Controle de náuseas e vômitos no pós-operatório (NVPO) e prevenção de broncoaspiração

Capítulo 5

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Conceito e por que a NVPO exige atenção imediata

Náuseas e vômitos no pós-operatório (NVPO) são eventos frequentes nas primeiras horas após anestesia e cirurgia, relacionados a estímulos centrais e periféricos (anestésicos, opioides, manipulação visceral, distensão gástrica, hipotensão, dor, ansiedade). Além do desconforto, a NVPO aumenta o risco de broncoaspiração, desidratação, distúrbios hidroeletrolíticos, deiscência de suturas, sangramento e atraso na progressão da dieta. O foco da enfermagem é reconhecer precocemente, reduzir estímulos desencadeantes, aplicar medidas imediatas de segurança e administrar antieméticos com monitorização e registro da resposta.

Fatores de risco: como identificar quem precisa de vigilância reforçada

Fatores do paciente

  • Histórico de NVPO ou cinetose (enjoo em viagens).
  • Sexo feminino.
  • Não tabagista (associação observacional em alguns protocolos).
  • Ansiedade, dor intensa, hipoglicemia e desidratação (podem agravar náusea).
  • Gestação (quando aplicável) e obesidade (maior risco de complicações em caso de aspiração).

Fatores anestésicos e farmacológicos

  • Uso de opioides no intra e pós-operatório.
  • Anestésicos inalatórios e óxido nitroso (quando utilizados).
  • Reversão neuromuscular e alguns agentes anestésicos podem contribuir conforme contexto.
  • Hipotensão e hipoxemia no período perioperatório (podem piorar mal-estar e náusea).

Fatores cirúrgicos

  • Cirurgias abdominais, laparoscópicas e ginecológicas.
  • Manipulação intestinal, distensão gástrica e íleo pós-operatório.
  • Tempo cirúrgico prolongado.

Fatores do cuidado imediato

  • Mobilização precoce sem preparo em paciente nauseado.
  • Oferta de dieta ou líquidos fora do momento prescrito.
  • Ambiente com odores fortes, calor excessivo, ruído e movimentação intensa.

Avaliação do padrão de náusea e vômito: o que perguntar e observar

Caracterização rápida (em 1–2 minutos)

  • Início e evolução: quando começou, se é contínua ou em ondas, se piora com movimento, cheiros, dor ou alimentação.
  • Intensidade da náusea: usar escala numérica (0–10) ou descritores (leve/moderada/intensa).
  • Frequência e volume do vômito: número de episódios, estimativa de volume, presença de vômitos em jato.
  • Conteúdo: alimentar, bilioso, fecaloide, presença de sangue (hematêmese) ou aspecto de borra de café.
  • Sintomas associados: distensão abdominal, dor abdominal, soluços persistentes, refluxo, tontura, sudorese, cefaleia.
  • Eliminações: presença/ausência de flatos e evacuação (sugere trânsito intestinal).
  • Fatores de alívio: antiemético prévio, posição, repouso, gelo/água (se permitido), ventilação.

Observação direcionada

  • Sinais de desidratação: mucosas secas, sede intensa, oligúria, taquicardia.
  • Risco de broncoaspiração: sonolência importante, reflexo de tosse reduzido, vômitos recorrentes, dificuldade de deglutição.
  • Abdome: distensão visível, timpanismo, dor à palpação, náusea com distensão progressiva (suspeitar íleo/obstrução conforme contexto).
  • Dispositivos: presença de sonda nasogástrica (SNG), drenos, oxigenoterapia; verificar se há tração, obstrução ou desconexão.

Medidas imediatas de segurança para prevenir broncoaspiração

As ações abaixo priorizam proteção de vias aéreas e redução do risco de aspiração, especialmente em pacientes sonolentos, com vômitos repetidos ou incapazes de proteger a própria via aérea.

Passo a passo prático (primeiros minutos)

  1. Interromper oferta oral: manter jejum até avaliação e conforme prescrição; não oferecer água “para aliviar” sem liberação.
  2. Posicionar: colocar em decúbito lateral (preferencialmente com cabeça lateralizada) ou elevar cabeceira se estiver plenamente alerta e com bom controle de via aérea; em sonolência, priorizar lateralização.
  3. Proteger e preparar aspiração: manter cuba rim ao alcance, compressas, e aspirador pronto. Se houver vômito com secreções em orofaringe, aspirar vias aéreas superiores conforme necessidade e protocolo institucional.
  4. Oxigenação conforme necessidade: se houver dessaturação, cianose, tosse ineficaz ou sinais de aspiração, iniciar suporte conforme prescrição/protocolo e acionar equipe.
  5. Reduzir estímulos: afastar odores, ajustar iluminação, reduzir ruído, orientar respiração lenta; evitar movimentações bruscas.
  6. Checar prescrição e administrar antiemético: confirmar medicamento, via, dose, intervalo e contraindicações; administrar com técnica segura.
  7. Reavaliar em 10–20 minutos: intensidade da náusea, novos episódios, nível de consciência, conforto e sinais de complicação.

Jejum e progressão de dieta conforme prescrição

  • Durante NVPO ativa: manter jejum e registrar motivo (náusea intensa/vômitos).
  • Retomada: seguir prescrição (ex.: líquidos claros, depois dieta leve). Se houver retorno de náusea ao reiniciar, suspender e comunicar.
  • Administração de medicações VO: avaliar risco-benefício; se náusea intensa, considerar vias alternativas conforme prescrição (IV/IM/SL/retal) e comunicar necessidade.

Administração segura de antieméticos: checagens e monitorização

Antieméticos atuam em diferentes receptores (serotoninérgicos, dopaminérgicos, histamínicos, muscarínicos, neurocinina). A escolha costuma seguir protocolo e prescrição médica, considerando risco do paciente e causas prováveis (opioide, distensão gástrica, cinetose, manipulação visceral).

Antes de administrar (checklist de segurança)

  • Confirmar alergias e reações prévias a antieméticos.
  • Verificar via (IV/IM/VO), compatibilidade e tempo de infusão quando IV (evitar bolus rápido se não indicado).
  • Avaliar nível de sedação e risco de queda (alguns antieméticos aumentam sonolência).
  • Checar ECG/risco de QT prolongado quando aplicável e conforme protocolo (ex.: alguns antagonistas 5-HT3 e outros fármacos podem prolongar QT).
  • Revisar interações relevantes: outros medicamentos sedativos, serotoninérgicos, anticolinérgicos.
  • Identificar e tratar fatores agravantes: dor mal controlada, hipotensão, hipoglicemia, distensão abdominal, constipação/íleo (comunicar achados).

Durante e após a administração: o que monitorar

  • Eficácia: redução da náusea (escala 0–10), ausência de novos episódios de vômito, tolerância à mobilização e à progressão de dieta quando liberada.
  • Efeitos adversos comuns: sonolência, tontura, hipotensão, cefaleia, constipação, boca seca.
  • Sinais de alerta específicos (conforme classe): sintomas extrapiramidais (acatisia, distonia), agitação, alterações de ritmo cardíaco, reações alérgicas.
  • Segurança funcional: risco de queda ao levantar; orientar a solicitar ajuda para deambular.

Registro da resposta terapêutica (modelo prático)

ItemComo registrar
Avaliação inicialNáusea 0–10, nº de vômitos, conteúdo, fatores desencadeantes, sinais associados (distensão, dor, sonolência)
Intervenções imediatasPosição (decúbito lateral), jejum, aspiração realizada (sim/não), controle de estímulos
MedicaçãoNome, dose, via, horário, lote (se exigido), tempo de infusão IV
ReavaliaçãoTempo após medicação (ex.: 15/30/60 min), náusea 0–10, novos episódios, efeitos colaterais
CondutaManter jejum/progredir dieta conforme prescrição, necessidade de nova dose/medicação de resgate, comunicação ao médico

Cuidados com sonda nasogástrica (SNG) quando presente

A SNG pode ser usada para descompressão gástrica, redução de distensão e prevenção de vômitos em situações selecionadas. O cuidado de enfermagem foca em manter a permeabilidade, evitar lesões e monitorar o débito.

Passo a passo prático de verificação e manejo

  1. Conferir fixação e marcação: verificar se a sonda está bem fixada e se a marca externa está compatível com o registro anterior; mudanças podem sugerir deslocamento.
  2. Checar sistema: garantir conexões firmes, frasco/coletor abaixo do nível do estômago quando em drenagem, ausência de dobras/oclusões no tubo.
  3. Avaliar débito: medir e registrar volume, aspecto (claro, bilioso, sanguinolento), odor; comunicar alterações importantes.
  4. Manter permeabilidade: realizar irrigação/flush somente se prescrito e conforme protocolo; nunca forçar se houver resistência.
  5. Cuidados com narina e pele: higiene local, proteção de pele, alternar ponto de fixação quando possível, observar sinais de pressão/lesão.
  6. Conforto e segurança: orientar paciente a evitar tração; manter cabeceira conforme tolerância e prescrição para reduzir refluxo.

Sinais de problema com SNG que exigem ação

  • Ausência súbita de drenagem com distensão e náusea (possível obstrução/dobra).
  • Dor intensa, sangramento nasal, tosse persistente ou desconforto respiratório (suspeitar deslocamento; interromper manipulação e comunicar).
  • Débito com sangue vivo ou aumento abrupto do volume (comunicar imediatamente).

Controle de estímulos e medidas não farmacológicas

  • Ambiente: ventilação adequada, evitar cheiros de alimentos/antissépticos fortes, reduzir ruído e movimentação.
  • Posicionamento: evitar decúbito totalmente horizontal em paciente com refluxo/náusea; preferir cabeceira elevada se alerta e com boa proteção de via aérea.
  • Mobilização: levantar lentamente, com apoio; interromper se piorar náusea.
  • Higiene oral: enxágue e limpeza após vômitos (se permitido), reduzindo gosto residual que perpetua náusea.
  • Controle de dor e ansiedade: dor e ansiedade aumentam NVPO; comunicar necessidade de ajuste terapêutico conforme avaliação.

Hidratação e balanço: o que observar e quando comunicar

Vômitos podem causar hipovolemia e alterações eletrolíticas (especialmente hipocalemia e alcalose metabólica em perdas gástricas). A enfermagem deve monitorar sinais clínicos e dados disponíveis no setor.

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  • Ingesta e perdas: registrar episódios e volume estimado de vômito, débito de SNG, diurese e outras perdas.
  • Sinais clínicos: sede intensa, mucosa seca, taquicardia, hipotensão postural, tontura.
  • Acesso venoso: garantir permeabilidade para reposição prescrita e administração de antieméticos.
  • Exames conforme rotina: quando disponíveis, observar eletrólitos e comunicar alterações relevantes.

Critérios de gravidade e quando escalar cuidado

Comunicar imediatamente/acionar equipe conforme protocolo se houver

  • Vômitos persistentes apesar de antieméticos prescritos ou recorrência rápida após melhora.
  • Distensão abdominal progressiva, dor abdominal importante, ausência de flatos/evacuação com piora clínica (suspeita de íleo/obstrução conforme contexto).
  • Alteração do nível de consciência, sonolência profunda, incapacidade de proteger via aérea.
  • Sinais de broncoaspiração: tosse súbita após vômito, dessaturação, taquipneia, chiado, febre posterior, secreção com odor/aspeto sugestivo.
  • Vômito com sangue (hematêmese) ou aspecto de borra de café.
  • Vômitos em jato ou cefaleia intensa/rigidez de nuca (considerar causas neurológicas conforme avaliação médica).
  • Instabilidade hemodinâmica associada (palidez intensa, sudorese fria, hipotensão, taquicardia importante).

Exemplo de tomada de decisão no plantão (cenário)

Cenário: paciente 2 horas pós-operatório, relata náusea 8/10 e vomita grande volume ao tentar ingerir água. Está sonolento e com tosse fraca.

  • Ação imediata: interromper VO, decúbito lateral, aspirar orofaringe se necessário, manter aspirador disponível.
  • Medicação: checar prescrição de antiemético IV e administrar conforme técnica; avaliar necessidade de medicação de resgate conforme protocolo.
  • Monitorização: reavaliar náusea em 15–30 min, observar sinais respiratórios e nível de consciência.
  • Comunicação: se persistir vômito, houver dessaturação, roncos/chiado ou distensão abdominal progressiva, comunicar imediatamente e registrar evolução e intervenções.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em um paciente com náuseas e vômitos no pós-operatório, sonolento e com tosse fraca, qual conduta imediata de enfermagem reduz mais diretamente o risco de broncoaspiração?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Em sonolência e com vômitos, a prioridade é proteger vias aéreas: suspender VO, lateralizar para reduzir aspiração e preparar/realizar aspiração de vias aéreas superiores se necessário. Medidas como oferecer líquidos ou mobilizar podem aumentar o risco.

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Vigilância de sangramento, choque e alterações hemodinâmicas no pós-operatório

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