Interfaces com sensores simples: transformando sinais do mundo real em nível lógico

Capítulo 13

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

O que é “interfacear” um sensor com lógica digital

Sensores simples raramente entregam diretamente um nível lógico “limpo”. Em projetos iniciais, o sensor costuma gerar: (1) uma resistência variável (ex.: LDR), (2) um contato que abre/fecha (reed switch, chave), ou (3) um sinal lento/ruidoso. Interfacear significa transformar esse comportamento em uma tensão que atravesse um limiar de decisão e seja interpretada de forma confiável como 0 ou 1 por uma entrada TTL/CMOS, com proteção contra ruído e variações.

Os blocos mais comuns de condicionamento são: divisor de tensão (converte resistência em tensão), filtro RC (reduz ruído e “tremulação”), comparador (decide por limiar) e Schmitt trigger (decisão com histerese para evitar comutação múltipla).

1) LDR com divisor resistivo: de luz para tensão

Como o LDR se comporta

Um LDR (fotoresistor) tem resistência que diminui com mais luz e aumenta no escuro. Valores típicos variam muito (por exemplo, alguns kΩ em luz forte e dezenas/centenas de kΩ no escuro). Como a saída é “resistência”, usamos um divisor para obter uma tensão.

Divisor de tensão (passo a passo)

Monte o divisor com o LDR e um resistor fixo R:

VCC ── LDR ──┬── Vout → entrada/condicionamento digital (via proteção/limpeza) ── GND via R

Nessa configuração (LDR em cima, resistor embaixo):

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Vout = VCC · R / (R + RLDR)

  • Mais luz → RLDR menor → Vout sobe (tende a VCC)
  • Mais escuro → RLDR maior → Vout desce (tende a 0 V)

Se você inverter LDR e R, inverte também o sentido (luz vira “0” e escuro vira “1”).

Escolha prática do resistor fixo

Uma regra útil: escolha R próximo do valor do LDR na condição em que você quer que o circuito fique “no meio do caminho” (próximo do limiar). Assim, pequenas variações de luz geram variações de tensão mais perceptíveis.

Exemplo: se o LDR fica em torno de 10 kΩ na iluminação que você quer detectar, comece com R = 10 kΩ. Depois ajuste para deslocar o ponto de comutação.

Problema comum: zona “cinzenta” e ruído

Em iluminação intermediária, Vout pode ficar perto do limiar da entrada digital e oscilar com ruído (rede elétrica, sombras, interferência). Nesses casos, use um Schmitt trigger ou um comparador com histerese (ver seções adiante). Um filtro RC também ajuda a reduzir variações rápidas.

2) Reed switch (sensor magnético): contato que abre/fecha

O que esperar do reed

O reed switch é um contato acionado por campo magnético. Ele se comporta como uma chave: fechado (baixa resistência) ou aberto (alta resistência). Apesar de ser “digital”, na prática pode haver ruído por vibração mecânica, cabos longos e interferência.

Interface básica recomendada

Use o reed como chave para GND ou para VCC e aplique um resistor de polarização (pull-up ou pull-down). Um arranjo comum é reed para GND e resistor para VCC:

VCC ── Rpull ──┬── Vin (entrada) ──┬── (opcional: RC / Schmitt) ── lógica digital                    │                    └── reed ── GND
  • Reed aberto → Vin fica em VCC (nível alto)
  • Reed fechado → Vin vai a 0 V (nível baixo)

Para cabos longos (sensor distante), é comum adicionar: (1) resistor em série pequeno (ex.: 100 Ω a 1 kΩ) para limitar correntes de surto/ESD, e (2) capacitor para GND perto da entrada para reduzir ruído.

3) Sensor de presença simples (chave/contato)

Uma “chave de presença” (fim de curso, micro switch, contato de porta) é eletricamente semelhante ao reed. A diferença é que pode sofrer mais vibração mecânica e gerar transições rápidas indesejadas. Se o seu projeto já tratou debounce em botões, aqui o foco é o condicionamento por limiar e ruído quando o sinal chega “sujo” à lógica (por cabo, ambiente industrial, etc.).

Boas práticas de ligação

  • Defina o estado quando aberto com resistor de polarização.
  • Evite entrada “pendurada” em cabos longos: a capacitância do cabo e interferências podem criar pulsos falsos.
  • Use RC e/ou Schmitt quando houver ruído ou bordas lentas.

4) Condicionamento de sinal: divisor, filtro RC, limiar e histerese

4.1 Divisores de tensão (resistivo)

Divisores são a forma mais simples de converter uma grandeza resistiva (LDR, NTC, potenciômetro) em tensão. A saída é analógica e pode ficar em qualquer valor entre 0 e VCC. Para virar “0/1” de forma robusta, você precisa garantir que, nas condições extremas, a tensão fique bem abaixo do limiar de 0 e bem acima do limiar de 1 (com margem).

4.2 Filtro RC (passa-baixas) para reduzir ruído

Um filtro RC simples (resistor + capacitor para GND) suaviza variações rápidas. Um arranjo típico é colocar um resistor em série com o sinal e um capacitor para GND na entrada do estágio de decisão:

Vout (sensor/divisor) ── Rf ──┬── Vfiltrado → comparador/Schmitt/entrada digital                           │                           C                           │                          GND

A constante de tempo é τ = Rf · C. Em termos práticos:

  • τ pequeno (ex.: 1 ms) → pouca filtragem, resposta rápida
  • τ maior (ex.: 50–200 ms) → mais imunidade a ruído e tremulação, resposta mais lenta

Escolha τ de acordo com a dinâmica do sensor: luz ambiente muda devagar (pode filtrar mais), já um sensor de passagem pode exigir resposta rápida (filtrar menos).

4.3 Limiar: quando a lógica decide 0 ou 1

Entradas digitais interpretam tensões abaixo de um certo valor como 0 e acima de outro valor como 1. Entre esses valores existe uma região indefinida (varia por família e por datasheet). Para projeto robusto, você deve:

  • Garantir que o “0” do seu sensor fique abaixo do limite de 0 com folga.
  • Garantir que o “1” do seu sensor fique acima do limite de 1 com folga.
  • Evitar operar com Vin frequentemente na região intermediária.

Quando o sensor naturalmente passa por essa região (ex.: LDR em meia-luz), use comparador/Schmitt para criar uma decisão estável.

4.4 Histerese (Schmitt trigger): “dois limiares” para estabilidade

Histerese significa ter um limiar para subir (VTH+) e outro para descer (VTH−), com VTH+ > VTH−. Assim, depois que a saída vira 1, o sinal precisa cair bastante para voltar a 0, e vice-versa. Isso evita comutação múltipla quando o sinal tem ruído ou bordas lentas.

Você pode obter histerese de duas formas comuns:

  • Porta/inversor com entrada Schmitt (ex.: família CMOS com Schmitt): simples para limpar sinais lentos.
  • Comparador com realimentação positiva: ajusta limiares com resistores, útil quando você quer um ponto de disparo bem definido.

5) Comparador e Schmitt trigger na prática (limpeza de sinal)

5.1 Quando usar comparador

Use comparador quando você precisa transformar uma tensão analógica (do divisor do LDR, por exemplo) em um nível lógico com limiar bem definido. O comparador compara Vin com uma referência Vref:

  • Se Vin > Vref → saída em um estado
  • Se Vin < Vref → saída no outro estado

Para evitar oscilação perto de Vref, adicione histerese (Schmitt) via realimentação positiva.

5.2 Schmitt trigger para sinais lentos e cabos longos

Se seu sensor gera uma rampa lenta (LDR mudando com luz) ou chega com ruído (cabo longo), uma entrada Schmitt é frequentemente a forma mais simples de “quadrar” o sinal. O sinal pode variar lentamente, mas a saída muda rapidamente e com estabilidade.

5.3 Passo a passo: LDR + comparador com referência ajustável

  • Passo 1: faça o divisor com LDR e resistor fixo para gerar Vout.
  • Passo 2: crie Vref com um divisor resistivo (ou trimpot) entre VCC e GND.
  • Passo 3: alimente o comparador com VCC e GND compatíveis com o restante do circuito.
  • Passo 4: conecte Vout em uma entrada do comparador e Vref na outra (escolha o sentido conforme “luz = 1” ou “luz = 0”).
  • Passo 5: se houver instabilidade, adicione histerese com um resistor de realimentação (ou use um Schmitt trigger dedicado).
  • Passo 6: se a saída do comparador não for diretamente compatível com a entrada lógica (por exemplo, saída coletor aberto), adicione o resistor de pull-up conforme necessário.

6) Proteção contra ruído e transientes (ESD, cabos, ambiente)

Mesmo em projetos simples, entradas vindas de sensores externos podem receber descargas eletrostáticas e transientes. Medidas comuns:

  • Resistor em série (100 Ω a 4,7 kΩ) entre o fio do sensor e a entrada do circuito: limita corrente em eventos rápidos e ajuda com EMI.
  • Capacitor para GND próximo ao CI (ex.: 1 nF a 100 nF): reduz ruído de alta frequência.
  • Diodos de clamp para VCC e GND (ou TVS) quando o ambiente for mais agressivo: evitam que a entrada ultrapasse os trilhos.
  • Fiação: manter fios curtos, usar par trançado para sinais longos, e referenciar bem o GND.

7) Exercícios (dimensionamento e interpretação TTL/CMOS)

Exercício 1 — LDR + divisor: escolher o resistor fixo

Você tem um LDR com RLDR_luz = 5 kΩ e RLDR_escuro = 100 kΩ. VCC = 5 V. Você quer que Vout fique alto na luz e baixo no escuro usando a configuração VCC → LDR → Vout → R → GND.

  • a) Calcule Vout na luz e no escuro para R = 10 kΩ.
  • b) Teste R = 47 kΩ. Qual escolha dá maior separação entre os dois estados?
  • c) Se você deseja que o ponto de transição fique por volta de RLDR = 20 kΩ, que valor de R é um bom ponto de partida?

Exercício 2 — Faixa de tensão interpretada como 0 ou 1

Considere que sua entrada digital tem limites típicos (use os valores do datasheet do CI que você estiver usando). Para praticar, trabalhe com dois conjuntos de limites:

  • Conjunto A (estilo TTL 5 V): interpreta 0 se Vin ≤ 0,8 V e 1 se Vin ≥ 2,0 V.
  • Conjunto B (CMOS 5 V típico): interpreta 0 se Vin ≤ 0,3·VCC e 1 se Vin ≥ 0,7·VCC.

Para VCC = 5 V:

  • a) Determine numericamente as faixas de 0 e 1 no Conjunto B.
  • b) Para um divisor do LDR que gera Vout_luz = 3,1 V e Vout_escuro = 1,4 V, diga se cada estado é lido com segurança como 0 ou 1 em A e em B.
  • c) Se não for seguro, cite duas soluções: (1) ajustar resistores do divisor, (2) adicionar comparador/Schmitt.

Exercício 3 — Filtro RC: escolhendo a constante de tempo

Um reed switch em um cabo de 1 m está gerando pulsos falsos curtos. Você decide filtrar com Rf em série e C para GND na entrada de um Schmitt trigger.

  • a) Para Rf = 10 kΩ e C = 10 nF, calcule τ.
  • b) Se os pulsos falsos têm duração típica de 50 µs, esse filtro tende a atenuá-los? (explique qualitativamente).
  • c) Se o sensor precisa responder em até 5 ms, proponha um par Rf/C que mantenha τ compatível com essa resposta.

Exercício 4 — Histerese: por que ela resolve “chattering”

Um LDR gera um sinal que fica oscilando entre 2,3 V e 2,7 V quando a luz está no limite. Sua entrada sem histerese troca de estado várias vezes.

  • a) Explique por que dois limiares (VTH+ e VTH−) evitam a comutação repetida.
  • b) Proponha valores de limiar (por exemplo, VTH+ = 2,8 V e VTH− = 2,2 V) e descreva o que acontece quando o sinal oscila no meio.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Um sensor (como um LDR) gera uma tensão que, em uma condição intermediária, fica próxima do limiar da entrada digital e oscila por ruído, causando comutações repetidas. Qual solução torna a decisão mais estável ao usar dois limiares diferentes para subida e descida?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A histerese cria dois limiares (VTH+ e VTH−). Assim, depois que a saída muda de estado, o sinal precisa variar mais para voltar, evitando comutação múltipla quando há ruído ou bordas lentas.

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