Interpretação de Texto em propaganda: intenção, público-alvo e recursos multimodais

Capítulo 13

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

O que torna a propaganda um texto “especial” para interpretar

Propaganda (anúncio publicitário, campanha institucional, peça de marketing) é um tipo de texto construído para produzir uma ação no leitor: comprar, clicar, assinar, votar, doar, mudar um hábito, aderir a uma ideia. Por isso, ela costuma combinar linguagem verbal (palavras), visual (imagem, cor, tipografia, layout) e, muitas vezes, sonora (trilha, voz, efeitos). Interpretar propaganda exige ler o que aparece e também entender como a peça organiza a atenção e como tenta orientar a decisão.

Três perguntas guiam a leitura: qual é a intenção (objetivo comunicativo), para quem (público-alvo) e como (recursos multimodais e escolhas linguísticas) a peça tenta convencer.

Elementos essenciais: intenção, público-alvo, promessa e chamada para ação

1) Intenção (objetivo comunicativo)

O objetivo pode ser direto (vender um produto) ou indireto (melhorar reputação, gerar lembrança de marca, mudar percepção). Identifique o verbo implícito por trás do anúncio: “compre”, “experimente”, “confie”, “mude”, “apoie”, “não faça”.

  • Venda imediata: foco em preço, urgência, condições (“só hoje”, “últimas unidades”).
  • Posicionamento: foco em valores e identidade (“para quem se importa”, “feito para você”).
  • Educação/consciência: foco em comportamento (“use cinto”, “vacine-se”).

2) Público-alvo

O público-alvo é sugerido por pistas: vocabulário, referências culturais, cenário, idade aparente dos personagens, estilo visual, problemas que o texto assume como relevantes. A peça “fala” com alguém específico e, ao mesmo tempo, pode excluir outros leitores.

  • Pistas linguísticas: gírias, formalidade, termos técnicos, tratamento (“você”, “senhor(a)”, “a gente”).
  • Pistas visuais: ambientes (academia, escritório, casa), objetos (celular premium, carrinho de bebê), estética (minimalista, colorida, retrô).
  • Pistas de dor/desejo: “cansaço”, “falta de tempo”, “segurança”, “status”, “economia”.

3) Promessa (benefício central)

A promessa é o ganho que o anúncio oferece: resolver um problema, reduzir esforço, aumentar prazer, elevar status, trazer segurança. Ela pode ser explícita (“economize 30%”) ou construída por associação (imagem de família feliz sugere “harmonia”, mesmo sem dizer).

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Uma forma prática de localizar a promessa é completar: “Se eu aceitar esta oferta, eu ganho ________.”

4) Chamada para ação (CTA)

É o comando que orienta o próximo passo: “compre agora”, “saiba mais”, “baixe o app”, “agende”, “cadastre-se”. A CTA pode estar em botão, link, QR code, ou em imperativos no texto.

Nem toda propaganda tem CTA explícita; em campanhas de imagem, a ação esperada pode ser “lembrar” ou “mudar atitude”, e a CTA aparece como convite indireto (“repense”, “escolha melhor”).

Linguagem conativa: como o texto tenta dirigir o leitor

A função conativa (apelativa) aparece quando o texto se volta ao destinatário para influenciar sua decisão. Sinais comuns:

  • Imperativos: “experimente”, “descubra”, “garanta”, “evite”.
  • Vocativos: “você”, “mãe”, “profissional”, “time”, “brasileiros”.
  • Perguntas direcionadoras: “cansado de…?”, “já imaginou…?”
  • Promessas e garantias: “sem juros”, “sem complicação”, “resultado em X dias”.
  • Urgência/escassez: “por tempo limitado”, “últimas vagas”.

Ao interpretar, observe se o anúncio cria um “roteiro mental”: primeiro aponta um problema, depois oferece solução, e por fim empurra para a ação.

Slogans: o que eles fazem e como ler com cuidado

Slogan é uma frase curta, memorável, que tenta condensar identidade e promessa. Ele costuma usar recursos de som e ritmo (aliteração, rima), paralelismo e palavras de alto valor afetivo (“liberdade”, “confiança”, “você merece”).

Checklist de leitura de slogan

  • O que ele afirma? (qualidade, valor, estilo de vida)
  • O que ele deixa vago? (como, em que condições, para quem exatamente)
  • Que emoção ele ativa? (orgulho, medo, desejo, pertencimento)
  • Ele descreve um fato ou uma identidade? (muitas vezes é identidade: “ser X é ser Y”)

Exemplo: “O futuro é agora.” A frase sugere inovação e urgência, mas não especifica qual futuro, qual tecnologia, nem quais limites. A força está na sensação de modernidade.

Recursos multimodais: como imagem, cor e layout persuadem

1) Cores

Cores funcionam como atalhos de sentido. Não existe um “significado universal” rígido, mas há usos recorrentes:

  • Vermelho: urgência, energia, promoção, alerta.
  • Azul: confiança, estabilidade, tecnologia, “seriedade”.
  • Verde: natureza, saúde, sustentabilidade, “leveza”.
  • Preto/dourado: luxo, exclusividade, alto valor.

Na interpretação, pergunte: a cor reforça qual promessa? Ela combina com o público-alvo? Ela cria contraste para destacar a CTA?

2) Imagens

A imagem pode funcionar como “prova”, “exemplo” ou “metáfora”. Em propaganda, é comum a imagem sugerir resultados (corpo definido, casa organizada, sorriso, tranquilidade) sem explicar o caminho para chegar lá.

  • Imagem como prova: antes/depois, selo, demonstração do produto.
  • Imagem como estilo de vida: pessoas e cenários que representam “quem você será”.
  • Imagem como metáfora: velocidade representada por linhas, leveza por nuvens, segurança por escudos.

3) Hierarquia visual

Hierarquia é a ordem em que você “é levado” a ver as informações. Geralmente: imagem principal → slogan → benefício → preço → CTA → letras pequenas.

Um passo prático: descreva o caminho do seu olhar em 5 segundos. O que aparece primeiro tende a ser o argumento central; o que fica pequeno tende a ser condição, restrição ou detalhe que não deve “atrapalhar” a decisão.

4) Tipografia e destaque

Fonte grande e grossa sugere certeza e importância; fonte pequena sugere detalhe. Aspas, asteriscos e notas podem indicar condições (“*consulte regulamento”). Interpretar também é perceber o que foi “empurrado” para o rodapé.

Escolhas lexicais: palavras que vendem (e como elas podem enganar)

Propaganda usa palavras com alto poder de persuasão e baixa precisão. Elas criam sensação positiva sem compromisso verificável.

Expressão comumO que sugerePergunta crítica
“Natural”Saudável, simplesNatural em que sentido? Ingredientes? Processo?
“Premium”Qualidade superiorSuperior a quê? Qual critério?
“Até X%”Grande economiaQuantos casos chegam a X%? Qual é o valor típico?
“Sem taxas”TransparênciaSem quais taxas? Há outras cobranças?
“Resultados em X dias”RapidezPara quem? Em quais condições? Com que esforço?

Leitura crítica: o que é dito, o que é sugerido, valores acionados e ausências

Uma propaganda raramente mente de forma direta; ela costuma selecionar informações, enquadrar o problema e direcionar a interpretação. Use quatro lentes:

Lente 1 — O que é dito (mensagem explícita da peça)

  • Qual é a oferta?
  • Qual é o benefício declarado?
  • Qual é a ação solicitada?

Lente 2 — O que é sugerido (associações e implicações)

  • Que tipo de pessoa “usa” isso na peça?
  • Que vida é mostrada como consequência?
  • Que emoções a peça tenta provocar?

Lente 3 — Quais valores são acionados

  • Status: exclusividade, luxo, “ser reconhecido”.
  • Segurança: proteção, garantia, controle.
  • Pertencimento: comunidade, “todo mundo usa”, tendência.
  • Autonomia: liberdade, praticidade, “você no comando”.
  • Responsabilidade: sustentabilidade, cuidado, ética.

Lente 4 — O que está ausente (o que a peça não quer que você pergunte)

  • Condições para o preço/benefício (prazo, estoque, requisitos).
  • Riscos, efeitos colaterais, limitações de uso.
  • Comparações reais com concorrentes (critérios, testes).
  • Custos indiretos (assinatura, manutenção, taxas).

Passo a passo prático para analisar uma peça publicitária

Passo 1 — Identifique o “núcleo persuasivo” em uma frase

Escreva: “Este anúncio quer que eu ______ porque ______.”

Passo 2 — Separe promessa, prova e apelo

  • Promessa: o que você ganha.
  • Prova: como o anúncio tenta sustentar a promessa (dados, depoimentos, selos, demonstração, “antes/depois”).
  • Apelo: emoção/valor usado para acelerar a adesão (medo, desejo, pertencimento, status).

Passo 3 — Mapeie a hierarquia visual

  • O que ocupa mais espaço?
  • O que está em destaque (cor, tamanho, posição)?
  • O que está em letras pequenas?

Passo 4 — Localize a CTA e o caminho até ela

Onde está o comando? Ele vem depois de quais argumentos? A peça cria urgência (tempo, escassez) antes da CTA?

Passo 5 — Faça 3 perguntas de checagem

  • Comparação: “melhor” em relação a quê?
  • Condição: em quais situações a promessa vale?
  • Fonte: quem afirma? há evidência verificável?

Inferência e ambiguidade intencional em propaganda

Propaganda frequentemente usa frases que permitem mais de uma leitura, porque isso amplia o público e reduz compromisso. A ambiguidade pode ser:

  • Vaguidade: termos amplos (“mais”, “melhor”, “inteligente”, “completo”).
  • Duplo sentido: trocadilhos e slogans que funcionam em dois níveis.
  • Generalização: “todo mundo”, “o Brasil escolhe”, “o mais vendido”.

Estratégia de leitura: reescreva a frase de modo preciso, como se fosse um contrato. O que você precisaria definir para ela ser verificável?

Frase do anúncio: “Mais performance para o seu dia.”  Reescrita precisa: “O produto X reduz o tempo de tarefa Y em Z% em condições W.”

Exercícios de leitura crítica (com gabarito orientativo)

Exercício 1 — Anúncio de internet residencial

Peça (descrição): Fundo azul. Foto de uma família sorrindo usando notebook e TV ao mesmo tempo. Texto grande: “Wi-Fi que não te deixa na mão.” Abaixo: “Até 600 mega.” Botão: “Assine já.” No rodapé, em letras pequenas: “Consulte disponibilidade. Valores promocionais por 3 meses.”

  • a) O que é dito?
  • b) O que é sugerido?
  • c) Quais valores são acionados?
  • d) Quais informações estão ausentes?

Gabarito orientativo:

  • a) Promessa de estabilidade (“não te deixa na mão”), velocidade “até 600 mega”, CTA “assine já”.
  • b) Sugere vida familiar sem estresse e conexão confiável para múltiplos usos simultâneos.
  • c) Segurança/controle (internet estável), pertencimento (família conectada), praticidade.
  • d) “Até 600” não garante velocidade mínima; não informa upload, franquia, latência, roteador incluso, fidelidade, preço após 3 meses, taxa de instalação, disponibilidade real por região.

Exercício 2 — Cosmético/beleza

Peça (descrição): Foto em close de pele iluminada. Texto: “Pele perfeita em 7 dias.” Subtexto: “Tecnologia avançada com ativos naturais.” Selo: “Dermatologicamente testado.” CTA: “Experimente.”

  • a) Identifique promessa, prova e apelo.
  • b) Onde há ambiguidade/vaguidade?
  • c) Que perguntas críticas você faria antes de acreditar?

Gabarito orientativo:

  • a) Promessa: “pele perfeita em 7 dias”. Prova: “dermatologicamente testado” (sem detalhes do teste). Apelo: ideal de beleza/perfeição + rapidez.
  • b) “Perfeita” é subjetivo; “tecnologia avançada” e “ativos naturais” são vagos; “testado” não informa resultados, amostra, método.
  • c) Perfeita para quem? Quais métricas (hidratação, manchas, acne)? Em 7 dias com qual uso? Há contraindicações? O teste avaliou segurança ou eficácia? Há fotos padronizadas, estudo, comparação?

Exercício 3 — Campanha institucional (sustentabilidade)

Peça (descrição): Imagem de floresta e uma mão plantando muda. Texto: “Compromisso com o planeta.” Subtexto: “Juntos por um amanhã melhor.” Logo da empresa. Sem números, sem metas, sem CTA clara.

  • a) Qual é a intenção provável?
  • b) O que é sugerido sobre a empresa?
  • c) O que está ausente e por que isso importa?

Gabarito orientativo:

  • a) Posicionamento/reputação (associar marca a responsabilidade ambiental).
  • b) Sugere que a empresa age de forma sustentável e merece confiança/admiração.
  • c) Ausência de metas, ações concretas, indicadores, prazos, auditoria, resultados. Importa porque sem critérios verificáveis a mensagem pode ser apenas associação positiva (imagem/valor) sem compromisso mensurável.

Mini-roteiro de análise para qualquer propaganda (use como modelo)

  • Intenção: ________
  • Público-alvo (pistas): ________
  • Promessa central: ________
  • CTA: ________
  • Argumentos (racionais): ________
  • Apelos (emocionais/valores): ________
  • Recursos multimodais (cor, imagem, layout): ________
  • Ambiguidades/vaguidões: ________
  • Ausências relevantes: ________

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao analisar uma propaganda com a frase “Até 600 mega”, qual leitura crítica é mais adequada para não interpretar a promessa como garantia absoluta?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Expressões como “ate9 X” sugerem vantagem, mas ne3o garantem o valor em todos os casos. A leitura credtica busca as condie7f5es e auseancias (disponibilidade, limites e restrie7f5es) antes de aceitar a promessa.

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