Manejo de dor pós-operatória: avaliação, intervenções e segurança

Capítulo 4

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

Conceito e objetivos do manejo da dor pós-operatória

Dor pós-operatória é uma experiência sensorial e emocional relacionada à lesão tecidual do procedimento cirúrgico. O manejo adequado busca: reduzir sofrimento, permitir respiração profunda e tosse eficaz, facilitar mobilização precoce, melhorar sono e alimentação, e diminuir risco de complicações associadas à imobilidade. Na prática de enfermagem, o foco é avaliar de forma sistemática, implementar intervenções prescritas com segurança (analgesia multimodal) e reavaliar resposta, identificando precocemente efeitos adversos e falhas terapêuticas.

Avaliação sistemática da dor: o que perguntar e como registrar

1) Escolha da escala adequada

Use sempre a mesma escala para comparar evolução, registrando horário e contexto (repouso, movimento, fisioterapia, troca de curativo).

  • Escala Numérica (0–10): indicada para pacientes comunicativos. Pergunta padrão: “De 0 a 10, quanto está doendo agora?”
  • Escala de Faces: útil para pessoas com dificuldade de quantificar números (ex.: baixa escolaridade, barreiras de linguagem) e alguns idosos. Solicite que a pessoa aponte a face que melhor representa a dor.
  • Escalas comportamentais (quando não há comunicação confiável): observar indicadores como expressão facial, agitação, postura de proteção, vocalização, resistência ao cuidado, consolabilidade. Exemplos de itens frequentemente avaliados: caretas, rigidez, inquietação, gemidos, aumento de tensão ao toque.

2) Caracterização completa (além do “quanto dói”)

  • Localização: peça para apontar; diferencie dor incisional, profunda, articular, muscular, dor em ombro (ex.: pós-laparoscopia), dor em panturrilha (atenção para sinais de trombose, se presentes).
  • Características: em queimação, pontada, pressão, cólica, choque. Dor “em queimação” pode sugerir componente neuropático; dor em cólica pode sugerir espasmo/visceral.
  • Início e padrão: contínua vs. intermitente; piora em determinados horários ou após mobilização.
  • Fatores de alívio/piora: movimento, tosse, posição, alimentação, micção, evacuação, ansiedade, manipulação de drenos/curativos.
  • Impacto funcional: capacidade de inspirar profundamente, tossir, sentar/levantar, caminhar, dormir, alimentar-se, participar de exercícios. Uma dor “6/10” que impede levantar pode exigir conduta diferente de uma “6/10” tolerável em repouso.
  • Efeito de intervenções anteriores: qual medicação foi usada, dose, via, horário, e quanto melhorou (ex.: de 8/10 para 3/10 em 30–60 min).

3) Exemplo de registro objetivo

14:00 – Dor 7/10 (escala numérica), incisão abdominal, tipo “pontada”, piora ao tossir e ao sentar. Impacto: evita deambular. Intervenção: analgesia prescrita administrada às 14:05. Reavaliação programada: 14:35.

Analgesia multimodal: lógica e papel da enfermagem

Analgesia multimodal combina diferentes classes e técnicas para atuar em múltiplos mecanismos de dor, reduzindo necessidade de opioides e seus efeitos adversos. A enfermagem contribui garantindo aprazamento correto, checagem de contraindicações, orientação ao paciente e monitorização de resposta e eventos adversos.

Principais componentes (exemplos comuns)

  • Não opioides: paracetamol, anti-inflamatórios (quando prescritos e permitidos), adjuvantes conforme protocolo.
  • Opioides: morfina, tramadol, oxicodona, fentanil, conforme prescrição e via (oral, IV, PCA, neuroaxial).
  • Técnicas regionais: analgesia peridural/raqui, bloqueios periféricos, infiltração local.
  • Medidas não farmacológicas: posicionamento, suporte ao local da incisão, frio/calor quando indicado, relaxamento, ambiente favorável ao sono.

Checagens de segurança antes de administrar analgesia (passo a passo)

  1. Confirmar prescrição: medicamento, dose, via, intervalo, limites de dose diária e critérios “se necessário”.
  2. Verificar alergias e contraindicações: histórico de reação prévia; restrições clínicas relevantes (ex.: risco de sangramento/lesão renal para anti-inflamatórios, quando aplicável; sedação excessiva para opioides).
  3. Revisar medicações concomitantes: sedativos/hipnóticos, outros opioides, anti-histamínicos sedativos; somatório aumenta risco de sedação e depressão respiratória.
  4. Avaliar dor e função antes: intensidade, localização, impacto funcional e objetivo (ex.: “conseguir levantar e caminhar”).
  5. Planejar o timing: antecipar analgesia antes de mobilização, fisioterapia, troca de curativo, banho no leito, quando possível e prescrito.
  6. Orientar o paciente: o que esperar (alívio parcial vs total), tempo de início (IV mais rápido; VO mais lento), e necessidade de avisar se houver tontura, coceira intensa, náusea, dificuldade para urinar.

Monitorização de efeitos adversos: o que observar e como agir

Opioides: eventos adversos prioritários

  • Depressão respiratória: sonolência importante, respiração lenta/superficial, dificuldade de manter-se acordado. A sedação costuma preceder a depressão respiratória; por isso, avaliar nível de sedação é essencial.
  • Hipotensão: tontura, fraqueza, palidez, queda de pressão, especialmente em associação com bloqueios neuraxiais ou hipovolemia.
  • Prurido: comum em opioides (especialmente neuraxiais). Avaliar intensidade e impacto; diferenciar de reação alérgica (urticária, broncoespasmo, edema).
  • Retenção urinária: queixa de bexiga cheia, desconforto suprapúbico, baixo débito urinário; mais frequente com opioides e técnicas neuraxiais.
  • Náuseas e vômitos: risco de aspiração e desconforto; observar relação temporal com dose e movimento.
  • Constipação: relevante em uso contínuo; monitorar padrão intestinal e medidas preventivas conforme protocolo.

Checklist prático de segurança após opioide (adaptável ao protocolo local)

  • Reavaliar dor e sedação no tempo esperado para a via administrada.
  • Observar padrão respiratório e nível de alerta.
  • Checar pressão arterial e sintomas associados quando aplicável.
  • Investigar prurido, náusea, retenção urinária e tolerância à mobilização.
  • Documentar resposta e eventos adversos, e comunicar alterações relevantes.

PCA (analgesia controlada pelo paciente): cuidados de enfermagem

A PCA permite que o paciente administre pequenas doses de analgésico (geralmente opioide) por bomba, dentro de limites programados (dose em bolus e intervalo de bloqueio). O objetivo é analgesia mais estável e com maior autonomia, reduzindo picos de dor.

Passo a passo de checagem e orientação

  1. Conferir programação: concentração, dose do bolus, lockout (intervalo de bloqueio), limite por hora (se houver) e via (IV/SC/epidural conforme sistema).
  2. Verificar identificação e acesso: linha dedicada quando indicado, conexões seguras, permeabilidade do acesso, ausência de infiltração.
  3. Educar o paciente: somente o paciente deve acionar o botão; orientar a apertar ao início da dor ou antes de mobilizar, não esperar dor “insuportável”.
  4. Prevenir “PCA by proxy”: orientar família e equipe a não acionar para o paciente, pois aumenta risco de superdosagem.
  5. Monitorar eficácia: dor em repouso e ao movimento, número de tentativas/doses entregues (quando disponível), e necessidade de resgate.
  6. Monitorar segurança: sedação, prurido, náuseas, retenção urinária e sinais de depressão respiratória; atenção redobrada em idosos, apneia do sono, obesidade e uso concomitante de sedativos.

Sinais de alerta na PCA (quando reavaliar imediatamente e considerar recontato médico)

  • Dor persistente moderada a intensa apesar de múltiplas doses entregues.
  • Sedação crescente, dificuldade de despertar, fala arrastada.
  • Prurido intenso refratário, náuseas/vômitos incoercíveis.
  • Suspeita de falha do equipamento, oclusão, infiltração ou desconexão.

Analgesia peridural/raqui: monitorização e cuidados específicos

Na analgesia neuraxial (peridural/raqui), podem ser usados anestésicos locais, opioides ou combinação, proporcionando excelente analgesia e menor necessidade de opioide sistêmico. Exige vigilância para efeitos hemodinâmicos e bloqueios motores/sensitivos.

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O que avaliar rotineiramente

  • Nível de dor e qualidade da analgesia (repouso e movimento).
  • Bloqueio sensitivo e motor: fraqueza em membros inferiores, dificuldade para mobilizar, sensação de dormência extensa.
  • Hipotensão: pode ocorrer por bloqueio simpático; observar sintomas e medidas conforme protocolo.
  • Retenção urinária: monitorar diurese e desconforto.
  • Prurido e náuseas: mais comuns quando há opioide neuraxial.
  • Local do cateter (peridural): curativo íntegro, sinais de vazamento, umidade, dor local, hiperemia; conexões seguras.

Cuidados práticos com o cateter peridural

  1. Manter curativo limpo e seco; não manipular conexões sem técnica asséptica.
  2. Checar identificação da via (evitar administração inadvertida de medicações por via errada).
  3. Garantir que a bomba/infusão esteja conforme prescrição e protocolo institucional.
  4. Registrar achados neurológicos e hemodinâmicos conforme rotina.

Bloqueios periféricos e infiltração local: pontos de atenção

Bloqueios (ex.: femoral, adutor, interescalênico) podem reduzir dor e consumo de opioide, mas podem causar fraqueza/alteração sensitiva no território bloqueado, aumentando risco de queda e lesões por pressão.

Cuidados de enfermagem

  • Segurança na mobilização: avaliar força e sensibilidade antes de deambular; usar auxílio e orientar paciente sobre dormência.
  • Proteção do membro: evitar calor direto e traumas em área insensível; checar integridade cutânea.
  • Reconhecer falha do bloqueio: dor intensa no território esperado, necessidade frequente de resgate.
  • Observar sinais de toxicidade por anestésico local quando aplicável ao contexto (ex.: zumbido, gosto metálico, tontura, alterações neurológicas); seguir protocolo institucional e acionar equipe médica/anestesia se suspeito.

Medidas não farmacológicas: quando e como aplicar

Medidas não farmacológicas complementam a analgesia e podem reduzir ansiedade, tensão muscular e percepção dolorosa. Devem ser individualizadas e registradas como intervenção de enfermagem.

Intervenções com passo a passo

Posicionamento e suporte à incisão

  1. Avaliar qual posição piora/alivia a dor (ex.: decúbito lateral com travesseiro de apoio).
  2. Alinhar corpo e reduzir tensão sobre a incisão (apoio de coxins).
  3. Ensinar “splinting”: segurar um travesseiro sobre a incisão ao tossir, rir ou mudar de posição.

Frio/calor (quando indicado)

  • Frio: pode ajudar em dor inflamatória local e edema (ex.: algumas cirurgias ortopédicas), se permitido pelo protocolo e sem contraindicações locais.
  • Calor: pode aliviar espasmo muscular em situações selecionadas, quando autorizado.
  1. Confirmar indicação e contraindicações (pele frágil, alteração de sensibilidade, risco de queimadura, curativos específicos).
  2. Proteger a pele com barreira (tecido) e limitar tempo conforme protocolo.
  3. Reavaliar pele e dor após aplicação; suspender se houver desconforto, palidez intensa, vermelhidão persistente ou piora da dor.

Relaxamento e respiração guiada

  1. Reduzir estímulos (luz/ruído) quando possível.
  2. Orientar respiração lenta: inspirar pelo nariz 3–4 segundos, expirar 4–6 segundos, por 2–5 minutos.
  3. Associar com relaxamento muscular progressivo (ombros, mandíbula, mãos) e foco em um ponto/contagem.
  4. Reavaliar dor e ansiedade após a técnica; registrar efeito.

Fluxo de reavaliação pós-medicação e tomada de decisão

Reavaliação programada: quando medir novamente

O tempo de reavaliação depende da via e do fármaco. Use o protocolo institucional como referência. Na ausência de orientação específica, uma prática comum é reavaliar mais cedo para vias de ação rápida e mais tarde para vias de ação lenta, sempre observando resposta clínica e segurança.

SituaçãoO que reavaliarObjetivo
Após analgesia de ação rápida (ex.: IV, PCA bolus)Dor, sedação, tolerância ao movimento, eventos adversosConfirmar alívio e detectar sedação precoce
Após analgesia via oralDor em repouso e ao movimento, efeitos adversos gastrointestinaisVerificar efetividade no tempo esperado
Após ajuste em peridural/bloqueioDor, nível sensitivo/motor, hipotensão, retenção urináriaGarantir analgesia sem bloqueio excessivo

Fluxo prático (modelo aplicável à rotina)

  1. Antes: avaliar dor (escala), localização, impacto funcional e sedação; definir meta com o paciente (ex.: “dor ≤3/10 em repouso e conseguir sentar”).
  2. Intervir: administrar analgesia conforme prescrição e/ou aplicar medida não farmacológica; planejar mobilização/atividade no pico de efeito.
  3. Reavaliar: no tempo apropriado, repetir escala e avaliar função (ex.: levantar, caminhar alguns passos, tossir com suporte).
  4. Documentar: intensidade antes/depois, intervenção, efeitos adversos, e se a meta foi atingida.
  5. Escalonar: se meta não atingida, verificar causas (dose insuficiente, via inadequada, falha de bomba/cateter, dor neuropática/espasmo, ansiedade) e seguir protocolo de resgate/contato médico.

Critérios para recontato médico/anestesia (segurança e falha analgésica)

Recontato imediato (prioritário)

  • Sinais de depressão respiratória ou sedação importante/progressiva.
  • Hipotensão sintomática ou persistente após intervenção inicial conforme protocolo.
  • Suspeita de reação grave a medicamento (ex.: urticária generalizada, broncoespasmo, edema de face/língua).
  • Déficit neurológico novo ou progressivo em contexto de peridural/bloqueio (fraqueza importante, dormência extensa não esperada).
  • Suspeita de falha/disfunção de PCA/peridural (alarme recorrente, oclusão, desconexão, vazamento) com dor não controlada.

Recontato em tempo oportuno (ajuste terapêutico)

  • Dor moderada a intensa persistente apesar de intervenções prescritas e resgates permitidos.
  • Necessidade frequente de resgate (padrão de “fim de dose”), sugerindo ajuste de esquema.
  • Efeitos adversos que limitam o tratamento (prurido intenso, náuseas/vômitos refratários, retenção urinária significativa).
  • Suspeita de componente neuropático/espasmo não coberto pelo esquema atual (dor em queimação, choque, hipersensibilidade ao toque).

Informações essenciais ao comunicar (SBAR em formato prático)

S (Situação): Dor 8/10 persistente 1h após analgesia; impede deambulação. PCA com muitas tentativas e poucas doses entregues. B (Background): Pós-operatório de X, sem alergias conhecidas, em uso de Y. A (Avaliação): Dor incisional + ao movimento, sedação leve, sem prurido; suspeita de falha de acesso/bomba. R (Recomendação): Avaliar ajuste de dose/adição de adjuvante e checar funcionamento da PCA/acesso.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao administrar um opioide no pós-operatório, qual conduta de enfermagem prioriza a prevenção de depressão respiratória?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Após opioides, a sedação geralmente antecede a depressão respiratória. Por isso, é prioritário reavaliar no tempo esperado para a via, observando nível de alerta e padrão respiratório, registrando e comunicando alterações.

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Controle de náuseas e vômitos no pós-operatório (NVPO) e prevenção de broncoaspiração

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