O que caracteriza um artigo de opinião
Em artigos de opinião, o autor não apenas informa: ele defende um ponto de vista sobre um tema controverso e tenta obter adesão do leitor. Por isso, o texto costuma organizar-se em torno de uma tese (posição central), sustentada por argumentos (razões), evidências (provas, exemplos, dados) e, muitas vezes, pelo enfrentamento de contra-argumentos (objeções previstas).
Na interpretação, o foco é responder com precisão: o que o autor está defendendo, como ele sustenta e o que o texto permite concluir (sem extrapolar).
Elementos essenciais: tese, argumentos, exemplos e contra-argumentos
Tese (o que o autor quer que você aceite)
A tese é a afirmação principal que organiza o texto. Em geral, aparece no início (apresentação), mas pode surgir após uma contextualização ou ser retomada no fim como reforço.
- Como reconhecer: procure frases com tom assertivo e generalizante, que respondem “qual posição o autor defende?”
- Pistas linguísticas: “defendo que…”, “é necessário…”, “deveríamos…”, “não faz sentido…”, “o melhor caminho é…”.
Argumentos (por que a tese seria verdadeira/justa)
Argumentos são razões que sustentam a tese. Um mesmo texto pode combinar tipos diferentes.
| Tipo de argumento | Como aparece | O que observar na interpretação |
|---|---|---|
| Causal (causa e efeito) | “Se X, então Y”; “isso leva a…” | Se a relação é apresentada como certa ou provável; se há evidência |
| Pragmático (consequências) | “trará benefícios”; “evita prejuízos” | Quais consequências são valorizadas e por quê |
| Comparativo/analógico | “é como…”; “assim como…” | Se a comparação é pertinente ou forçada |
| Definicional | “por ‘X’ entende-se…” | Se a definição já orienta a conclusão (viés) |
| De princípio/valor | “é justo”; “é imoral”; “é um direito” | Quais valores são assumidos como base |
Evidências e exemplos (com o que o autor tenta provar)
Evidências são apoios concretos: dados, pesquisas, casos, leis, fatos verificáveis, relatos. Exemplos ilustram e tornam o argumento mais “visível” ao leitor, mas nem sempre provam.
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- Cheque a função: o exemplo está ilustrando (tornando claro) ou está sendo usado como prova geral (generalização)?
- Alerta comum: um caso isolado pode ser apresentado como se representasse o todo.
Contra-argumentos e refutação (o que o autor prevê e como responde)
Textos persuasivos frequentemente antecipam objeções para parecerem equilibrados e fortalecer a tese.
- Contra-argumento: a objeção que poderia enfraquecer a tese (“Alguns dirão que…”).
- Refutação: a resposta do autor (“No entanto…”, “Mas isso ignora…”).
Na interpretação, identifique se o autor refuta (derruba), concede parcialmente (aceita um ponto, mas mantém a tese) ou desvia (responde a algo diferente do que foi colocado).
Marcadores argumentativos: como eles organizam o raciocínio
Marcadores (conectores) sinalizam a direção do argumento. Em artigos de opinião, eles funcionam como “setas” para localizar tese, justificativas, contraste e conclusão.
| Marcador | Função típica | O que localizar |
|---|---|---|
| portanto, logo, assim | Conclusão | O que o autor quer que você aceite como resultado |
| contudo, porém, entretanto | Contraste/objeção | Contra-argumento, ressalva, limite |
| além disso, ademais | Adição/reforço | Novo argumento do mesmo lado |
| porque, já que | Justificativa | Razão dada para a tese ou para uma afirmação intermediária |
| por exemplo | Exemplificação | Ilustração/evidência usada |
| em suma, em síntese | Fechamento argumentativo | Retomada da tese e dos principais apoios |
Prática rápida: quando encontrar “portanto”, sublinhe a frase seguinte e pergunte: “isso é uma conclusão do autor ou apenas um passo intermediário?” Em textos longos, há conclusões parciais.
Recursos de persuasão: como o texto tenta convencer
1) Autoridade (ethos)
O autor recorre a especialistas, instituições, leis, “consenso científico” ou à própria credibilidade.
- Marcas: “segundo a OMS…”, “pesquisadores afirmam…”, “a lei X determina…”.
- Leitura crítica: a autoridade é pertinente ao tema? é citada com precisão ou de modo vago (“especialistas dizem”)?
2) Dados e números (logos)
Estatísticas e percentuais dão aparência de objetividade.
- Marcas: números, comparações (“dobrou”, “caiu 30%”), séries históricas.
- Leitura crítica: o dado tem fonte? o recorte é explicado? há confusão entre correlação e causa?
3) Analogias e comparações
Analogias simplificam um problema por meio de um paralelo (“é como…”). Elas persuadem por familiaridade.
- Leitura crítica: o que foi mantido igual na comparação e o que foi ignorado? a analogia prova ou apenas ilustra?
4) Apelos avaliativos e linguagem carregada (pathos)
Adjetivos e escolhas lexicais orientam a avaliação do leitor (“absurdo”, “inevitável”, “irresponsável”).
- Leitura crítica: identifique termos que já “julguem” antes de argumentar. Pergunte: “se eu trocar por um termo neutro, o argumento se sustenta?”
Passo a passo prático para analisar um artigo de opinião
Passo 1 — Localize a tese em uma frase
- Procure a posição defendida (o “dever ser”, o “é preciso”, o “é errado”).
- Reescreva a tese em uma frase curta, sem exemplos e sem justificativas.
Passo 2 — Liste os argumentos (um por linha)
- Para cada parágrafo, pergunte: “isso é razão, evidência, exemplo ou comentário?”
- Transforme cada argumento em uma frase do tipo: “O autor sustenta a tese porque…”
Passo 3 — Separe evidências de ilustrações
- Marque dados, fontes, casos concretos.
- Classifique: prova (dado verificável) ou ilustração (exemplo que ajuda a imaginar).
Passo 4 — Identifique contra-argumentos e a resposta do autor
- Busque “contudo/porém/entretanto”, “é verdade que… mas…”, “alguns afirmam…”.
- Registre: qual objeção foi levantada e como o autor a neutraliza.
Passo 5 — Detecte pressupostos ideológicos (o que o texto trata como óbvio)
Pressupostos ideológicos são valores e crenças de base que orientam o que é considerado “bom”, “justo”, “eficiente”, “natural”.
- Pergunte: que visão de sociedade, indivíduo, Estado, mercado, ciência, tradição ou mudança está por trás?
- Localize palavras-chave valorativas: “mérito”, “liberdade”, “igualdade”, “ordem”, “progresso”, “segurança”, “direitos”.
Passo 6 — Faça inferências controladas (o que o texto permite concluir)
- Conclua apenas o que decorre das premissas apresentadas.
- Evite “completar” com opiniões pessoais. A pergunta é: “se eu aceitar as razões do autor, o que posso concluir?”
Modelo de análise comentada (preencha como roteiro)
Use o esquema abaixo para responder de forma organizada e comprovável.
1) Tese (em 1 frase): _______________________________________. [trecho que comprova: “...”]
2) Como a tese é sustentada (argumentos principais):
A1) _______________________________________. [marcador: porque/além disso/...] [trecho: “...”]
A2) _______________________________________. [trecho: “...”]
A3) _______________________________________. [trecho: “...”]
3) Evidências e exemplos:
E1) Tipo: dado/pesquisa/caso/lei. Conteúdo: ____________. [fonte citada? sim/não] [trecho: “...”]
E2) Tipo: analogia/exemplo. Função: ilustrar/provar. [trecho: “...”]
4) Contra-argumentos e refutação:
C1) Objeção: _______________________________. [trecho: “...”]
R1) Resposta do autor: ______________________. [trecho: “...”]
5) Pressupostos ideológicos (valores de base):
P1) _______________________________________. [pista lexical: “...”]
6) Conclusões permitidas pelo texto (sem extrapolar):
L1) _______________________________________.
L2) _______________________________________.Exemplo guiado (texto curto para treino)
Texto: “A cidade deveria ampliar ciclovias, porque isso reduz congestionamentos e melhora a saúde pública. Além disso, dados de capitais que investiram em mobilidade ativa indicam queda de acidentes em vias com infraestrutura adequada. Contudo, alguns afirmam que ciclovias ‘atrapalham o comércio’; na prática, ruas mais caminháveis aumentam o fluxo de pessoas e beneficiam lojas locais. Portanto, a expansão deve ser prioridade no próximo orçamento.”
Análise comentada do exemplo
- Tese: “A cidade deveria ampliar ciclovias.”
- Argumento 1 (causal/pragmático): “reduz congestionamentos e melhora a saúde pública.”
- Argumento 2 (dados/autoridade implícita): “dados de capitais… indicam queda de acidentes…” (evidência apresentada como generalizável).
- Contra-argumento: “ciclovias ‘atrapalham o comércio’”.
- Refutação: “ruas mais caminháveis aumentam o fluxo… e beneficiam lojas”.
- Conclusão sinalizada: “Portanto, a expansão deve ser prioridade…”
- Pressuposto ideológico: prioriza mobilidade ativa como bem público (saúde/segurança) e assume que políticas urbanas devem maximizar bem-estar coletivo.
Exercícios de identificação (com gabarito)
Exercício 1 — Tese e argumentos
Trecho: “É necessário limitar o uso de celulares em sala de aula, pois a atenção dos alunos é fragmentada por notificações constantes. Além disso, quando o aparelho fica disponível, aumenta a tentação de copiar respostas prontas. Contudo, a tecnologia pode apoiar a aprendizagem; por isso, a regra deve prever momentos específicos de uso pedagógico.”
- a) Qual é a tese?
- b) Liste dois argumentos a favor.
- c) Identifique o contra-argumento e a solução proposta.
Gabarito:
- a) Tese: “É necessário limitar o uso de celulares em sala de aula.”
- b) Argumentos: (1) “a atenção… é fragmentada”; (2) “aumenta a tentação de copiar respostas prontas”.
- c) Contra-argumento: “a tecnologia pode apoiar a aprendizagem”; solução: “prever momentos específicos de uso pedagógico”.
Exercício 2 — Marcadores argumentativos
Trecho: “O transporte público precisa ser integrado; portanto, bilhetes únicos e horários coordenados são essenciais. Contudo, sem transparência nos contratos, o sistema tende a ficar caro. Além disso, a divulgação de indicadores de qualidade permite cobrança social.”
- a) O que “portanto” introduz?
- b) O que “contudo” sinaliza?
- c) O que “além disso” adiciona?
Gabarito:
- a) Uma conclusão/encaminhamento prático (“bilhetes únicos e horários coordenados…”).
- b) Uma ressalva/objeção (“sem transparência… tende a ficar caro”).
- c) Um reforço com novo argumento (“divulgação de indicadores… permite cobrança”).
Exercício 3 — Recursos de persuasão
Trecho: “Segundo pesquisadores da área, intervenções precoces reduzem custos futuros. Em um levantamento com milhares de atendimentos, observou-se queda significativa de complicações. Ignorar isso é uma irresponsabilidade.”
- a) Onde há apelo à autoridade?
- b) Onde há uso de dados?
- c) Onde há apelo avaliativo?
Gabarito:
- a) “Segundo pesquisadores da área…”
- b) “levantamento com milhares de atendimentos… queda significativa…”
- c) “é uma irresponsabilidade.”
Exercício 4 — Ponto de vista e pressupostos ideológicos
Trecho: “A meritocracia deve orientar promoções no serviço público, pois recompensar desempenho aumenta a eficiência. Programas que igualam resultados desestimulam o esforço individual.”
- a) Qual é o ponto de vista do autor?
- b) Indique um pressuposto ideológico presente.
- c) Que termo carrega avaliação e orienta a leitura?
Gabarito:
- a) Defesa de promoções orientadas por mérito/desempenho.
- b) Pressuposto: eficiência e esforço individual são valores centrais e devem guiar políticas.
- c) “desestimulam” (e também “recompensar”, “eficiência”).
Exercício 5 — Inferências controladas (não extrapolar)
Trecho: “Em bairros com mais áreas verdes, moradores relatam maior bem-estar. Portanto, ampliar praças pode contribuir para a qualidade de vida.”
- a) O que o texto permite concluir com segurança?
- b) O que seria extrapolação indevida?
Gabarito:
- a) Conclusão permitida: ampliar praças pode contribuir para a qualidade de vida (relação apresentada como contribuição, não como garantia).
- b) Extrapolação: afirmar que “áreas verdes garantem bem-estar” ou que “só praças resolvem a qualidade de vida”.