Investimentos no Exterior para Iniciantes: risco cambial e como a moeda afeta retorno

Capítulo 2

Tempo estimado de leitura: 7 minutos

+ Exercício

O que é câmbio e o que é variação cambial

Câmbio é a taxa que converte uma moeda em outra. Para quem investe fora, a referência prática é: quantos reais (BRL) você precisa para comprar 1 unidade da moeda do investimento (por exemplo, USD ou EUR). Ex.: USD/BRL = 5,00 significa que 1 dólar custa R$ 5,00.

Variação cambial é a mudança dessa taxa ao longo do tempo. Se o dólar passa de R$ 5,00 para R$ 5,50, houve uma alta de 10% no USD/BRL (o real desvalorizou frente ao dólar). Se cai para R$ 4,50, houve queda de 10% (o real valorizou).

O que significa estar “exposto” a dólar/euro/outra moeda

Você está exposto à moeda quando o valor em reais do seu investimento depende também do câmbio, e não apenas do preço do ativo. Na prática, isso acontece quando:

  • o ativo é negociado em moeda estrangeira (ex.: ação nos EUA em USD);
  • o fundo/ETF não faz proteção cambial (sem hedge) e você mede seu patrimônio em BRL;
  • você mantém caixa (saldo) em moeda estrangeira.

Essa exposição pode ajudar (quando a moeda estrangeira sobe vs. BRL) ou atrapalhar (quando a moeda cai vs. BRL), independentemente do desempenho do ativo.

Como o retorno em moeda estrangeira vira retorno em reais

O retorno em reais de um investimento no exterior é a combinação de:

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  • Retorno do ativo na moeda do ativo (ex.: ação subiu 8% em USD);
  • Variação do câmbio (ex.: USD/BRL subiu 5%).

Uma forma prática de calcular o retorno em BRL é:

Retorno em BRL = (1 + retorno do ativo em moeda) × (1 + variação cambial) − 1

Onde variação cambial é a variação da moeda do ativo contra o real (ex.: USD/BRL).

Exemplo 1: ativo sobe e o dólar sobe (câmbio amplifica ganho)

Você investe USD 1.000 quando USD/BRL = 5,00. Em reais, isso equivale a R$ 5.000.

  • O ativo sobe +10% em USD → vira USD 1.100.
  • O dólar sobe de 5,00 para 5,50 → +10% no câmbio.

Valor final em BRL: USD 1.100 × 5,50 = R$ 6.050.

Retorno em BRL: 6.050 / 5.000 − 1 = +21%.

Note que não é 10% + 10% = 20% “exato”; pela multiplicação, deu 21%.

Exemplo 2: ativo sobe, mas o dólar cai (câmbio reduz ou zera ganho)

Mesmo investimento inicial: USD 1.000 a 5,00 (R$ 5.000).

  • Ativo sobe +10%USD 1.100.
  • Dólar cai de 5,00 para 4,50 → −10% no câmbio.

Valor final em BRL: USD 1.100 × 4,50 = R$ 4.950.

Retorno em BRL: 4.950 / 5.000 − 1 = −1%.

Mesmo com o ativo indo bem em USD, a valorização do real pode “comer” o retorno quando você mede em reais.

Exemplo 3: ativo cai, mas o dólar sobe (câmbio pode compensar perda)

Investimento inicial: USD 1.000 a 5,00 (R$ 5.000).

  • Ativo cai −10%USD 900.
  • Dólar sobe de 5,00 para 5,50 → +10%.

Valor final em BRL: USD 900 × 5,50 = R$ 4.950.

Retorno em BRL: 4.950 / 5.000 − 1 = −1%.

O câmbio não “anula” perfeitamente a queda do ativo, mas pode reduzir bastante a perda em reais.

Risco do ativo vs. risco da moeda: o que é cada um e quando domina

Risco do ativo

É a incerteza do preço do investimento na moeda dele. Ex.: uma ação pode cair 30% em USD por resultados ruins; um título pode oscilar por juros; um ETF pode variar por mercado.

Risco da moeda (risco cambial)

É a incerteza do USD/BRL, EUR/BRL etc. Mesmo que o ativo fique estável em USD, seu valor em BRL muda se o câmbio mudar.

Quando cada um domina o resultado (intuição prática)

  • No curto prazo, o câmbio pode dominar, porque moedas podem se mover bastante em meses, e isso aparece imediatamente no valor em reais.
  • Em ativos muito voláteis (ex.: ações individuais), o risco do ativo costuma dominar, porque o preço do ativo pode variar mais do que o câmbio no mesmo período.
  • Em ativos mais estáveis (ex.: caixa em USD, títulos de curto prazo), o risco cambial pode ser a maior fonte de oscilação quando você mede em BRL.

Uma forma simples de enxergar é separar mentalmente em duas perguntas:

  • “Quanto meu ativo mudou em USD/EUR?”
  • “Quanto a moeda mudou contra o real?”

O resultado em BRL é a combinação das duas.

Hedge (proteção cambial): conceito, prós e contras

Hedge cambial é uma estratégia para reduzir (ou neutralizar) o impacto da variação do câmbio no seu retorno em reais. Conceitualmente, é como “travar” o câmbio futuro, total ou parcialmente, para que o resultado dependa mais do ativo e menos da moeda.

Como pensar no hedge sem entrar em instrumentos

Você pode imaginar dois cenários de medição:

  • Sem hedge: seu retorno em BRL varia com o ativo e com o câmbio.
  • Com hedge: você tenta fazer o retorno em BRL refletir principalmente o retorno do ativo (na moeda), reduzindo a influência do câmbio.

Prós do hedge

  • Redução de volatilidade em BRL: seu patrimônio oscila menos por causa do dólar/euro.
  • Mais previsibilidade para objetivos em reais (ex.: gastos planejados em BRL).
  • Clareza de performance do ativo: fica mais fácil avaliar se o investimento “foi bem” pelo que ele é, e não pelo câmbio.

Contras do hedge

  • Custo: proteger câmbio geralmente tem custo explícito (taxas/rolagem) ou implícito (diferença de preços), que reduz retorno esperado.
  • Você abre mão do “benefício” do câmbio: se o dólar subir, o hedge tende a neutralizar esse ganho em BRL.
  • Risco de desalinhamento: hedge pode não ser perfeito (prazo, tamanho, base), deixando resíduo de variação cambial.

Em termos práticos, hedge é uma troca: menos oscilação em BRL em troca de custo e potencialmente menos retorno em cenários favoráveis de câmbio.

Passo a passo: como registrar e acompanhar retornos em duas moedas (moeda do ativo e BRL)

Para não confundir performance, registre sempre em duas camadas: (1) moeda do ativo e (2) reais. Isso evita a armadilha de achar que “o investimento foi ruim” quando, na verdade, o ativo foi bem e o real valorizou (ou o contrário).

Passo 1 — Defina a “moeda base” de cada visão

  • Visão do ativo: moeda do investimento (USD/EUR etc.).
  • Visão do seu patrimônio: BRL (se seus gastos e metas são em reais).

Passo 2 — Registre o preço do ativo e o câmbio na data de compra

  • Quantidade comprada (ex.: 10 cotas).
  • Preço por unidade na moeda (ex.: USD 100).
  • Câmbio de referência (ex.: USD/BRL 5,00).

Com isso, você tem:

  • Custo na moeda: 10 × 100 = USD 1.000.
  • Custo em BRL: USD 1.000 × 5,00 = R$ 5.000 (separando taxas, se quiser mais precisão).

Passo 3 — Atualize periodicamente com dois números: preço e câmbio

Em cada data de acompanhamento, atualize:

  • Preço do ativo na moeda (ex.: USD 110).
  • Câmbio do dia (ex.: USD/BRL 4,50).

Então calcule:

  • Valor na moeda: 10 × 110 = USD 1.100.
  • Valor em BRL: USD 1.100 × 4,50 = R$ 4.950.

Passo 4 — Separe “retorno do ativo” e “efeito câmbio”

Calcule dois retornos:

  • Retorno do ativo (na moeda): (Preço atual / Preço inicial) − 1.
  • Variação cambial: (Câmbio atual / Câmbio inicial) − 1.

E, se quiser o retorno total em BRL:

Retorno BRL = (1 + retorno_ativo_moeda) × (1 + variação_câmbio) − 1

Passo 5 — Controle aportes e resgates sem misturar moedas

  • Se você aportou mais dólares, registre como novo lote com seu câmbio de entrada.
  • Se você converteu BRL para USD em datas diferentes, cada conversão tem um câmbio distinto; isso muda seu “custo em BRL”.

Uma tabela simples ajuda a manter consistência:

DataEventoQtdPreço (USD)Câmbio (USD/BRL)Valor (USD)Valor (BRL)
01/03Compra101005,001.0005.000
01/06Atualização101104,501.1004.950

Passo 6 — Acompanhe dois indicadores de performance

  • Performance em moeda: responde “o ativo foi bom?”
  • Performance em BRL: responde “meu patrimônio em reais cresceu?”

Quando os dois divergem, normalmente o motivo é o câmbio. Esse acompanhamento em duas moedas reduz decisões precipitadas (por exemplo, vender um ativo bom em USD apenas porque o retorno em BRL ficou fraco por valorização do real).

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao avaliar o retorno em reais (BRL) de um investimento no exterior sem hedge, qual afirmação descreve corretamente como o câmbio influencia o resultado final?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Sem hedge, o retorno em BRL é a combinação do desempenho do ativo na moeda e da variação cambial. Se a moeda estrangeira cai contra o real, ela pode reduzir ou até anular ganhos do ativo quando medidos em reais.

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