Intoxicações e envenenamentos em bebês e crianças: o que fazer nos primeiros minutos

Capítulo 10

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

O que são intoxicações e envenenamentos (e por que os primeiros minutos importam)

Intoxicação (ou envenenamento) acontece quando uma substância entra no corpo em quantidade capaz de causar dano. Em bebês e crianças, isso pode ocorrer por ingestão (engolir), inalação (respirar gases/vapores), contato com pele/olhos ou, mais raramente, por absorção através da pele. Como o corpo é menor e o metabolismo é diferente, pequenas quantidades podem causar sintomas importantes em pouco tempo.

Nos primeiros minutos, a prioridade é interromper a exposição com segurança, evitar medidas que pioram o quadro (como provocar vômito) e reunir informações para orientar o serviço de saúde.

Conduta imediata segura: o que fazer assim que perceber

1) Pare a exposição e proteja quem ajuda

  • Afaste a criança da substância (tire da boca/mãos, retire do local, interrompa o contato).
  • Proteja-se: se houver líquido corrosivo, pó, spray ou vapores, evite tocar diretamente; use luvas se tiver e lave as mãos após.
  • Não deixe a criança sozinha e mantenha-a em local seguro, longe do produto.

2) Identifique a via de exposição e aplique a medida correta

Use o passo a passo abaixo conforme o tipo de contato.

Se foi por ingestão (engoliu ou colocou na boca)

  • Retire o que ainda estiver na boca com cuidado (sem “varrer” profundamente).
  • Enxágue a boca com pequena quantidade de água (bochechar e cuspir se a criança conseguir; em bebês, limpe a boca com pano úmido).
  • Não provoque vômito e não ofereça alimentos, leite, sucos ou “antídotos caseiros” sem orientação profissional.
  • Guarde a embalagem/rótulo (ou tire foto) e separe o que restou do produto.

Se foi por inalação (gases, fumaça, vapores: ex. monóxido de carbono, solventes, sprays)

  • Leve imediatamente para ar fresco (fora do ambiente contaminado).
  • Ventile o local abrindo portas e janelas, se isso puder ser feito com segurança.
  • Não permaneça no ambiente tentando “resolver” a fonte do gás se houver risco (especialmente em suspeita de monóxido de carbono).

Se foi por contato com pele

  • Retire roupas/objetos contaminados (cuidado para não espalhar o produto em outras áreas).
  • Lave a pele com água corrente em abundância e sabão neutro, por vários minutos.
  • Não use vinagre, bicarbonato, álcool ou outros produtos para “neutralizar”. Misturas podem piorar a lesão.

Se foi por contato com olhos

  • Lave imediatamente com água corrente (ou soro fisiológico) por 10–20 minutos, mantendo o olho aberto o máximo possível.
  • Não pingue colírios/medicamentos sem orientação.

3) Acione orientação profissional e prepare as informações

Após interromper a exposição, busque orientação do serviço de saúde/centro de informação toxicológica da sua região. Tenha em mãos as informações abaixo (isso acelera decisões e evita erros).

  • Substância: nome comercial e princípio ativo (se houver), concentração, forma (líquido, comprimido, gel, spray).
  • Quantidade provável: quanto faltou no frasco, número de comprimidos, “um gole”, “uma lambida”, “uma colher”, etc.
  • Horário: quando aconteceu e se houve repetição.
  • Sintomas atuais: vômitos, tosse, sonolência, irritação, dor, salivação, falta de ar, etc.
  • Idade e peso da criança (ou peso aproximado).
  • Via de exposição: ingeriu, inalou, pele, olhos.
  • Medidas já feitas: enxágue, lavagem, ventilação, etc.

Leve a embalagem/rótulo ao atendimento (ou fotos nítidas da frente e do verso). Se houver planta envolvida, leve uma foto da planta (sem atrasar o deslocamento).

Continue em nosso aplicativo e ...
  • Ouça o áudio com a tela desligada
  • Ganhe Certificado após a conclusão
  • + de 5000 cursos para você explorar!
ou continue lendo abaixo...
Download App

Baixar o aplicativo

Sinais de gravidade em intoxicações: procure atendimento imediato

Alguns achados sugerem intoxicação importante e exigem avaliação urgente. Procure atendimento imediato se houver:

  • Sonolência intensa, dificuldade para acordar, confusão ou comportamento muito diferente do habitual.
  • Queimadura em boca/lábios, dor intensa ao engolir, voz rouca após ingestão de produto químico.
  • Salivação excessiva (babação fora do comum) ou dificuldade para engolir.
  • Convulsão ou tremores intensos.
  • Dificuldade respiratória, chiado, tosse persistente, respiração rápida, lábios arroxeados.
  • Vômitos repetidos ou vômito com sangue.
  • Dor forte no peito ou no abdome.
  • Exposição a monóxido de carbono (especialmente se mais de uma pessoa no local estiver com sintomas).

Mesmo sem sinais de gravidade, toda suspeita de ingestão de medicamento ou produto químico merece orientação profissional, porque alguns efeitos são tardios.

O que NÃO fazer (erros comuns que pioram)

  • Não provocar vômito: aumenta o risco de aspiração para o pulmão e pode causar nova queimadura no esôfago em produtos corrosivos.
  • Não oferecer leite, óleo, limão, vinagre, carvão “caseiro”, chás ou “neutralizantes”.
  • Não dar remédios para “cortar efeito” (antiemético, antialérgico, analgésico) sem orientação.
  • Não esperar aparecer sintoma para buscar orientação em casos de ingestão de substâncias potencialmente perigosas.
  • Não misturar produtos de limpeza para tentar “diluir” ou “tirar cheiro” do ambiente.

Cenários comuns e como agir nos primeiros minutos

1) Medicamentos (analgésicos, antitérmicos, antidepressivos, remédios de pressão, vitaminas)

Medicamentos são uma das causas mais frequentes de intoxicação acidental. Alguns comprimidos “coloridos” parecem doces.

  • Conduta imediata: retire o que estiver na boca, enxágue a boca, não dê comida ou líquidos sem orientação.
  • Separe: cartela/frascos, bula e quantidade restante.
  • Detalhe importante: anote o nome exato e a dosagem (ex.: “500 mg”).

Exemplo prático: você encontra a criança com uma cartela aberta e não sabe quantos comprimidos foram ingeridos. Conte quantos ainda estão na cartela e compare com a quantidade original (se souber). Se não souber, informe “quantidade desconhecida” e leve a cartela.

2) Produtos de limpeza (água sanitária, desinfetantes, detergentes, removedores, soda cáustica)

Alguns são corrosivos e podem causar queimaduras em boca, garganta, esôfago e pele. Outros liberam vapores irritantes.

  • Se ingeriu: não provoque vômito; enxágue a boca; não ofereça nada sem orientação.
  • Se derramou na pele: retirar roupas contaminadas e lavar com água corrente abundante.
  • Se inalou vapores: levar para ar fresco e ventilar o ambiente.

Atenção: sinais como dor ao engolir, babação e lesões na boca sugerem corrosivo e exigem avaliação urgente.

3) Cosméticos e produtos de higiene (perfume, removedor de esmalte/acetona, creme, shampoo, álcool em gel)

Podem causar irritação gastrointestinal e, em alguns casos, sonolência ou irritação respiratória (principalmente sprays e removedores).

  • Conduta imediata: retirar da boca, enxaguar, não oferecer alimentos/líquidos sem orientação.
  • Se contato com olhos/pele: lavar com água corrente.
  • Se inalou spray: ar fresco e observar tosse/chiado.

4) Plantas (folhas, sementes, frutos) e cogumelos

Algumas plantas ornamentais e cogumelos podem ser tóxicos. A identificação correta é difícil, então a conduta deve ser cautelosa.

  • Retire restos da boca e enxágue.
  • Guarde uma amostra (ou tire fotos nítidas da planta: folha, caule, flor/fruto) para ajudar na identificação.
  • Não ofereça “antídotos” e não espere sintomas para buscar orientação se a planta for desconhecida.

5) Álcool (bebidas alcoólicas, enxaguantes bucais, perfumes, produtos com álcool)

Em crianças pequenas, o álcool pode causar sonolência, queda de açúcar no sangue e problemas respiratórios.

  • Conduta imediata: interromper ingestão, enxaguar a boca, não oferecer alimentos/líquidos sem orientação.
  • Observe: sonolência fora do comum, vômitos, palidez, suor frio.

6) Monóxido de carbono (CO): aquecedores, fogões, churrasqueiras, geradores, carro em garagem

O monóxido de carbono é um gás sem cor e sem cheiro que pode causar intoxicação grave rapidamente, especialmente em ambientes fechados.

  • Saia imediatamente para ar livre com a criança (e com você).
  • Não tente “investigar” por muito tempo dentro do local.
  • Se houver várias pessoas com dor de cabeça, tontura, náusea ou sonolência, pense em CO e trate como emergência.

Informações úteis: fonte provável (aquecedor/gerador), tempo de exposição, se havia ventilação, sintomas em outras pessoas.

7) Ingestão acidental de substâncias desconhecidas

Quando não dá para saber o que foi ingerido, a estratégia é reduzir riscos e coletar pistas.

  • Procure no ambiente frascos abertos, comprimidos no chão, plantas mordidas, cheiro em roupas/mãos.
  • Não faça testes (não cheire profundamente frascos, não prove).
  • Guarde tudo que possa ajudar: embalagens, pedaços, fotos.

Checklist rápido para ter ao lado do telefone

O que informarExemplos
SubstânciaNome do produto, princípio ativo, concentração
Quantidade“2 comprimidos”, “um gole”, “quantidade desconhecida”
Horário“há 10 minutos”, “por volta de 14:30”
ViaIngestão, inalação, pele, olhos
SintomasSonolência, vômitos, tosse, babação, falta de ar
Idade e peso“2 anos, 12 kg” (ou estimativa)
Medidas feitasLavou pele, enxaguou boca, levou para ar fresco

Prevenção prática (para reduzir o risco em casa e em passeios)

  • Armazenamento alto e trancado: medicamentos, limpeza, cosméticos e álcool fora do alcance e com trava.
  • Embalagem original e rótulo legível: não transfira produtos para garrafas de água/refrigerante.
  • Travas de segurança em armários e gavetas; atenção a bolsas de visitantes (remédios na bolsa são comuns).
  • Uso supervisionado: nunca deixe produtos abertos durante a limpeza; feche imediatamente após usar.
  • Separação: medicamentos não devem ficar junto de doces/vitaminas mastigáveis.
  • Ventilação e manutenção: revise aquecedores/instalações a gás; não use churrasqueiras/geradores em locais fechados; instale detector de monóxido de carbono quando aplicável.
  • Plantas: identifique plantas de casa/quintal; mantenha as desconhecidas fora do alcance e evite incentivar a criança a “provar” folhas/frutos.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao perceber que uma criança pode ter ingerido um produto potencialmente tóxico, qual conduta inicial é mais segura nos primeiros minutos?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Nos primeiros minutos, a prioridade é interromper a exposição, fazer enxágue simples quando indicado e evitar medidas que pioram (como provocar vômito ou dar leite/alimentos). Guardar rótulo/embalagem e buscar orientação profissional ajuda na conduta correta.

Próximo capitúlo

Emergências respiratórias comuns: broncoespasmo, crupe e obstrução parcial

Arrow Right Icon
Capa do Ebook gratuito Primeiros Socorros para Crianças e Bebês: cuidados imediatos e sinais de alerta
83%

Primeiros Socorros para Crianças e Bebês: cuidados imediatos e sinais de alerta

Novo curso

12 páginas

Baixe o app para ganhar Certificação grátis e ouvir os cursos em background, mesmo com a tela desligada.