Avaliação neurovascular: circulação, sensibilidade e movimento antes e depois de imobilizar

Capítulo 6

Tempo estimado de leitura: 7 minutos

+ Exercício

O que é avaliação neurovascular (e por que fazer antes e depois)

A avaliação neurovascular é uma checagem rápida e sistemática para confirmar se o sangue está chegando ao segmento lesionado (circulação) e se os nervos e músculos estão funcionando (sensibilidade e movimento). Em lesões de membros, o inchaço e a própria imobilização podem comprimir vasos e nervos. Por isso, o mesmo conjunto de testes deve ser feito antes de colocar a tala e depois de finalizar a imobilização.

O objetivo é ter um “ponto de comparação”: se algo piorar após imobilizar, você identifica cedo e ajusta a tala/ataduras para reduzir compressão, sem manipular a fratura.

Protocolo simples e repetível: CSM (Circulação, Sensibilidade, Movimento)

Use sempre a mesma ordem para não esquecer itens. Um protocolo prático é CSM:

  • Circulação: cor, temperatura, enchimento capilar e pulso distal (quando possível).
  • Sensibilidade: toque leve e comparação com o lado não lesionado.
  • Movimento: movimentos simples dos dedos (sem forçar a articulação lesionada).

Faça a checagem no segmento distal à lesão (ex.: lesão no antebraço → avaliar mão e dedos; lesão na perna → avaliar pé e dedos).

Como registrar rapidamente (sem papel)

Crie um “resumo mental” de 5 itens antes e depois: Cor / Temp / Capilar / Sens / Mov. Exemplo de registro mental: Rosa, quente, cap<2s, sente toque, mexe dedos. Após imobilizar, repita e compare.

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Passo a passo prático (antes de imobilizar)

1) Circulação: olhar e tocar

  • Cor da pele: compare com o outro lado. Atenção para palidez (muito clara), cianose (arroxeada/azulada) ou mudança súbita de cor.
  • Temperatura: toque com o dorso da sua mão e compare com o membro não lesionado. Frio distal sugere perfusão reduzida.

2) Enchimento capilar (perfusão periférica)

Como fazer:

  • Pressione a unha de um dedo (mão ou pé) por cerca de 2 segundos até esbranquiçar.
  • Solte e observe o tempo para voltar a cor.

Interpretação prática:

  • Normal: retorno em até 2 segundos (pode variar com frio ambiental).
  • Preocupante: retorno claramente lento (ex.: >2–3 s) ou pior que o outro lado.

3) Pulso distal (quando possível e sem perder tempo)

Se você souber palpar, tente identificar pulso distal, sem insistir demais:

  • Membro superior: pulso radial (no punho, lado do polegar).
  • Membro inferior: pulso pedioso (dorso do pé) ou tibial posterior (atrás do maléolo medial).

Se não encontrar rapidamente, não “cave” nem prolongue a busca. Use os outros sinais (cor, temperatura, capilar) como referência.

4) Sensibilidade: toque leve e comparação

Como fazer:

  • Peça para a pessoa fechar os olhos (se possível).
  • Toque levemente a polpa de 2–3 dedos (mão) ou dedos do pé, e pergunte: “Sente meu toque? Está igual do outro lado?”
  • Compare com o membro não lesionado.

O que observar:

  • Dormência, formigamento, sensação “de algodão” ou diferença clara entre lados.
  • Áreas específicas “apagadas” (ex.: só um dedo sem sentir) também importam.

5) Movimento: comandos simples (sem forçar)

Como fazer:

  • Mão: peça para mexer os dedos (abrir/fechar) e, se tolerado, “fazer joinha” e “encostar o polegar no indicador”.
  • Pé: peça para mexer os dedos e, se possível, “puxar o pé para cima” e “empurrar para baixo” sem resistência.

O que observar:

  • Consegue mover? O movimento é simétrico ao outro lado?
  • fraqueza súbita ou incapacidade de mexer dedos que antes mexia?

Importante: movimento deve ser ativo (a pessoa mexe sozinha). Evite testar força contra sua mão se isso aumentar dor ou movimentar o foco da lesão.

Repetir o mesmo protocolo após imobilizar (checagem pós-tala)

Depois de colocar a tala e fixar com ataduras/faixas, repita na mesma ordem:

  • Cor e temperatura distal
  • Enchimento capilar
  • Pulso distal (se você avaliou antes)
  • Sensibilidade ao toque leve
  • Movimento dos dedos

Compare com o “resumo mental” de antes. A regra prática é: não pode piorar após imobilizar.

O que fazer se piorar após a imobilização (sem manipular a fratura)

Se qualquer item piorar (mais pálido, mais frio, capilar mais lento, perda de sensibilidade, piora do movimento, dor aumentando), trate como possível compressão por faixa/tala ou progressão do inchaço.

Passo a passo de correção segura

  1. Pare e reavalie rapidamente para confirmar a mudança (CSM).
  2. Afrouxe as faixas/ataduras um pouco, começando pelas mais apertadas, especialmente perto das extremidades (mão/pé). Não retire tudo de uma vez se isso causar instabilidade.
  3. Reposicione a tala se houver ponto de pressão evidente (borda rígida comprimindo pele), sem tentar alinhar os ossos e sem “endireitar” o membro à força.
  4. Reforce acolchoamento onde houver pressão (ex.: proeminências ósseas), mantendo a tala estável.
  5. Reaperte apenas o necessário para estabilizar, deixando espaço para inchaço (a faixa deve segurar, não estrangular).
  6. Reavalie CSM novamente e compare com o estado pré-imobilização.

Se não melhorar rapidamente, ou se estiver piorando, isso é um sinal de alerta importante: mantenha o membro imobilizado da forma menos compressiva possível e busque atendimento emergencial.

Sinais de emergência: quando tratar como urgência imediata

Interrompa ajustes caseiros e acione ajuda/serviço de emergência quando houver:

  • Dormência crescente ou perda progressiva de sensibilidade.
  • Palidez marcada ou mudança para coloração arroxeada/azulada distal.
  • Frieza distal evidente em comparação ao outro lado.
  • Dor desproporcional ao esperado, especialmente se piora apesar de imobilização e sem novo trauma (atenção também para dor ao esticar dedos, quando isso ocorrer espontaneamente).
  • Incapacidade nova de mexer dedos após a tala (antes mexia e depois não).
  • Enchimento capilar muito lento e/ou ausência de pulso distal (quando previamente presente ou quando comparado ao outro lado).

Dicas práticas para reduzir erros comuns na checagem

  • Compare com o lado não lesionado: diferenças individuais existem; a comparação ajuda a perceber piora real.
  • Ambiente frio engana: mãos e pés podem ficar frios por temperatura externa. Ainda assim, piora após a tala é relevante.
  • Não confunda dor com perda de movimento: a pessoa pode evitar mexer por dor. Pergunte: “Você consegue mexer um pouco?” e observe tentativa.
  • Evite apertar demais: o inchaço costuma aumentar com o tempo. Uma fixação “no limite” tende a ficar apertada depois.
  • Cheque dedos visíveis: deixar dedos expostos ajuda a observar cor, inchaço e testar capilar/sensibilidade/movimento.

Mini-roteiros de aplicação (exemplos rápidos)

Exemplo 1: lesão no punho/antebraço

  • Antes: dedos rosados, quentes, cap<2s, sente toque em todos os dedos, consegue abrir/fechar a mão.
  • Depois da tala: capilar ficou 4s e dedos mais frios → afrouxar atadura distal, checar borda da tala pressionando, reacolchoar, reavaliar CSM.

Exemplo 2: lesão na perna/tornozelo

  • Antes: dedos do pé rosados, cap<2s, sente toque, mexe dedos.
  • Depois: formigamento crescente e dor desproporcional → afrouxar fixação, garantir que não há compressão no dorso do pé/atrás do tornozelo, reavaliar; se persistir, tratar como emergência.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao finalizar a imobilização com tala e ataduras, qual deve ser a conduta correta em relação à avaliação neurovascular (CSM)?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Após imobilizar, é essencial repetir CSM (circulação, sensibilidade e movimento) na mesma ordem e comparar com o antes. A regra prática é que os achados não podem piorar; se piorarem, pode haver compressão pela tala/ataduras e é preciso ajustar sem manipular a fratura.

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