desconexão, contaminação e saída acidental).
Tipos comuns de drenos: sucção versus gravidade
Drenos de sucção (sistema fechado)
Usam pressão negativa para aspirar o conteúdo para um reservatório. Exemplos comuns incluem reservatórios tipo bulbo ou coletores com mola/pressão. Em geral, são sistemas fechados, o que reduz risco de contaminação e permite mensuração mais precisa.
- Princípio de funcionamento: a pressão negativa “puxa” o líquido do leito cirúrgico para o reservatório.
- Implicação prática: se o reservatório perde vácuo (tampa aberta, falha na compressão), o débito pode reduzir sem que o problema seja clínico, apenas mecânico.
Drenos por gravidade (sistema aberto ou semiaberto)
Dependem do gradiente de altura para escoamento. Exemplos incluem drenos conectados a bolsa coletora sem sucção ativa. Podem ser mais suscetíveis a refluxo e contaminação se manuseados inadequadamente.
- Princípio de funcionamento: o líquido escoa quando há caminho livre e o coletor está em posição inferior ao ponto de inserção.
- Implicação prática: posicionamento e fixação são determinantes para manter o fluxo.
Fixação, posicionamento e prevenção de tração/acotovelamento
Fixação segura do dreno e do coletor
- Fixação ao paciente: manter o dreno estabilizado (ex.: com fita/ancoragem apropriada) para reduzir tração no ponto de inserção.
- Fixação do coletor: prender o reservatório/bolsa à roupa ou suporte, evitando que fique “pendurado” pelo tubo.
- Alívio de tensão: deixar uma folga de segurança no tubo (sem excesso que favoreça dobras), reduzindo risco de tração durante mobilização.
Posicionamento abaixo do nível da ferida (quando aplicável)
Em drenos por gravidade e em muitos sistemas de sucção, manter o coletor abaixo do nível do sítio de inserção ajuda a evitar refluxo e favorece drenagem. Atenção: em alguns dispositivos específicos, a equipe cirúrgica pode orientar posicionamento diferente; seguir prescrição e protocolo institucional.
Prevenção de acotovelamento e compressão do tubo
- Inspecionar o trajeto do tubo em cada mudança de decúbito e antes/depois de deambulação.
- Evitar que o tubo passe sob o corpo do paciente, grades do leito, travesseiros ou faixas de contenção.
- Observar dobras (“cotovelos”), pinçamentos e conexões frouxas.
Manutenção de sistema fechado e manipulação segura
Por que manter fechado
Sistemas fechados reduzem risco de infecção e permitem avaliação mais confiável do débito. Aberturas desnecessárias aumentam contaminação e podem alterar a pressão do sistema (no caso de sucção).
- Ouça o áudio com a tela desligada
- Ganhe Certificado após a conclusão
- + de 5000 cursos para você explorar!
Baixar o aplicativo
Boas práticas de enfermagem
- Higiene das mãos e técnica asséptica ao manipular conexões, tampas e portas de drenagem.
- Checar conexões: firmes, sem vazamentos, sem rachaduras no reservatório.
- Evitar desconexões: não separar tubo e coletor para “esvaziar mais rápido” ou “lavar”, a menos que haja protocolo/prescrição.
- Troca/limpeza do coletor apenas conforme rotina institucional e orientação do fabricante/protocolo.
Ordenha (“milking/stripping”) do dreno: somente quando prescrita ou protocolada
A ordenha pode aumentar pressão negativa local, causar trauma tecidual e alterar o débito. Portanto, deve ser feita apenas se houver prescrição ou protocolo institucional claro.
Quando indicada por protocolo/prescrição: suspeita de obstrução por coágulo/depósito no tubo, com redução do débito e sinais compatíveis, após checagem de dobras e posicionamento.
Cuidados se for realizar:
- Usar luvas e técnica conforme protocolo.
- Estabilizar o tubo próximo ao ponto de inserção para evitar tração.
- Executar movimentos suaves e progressivos, observando retorno de fluxo e conforto do paciente.
- Registrar que a manobra foi realizada e o efeito observado (retorno de débito, aspecto).
Mensuração e registro do débito: como avaliar volume, cor, consistência e odor
O que registrar (mínimo essencial)
- Volume (mL) por período (ex.: por turno, por hora quando indicado, e total em 24h).
- Cor (serossanguinolento, sanguinolento, seroso, amarelado, esverdeado, marrom, etc.).
- Consistência (aquoso, espesso, com coágulos, com grumos, purulento).
- Odor (ausente, fétido, característico de conteúdo entérico).
- Integridade do sistema (fechado, vácuo presente em sucção, conexões íntegras).
- Condição do sítio de inserção (umidade, vazamento ao redor, hiperemia, dor local, fixação).
Passo a passo prático: mensurar e esvaziar reservatório de sucção (ex.: bulbo)
- Preparar material: recipiente graduado, EPIs conforme risco, gaze/álcool conforme protocolo, identificação para amostra se solicitada.
- Higienizar as mãos e calçar luvas.
- Verificar o sistema: se há dobras, tração, desconexão, e se o reservatório está adequadamente comprimido (vácuo).
- Abrir a porta/tampa do reservatório evitando tocar superfícies internas.
- Drenar o conteúdo no recipiente graduado, sem respingar.
- Mensurar o volume e observar cor/consistência/odor.
- Restabelecer a sucção: comprimir o reservatório e fechar a tampa para manter pressão negativa (conforme modelo).
- Recolocar o coletor em posição segura (preso à roupa/suporte), evitando tração.
- Descartar o conteúdo conforme rotina institucional.
- Registrar imediatamente no prontuário: volume, características, horário, condições do sistema e intercorrências.
Passo a passo prático: mensurar débito em dreno por gravidade com bolsa coletora
- Higienizar as mãos e usar EPIs conforme risco.
- Garantir posicionamento da bolsa abaixo do nível de inserção e sem contato com o chão.
- Verificar o trajeto do tubo (sem dobras/pinçamentos).
- Ler o volume pela graduação da bolsa (se disponível) ou drenar para recipiente graduado conforme protocolo.
- Observar características (cor/consistência/odor) e presença de gás/espuma quando relevante.
- Manter sistema fechado: abrir a válvula apenas o necessário e fechar adequadamente.
- Registrar volume e características, além de qualquer alteração súbita.
Exemplos práticos de descrição de débito (modelo de registro)
| Exemplo | Como registrar |
|---|---|
| Débito esperado no início | 08:00 – Dreno sucção: 45 mL serossanguinolento, sem odor, sem coágulos. Reservatório com vácuo presente. Sítio de inserção seco, fixação íntegra. |
| Redução importante do débito | 14:00 – Dreno gravidade: 5 mL seroso (redução em relação ao turno anterior). Tubo sem dobras, bolsa abaixo do nível da inserção, conexões íntegras. Sem vazamento peridreno. Mantida vigilância e comunicado enfermeiro responsável conforme protocolo. |
| Alteração de aspecto | 20:00 – Dreno sucção: 30 mL amarelado espesso, odor fétido. Pele peri-inserção hiperemiada e dolorosa. Notificado cirurgião/enfermagem líder; coletada amostra conforme prescrição. |
Sinais de complicação: o que observar e como agir
1) Obstrução do dreno (entupimento)
Sinais comuns: queda ou ausência de débito sem explicação mecânica aparente, distensão/dor local, vazamento ao redor do sítio (o líquido “procura saída”), presença de coágulos/depósitos visíveis no tubo, reservatório de sucção sem enchimento apesar de suspeita clínica de acúmulo.
Condutas de enfermagem:
- Checar primeiro causas simples: dobras, pinçamentos, coletor acima do nível da inserção, conexões frouxas, vácuo ausente.
- Reorganizar posicionamento e fixação, garantindo fluxo livre.
- Se houver protocolo/prescrição, realizar ordenha de forma segura; se não houver, não realizar e comunicar.
- Monitorar sinais locais (tensão, dor, aumento de drenagem ao redor) e comunicar a equipe cirúrgica/enfermeiro responsável.
- Registrar achados e intervenções.
2) Saída acidental (deslocamento/retirada)
Sinais comuns: dreno visivelmente fora do lugar, marca de fixação deslocada, aumento súbito de vazamento no curativo ao redor, queixa de “puxão” durante mobilização.
Condutas de enfermagem:
- Não reintroduzir o dreno no trajeto.
- Cobrir o local com curativo estéril conforme protocolo e controlar vazamento local.
- Manter o dispositivo retirado em recipiente/embalagem apropriada se solicitado para avaliação (seguir rotina institucional).
- Comunicar imediatamente a equipe cirúrgica e registrar circunstância (momento, atividade, integridade do dreno, volume recente).
- Reforçar medidas preventivas: fixação, folga do tubo, orientação ao paciente antes de mobilizar.
3) Aumento abrupto do débito
Sinais comuns: aumento súbito do volume em curto período, mudança para aspecto mais sanguinolento, enchimento rápido do reservatório.
Condutas de enfermagem:
- Confirmar mensuração (repetir leitura, checar se houve esvaziamento prévio e horário).
- Avaliar o sistema: vazamentos, desconexões, perda de vácuo (em sucção) e posicionamento.
- Inspecionar o sítio de inserção e curativo ao redor para sangramento externo.
- Comunicar prontamente a equipe responsável, informando volume, tempo, aspecto e condições do sistema.
- Manter monitorização do débito em intervalos menores conforme orientação.
4) Conteúdo sugestivo de fístula ou vazamento (fecaloide, biliar, urinário)
Sinais de alerta no aspecto:
- Fecaloide: marrom, turvo, com odor forte característico, podendo conter partículas.
- Biliar: amarelo-esverdeado/verde, aspecto mais líquido, odor característico.
- Urinário: amarelo claro, odor de urina, grande volume em algumas situações.
Condutas de enfermagem:
- Tratar como achado crítico: não descartar sem avaliação quando houver solicitação de amostra; seguir prescrição para coleta.
- Manter sistema fechado e evitar manipulações desnecessárias.
- Checar se há correlação com dieta/medicações (quando aplicável) sem atrasar comunicação.
- Comunicar imediatamente a equipe cirúrgica/enfermeiro responsável, descrevendo volume e características.
- Registrar detalhadamente e, se prescrito, separar amostra identificada para análise.
5) Infecção no sítio de inserção ou no trajeto
Sinais comuns: hiperemia progressiva, calor, dor local, secreção purulenta, odor fétido, maceração por vazamento ao redor, fixação suja/úmida.
Condutas de enfermagem:
- Manter pele seca e protegida; trocar curativo ao redor conforme protocolo e necessidade por saturação.
- Evitar oclusão inadequada que retenha umidade ao redor do ponto de inserção.
- Comunicar achados e seguir prescrição para coleta/cultura quando indicada.
- Reforçar técnica asséptica em todas as manipulações do sistema.
Checklist rápido por turno: permeabilidade, débito e segurança do dispositivo
- Permeabilidade: tubo sem dobras/pinçamentos, coletor na posição correta, conexões íntegras, vácuo presente (se sucção).
- Débito: volume mensurado e registrado; cor/consistência/odor descritos; tendência comparada ao turno anterior.
- Sítio de inserção: fixação firme, pele íntegra, sem vazamento significativo ao redor, sem sinais de infecção.
- Segurança: coletor preso e protegido contra tração; paciente orientado a não puxar e a solicitar ajuda para mobilizar.
- Intercorrências: obstrução, desconexão, saída acidental, aumento abrupto, aspecto fecaloide/biliar/urinário comunicados e registrados.