Interpretação de Texto em artigos de opinião: tese, argumentos e estratégias persuasivas

Capítulo 11

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

O que caracteriza um artigo de opinião

Em artigos de opinião, o autor não apenas informa: ele defende um ponto de vista sobre um tema controverso e tenta obter adesão do leitor. Por isso, o texto costuma organizar-se em torno de uma tese (posição central), sustentada por argumentos (razões), evidências (provas, exemplos, dados) e, muitas vezes, pelo enfrentamento de contra-argumentos (objeções previstas).

Na interpretação, o foco é responder com precisão: o que o autor está defendendo, como ele sustenta e o que o texto permite concluir (sem extrapolar).

Elementos essenciais: tese, argumentos, exemplos e contra-argumentos

Tese (o que o autor quer que você aceite)

A tese é a afirmação principal que organiza o texto. Em geral, aparece no início (apresentação), mas pode surgir após uma contextualização ou ser retomada no fim como reforço.

  • Como reconhecer: procure frases com tom assertivo e generalizante, que respondem “qual posição o autor defende?”
  • Pistas linguísticas: “defendo que…”, “é necessário…”, “deveríamos…”, “não faz sentido…”, “o melhor caminho é…”.

Argumentos (por que a tese seria verdadeira/justa)

Argumentos são razões que sustentam a tese. Um mesmo texto pode combinar tipos diferentes.

Tipo de argumentoComo apareceO que observar na interpretação
Causal (causa e efeito)“Se X, então Y”; “isso leva a…”Se a relação é apresentada como certa ou provável; se há evidência
Pragmático (consequências)“trará benefícios”; “evita prejuízos”Quais consequências são valorizadas e por quê
Comparativo/analógico“é como…”; “assim como…”Se a comparação é pertinente ou forçada
Definicional“por ‘X’ entende-se…”Se a definição já orienta a conclusão (viés)
De princípio/valor“é justo”; “é imoral”; “é um direito”Quais valores são assumidos como base

Evidências e exemplos (com o que o autor tenta provar)

Evidências são apoios concretos: dados, pesquisas, casos, leis, fatos verificáveis, relatos. Exemplos ilustram e tornam o argumento mais “visível” ao leitor, mas nem sempre provam.

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  • Cheque a função: o exemplo está ilustrando (tornando claro) ou está sendo usado como prova geral (generalização)?
  • Alerta comum: um caso isolado pode ser apresentado como se representasse o todo.

Contra-argumentos e refutação (o que o autor prevê e como responde)

Textos persuasivos frequentemente antecipam objeções para parecerem equilibrados e fortalecer a tese.

  • Contra-argumento: a objeção que poderia enfraquecer a tese (“Alguns dirão que…”).
  • Refutação: a resposta do autor (“No entanto…”, “Mas isso ignora…”).

Na interpretação, identifique se o autor refuta (derruba), concede parcialmente (aceita um ponto, mas mantém a tese) ou desvia (responde a algo diferente do que foi colocado).

Marcadores argumentativos: como eles organizam o raciocínio

Marcadores (conectores) sinalizam a direção do argumento. Em artigos de opinião, eles funcionam como “setas” para localizar tese, justificativas, contraste e conclusão.

MarcadorFunção típicaO que localizar
portanto, logo, assimConclusãoO que o autor quer que você aceite como resultado
contudo, porém, entretantoContraste/objeçãoContra-argumento, ressalva, limite
além disso, ademaisAdição/reforçoNovo argumento do mesmo lado
porque, já queJustificativaRazão dada para a tese ou para uma afirmação intermediária
por exemploExemplificaçãoIlustração/evidência usada
em suma, em sínteseFechamento argumentativoRetomada da tese e dos principais apoios

Prática rápida: quando encontrar “portanto”, sublinhe a frase seguinte e pergunte: “isso é uma conclusão do autor ou apenas um passo intermediário?” Em textos longos, há conclusões parciais.

Recursos de persuasão: como o texto tenta convencer

1) Autoridade (ethos)

O autor recorre a especialistas, instituições, leis, “consenso científico” ou à própria credibilidade.

  • Marcas: “segundo a OMS…”, “pesquisadores afirmam…”, “a lei X determina…”.
  • Leitura crítica: a autoridade é pertinente ao tema? é citada com precisão ou de modo vago (“especialistas dizem”)?

2) Dados e números (logos)

Estatísticas e percentuais dão aparência de objetividade.

  • Marcas: números, comparações (“dobrou”, “caiu 30%”), séries históricas.
  • Leitura crítica: o dado tem fonte? o recorte é explicado? há confusão entre correlação e causa?

3) Analogias e comparações

Analogias simplificam um problema por meio de um paralelo (“é como…”). Elas persuadem por familiaridade.

  • Leitura crítica: o que foi mantido igual na comparação e o que foi ignorado? a analogia prova ou apenas ilustra?

4) Apelos avaliativos e linguagem carregada (pathos)

Adjetivos e escolhas lexicais orientam a avaliação do leitor (“absurdo”, “inevitável”, “irresponsável”).

  • Leitura crítica: identifique termos que já “julguem” antes de argumentar. Pergunte: “se eu trocar por um termo neutro, o argumento se sustenta?”

Passo a passo prático para analisar um artigo de opinião

Passo 1 — Localize a tese em uma frase

  • Procure a posição defendida (o “dever ser”, o “é preciso”, o “é errado”).
  • Reescreva a tese em uma frase curta, sem exemplos e sem justificativas.

Passo 2 — Liste os argumentos (um por linha)

  • Para cada parágrafo, pergunte: “isso é razão, evidência, exemplo ou comentário?”
  • Transforme cada argumento em uma frase do tipo: “O autor sustenta a tese porque…”

Passo 3 — Separe evidências de ilustrações

  • Marque dados, fontes, casos concretos.
  • Classifique: prova (dado verificável) ou ilustração (exemplo que ajuda a imaginar).

Passo 4 — Identifique contra-argumentos e a resposta do autor

  • Busque “contudo/porém/entretanto”, “é verdade que… mas…”, “alguns afirmam…”.
  • Registre: qual objeção foi levantada e como o autor a neutraliza.

Passo 5 — Detecte pressupostos ideológicos (o que o texto trata como óbvio)

Pressupostos ideológicos são valores e crenças de base que orientam o que é considerado “bom”, “justo”, “eficiente”, “natural”.

  • Pergunte: que visão de sociedade, indivíduo, Estado, mercado, ciência, tradição ou mudança está por trás?
  • Localize palavras-chave valorativas: “mérito”, “liberdade”, “igualdade”, “ordem”, “progresso”, “segurança”, “direitos”.

Passo 6 — Faça inferências controladas (o que o texto permite concluir)

  • Conclua apenas o que decorre das premissas apresentadas.
  • Evite “completar” com opiniões pessoais. A pergunta é: “se eu aceitar as razões do autor, o que posso concluir?”

Modelo de análise comentada (preencha como roteiro)

Use o esquema abaixo para responder de forma organizada e comprovável.

1) Tese (em 1 frase): _______________________________________.  [trecho que comprova: “...”]
2) Como a tese é sustentada (argumentos principais):
   A1) _______________________________________. [marcador: porque/além disso/...] [trecho: “...”]
   A2) _______________________________________. [trecho: “...”]
   A3) _______________________________________. [trecho: “...”]
3) Evidências e exemplos:
   E1) Tipo: dado/pesquisa/caso/lei. Conteúdo: ____________. [fonte citada? sim/não] [trecho: “...”]
   E2) Tipo: analogia/exemplo. Função: ilustrar/provar. [trecho: “...”]
4) Contra-argumentos e refutação:
   C1) Objeção: _______________________________. [trecho: “...”]
   R1) Resposta do autor: ______________________. [trecho: “...”]
5) Pressupostos ideológicos (valores de base):
   P1) _______________________________________. [pista lexical: “...”]
6) Conclusões permitidas pelo texto (sem extrapolar):
   L1) _______________________________________.
   L2) _______________________________________.

Exemplo guiado (texto curto para treino)

Texto: “A cidade deveria ampliar ciclovias, porque isso reduz congestionamentos e melhora a saúde pública. Além disso, dados de capitais que investiram em mobilidade ativa indicam queda de acidentes em vias com infraestrutura adequada. Contudo, alguns afirmam que ciclovias ‘atrapalham o comércio’; na prática, ruas mais caminháveis aumentam o fluxo de pessoas e beneficiam lojas locais. Portanto, a expansão deve ser prioridade no próximo orçamento.”

Análise comentada do exemplo

  • Tese: “A cidade deveria ampliar ciclovias.”
  • Argumento 1 (causal/pragmático): “reduz congestionamentos e melhora a saúde pública.”
  • Argumento 2 (dados/autoridade implícita): “dados de capitais… indicam queda de acidentes…” (evidência apresentada como generalizável).
  • Contra-argumento: “ciclovias ‘atrapalham o comércio’”.
  • Refutação: “ruas mais caminháveis aumentam o fluxo… e beneficiam lojas”.
  • Conclusão sinalizada: “Portanto, a expansão deve ser prioridade…”
  • Pressuposto ideológico: prioriza mobilidade ativa como bem público (saúde/segurança) e assume que políticas urbanas devem maximizar bem-estar coletivo.

Exercícios de identificação (com gabarito)

Exercício 1 — Tese e argumentos

Trecho: “É necessário limitar o uso de celulares em sala de aula, pois a atenção dos alunos é fragmentada por notificações constantes. Além disso, quando o aparelho fica disponível, aumenta a tentação de copiar respostas prontas. Contudo, a tecnologia pode apoiar a aprendizagem; por isso, a regra deve prever momentos específicos de uso pedagógico.”

  • a) Qual é a tese?
  • b) Liste dois argumentos a favor.
  • c) Identifique o contra-argumento e a solução proposta.

Gabarito:

  • a) Tese: “É necessário limitar o uso de celulares em sala de aula.”
  • b) Argumentos: (1) “a atenção… é fragmentada”; (2) “aumenta a tentação de copiar respostas prontas”.
  • c) Contra-argumento: “a tecnologia pode apoiar a aprendizagem”; solução: “prever momentos específicos de uso pedagógico”.

Exercício 2 — Marcadores argumentativos

Trecho: “O transporte público precisa ser integrado; portanto, bilhetes únicos e horários coordenados são essenciais. Contudo, sem transparência nos contratos, o sistema tende a ficar caro. Além disso, a divulgação de indicadores de qualidade permite cobrança social.”

  • a) O que “portanto” introduz?
  • b) O que “contudo” sinaliza?
  • c) O que “além disso” adiciona?

Gabarito:

  • a) Uma conclusão/encaminhamento prático (“bilhetes únicos e horários coordenados…”).
  • b) Uma ressalva/objeção (“sem transparência… tende a ficar caro”).
  • c) Um reforço com novo argumento (“divulgação de indicadores… permite cobrança”).

Exercício 3 — Recursos de persuasão

Trecho: “Segundo pesquisadores da área, intervenções precoces reduzem custos futuros. Em um levantamento com milhares de atendimentos, observou-se queda significativa de complicações. Ignorar isso é uma irresponsabilidade.”

  • a) Onde há apelo à autoridade?
  • b) Onde há uso de dados?
  • c) Onde há apelo avaliativo?

Gabarito:

  • a) “Segundo pesquisadores da área…”
  • b) “levantamento com milhares de atendimentos… queda significativa…”
  • c) “é uma irresponsabilidade.”

Exercício 4 — Ponto de vista e pressupostos ideológicos

Trecho: “A meritocracia deve orientar promoções no serviço público, pois recompensar desempenho aumenta a eficiência. Programas que igualam resultados desestimulam o esforço individual.”

  • a) Qual é o ponto de vista do autor?
  • b) Indique um pressuposto ideológico presente.
  • c) Que termo carrega avaliação e orienta a leitura?

Gabarito:

  • a) Defesa de promoções orientadas por mérito/desempenho.
  • b) Pressuposto: eficiência e esforço individual são valores centrais e devem guiar políticas.
  • c) “desestimulam” (e também “recompensar”, “eficiência”).

Exercício 5 — Inferências controladas (não extrapolar)

Trecho: “Em bairros com mais áreas verdes, moradores relatam maior bem-estar. Portanto, ampliar praças pode contribuir para a qualidade de vida.”

  • a) O que o texto permite concluir com segurança?
  • b) O que seria extrapolação indevida?

Gabarito:

  • a) Conclusão permitida: ampliar praças pode contribuir para a qualidade de vida (relação apresentada como contribuição, não como garantia).
  • b) Extrapolação: afirmar que “áreas verdes garantem bem-estar” ou que “só praças resolvem a qualidade de vida”.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao interpretar um artigo de opinião, qual procedimento ajuda a separar inferências seguras de extrapolações?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Inferências controladas exigem que a conclusão resulte das premissas e apoios do texto. Ao checar argumentos, evidências e limites do que foi dito, evita-se extrapolar com opiniões pessoais ou generalizar a partir de exemplos.

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