Interações e combinações problemáticas: AINEs, paracetamol, opioides e medicamentos concomitantes

Capítulo 10

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

Por que interações importam quando combinamos analgésicos e anti-inflamatórios

Interação medicamentosa é qualquer alteração do efeito esperado de um medicamento causada por outro medicamento, suplemento, fitoterápico, alimento ou álcool. No contexto de AINEs, paracetamol e opioides, as interações mais relevantes não são “perda de eficácia”, e sim aumento de risco: sangramento, lesão renal, eventos cardiovasculares, lesão hepática e depressão respiratória.

Na prática, o risco cresce quando há: (1) duplicidade terapêutica (mesma classe repetida sem perceber), (2) comorbidades (idade avançada, doença renal/hepática, apneia do sono), (3) uso concomitante de fármacos que atuam no mesmo sistema (hemostasia, rim, SNC), (4) doses altas e uso prolongado.

Como identificar duplicidade terapêutica (e evitar “somar sem querer”)

Duplicidade com AINEs: dois anti-inflamatórios ao mesmo tempo

Usar dois AINEs simultaneamente (ex.: ibuprofeno + diclofenaco; naproxeno + cetoprofeno) raramente melhora a analgesia e aumenta de forma importante o risco gastrointestinal, renal e cardiovascular. A duplicidade costuma acontecer quando o paciente alterna marcas diferentes achando que são “remédios distintos”.

  • Sinal de alerta: “Tomo um para dor e outro para inflamação” (muitas vezes ambos são AINEs).
  • Regra prática: um AINE por vez, na menor dose eficaz e pelo menor tempo.

Duplicidade com paracetamol: múltiplos produtos que contêm o mesmo princípio ativo

O paracetamol aparece em muitos produtos para gripe/resfriado, dor de cabeça, “antitérmicos” e combinações com opioides. O risco é ultrapassar a dose diária sem perceber.

  • Onde costuma estar escondido: “antigripais”, “para sinusite”, “para dor e febre”, combinações com codeína/tramadol/hidrocodona/oxicodona (dependendo do país).
  • Regra prática: some o total diário em mg de todas as fontes.

Passo a passo para ler rótulos e princípios ativos

  1. Procure o “princípio ativo” (não o nome comercial). Em embalagens, pode estar como “composição”, “cada comprimido contém” ou “ingrediente ativo”.
  2. Anote o nome e a dose por unidade (ex.: paracetamol 500 mg por comprimido; ibuprofeno 400 mg por comprimido).
  3. Calcule a dose diária: dose por unidade × número de unidades por tomada × número de tomadas/dia.
  4. Cheque combinações: se houver mais de um analgésico na fórmula (ex.: paracetamol + opioide), evite adicionar outro produto com paracetamol.
  5. Confirme a classe: ibuprofeno, naproxeno, diclofenaco, cetoprofeno, meloxicam, celecoxibe etc. são AINEs (não devem ser “somados”).

Mini-checklist de duplicidade (use antes de prescrever/usar)

  • dois AINEs na lista (incluindo “SOS”)?
  • paracetamol em mais de um produto (antigripal + analgésico + combinação com opioide)?
  • opioide em mais de um produto (ex.: tramadol isolado + combinação com paracetamol)?
  • O paciente usa álcool regularmente ou “para dormir”?
  • sedativos (benzodiazepínicos, Z-drugs, antipsicóticos sedativos, gabapentinoides) junto com opioide?

Interações por categoria de risco

1) Risco de sangramento: anticoagulantes, antiagregantes e ISRS

AINEs podem aumentar sangramento por dois caminhos: (1) lesão de mucosa gastrointestinal e (2) efeito sobre plaquetas (especialmente alguns AINEs não seletivos). Quando combinados com fármacos que reduzem coagulação/plaquetas, o risco se soma.

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Combinações que aumentam risco de sangramento

  • AINE + anticoagulante (ex.: varfarina; DOACs como apixabana, rivaroxabana, dabigatrana): aumenta risco de sangramento GI e outros.
  • AINE + antiagregante (AAS, clopidogrel, ticagrelor): aumenta risco de sangramento, especialmente GI.
  • AINE + ISRS/IRSN (ex.: sertralina, fluoxetina, escitalopram, venlafaxina, duloxetina): aumento de risco de sangramento GI, que cresce ainda mais se houver AAS/anticoagulante.
  • “Tripla” perigosa para sangramento: AINE + anticoagulante + ISRS/antiagregante.

Exemplos práticos de combinações a evitar (sangramento)

  • Varfarina + ibuprofeno “por alguns dias” para dor lombar.
  • Apixabana + diclofenaco para dor no joelho.
  • AAS + naproxeno + sertralina em paciente com dispepsia prévia.

Checklist rápido (sangramento)

  • O paciente usa anticoagulante (varfarina/DOAC)?
  • Usa antiagregante (AAS, clopidogrel etc.)?
  • Usa ISRS/IRSN?
  • Há história de sangramento GI, anemia, fezes escuras, vômitos com sangue?

Conduta prática: se houver anticoagulante/antiagregante, evite AINE sempre que possível; se for inevitável, use a menor dose pelo menor tempo e avalie necessidade de proteção gástrica conforme risco individual e orientação clínica.

2) Risco renal: diuréticos, IECA/BRAs e o “triple whammy”

Algumas combinações reduzem a perfusão renal e a capacidade de autorregulação do rim, aumentando risco de lesão renal aguda e retenção hídrica. O cenário clássico é o “triple whammy”: AINE + IECA/BRA + diurético.

Combinações de maior risco renal

  • AINE + diurético (ex.: furosemida, hidroclorotiazida): maior risco de desidratação relativa e redução de perfusão renal; pode reduzir efeito do diurético e piorar edema/PA.
  • AINE + IECA (ex.: enalapril, lisinopril) ou AINE + BRA (ex.: losartana, valsartana): maior risco de queda de filtração glomerular.
  • Triple whammy: AINE + IECA/BRA + diurético (risco elevado de lesão renal aguda, especialmente em idosos, desidratados, com DRC ou durante gastroenterite).

Exemplos práticos de combinações a evitar (rim)

  • Losartana + hidroclorotiazida + ibuprofeno por 5–7 dias para dor muscular.
  • Enalapril + furosemida + diclofenaco em paciente com insuficiência cardíaca.

Passo a passo para checar “triple whammy” em 30 segundos

  1. um AINE na lista (inclusive “de balcão”)?
  2. IECA ou BRA (terminações comuns: -pril ou -sartana)?
  3. diurético (furosemida, hidroclorotiazida, espironolactona etc.)?
  4. Se sim para os três: evitar. Se já estiver em uso, orientar suspensão do AINE e avaliação clínica/laboratorial conforme gravidade e sintomas.

Checklist de vulnerabilidade renal

  • Idade avançada
  • Doença renal crônica
  • Desidratação, vômitos/diarreia, baixa ingestão hídrica
  • Insuficiência cardíaca
  • Uso de diuréticos/IECA/BRA

3) Risco cardiovascular: somatório de risco com medicamentos e condições

Alguns AINEs podem elevar pressão arterial, favorecer retenção de sódio/água e aumentar risco de eventos trombóticos em determinados perfis. O risco clínico aumenta quando o paciente já tem doença cardiovascular ou usa medicamentos cujo controle depende de estabilidade hemodinâmica.

Interações e cenários de atenção (cardiovascular)

  • AINE + anti-hipertensivos (IECA/BRA, diuréticos, betabloqueadores): AINE pode reduzir resposta anti-hipertensiva e piorar controle pressórico.
  • AINE + insuficiência cardíaca (mesmo sem “interação” específica): retenção hídrica pode descompensar.
  • AINE + AAS em prevenção cardiovascular: além do sangramento, pode haver interferência farmacodinâmica com o efeito antiplaquetário do AAS em alguns esquemas; requer avaliação individual e orientação de horários quando aplicável.

Exemplos práticos de combinações a evitar (cardiovascular)

  • Paciente com hipertensão difícil controle usando losartana + diurético e inicia naproxeno diário por dor crônica.
  • Paciente com insuficiência cardíaca em furosemida e IECA usando diclofenaco “porque funcionou antes”.

Checklist cardiovascular antes de usar AINE

  • História de infarto/AVC, angina, insuficiência cardíaca?
  • Pressão arterial está controlada?
  • Há edema, ganho de peso recente, falta de ar?
  • Usa diurético/IECA/BRA?

4) Risco hepático: álcool, indutores enzimáticos e paracetamol

O risco hepático relevante aqui é principalmente com paracetamol, cujo metabolismo pode ser desfavoravelmente influenciado por álcool e por medicamentos indutores enzimáticos. O problema mais comum no dia a dia é a combinação de paracetamol em dose alta com consumo de álcool e/ou duplicidade (antigripal + analgésico).

Combinações que elevam risco hepático

  • Paracetamol + álcool: aumenta risco de lesão hepática, especialmente com uso repetido, jejum/desnutrição ou doses altas.
  • Paracetamol + indutores enzimáticos (ex.: carbamazepina, fenitoína, fenobarbital, rifampicina; e fitoterápicos como erva-de-são-joão): podem aumentar formação de metabólitos tóxicos e reduzir margem de segurança.
  • Paracetamol “oculto” em múltiplos produtos: principal causa de excesso inadvertido.

Exemplos práticos de combinações a evitar (fígado)

  • Antigripal (com paracetamol) + paracetamol 750 mg + “dose para dormir” de bebida alcoólica.
  • Carbamazepina em uso crônico + paracetamol em altas doses por vários dias sem monitoramento.

Passo a passo para checar risco hepático com paracetamol

  1. Liste todas as fontes de paracetamol (inclusive antigripais e combinações com opioide).
  2. Some a dose diária total em mg.
  3. Pergunte sobre álcool (frequência e quantidade) e sobre períodos de jejum/desnutrição.
  4. Verifique uso de indutores (antiepilépticos clássicos, rifampicina, erva-de-são-joão).
  5. Se houver múltiplos fatores de risco, reduza exposição e busque orientação clínica individualizada.

5) Risco de depressão respiratória: opioides com benzodiazepínicos, álcool e outros sedativos

Opioides deprimem o sistema nervoso central e podem reduzir o drive respiratório. O risco de eventos graves aumenta de forma marcante quando combinados com outros depressores do SNC. Muitas ocorrências acontecem por “somar sedativos” (remédio para dor + remédio para dormir + álcool).

Combinações de alto risco com opioides

  • Opioide + benzodiazepínico (ex.: diazepam, clonazepam, alprazolam): aumenta sedação, confusão, quedas e depressão respiratória.
  • Opioide + álcool: potencializa depressão do SNC e risco de apneia.
  • Opioide + hipnóticos Z (zolpidem, zopiclona), anti-histamínicos sedativos (difenidramina, prometazina), antipsicóticos sedativos, relaxantes musculares: risco aditivo de sedação e depressão respiratória.
  • Opioide + gabapentinoides (gabapentina, pregabalina): pode aumentar depressão respiratória, especialmente em idosos e em doses altas.

Exemplos práticos de combinações a evitar (respiração)

  • Tramadol à noite + clonazepam + álcool “social”.
  • Codeína (ou outro opioide) para tosse + zolpidem para dormir.
  • Opioide para dor pós-operatória + prometazina para náusea sem avaliação de sedação global.

Checklist de segurança com opioides (antes de associar qualquer sedativo)

  • Há benzodiazepínico, zolpidem/zopiclona, anti-histamínico sedativo, antipsicótico sedativo, relaxante muscular ou gabapentinoide em uso?
  • Há consumo de álcool?
  • Há apneia do sono, DPOC, obesidade importante, idade avançada?
  • O paciente dirige/operará máquinas?

Orientação prática: se opioide for necessário, evite associar sedativos; se a associação já existe, reavaliar dose, horários, necessidade real e sinais de sedação excessiva (sonolência intensa, fala arrastada, dificuldade de manter-se acordado).

Listas de verificação rápidas para uso no dia a dia

Checklist “5 riscos” (em 1 minuto)

  • Sangramento: anticoagulante/antiagregante/ISRS-IRSN?
  • Rim: diurético + IECA/BRA? (triple whammy)
  • Cardiovascular: insuficiência cardíaca, edema, PA descontrolada?
  • Fígado: álcool frequente, indutores, múltiplas fontes de paracetamol?
  • Respiração (opioides): benzodiazepínicos/álcool/hipnóticos/gabapentinoides?

Checklist de “combinações a evitar” (resumo)

CategoriaCombinação típicaProblema principal
SangramentoAINE + anticoagulante (varfarina/DOAC)Sangramento GI/geral
SangramentoAINE + AAS/clopidogrelSangramento GI
SangramentoAINE + ISRS/IRSNSangramento GI
RimAINE + IECA/BRA + diuréticoLesão renal aguda (“triple whammy”)
CardiovascularAINE + anti-hipertensivos/ICPA/edema/descompensação
FígadoParacetamol + álcoolHepatotoxicidade
FígadoParacetamol + indutores (carbamazepina, rifampicina)Menor margem de segurança
RespiraçãoOpioide + benzodiazepínico/álcool/hipnóticoDepressão respiratória
DuplicidadeDois AINEsMais toxicidade sem ganho
DuplicidadeMúltiplos produtos com paracetamolExcesso inadvertido

Exercícios guiados (casos rápidos)

Caso 1: “Dor no ombro” em paciente polimedicado

Lista: losartana, hidroclorotiazida, sertralina. Quer usar ibuprofeno por 1 semana.

  • Achados: risco renal (AINE + BRA + diurético = triple whammy) e risco de sangramento GI aumentado (AINE + ISRS).
  • Ação prática: evitar AINE; se houver necessidade clínica, discutir alternativa e monitorização conforme avaliação profissional.

Caso 2: “Gripe + dor” com produtos de balcão

Uso: antigripal 4x/dia + paracetamol 750 mg 4x/dia.

  • Achado: provável duplicidade de paracetamol (antigripal frequentemente contém paracetamol).
  • Ação prática: ler rótulo, somar mg/dia, manter apenas uma fonte e ajustar esquema.

Caso 3: “Não consigo dormir com a dor”

Uso: opioide à noite + clonazepam + bebida alcoólica ocasional.

  • Achado: combinação de alto risco para depressão respiratória.
  • Ação prática: evitar associação; revisar necessidade de cada sedativo e orientar sinais de alerta de sedação excessiva.

Ferramenta prática: roteiro de perguntas ao paciente (ou autoavaliação)

  • Quais remédios você usa todos os dias?
  • Quais você usa quando dói (SOS)?
  • Você usa algum antigripal, “remédio para sinusite” ou “para resfriado”?
  • Você toma algo para dormir ou para ansiedade?
  • Você usa álcool? Com que frequência?
  • Você tem pressão alta, problema no rim, no fígado, úlcera, sangramento, insuficiência cardíaca, apneia do sono?

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em um paciente que já usa um BRA (como losartana) e um diurético (como hidroclorotiazida), qual é a principal preocupação ao iniciar um AINE (como ibuprofeno) por alguns dias?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A combinação AINE + IECA/BRA + diurético pode reduzir a autorregulação e a perfusão renal, elevando o risco de lesão renal aguda (“triple whammy”), sobretudo em idosos, desidratados ou com doença renal.

Próximo capitúlo

Sinais de alerta e quando encaminhar: critérios de gravidade no uso de analgésicos e anti-inflamatórios

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