Conceito e objetivos do manejo da dor pós-operatória
Dor pós-operatória é uma experiência sensorial e emocional relacionada à lesão tecidual do procedimento cirúrgico. O manejo adequado busca: reduzir sofrimento, permitir respiração profunda e tosse eficaz, facilitar mobilização precoce, melhorar sono e alimentação, e diminuir risco de complicações associadas à imobilidade. Na prática de enfermagem, o foco é avaliar de forma sistemática, implementar intervenções prescritas com segurança (analgesia multimodal) e reavaliar resposta, identificando precocemente efeitos adversos e falhas terapêuticas.
Avaliação sistemática da dor: o que perguntar e como registrar
1) Escolha da escala adequada
Use sempre a mesma escala para comparar evolução, registrando horário e contexto (repouso, movimento, fisioterapia, troca de curativo).
- Escala Numérica (0–10): indicada para pacientes comunicativos. Pergunta padrão: “De 0 a 10, quanto está doendo agora?”
- Escala de Faces: útil para pessoas com dificuldade de quantificar números (ex.: baixa escolaridade, barreiras de linguagem) e alguns idosos. Solicite que a pessoa aponte a face que melhor representa a dor.
- Escalas comportamentais (quando não há comunicação confiável): observar indicadores como expressão facial, agitação, postura de proteção, vocalização, resistência ao cuidado, consolabilidade. Exemplos de itens frequentemente avaliados: caretas, rigidez, inquietação, gemidos, aumento de tensão ao toque.
2) Caracterização completa (além do “quanto dói”)
- Localização: peça para apontar; diferencie dor incisional, profunda, articular, muscular, dor em ombro (ex.: pós-laparoscopia), dor em panturrilha (atenção para sinais de trombose, se presentes).
- Características: em queimação, pontada, pressão, cólica, choque. Dor “em queimação” pode sugerir componente neuropático; dor em cólica pode sugerir espasmo/visceral.
- Início e padrão: contínua vs. intermitente; piora em determinados horários ou após mobilização.
- Fatores de alívio/piora: movimento, tosse, posição, alimentação, micção, evacuação, ansiedade, manipulação de drenos/curativos.
- Impacto funcional: capacidade de inspirar profundamente, tossir, sentar/levantar, caminhar, dormir, alimentar-se, participar de exercícios. Uma dor “6/10” que impede levantar pode exigir conduta diferente de uma “6/10” tolerável em repouso.
- Efeito de intervenções anteriores: qual medicação foi usada, dose, via, horário, e quanto melhorou (ex.: de 8/10 para 3/10 em 30–60 min).
3) Exemplo de registro objetivo
14:00 – Dor 7/10 (escala numérica), incisão abdominal, tipo “pontada”, piora ao tossir e ao sentar. Impacto: evita deambular. Intervenção: analgesia prescrita administrada às 14:05. Reavaliação programada: 14:35.Analgesia multimodal: lógica e papel da enfermagem
Analgesia multimodal combina diferentes classes e técnicas para atuar em múltiplos mecanismos de dor, reduzindo necessidade de opioides e seus efeitos adversos. A enfermagem contribui garantindo aprazamento correto, checagem de contraindicações, orientação ao paciente e monitorização de resposta e eventos adversos.
Principais componentes (exemplos comuns)
- Não opioides: paracetamol, anti-inflamatórios (quando prescritos e permitidos), adjuvantes conforme protocolo.
- Opioides: morfina, tramadol, oxicodona, fentanil, conforme prescrição e via (oral, IV, PCA, neuroaxial).
- Técnicas regionais: analgesia peridural/raqui, bloqueios periféricos, infiltração local.
- Medidas não farmacológicas: posicionamento, suporte ao local da incisão, frio/calor quando indicado, relaxamento, ambiente favorável ao sono.
Checagens de segurança antes de administrar analgesia (passo a passo)
- Confirmar prescrição: medicamento, dose, via, intervalo, limites de dose diária e critérios “se necessário”.
- Verificar alergias e contraindicações: histórico de reação prévia; restrições clínicas relevantes (ex.: risco de sangramento/lesão renal para anti-inflamatórios, quando aplicável; sedação excessiva para opioides).
- Revisar medicações concomitantes: sedativos/hipnóticos, outros opioides, anti-histamínicos sedativos; somatório aumenta risco de sedação e depressão respiratória.
- Avaliar dor e função antes: intensidade, localização, impacto funcional e objetivo (ex.: “conseguir levantar e caminhar”).
- Planejar o timing: antecipar analgesia antes de mobilização, fisioterapia, troca de curativo, banho no leito, quando possível e prescrito.
- Orientar o paciente: o que esperar (alívio parcial vs total), tempo de início (IV mais rápido; VO mais lento), e necessidade de avisar se houver tontura, coceira intensa, náusea, dificuldade para urinar.
Monitorização de efeitos adversos: o que observar e como agir
Opioides: eventos adversos prioritários
- Depressão respiratória: sonolência importante, respiração lenta/superficial, dificuldade de manter-se acordado. A sedação costuma preceder a depressão respiratória; por isso, avaliar nível de sedação é essencial.
- Hipotensão: tontura, fraqueza, palidez, queda de pressão, especialmente em associação com bloqueios neuraxiais ou hipovolemia.
- Prurido: comum em opioides (especialmente neuraxiais). Avaliar intensidade e impacto; diferenciar de reação alérgica (urticária, broncoespasmo, edema).
- Retenção urinária: queixa de bexiga cheia, desconforto suprapúbico, baixo débito urinário; mais frequente com opioides e técnicas neuraxiais.
- Náuseas e vômitos: risco de aspiração e desconforto; observar relação temporal com dose e movimento.
- Constipação: relevante em uso contínuo; monitorar padrão intestinal e medidas preventivas conforme protocolo.
Checklist prático de segurança após opioide (adaptável ao protocolo local)
- Reavaliar dor e sedação no tempo esperado para a via administrada.
- Observar padrão respiratório e nível de alerta.
- Checar pressão arterial e sintomas associados quando aplicável.
- Investigar prurido, náusea, retenção urinária e tolerância à mobilização.
- Documentar resposta e eventos adversos, e comunicar alterações relevantes.
PCA (analgesia controlada pelo paciente): cuidados de enfermagem
A PCA permite que o paciente administre pequenas doses de analgésico (geralmente opioide) por bomba, dentro de limites programados (dose em bolus e intervalo de bloqueio). O objetivo é analgesia mais estável e com maior autonomia, reduzindo picos de dor.
Passo a passo de checagem e orientação
- Conferir programação: concentração, dose do bolus, lockout (intervalo de bloqueio), limite por hora (se houver) e via (IV/SC/epidural conforme sistema).
- Verificar identificação e acesso: linha dedicada quando indicado, conexões seguras, permeabilidade do acesso, ausência de infiltração.
- Educar o paciente: somente o paciente deve acionar o botão; orientar a apertar ao início da dor ou antes de mobilizar, não esperar dor “insuportável”.
- Prevenir “PCA by proxy”: orientar família e equipe a não acionar para o paciente, pois aumenta risco de superdosagem.
- Monitorar eficácia: dor em repouso e ao movimento, número de tentativas/doses entregues (quando disponível), e necessidade de resgate.
- Monitorar segurança: sedação, prurido, náuseas, retenção urinária e sinais de depressão respiratória; atenção redobrada em idosos, apneia do sono, obesidade e uso concomitante de sedativos.
Sinais de alerta na PCA (quando reavaliar imediatamente e considerar recontato médico)
- Dor persistente moderada a intensa apesar de múltiplas doses entregues.
- Sedação crescente, dificuldade de despertar, fala arrastada.
- Prurido intenso refratário, náuseas/vômitos incoercíveis.
- Suspeita de falha do equipamento, oclusão, infiltração ou desconexão.
Analgesia peridural/raqui: monitorização e cuidados específicos
Na analgesia neuraxial (peridural/raqui), podem ser usados anestésicos locais, opioides ou combinação, proporcionando excelente analgesia e menor necessidade de opioide sistêmico. Exige vigilância para efeitos hemodinâmicos e bloqueios motores/sensitivos.
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O que avaliar rotineiramente
- Nível de dor e qualidade da analgesia (repouso e movimento).
- Bloqueio sensitivo e motor: fraqueza em membros inferiores, dificuldade para mobilizar, sensação de dormência extensa.
- Hipotensão: pode ocorrer por bloqueio simpático; observar sintomas e medidas conforme protocolo.
- Retenção urinária: monitorar diurese e desconforto.
- Prurido e náuseas: mais comuns quando há opioide neuraxial.
- Local do cateter (peridural): curativo íntegro, sinais de vazamento, umidade, dor local, hiperemia; conexões seguras.
Cuidados práticos com o cateter peridural
- Manter curativo limpo e seco; não manipular conexões sem técnica asséptica.
- Checar identificação da via (evitar administração inadvertida de medicações por via errada).
- Garantir que a bomba/infusão esteja conforme prescrição e protocolo institucional.
- Registrar achados neurológicos e hemodinâmicos conforme rotina.
Bloqueios periféricos e infiltração local: pontos de atenção
Bloqueios (ex.: femoral, adutor, interescalênico) podem reduzir dor e consumo de opioide, mas podem causar fraqueza/alteração sensitiva no território bloqueado, aumentando risco de queda e lesões por pressão.
Cuidados de enfermagem
- Segurança na mobilização: avaliar força e sensibilidade antes de deambular; usar auxílio e orientar paciente sobre dormência.
- Proteção do membro: evitar calor direto e traumas em área insensível; checar integridade cutânea.
- Reconhecer falha do bloqueio: dor intensa no território esperado, necessidade frequente de resgate.
- Observar sinais de toxicidade por anestésico local quando aplicável ao contexto (ex.: zumbido, gosto metálico, tontura, alterações neurológicas); seguir protocolo institucional e acionar equipe médica/anestesia se suspeito.
Medidas não farmacológicas: quando e como aplicar
Medidas não farmacológicas complementam a analgesia e podem reduzir ansiedade, tensão muscular e percepção dolorosa. Devem ser individualizadas e registradas como intervenção de enfermagem.
Intervenções com passo a passo
Posicionamento e suporte à incisão
- Avaliar qual posição piora/alivia a dor (ex.: decúbito lateral com travesseiro de apoio).
- Alinhar corpo e reduzir tensão sobre a incisão (apoio de coxins).
- Ensinar “splinting”: segurar um travesseiro sobre a incisão ao tossir, rir ou mudar de posição.
Frio/calor (quando indicado)
- Frio: pode ajudar em dor inflamatória local e edema (ex.: algumas cirurgias ortopédicas), se permitido pelo protocolo e sem contraindicações locais.
- Calor: pode aliviar espasmo muscular em situações selecionadas, quando autorizado.
- Confirmar indicação e contraindicações (pele frágil, alteração de sensibilidade, risco de queimadura, curativos específicos).
- Proteger a pele com barreira (tecido) e limitar tempo conforme protocolo.
- Reavaliar pele e dor após aplicação; suspender se houver desconforto, palidez intensa, vermelhidão persistente ou piora da dor.
Relaxamento e respiração guiada
- Reduzir estímulos (luz/ruído) quando possível.
- Orientar respiração lenta: inspirar pelo nariz 3–4 segundos, expirar 4–6 segundos, por 2–5 minutos.
- Associar com relaxamento muscular progressivo (ombros, mandíbula, mãos) e foco em um ponto/contagem.
- Reavaliar dor e ansiedade após a técnica; registrar efeito.
Fluxo de reavaliação pós-medicação e tomada de decisão
Reavaliação programada: quando medir novamente
O tempo de reavaliação depende da via e do fármaco. Use o protocolo institucional como referência. Na ausência de orientação específica, uma prática comum é reavaliar mais cedo para vias de ação rápida e mais tarde para vias de ação lenta, sempre observando resposta clínica e segurança.
| Situação | O que reavaliar | Objetivo |
|---|---|---|
| Após analgesia de ação rápida (ex.: IV, PCA bolus) | Dor, sedação, tolerância ao movimento, eventos adversos | Confirmar alívio e detectar sedação precoce |
| Após analgesia via oral | Dor em repouso e ao movimento, efeitos adversos gastrointestinais | Verificar efetividade no tempo esperado |
| Após ajuste em peridural/bloqueio | Dor, nível sensitivo/motor, hipotensão, retenção urinária | Garantir analgesia sem bloqueio excessivo |
Fluxo prático (modelo aplicável à rotina)
- Antes: avaliar dor (escala), localização, impacto funcional e sedação; definir meta com o paciente (ex.: “dor ≤3/10 em repouso e conseguir sentar”).
- Intervir: administrar analgesia conforme prescrição e/ou aplicar medida não farmacológica; planejar mobilização/atividade no pico de efeito.
- Reavaliar: no tempo apropriado, repetir escala e avaliar função (ex.: levantar, caminhar alguns passos, tossir com suporte).
- Documentar: intensidade antes/depois, intervenção, efeitos adversos, e se a meta foi atingida.
- Escalonar: se meta não atingida, verificar causas (dose insuficiente, via inadequada, falha de bomba/cateter, dor neuropática/espasmo, ansiedade) e seguir protocolo de resgate/contato médico.
Critérios para recontato médico/anestesia (segurança e falha analgésica)
Recontato imediato (prioritário)
- Sinais de depressão respiratória ou sedação importante/progressiva.
- Hipotensão sintomática ou persistente após intervenção inicial conforme protocolo.
- Suspeita de reação grave a medicamento (ex.: urticária generalizada, broncoespasmo, edema de face/língua).
- Déficit neurológico novo ou progressivo em contexto de peridural/bloqueio (fraqueza importante, dormência extensa não esperada).
- Suspeita de falha/disfunção de PCA/peridural (alarme recorrente, oclusão, desconexão, vazamento) com dor não controlada.
Recontato em tempo oportuno (ajuste terapêutico)
- Dor moderada a intensa persistente apesar de intervenções prescritas e resgates permitidos.
- Necessidade frequente de resgate (padrão de “fim de dose”), sugerindo ajuste de esquema.
- Efeitos adversos que limitam o tratamento (prurido intenso, náuseas/vômitos refratários, retenção urinária significativa).
- Suspeita de componente neuropático/espasmo não coberto pelo esquema atual (dor em queimação, choque, hipersensibilidade ao toque).
Informações essenciais ao comunicar (SBAR em formato prático)
S (Situação): Dor 8/10 persistente 1h após analgesia; impede deambulação. PCA com muitas tentativas e poucas doses entregues. B (Background): Pós-operatório de X, sem alergias conhecidas, em uso de Y. A (Avaliação): Dor incisional + ao movimento, sedação leve, sem prurido; suspeita de falha de acesso/bomba. R (Recomendação): Avaliar ajuste de dose/adição de adjuvante e checar funcionamento da PCA/acesso.