Conceito e por que a NVPO exige atenção imediata
Náuseas e vômitos no pós-operatório (NVPO) são eventos frequentes nas primeiras horas após anestesia e cirurgia, relacionados a estímulos centrais e periféricos (anestésicos, opioides, manipulação visceral, distensão gástrica, hipotensão, dor, ansiedade). Além do desconforto, a NVPO aumenta o risco de broncoaspiração, desidratação, distúrbios hidroeletrolíticos, deiscência de suturas, sangramento e atraso na progressão da dieta. O foco da enfermagem é reconhecer precocemente, reduzir estímulos desencadeantes, aplicar medidas imediatas de segurança e administrar antieméticos com monitorização e registro da resposta.
Fatores de risco: como identificar quem precisa de vigilância reforçada
Fatores do paciente
- Histórico de NVPO ou cinetose (enjoo em viagens).
- Sexo feminino.
- Não tabagista (associação observacional em alguns protocolos).
- Ansiedade, dor intensa, hipoglicemia e desidratação (podem agravar náusea).
- Gestação (quando aplicável) e obesidade (maior risco de complicações em caso de aspiração).
Fatores anestésicos e farmacológicos
- Uso de opioides no intra e pós-operatório.
- Anestésicos inalatórios e óxido nitroso (quando utilizados).
- Reversão neuromuscular e alguns agentes anestésicos podem contribuir conforme contexto.
- Hipotensão e hipoxemia no período perioperatório (podem piorar mal-estar e náusea).
Fatores cirúrgicos
- Cirurgias abdominais, laparoscópicas e ginecológicas.
- Manipulação intestinal, distensão gástrica e íleo pós-operatório.
- Tempo cirúrgico prolongado.
Fatores do cuidado imediato
- Mobilização precoce sem preparo em paciente nauseado.
- Oferta de dieta ou líquidos fora do momento prescrito.
- Ambiente com odores fortes, calor excessivo, ruído e movimentação intensa.
Avaliação do padrão de náusea e vômito: o que perguntar e observar
Caracterização rápida (em 1–2 minutos)
- Início e evolução: quando começou, se é contínua ou em ondas, se piora com movimento, cheiros, dor ou alimentação.
- Intensidade da náusea: usar escala numérica (0–10) ou descritores (leve/moderada/intensa).
- Frequência e volume do vômito: número de episódios, estimativa de volume, presença de vômitos em jato.
- Conteúdo: alimentar, bilioso, fecaloide, presença de sangue (hematêmese) ou aspecto de borra de café.
- Sintomas associados: distensão abdominal, dor abdominal, soluços persistentes, refluxo, tontura, sudorese, cefaleia.
- Eliminações: presença/ausência de flatos e evacuação (sugere trânsito intestinal).
- Fatores de alívio: antiemético prévio, posição, repouso, gelo/água (se permitido), ventilação.
Observação direcionada
- Sinais de desidratação: mucosas secas, sede intensa, oligúria, taquicardia.
- Risco de broncoaspiração: sonolência importante, reflexo de tosse reduzido, vômitos recorrentes, dificuldade de deglutição.
- Abdome: distensão visível, timpanismo, dor à palpação, náusea com distensão progressiva (suspeitar íleo/obstrução conforme contexto).
- Dispositivos: presença de sonda nasogástrica (SNG), drenos, oxigenoterapia; verificar se há tração, obstrução ou desconexão.
Medidas imediatas de segurança para prevenir broncoaspiração
As ações abaixo priorizam proteção de vias aéreas e redução do risco de aspiração, especialmente em pacientes sonolentos, com vômitos repetidos ou incapazes de proteger a própria via aérea.
Passo a passo prático (primeiros minutos)
- Interromper oferta oral: manter jejum até avaliação e conforme prescrição; não oferecer água “para aliviar” sem liberação.
- Posicionar: colocar em decúbito lateral (preferencialmente com cabeça lateralizada) ou elevar cabeceira se estiver plenamente alerta e com bom controle de via aérea; em sonolência, priorizar lateralização.
- Proteger e preparar aspiração: manter cuba rim ao alcance, compressas, e aspirador pronto. Se houver vômito com secreções em orofaringe, aspirar vias aéreas superiores conforme necessidade e protocolo institucional.
- Oxigenação conforme necessidade: se houver dessaturação, cianose, tosse ineficaz ou sinais de aspiração, iniciar suporte conforme prescrição/protocolo e acionar equipe.
- Reduzir estímulos: afastar odores, ajustar iluminação, reduzir ruído, orientar respiração lenta; evitar movimentações bruscas.
- Checar prescrição e administrar antiemético: confirmar medicamento, via, dose, intervalo e contraindicações; administrar com técnica segura.
- Reavaliar em 10–20 minutos: intensidade da náusea, novos episódios, nível de consciência, conforto e sinais de complicação.
Jejum e progressão de dieta conforme prescrição
- Durante NVPO ativa: manter jejum e registrar motivo (náusea intensa/vômitos).
- Retomada: seguir prescrição (ex.: líquidos claros, depois dieta leve). Se houver retorno de náusea ao reiniciar, suspender e comunicar.
- Administração de medicações VO: avaliar risco-benefício; se náusea intensa, considerar vias alternativas conforme prescrição (IV/IM/SL/retal) e comunicar necessidade.
Administração segura de antieméticos: checagens e monitorização
Antieméticos atuam em diferentes receptores (serotoninérgicos, dopaminérgicos, histamínicos, muscarínicos, neurocinina). A escolha costuma seguir protocolo e prescrição médica, considerando risco do paciente e causas prováveis (opioide, distensão gástrica, cinetose, manipulação visceral).
Antes de administrar (checklist de segurança)
- Confirmar alergias e reações prévias a antieméticos.
- Verificar via (IV/IM/VO), compatibilidade e tempo de infusão quando IV (evitar bolus rápido se não indicado).
- Avaliar nível de sedação e risco de queda (alguns antieméticos aumentam sonolência).
- Checar ECG/risco de QT prolongado quando aplicável e conforme protocolo (ex.: alguns antagonistas 5-HT3 e outros fármacos podem prolongar QT).
- Revisar interações relevantes: outros medicamentos sedativos, serotoninérgicos, anticolinérgicos.
- Identificar e tratar fatores agravantes: dor mal controlada, hipotensão, hipoglicemia, distensão abdominal, constipação/íleo (comunicar achados).
Durante e após a administração: o que monitorar
- Eficácia: redução da náusea (escala 0–10), ausência de novos episódios de vômito, tolerância à mobilização e à progressão de dieta quando liberada.
- Efeitos adversos comuns: sonolência, tontura, hipotensão, cefaleia, constipação, boca seca.
- Sinais de alerta específicos (conforme classe): sintomas extrapiramidais (acatisia, distonia), agitação, alterações de ritmo cardíaco, reações alérgicas.
- Segurança funcional: risco de queda ao levantar; orientar a solicitar ajuda para deambular.
Registro da resposta terapêutica (modelo prático)
| Item | Como registrar |
|---|---|
| Avaliação inicial | Náusea 0–10, nº de vômitos, conteúdo, fatores desencadeantes, sinais associados (distensão, dor, sonolência) |
| Intervenções imediatas | Posição (decúbito lateral), jejum, aspiração realizada (sim/não), controle de estímulos |
| Medicação | Nome, dose, via, horário, lote (se exigido), tempo de infusão IV |
| Reavaliação | Tempo após medicação (ex.: 15/30/60 min), náusea 0–10, novos episódios, efeitos colaterais |
| Conduta | Manter jejum/progredir dieta conforme prescrição, necessidade de nova dose/medicação de resgate, comunicação ao médico |
Cuidados com sonda nasogástrica (SNG) quando presente
A SNG pode ser usada para descompressão gástrica, redução de distensão e prevenção de vômitos em situações selecionadas. O cuidado de enfermagem foca em manter a permeabilidade, evitar lesões e monitorar o débito.
Passo a passo prático de verificação e manejo
- Conferir fixação e marcação: verificar se a sonda está bem fixada e se a marca externa está compatível com o registro anterior; mudanças podem sugerir deslocamento.
- Checar sistema: garantir conexões firmes, frasco/coletor abaixo do nível do estômago quando em drenagem, ausência de dobras/oclusões no tubo.
- Avaliar débito: medir e registrar volume, aspecto (claro, bilioso, sanguinolento), odor; comunicar alterações importantes.
- Manter permeabilidade: realizar irrigação/flush somente se prescrito e conforme protocolo; nunca forçar se houver resistência.
- Cuidados com narina e pele: higiene local, proteção de pele, alternar ponto de fixação quando possível, observar sinais de pressão/lesão.
- Conforto e segurança: orientar paciente a evitar tração; manter cabeceira conforme tolerância e prescrição para reduzir refluxo.
Sinais de problema com SNG que exigem ação
- Ausência súbita de drenagem com distensão e náusea (possível obstrução/dobra).
- Dor intensa, sangramento nasal, tosse persistente ou desconforto respiratório (suspeitar deslocamento; interromper manipulação e comunicar).
- Débito com sangue vivo ou aumento abrupto do volume (comunicar imediatamente).
Controle de estímulos e medidas não farmacológicas
- Ambiente: ventilação adequada, evitar cheiros de alimentos/antissépticos fortes, reduzir ruído e movimentação.
- Posicionamento: evitar decúbito totalmente horizontal em paciente com refluxo/náusea; preferir cabeceira elevada se alerta e com boa proteção de via aérea.
- Mobilização: levantar lentamente, com apoio; interromper se piorar náusea.
- Higiene oral: enxágue e limpeza após vômitos (se permitido), reduzindo gosto residual que perpetua náusea.
- Controle de dor e ansiedade: dor e ansiedade aumentam NVPO; comunicar necessidade de ajuste terapêutico conforme avaliação.
Hidratação e balanço: o que observar e quando comunicar
Vômitos podem causar hipovolemia e alterações eletrolíticas (especialmente hipocalemia e alcalose metabólica em perdas gástricas). A enfermagem deve monitorar sinais clínicos e dados disponíveis no setor.
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- Ingesta e perdas: registrar episódios e volume estimado de vômito, débito de SNG, diurese e outras perdas.
- Sinais clínicos: sede intensa, mucosa seca, taquicardia, hipotensão postural, tontura.
- Acesso venoso: garantir permeabilidade para reposição prescrita e administração de antieméticos.
- Exames conforme rotina: quando disponíveis, observar eletrólitos e comunicar alterações relevantes.
Critérios de gravidade e quando escalar cuidado
Comunicar imediatamente/acionar equipe conforme protocolo se houver
- Vômitos persistentes apesar de antieméticos prescritos ou recorrência rápida após melhora.
- Distensão abdominal progressiva, dor abdominal importante, ausência de flatos/evacuação com piora clínica (suspeita de íleo/obstrução conforme contexto).
- Alteração do nível de consciência, sonolência profunda, incapacidade de proteger via aérea.
- Sinais de broncoaspiração: tosse súbita após vômito, dessaturação, taquipneia, chiado, febre posterior, secreção com odor/aspeto sugestivo.
- Vômito com sangue (hematêmese) ou aspecto de borra de café.
- Vômitos em jato ou cefaleia intensa/rigidez de nuca (considerar causas neurológicas conforme avaliação médica).
- Instabilidade hemodinâmica associada (palidez intensa, sudorese fria, hipotensão, taquicardia importante).
Exemplo de tomada de decisão no plantão (cenário)
Cenário: paciente 2 horas pós-operatório, relata náusea 8/10 e vomita grande volume ao tentar ingerir água. Está sonolento e com tosse fraca.
- Ação imediata: interromper VO, decúbito lateral, aspirar orofaringe se necessário, manter aspirador disponível.
- Medicação: checar prescrição de antiemético IV e administrar conforme técnica; avaliar necessidade de medicação de resgate conforme protocolo.
- Monitorização: reavaliar náusea em 15–30 min, observar sinais respiratórios e nível de consciência.
- Comunicação: se persistir vômito, houver dessaturação, roncos/chiado ou distensão abdominal progressiva, comunicar imediatamente e registrar evolução e intervenções.