O que é luxação (e o que é “suspeita de deslocamento articular”)
Luxação é quando os ossos que formam uma articulação perdem o encaixe normal, ficando “fora do lugar”. Em primeiros socorros, muitas vezes não dá para confirmar com certeza sem exame de imagem; por isso, usa-se o termo suspeita de deslocamento articular quando os sinais sugerem que a articulação saiu do alinhamento habitual.
Uma luxação pode ocorrer sozinha ou junto com fratura e lesões de ligamentos, cápsula articular, vasos sanguíneos e nervos. Por isso, a conduta segura é não tentar reduzir (não tentar “colocar no lugar”) e imobilizar na posição encontrada.
Como reconhecer sinais de luxação
Sinais mais típicos
- Deformidade visível na articulação (formato “estranho”, assimetria em relação ao outro lado).
- Posição fixa: a pessoa mantém o membro em uma posição específica e não consegue mudar sem dor intensa.
- Dor intensa, geralmente imediata e localizada na articulação.
- Perda importante de movimento: dificuldade ou incapacidade de mover a articulação.
- Formigamento, dormência ou fraqueza abaixo da articulação (sugere possível compressão/lesão nervosa).
Sinais que aumentam a gravidade (atenção redobrada)
- Mão/pé frio, pálido ou arroxeado abaixo da lesão.
- Pulso distal fraco ou ausente (ex.: no punho após lesão no cotovelo/ombro; no pé após lesão no joelho/tornozelo).
- Dor desproporcional ou que piora rapidamente.
Se houver qualquer sinal de comprometimento de circulação ou sensibilidade, trate como urgência e acione atendimento imediatamente.
Por que não tentar “colocar no lugar” (não reduzir)
Tentar reduzir uma luxação sem treinamento e sem avaliação adequada pode parecer “resolver rápido”, mas aumenta o risco de danos graves. Principais riscos:
- Lesão vascular: vasos podem estar estirados ou comprimidos; uma manobra pode rasgar o vaso, causar sangramento interno ou interromper a circulação.
- Lesão nervosa: nervos podem ser comprimidos; a tentativa de redução pode piorar, levando a dormência persistente ou perda de força.
- Fratura associada não percebida: se houver fratura junto, manipular pode deslocar fragmentos e agravar a lesão.
- Aumento de dor e espasmo muscular: o corpo “trava” para proteger, dificultando ainda mais qualquer reposicionamento e aumentando o sofrimento.
Em primeiros socorros, a regra prática é: não faça tração, não force alinhamento, não tente recolocar. A prioridade é proteger a articulação até atendimento profissional.
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Conduta prática: o que fazer (passo a passo)
1) Imobilize na posição encontrada
- Não tente endireitar o membro.
- Use uma tala improvisada (papelão firme, revista grossa, tábua leve) e faixas/panos para fixar.
- Imobilize de forma que a articulação suspeita fique estável e, quando possível, inclua as regiões imediatamente acima e abaixo para reduzir movimentos.
- Evite apertar demais: a imobilização deve estabilizar, não estrangular.
2) Monitore circulação e sensibilidade distal (antes e depois de imobilizar)
Verifique e compare com o lado não lesionado:
- Cor: está pálido, arroxeado ou normal?
- Temperatura: está frio em relação ao outro lado?
- Perfusão: pressione a unha (dedo da mão ou do pé) até ficar pálida e solte; a cor deve voltar em ~2 segundos.
- Sensibilidade: há formigamento/dormência? A pessoa sente toque leve?
- Movimento distal: consegue mexer dedos da mão/pé? (sem forçar a articulação lesionada).
Importante: se após a imobilização a mão/pé ficar mais frio, mais pálido, mais roxo, com mais dormência ou dor, afrouxe as faixas (sem mover a articulação) e reavalie. Persistindo sinais, acione urgência.
3) Medidas de conforto (sem tração)
- Repouso e apoio do membro (ex.: tipoia para braço; apoio com almofadas).
- Compressa fria envolta em pano por 10–15 minutos, com pausas, se tolerado. Não aplique gelo direto na pele.
- Retire anéis, pulseiras, relógio e calçados apertados do lado afetado, se isso puder ser feito sem dor e sem manipular a articulação (o inchaço pode aumentar).
- Mantenha a pessoa o mais confortável possível, evitando movimentos desnecessários.
4) Acione atendimento e organize transporte seguro
- Procure atendimento médico o quanto antes, especialmente se houver deformidade evidente, dor intensa, perda de movimento, formigamento/dormência ou sinais de circulação comprometida.
- Para transporte, mantenha a imobilização e evite que a articulação “balance”.
Exemplos práticos
Exemplo 1: suspeita de luxação de ombro
Como pode aparecer: após queda ou impacto, a pessoa segura o braço junto ao corpo, com dor intensa; o ombro pode parecer “quadrado” ou com saliência diferente; há dificuldade de levantar ou girar o braço.
O que fazer na prática:
- Não tente puxar o braço e não peça para “girar para ver se volta”.
- Coloque o braço em posição de conforto (geralmente junto ao tronco).
- Faça uma tipoia com um pano/lenço triangular: apoie o antebraço e amarre atrás do pescoço, sem elevar demais.
- Se possível, complemente com uma faixa prendendo o braço ao tronco (imobilização tipo “sling and swathe”), sem apertar o tórax a ponto de dificultar a respiração.
- Cheque circulação distal: cor/temperatura da mão, perfusão na unha, sensibilidade e movimento dos dedos.
Evite: qualquer manobra de “encaixe”, tração para baixo, ou apoiar o braço pendurado sem suporte (pode aumentar dor e espasmo).
Exemplo 2: suspeita de luxação de dedo
Como pode aparecer: após bola, queda ou “prender” o dedo, ele fica torto, com deformidade na articulação, dor forte e dificuldade de dobrar/esticar. Pode haver formigamento na ponta do dedo.
O que fazer na prática:
- Não puxe o dedo para “desentortar”.
- Imobilize com uma tala pequena (ex.: palito de sorvete, caneta envolta em pano, pedaço de papelão) ao longo do dedo, fixando com fita/pano sem apertar a ponta.
- Alternativa: “buddy taping” (prender o dedo lesionado ao dedo vizinho) somente se isso não aumentar a deformidade/dor e se não houver suspeita de lesão grave; coloque uma gaze/pano entre os dedos e faça 2 a 3 voltas de fita (não sobre a articulação deformada com força).
- Cheque perfusão na unha e sensibilidade na ponta do dedo antes e depois de fixar.
- Retire anéis imediatamente se possível, pois o inchaço pode impedir a retirada depois.
Evite: tentar “encaixar” com um tranco, dobrar para testar movimento ou forçar alinhamento.
Checklist rápido do que NÃO fazer
- Não reduzir (não “colocar no lugar”).
- Não fazer tração/puxar o membro.
- Não forçar amplitude de movimento para “testar”.
- Não apertar faixas a ponto de piorar circulação.
- Não ignorar formigamento, dormência, palidez ou extremidade fria.