Luxações e suspeita de deslocamento articular: como reconhecer e não reduzir

Capítulo 5

Tempo estimado de leitura: 6 minutos

+ Exercício

O que é luxação (e o que é “suspeita de deslocamento articular”)

Luxação é quando os ossos que formam uma articulação perdem o encaixe normal, ficando “fora do lugar”. Em primeiros socorros, muitas vezes não dá para confirmar com certeza sem exame de imagem; por isso, usa-se o termo suspeita de deslocamento articular quando os sinais sugerem que a articulação saiu do alinhamento habitual.

Uma luxação pode ocorrer sozinha ou junto com fratura e lesões de ligamentos, cápsula articular, vasos sanguíneos e nervos. Por isso, a conduta segura é não tentar reduzir (não tentar “colocar no lugar”) e imobilizar na posição encontrada.

Como reconhecer sinais de luxação

Sinais mais típicos

  • Deformidade visível na articulação (formato “estranho”, assimetria em relação ao outro lado).
  • Posição fixa: a pessoa mantém o membro em uma posição específica e não consegue mudar sem dor intensa.
  • Dor intensa, geralmente imediata e localizada na articulação.
  • Perda importante de movimento: dificuldade ou incapacidade de mover a articulação.
  • Formigamento, dormência ou fraqueza abaixo da articulação (sugere possível compressão/lesão nervosa).

Sinais que aumentam a gravidade (atenção redobrada)

  • Mão/pé frio, pálido ou arroxeado abaixo da lesão.
  • Pulso distal fraco ou ausente (ex.: no punho após lesão no cotovelo/ombro; no pé após lesão no joelho/tornozelo).
  • Dor desproporcional ou que piora rapidamente.

Se houver qualquer sinal de comprometimento de circulação ou sensibilidade, trate como urgência e acione atendimento imediatamente.

Por que não tentar “colocar no lugar” (não reduzir)

Tentar reduzir uma luxação sem treinamento e sem avaliação adequada pode parecer “resolver rápido”, mas aumenta o risco de danos graves. Principais riscos:

  • Lesão vascular: vasos podem estar estirados ou comprimidos; uma manobra pode rasgar o vaso, causar sangramento interno ou interromper a circulação.
  • Lesão nervosa: nervos podem ser comprimidos; a tentativa de redução pode piorar, levando a dormência persistente ou perda de força.
  • Fratura associada não percebida: se houver fratura junto, manipular pode deslocar fragmentos e agravar a lesão.
  • Aumento de dor e espasmo muscular: o corpo “trava” para proteger, dificultando ainda mais qualquer reposicionamento e aumentando o sofrimento.

Em primeiros socorros, a regra prática é: não faça tração, não force alinhamento, não tente recolocar. A prioridade é proteger a articulação até atendimento profissional.

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Conduta prática: o que fazer (passo a passo)

1) Imobilize na posição encontrada

  • Não tente endireitar o membro.
  • Use uma tala improvisada (papelão firme, revista grossa, tábua leve) e faixas/panos para fixar.
  • Imobilize de forma que a articulação suspeita fique estável e, quando possível, inclua as regiões imediatamente acima e abaixo para reduzir movimentos.
  • Evite apertar demais: a imobilização deve estabilizar, não estrangular.

2) Monitore circulação e sensibilidade distal (antes e depois de imobilizar)

Verifique e compare com o lado não lesionado:

  • Cor: está pálido, arroxeado ou normal?
  • Temperatura: está frio em relação ao outro lado?
  • Perfusão: pressione a unha (dedo da mão ou do pé) até ficar pálida e solte; a cor deve voltar em ~2 segundos.
  • Sensibilidade: há formigamento/dormência? A pessoa sente toque leve?
  • Movimento distal: consegue mexer dedos da mão/pé? (sem forçar a articulação lesionada).

Importante: se após a imobilização a mão/pé ficar mais frio, mais pálido, mais roxo, com mais dormência ou dor, afrouxe as faixas (sem mover a articulação) e reavalie. Persistindo sinais, acione urgência.

3) Medidas de conforto (sem tração)

  • Repouso e apoio do membro (ex.: tipoia para braço; apoio com almofadas).
  • Compressa fria envolta em pano por 10–15 minutos, com pausas, se tolerado. Não aplique gelo direto na pele.
  • Retire anéis, pulseiras, relógio e calçados apertados do lado afetado, se isso puder ser feito sem dor e sem manipular a articulação (o inchaço pode aumentar).
  • Mantenha a pessoa o mais confortável possível, evitando movimentos desnecessários.

4) Acione atendimento e organize transporte seguro

  • Procure atendimento médico o quanto antes, especialmente se houver deformidade evidente, dor intensa, perda de movimento, formigamento/dormência ou sinais de circulação comprometida.
  • Para transporte, mantenha a imobilização e evite que a articulação “balance”.

Exemplos práticos

Exemplo 1: suspeita de luxação de ombro

Como pode aparecer: após queda ou impacto, a pessoa segura o braço junto ao corpo, com dor intensa; o ombro pode parecer “quadrado” ou com saliência diferente; há dificuldade de levantar ou girar o braço.

O que fazer na prática:

  • Não tente puxar o braço e não peça para “girar para ver se volta”.
  • Coloque o braço em posição de conforto (geralmente junto ao tronco).
  • Faça uma tipoia com um pano/lenço triangular: apoie o antebraço e amarre atrás do pescoço, sem elevar demais.
  • Se possível, complemente com uma faixa prendendo o braço ao tronco (imobilização tipo “sling and swathe”), sem apertar o tórax a ponto de dificultar a respiração.
  • Cheque circulação distal: cor/temperatura da mão, perfusão na unha, sensibilidade e movimento dos dedos.

Evite: qualquer manobra de “encaixe”, tração para baixo, ou apoiar o braço pendurado sem suporte (pode aumentar dor e espasmo).

Exemplo 2: suspeita de luxação de dedo

Como pode aparecer: após bola, queda ou “prender” o dedo, ele fica torto, com deformidade na articulação, dor forte e dificuldade de dobrar/esticar. Pode haver formigamento na ponta do dedo.

O que fazer na prática:

  • Não puxe o dedo para “desentortar”.
  • Imobilize com uma tala pequena (ex.: palito de sorvete, caneta envolta em pano, pedaço de papelão) ao longo do dedo, fixando com fita/pano sem apertar a ponta.
  • Alternativa: “buddy taping” (prender o dedo lesionado ao dedo vizinho) somente se isso não aumentar a deformidade/dor e se não houver suspeita de lesão grave; coloque uma gaze/pano entre os dedos e faça 2 a 3 voltas de fita (não sobre a articulação deformada com força).
  • Cheque perfusão na unha e sensibilidade na ponta do dedo antes e depois de fixar.
  • Retire anéis imediatamente se possível, pois o inchaço pode impedir a retirada depois.

Evite: tentar “encaixar” com um tranco, dobrar para testar movimento ou forçar alinhamento.

Checklist rápido do que NÃO fazer

  • Não reduzir (não “colocar no lugar”).
  • Não fazer tração/puxar o membro.
  • Não forçar amplitude de movimento para “testar”.
  • Não apertar faixas a ponto de piorar circulação.
  • Não ignorar formigamento, dormência, palidez ou extremidade fria.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao prestar primeiros socorros em uma suspeita de luxação, qual conduta é a mais adequada para evitar agravar a lesão?

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Você errou! Tente novamente.

A conduta segura é não reduzir e imobilizar na posição encontrada, pois manipular pode causar lesão vascular/nervosa ou agravar fratura associada. Também é essencial checar cor, temperatura, perfusão e sensibilidade distal antes e depois da imobilização.

Próximo capitúlo

Avaliação neurovascular: circulação, sensibilidade e movimento antes e depois de imobilizar

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