Investimentos no Exterior para Iniciantes: acompanhamento de performance em reais vs. moeda estrangeira

Capítulo 8

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Acompanhar investimentos no exterior exige medir o que aconteceu em duas camadas: (1) a performance do ativo na moeda de origem (USD, EUR etc.) e (2) o efeito do câmbio quando você traduz o resultado para reais. Misturar essas duas coisas sem separar pode levar a diagnósticos errados (por exemplo, achar que o ETF “foi ótimo” quando, na verdade, o ativo ficou estável e o que subiu foi o dólar).

Três medidas diferentes de resultado (e por que você precisa das três)

1) Retorno do ativo na moeda de origem

É o retorno “puro” do investimento, medido no mercado onde ele é negociado. Ex.: um ETF global em USD que saiu de 100 para 110 USD teve retorno de 10% em USD (antes de impostos e custos).

2) Efeito do câmbio

É quanto a variação da taxa de câmbio (ex.: USD/BRL) alterou o valor do seu investimento quando convertido para reais. Se o dólar sobe, seu saldo em BRL aumenta mesmo que o ativo em USD não mude; se o dólar cai, acontece o contrário.

3) Retorno total em BRL

É o que importa para seus objetivos em reais: quanto seu patrimônio variou em BRL considerando ativo + câmbio (e, idealmente, proventos e aportes). Esse retorno é o que você usa para avaliar evolução do patrimônio e aderência ao plano.

Decomposição do retorno: separando investimento e câmbio

Uma forma prática de separar as contribuições é decompor o retorno total em BRL em duas partes: retorno do ativo (em moeda estrangeira) e retorno do câmbio.

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Definições:

  • R_ativo = (Preço final em FX / Preço inicial em FX) − 1
  • R_câmbio = (Câmbio final / Câmbio inicial) − 1
  • R_total_BRL = (Valor final em BRL / Valor inicial em BRL) − 1

Relação entre eles (aproximação exata quando você usa multiplicação):

1 + R_total_BRL = (1 + R_ativo) * (1 + R_câmbio)

Logo:

R_total_BRL = R_ativo + R_câmbio + (R_ativo * R_câmbio)

O termo R_ativo * R_câmbio é o “efeito de interação” (geralmente pequeno em variações moderadas, mas existe).

Exemplo numérico 1: ativo sobe e dólar sobe

Você compra um ativo a 100 USD quando o câmbio está 5,00 BRL/USD. Um tempo depois, o ativo vai para 110 USD e o câmbio vai para 5,50.

  • Valor inicial em BRL: 100 * 5,00 = 500 BRL
  • Valor final em BRL: 110 * 5,50 = 605 BRL
  • R_total_BRL = 605/500 − 1 = 21,0%
  • R_ativo = 110/100 − 1 = 10,0%
  • R_câmbio = 5,50/5,00 − 1 = 10,0%

Decompondo:

  • R_total_BRL = 10% + 10% + (10%*10%) = 21%

Leitura correta: metade do ganho veio do ativo (em USD) e metade do câmbio, com 1% de interação.

Exemplo numérico 2: ativo sobe, mas dólar cai

Mesmo ativo: 100 USD para 110 USD (+10%). Mas o câmbio cai de 5,00 para 4,50 (−10%).

  • Valor inicial: 100 * 5,00 = 500 BRL
  • Valor final: 110 * 4,50 = 495 BRL
  • R_total_BRL = 495/500 − 1 = −1,0%

Decompondo:

  • R_total_BRL = 10% + (−10%) + (10% * −10%) = 0% − 1% = −1%

Leitura correta: o investimento foi bom em USD, mas o câmbio anulou e ainda gerou leve perda em BRL.

Exemplo numérico 3: ativo cai, dólar sobe

Ativo: 100 USD para 90 USD (−10%). Câmbio: 5,00 para 5,50 (+10%).

  • Valor inicial: 500 BRL
  • Valor final: 90 * 5,50 = 495 BRL
  • R_total_BRL = −1%

Leitura correta: o câmbio “segurou” a queda do ativo, mas não significa que o ativo foi bem.

Passo a passo prático: como calcular e registrar a decomposição

Passo 1: escolha o “ponto de partida” e o “ponto de chegada”

Para evitar ruído, use datas consistentes (ex.: fim do mês). Você precisa de:

  • Preço do ativo na moeda de origem (ex.: cotação do ETF em USD)
  • Câmbio na mesma data (ex.: USD/BRL)

Passo 2: calcule os três retornos

  • R_ativo = (Preço_final_FX / Preço_inicial_FX) − 1
  • R_câmbio = (Câmbio_final / Câmbio_inicial) − 1
  • R_total_BRL = (Preço_final_FX*Câmbio_final) / (Preço_inicial_FX*Câmbio_inicial) − 1

Passo 3: atribua contribuições

Você pode reportar:

  • Contribuição do ativo: R_ativo
  • Contribuição do câmbio: R_câmbio
  • Interação: R_ativo * R_câmbio

Em relatórios simples, muitas pessoas mostram apenas “ativo” e “câmbio” e mencionam que há uma pequena interação. Em relatórios mais rigorosos, inclua o termo de interação.

Passo 4: inclua proventos (dividendos/juros) de forma consistente

Se o ativo paga dividendos/juros, o retorno do ativo deve ser medido como retorno total (preço + proventos). Na prática, você tem duas opções:

  • Usar um índice/benchmark total return (quando existir) para comparar
  • Somar proventos recebidos ao valor final (na moeda de recebimento) e depois converter

Exemplo simples (sem reinvestimento): se você recebeu 1 USD de dividendo por cota no período, trate como se o “preço final ajustado” fosse Preço_final + 1 na moeda de origem antes de converter.

Benchmark coerente: como escolher e como converter

O que é um benchmark coerente

Benchmark é uma referência que representa o “mercado” ou a “estratégia” que você está tentando capturar. Para investimentos globais, um benchmark coerente precisa alinhar:

  • Universo (global, EUA, emergentes, setor etc.)
  • Classe de ativo (ações, bonds, imobiliário etc.)
  • Moeda de cotação e forma de conversão para BRL
  • Com/sem proventos (price return vs total return)

Exemplo: ETF global em USD e benchmark em BRL

Se você investe em um ETF global de ações cotado em USD, um caminho comum é:

  • Benchmark primário: índice global em USD (idealmente total return)
  • Para comparar com sua realidade em reais: converter o benchmark para BRL usando o mesmo câmbio do período

Na prática, você cria um “benchmark em BRL” assim:

Índice_BRL = Índice_USD * (USD/BRL)

E então calcula o retorno do índice em BRL entre duas datas, do mesmo jeito que fez para o ativo.

Como evitar comparações inadequadas (e o que fazer no lugar)

Algumas comparações são comuns, mas enganosas quando feitas sem contexto:

  • Comparar um ETF global de ações com CDI como se fossem substitutos diretos. CDI é referência de juros locais de baixo risco; ações globais têm risco e volatilidade muito maiores.
  • Comparar retorno em BRL do investimento com retorno em USD do benchmark (moedas diferentes).
  • Comparar um produto com proventos reinvestidos contra outro sem reinvestimento (métrica diferente).

Alternativas melhores:

  • Use dois painéis: (1) comparação em moeda de origem (ativo vs índice em USD) e (2) comparação em BRL (ativo convertido vs índice convertido).
  • Se quiser colocar CDI na conversa, use como referência de custo de oportunidade em BRL, deixando explícito: “CDI é o piso local de baixo risco; aqui estou comparando um ativo de risco com um piso de juros”.
  • Compare risco junto do retorno: volatilidade e perdas máximas (drawdown), não só rentabilidade.

Rotina prática de acompanhamento (sem foco no dia a dia)

Periodicidade recomendada

  • Mensal: suficiente para a maioria dos iniciantes (reduz ruído e ansiedade).
  • Trimestral: bom para quem faz poucos aportes e quer ainda menos variação de curto prazo.
  • Semanal/diário: geralmente adiciona ruído; use apenas se houver necessidade operacional (ex.: rebalanceamentos muito específicos), não como rotina emocional.

O que registrar todo mês (checklist)

  • Posição: quantidade de cotas/ações por ativo.
  • Preço do ativo na moeda de origem na data de referência.
  • Câmbio na data de referência.
  • Valor em FX e valor em BRL (posição * preço * câmbio).
  • Aportes e retiradas do período (em BRL e, se aplicável, em FX).
  • Proventos recebidos (valor, moeda, data) e se foram reinvestidos.
  • Preço médio (na moeda de origem e/ou em BRL), deixando claro o critério usado.

Como lidar com aportes: retorno ponderado vs evolução do patrimônio

Quando você aporta ao longo do tempo, a variação do patrimônio mistura resultado com dinheiro novo. Para acompanhar corretamente, separe:

  • Evolução do patrimônio: quanto você tem hoje (inclui aportes).
  • Performance: quanto o que estava investido rendeu, sem confundir com aportes.

Uma abordagem prática para iniciantes é manter duas visões:

  • Visão de patrimônio: saldo final em BRL e em FX.
  • Visão de performance por período: calcule retornos mensais do ativo (em FX e em BRL) e acompanhe a série.

Se você quiser uma métrica de performance da carteira com aportes, use uma metodologia de retorno ponderado no tempo (TWR). Em planilha, uma forma simples é calcular o retorno de cada mês sobre o capital do início do mês e encadear os retornos (multiplicando 1+R), tratando aportes como fluxo.

Preço médio: como usar sem se enganar

Preço médio ajuda a entender seu custo de aquisição, mas não deve virar “meta” (ex.: tentar baixar preço médio a qualquer custo). Boas práticas:

  • Mantenha preço médio na moeda do ativo (ex.: USD) para avaliar a compra em relação ao mercado.
  • Mantenha também uma visão em BRL se seu orçamento é em reais, mas sabendo que isso mistura câmbio.
  • Ao analisar decisões, pergunte: “Estou comprando porque o ativo está atrativo em USD ou porque o dólar caiu/subiu?”

Dividendos/juros: registro e leitura

Registre proventos com estes campos:

  • Data de pagamento
  • Valor por cota/ação e valor total
  • Moeda
  • Destino: reinvestido, mantido em caixa, convertido para BRL

Para comparar com benchmark, prefira métricas de retorno total. Se você olhar apenas preço, pode achar que “andou de lado” quando, na verdade, parte do retorno veio de proventos.

Avaliação de risco no acompanhamento: volatilidade e perdas máximas

Volatilidade (noção prática)

Volatilidade é o quanto o retorno oscila. Para acompanhamento, use retornos mensais (em BRL e/ou em FX) e observe:

  • Meses típicos de alta/queda
  • Amplitude das variações
  • Se a oscilação está alinhada com o que você tolera

Uma medida simples em planilha é o desvio padrão dos retornos mensais. Você pode manter duas volatilidades:

  • Volatilidade em FX: risco do ativo “puro”.
  • Volatilidade em BRL: risco que você sente no patrimônio em reais (ativo + câmbio).

Perda máxima (drawdown)

Drawdown é a maior queda do pico até o fundo em um período. É útil porque traduz risco em “dor máxima” observada.

Passo a passo (mensal):

  • Calcule o valor da carteira em BRL a cada mês.
  • Calcule o maior valor histórico até aquele mês (pico).
  • Drawdown do mês = (valor atual / pico) − 1.
  • A perda máxima é o menor drawdown observado (mais negativo).

Faça isso também em FX se quiser separar o quanto do drawdown veio do ativo vs câmbio.

Modelo de tabela para sua planilha de acompanhamento

MêsQtdPreço (FX)CâmbioValor (FX)Valor (BRL)Aporte (BRL)Proventos (FX)R_ativo (FX)R_câmbioR_total (BRL)Drawdown (BRL)
2026-01101005,001000500000---0%
2026-02101105,50110060500010%10%21%0%

Observação: se houver aportes no mês, registre-os e evite interpretar a variação do valor em BRL como “retorno” sem ajustar pelos fluxos. Para retorno do período, use a variação de preço (em FX) e a variação do câmbio, e acompanhe a série mensal.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao avaliar a evolução de um investimento no exterior em reais, qual abordagem evita diagnósticos errados sobre o que realmente gerou o resultado?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O retorno em BRL mistura duas fontes: a variação do ativo na moeda de origem e a variação do câmbio. Separar essas camadas evita concluir que o ativo foi bem quando, na verdade, o ganho veio principalmente do câmbio (ou o contrário).

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