Instalação elétrica CA: quadro, interligação ao padrão e adequações internas

Capítulo 10

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

Objetivo da instalação CA e visão geral do caminho elétrico

Nesta etapa, o foco é integrar a saída em corrente alternada (CA) do inversor à instalação elétrica existente com segurança, seletividade e conformidade. Na prática, você vai definir: (1) como o inversor entra no quadro de distribuição (QD), (2) quais proteções e seccionamentos serão usados, (3) como será feita a interligação ao padrão de entrada (medição/ramal), e (4) quais adequações internas são necessárias (capacidade do quadro, barramentos, balanceamento de fases e aterramento).

Um arranjo típico em sistemas conectados à rede é: Inversor (saída CA) → Seccionamento/Proteções CA → Quadro de distribuição (ponto de conexão) → Padrão de entrada/medição → Rede. O “ponto de conexão” costuma ser no QD principal, em disjuntor dedicado ao inversor, com condutores dimensionados e rota de instalação definida.

Ligação monofásica, bifásica e trifásica: como escolher e como conectar

Monofásico (fase + neutro + PE)

Usado quando o inversor é monofásico e a instalação é monofásica. A saída do inversor deve ser conectada a um disjuntor dedicado no quadro, alimentando o barramento da fase e o barramento do neutro (quando aplicável), além do condutor de proteção (PE) ao barramento de terra.

  • Ponto crítico: garantir que o neutro esteja corretamente referenciado no quadro (barramento de neutro separado do terra) e que o inversor seja compatível com a topologia da rede local.

Bifásico (duas fases + PE, com ou sem neutro)

Em algumas regiões, a alimentação é bifásica (duas fases defasadas) e pode haver ou não neutro disponível no quadro. O inversor deve ser compatível com a tensão entre fases e com a presença/ausência de neutro exigida pelo equipamento.

  • Boa prática: confirmar no quadro e no padrão quais condutores chegam (F1, F2, N, PE) antes de definir o inversor e o ponto de conexão.

Trifásico (3 fases + PE, e neutro quando necessário)

Em instalações trifásicas, o inversor trifásico injeta potência nas três fases. A conexão é feita em disjuntor tripolar dedicado (ou conjunto equivalente), com condutores dimensionados para cada fase e PE ao barramento de terra. Se o inversor exigir neutro (depende do modelo e da rede), ele deve ser ligado ao barramento de neutro.

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  • Balanceamento: em trifásico, o próprio inversor tende a injetar de forma equilibrada; ainda assim, a instalação interna pode exigir redistribuição de cargas para reduzir desequilíbrio e quedas de tensão por fase.

Dimensionamento de disjuntores e condutores na saída CA do inversor

Corrente nominal de saída do inversor

O ponto de partida é a corrente máxima na saída CA do inversor. Quando você tem a potência nominal e a tensão, uma estimativa prática é:

Monofásico: I ≈ P / V
Trifásico: I ≈ P / (√3 × Vlinha)

Na prática, use sempre os dados de placa/manual do inversor (corrente nominal/máxima de saída) como referência principal.

Disjuntor dedicado do inversor

O disjuntor do circuito do inversor deve ser dimensionado para conduzir a corrente de operação sem disparos indevidos e, ao mesmo tempo, proteger os condutores. Critérios práticos:

  • Corrente: disjuntor com corrente nominal igual ou superior à corrente máxima de saída do inversor, respeitando a capacidade dos cabos.
  • Curva: em geral, curva C é comum em circuitos com eletrônica de potência; confirme recomendações do fabricante e características da instalação.
  • Poder de interrupção: compatível com a corrente de curto-circuito disponível no ponto de instalação (verifique no padrão/quadro principal quando houver informação).
  • Seletividade: evitar que uma falha no circuito do inversor derrube o disjuntor geral; quando necessário, ajustar níveis e curvas entre proteções a montante e a jusante.

Bitola dos condutores (fase/neutro/PE) e método de instalação

A seção do cabo depende de: corrente, método de instalação (eletroduto embutido, aparente, bandeja, cabo multipolar), temperatura, agrupamento de circuitos e queda de tensão admissível. Procedimento prático:

  1. Defina o método de instalação (ex.: eletroduto dedicado aparente do inversor ao quadro; ou eletroduto embutido compartilhado com outros circuitos).
  2. Levante fatores de correção por temperatura e agrupamento (quando houver vários circuitos no mesmo eletroduto/bandeja).
  3. Escolha a seção que atenda à capacidade de condução de corrente após correções.
  4. Verifique queda de tensão no trecho inversor → quadro e, se aplicável, até o ponto de conexão definido.

Condutor de proteção (PE): deve acompanhar o circuito e ser conectado ao barramento de terra do quadro. Evite “pegar terra” em pontos aleatórios; o PE deve ter continuidade e baixa impedância até o sistema de aterramento.

Critérios de queda de tensão: quando ela vira problema

Queda de tensão excessiva na saída CA pode causar limitações de injeção (o inversor reduz potência ou desconecta por sobretensão no ponto de acoplamento) e aquecimento de cabos. Um critério prático é manter a queda de tensão baixa no trecho do inversor até o ponto de conexão no quadro, especialmente quando o inversor fica distante.

Como avaliar na prática

  • Trechos longos (ex.: inversor em edícula/galpão e quadro no prédio principal) pedem atenção especial.
  • Regra prática: se o eletroduto dedicado ultrapassa dezenas de metros, quase sempre vale recalcular bitola visando queda de tensão e não só corrente.
  • Sintoma típico: inversor desconectando em horários de alta geração por “tensão de rede alta” no ponto de conexão.

Ao identificar risco de queda de tensão, as soluções comuns são: aumentar bitola, reduzir comprimento (mudar ponto de conexão), usar rota mais direta, ou adotar quadro de acoplamento mais próximo do inversor.

Seccionamento e proteções no lado CA: o que instalar e onde

Chave seccionadora CA (ou dispositivo de seccionamento)

Deve permitir desligamento seguro do inversor do lado CA para manutenção. Em muitos arranjos, o próprio disjuntor dedicado cumpre a função de seccionamento, desde que seja acessível e identificado. Quando o inversor está distante do quadro, é comum instalar seccionamento próximo ao inversor e outro no quadro (dependendo do projeto e exigências locais).

DPS (Dispositivo de Proteção contra Surtos) no CA

O DPS no lado CA protege contra surtos vindos da rede e manobras. Boas práticas:

  • Instalar DPS no quadro onde o inversor se conecta, com ligação curta e direta ao barramento de terra (quanto menor o comprimento dos condutores do DPS, melhor o desempenho).
  • Selecionar classe/tipo e tensão compatíveis com o sistema (monofásico/trifásico) e com o esquema de aterramento da instalação.
  • Prever proteção a montante do DPS conforme recomendação do fabricante (disjuntor/fusível dedicado quando necessário).

DR (Dispositivo Diferencial Residual) quando aplicável

O uso de DR depende do esquema de aterramento, do tipo de circuito e das exigências para proteção adicional contra choques. Pontos práticos:

  • Nem todo circuito do inversor deve passar por DR comum; alguns inversores podem gerar correntes de fuga com componentes contínuas/alta frequência, exigindo tipo de DR compatível (ver manual do inversor).
  • Se o quadro já possui DR geral ou por circuitos, avalie a coordenação para evitar disparos intempestivos.
  • Quando exigido, escolha o tipo e a sensibilidade adequados ao arranjo e às cargas.

Adequação do quadro de distribuição (QD): espaço, barramentos e organização

Verificação de capacidade física e térmica

  • Espaço em trilho DIN: disjuntor do inversor, DPS, eventuais seccionamentos e acessórios.
  • Ventilação e aquecimento: quadros muito carregados podem aquecer; organize para dissipação e evite “apertar” módulos sem necessidade.
  • Identificação: rotular o disjuntor do inversor, DPS e pontos de seccionamento.

Barramentos e conexões

O ponto de conexão do inversor deve ser feito de forma limpa e robusta:

  • Conectar fase(s) do inversor ao disjuntor dedicado e deste ao barramento correspondente.
  • Conectar neutro (quando aplicável) ao barramento de neutro, sem misturar com o terra.
  • Conectar PE ao barramento de terra.
  • Evitar emendas dentro do quadro; quando inevitáveis, usar conectores apropriados e bem dimensionados.

Balanceamento de fases (principalmente em quadros trifásicos)

Mesmo com inversor trifásico, o consumo pode estar desequilibrado. Um balanceamento simples melhora desempenho e reduz quedas de tensão por fase:

  1. Liste os principais circuitos e suas potências (chuveiros, ar-condicionado, motores, tomadas gerais).
  2. Identifique em qual fase cada circuito está ligado.
  3. Redistribua circuitos (quando possível) para aproximar as correntes por fase.
  4. Após ajustes, meça correntes por fase em horário de carga típica e registre.

Observação prática: em instalações com muitas cargas monofásicas, o balanceamento pode ser a diferença entre o inversor operar estável ou sofrer variações de tensão por fase.

Interligação ao padrão de entrada: inspeção e critérios antes de conectar

Passo a passo de inspeção do padrão

  1. Inspecione o estado geral: caixa de medição, disjuntor geral, condutores aparentes, sinais de aquecimento (escurecimento, odor, isolação ressecada).
  2. Confirme a configuração: monofásico/bifásico/trifásico, tensões presentes e identificação de fases/neutro.
  3. Verifique aperto e integridade: conexões frouxas são causa comum de aquecimento e queda de tensão.
  4. Analise capacidade do disjuntor geral e do ramal: a geração não “aumenta” a carga instalada, mas pode exigir que o conjunto esteja em boas condições e com capacidade compatível com o arranjo de conexão definido.
  5. Checagem de aterramento: confirme existência do condutor de aterramento, barramento de terra, continuidade e condição do eletrodo (quando acessível).

Aterramento existente e necessidade de correções

Antes de energizar o inversor, o aterramento deve estar funcional e contínuo. Correções típicas encontradas em campo:

  • Terra inexistente no quadro: necessidade de levar PE até o barramento e integrar ao sistema de aterramento.
  • Neutro e terra unidos indevidamente no QD: separar barramentos conforme o esquema da instalação.
  • Conexões oxidadas/soltas: refazer terminações e reapertar com torque adequado.
  • Condutor de terra subdimensionado ou interrompido: substituir/regularizar o trajeto do PE.

Se houver dúvidas sobre o esquema de aterramento (ex.: TN/TT) e como isso impacta DR/DPS, trate como item de verificação obrigatória do projeto executivo e da inspeção em campo.

Arranjos típicos de instalação: exemplos práticos

Arranjo A: inversor próximo ao quadro de distribuição

Cenário: inversor instalado em parede técnica próxima ao QD principal (trecho curto).

  • Rota: eletroduto curto do inversor ao QD.
  • Proteções: disjuntor dedicado no QD + DPS no QD (e seccionamento pelo próprio disjuntor, se acessível).
  • Vantagens: menor queda de tensão, instalação mais simples, menor custo de cabos.
  • Pontos de atenção: espaço no QD para DPS e disjuntor; organização de barramentos e identificação.

Passo a passo resumido:

  1. Definir disjuntor dedicado do inversor no QD (monopolar/bipolar/tripolar conforme sistema).
  2. Instalar DPS CA no QD com ligação curta ao barramento de terra.
  3. Passar cabos CA (fases/neutro/PE) em eletroduto adequado.
  4. Conectar saída CA do inversor ao disjuntor dedicado e aos barramentos correspondentes.
  5. Conferir torque de bornes, identificação e continuidade do PE.

Arranjo B: inversor distante do quadro (eletroduto dedicado)

Cenário: inversor instalado longe do QD (ex.: galpão, área externa coberta, casa de máquinas).

  • Rota: eletroduto dedicado do inversor ao QD, evitando compartilhar com circuitos sensíveis e reduzindo interferências/manutenção difícil.
  • Proteções: seccionamento próximo ao inversor (para manutenção local) + disjuntor dedicado no QD; DPS no QD e, quando o projeto justificar, DPS adicional em quadro intermediário.
  • Dimensionamento: recalcular bitola com foco em queda de tensão e aquecimento por agrupamento/temperatura.
  • Pontos de atenção: vedação e proteção mecânica da rota, curvas e caixas de passagem, identificação do circuito ao longo do trajeto.

Passo a passo resumido:

  1. Medir/estimar o comprimento real do trajeto (incluindo subidas/descidas e desvios).
  2. Definir método de instalação (eletroduto aparente/enterrado/bandeja) e fatores de correção.
  3. Selecionar bitola que atenda corrente e queda de tensão.
  4. Instalar seccionamento acessível próximo ao inversor (quando previsto).
  5. Conectar no QD em disjuntor dedicado e instalar DPS com ligação curta ao terra.
  6. Testar tensão no ponto de conexão sob operação (quando possível) e observar estabilidade do inversor.

Checklist de conformidade elétrica (campo)

  • Configuração da rede confirmada: mono/bi/tri, tensões medidas e fases identificadas.
  • Ponto de conexão definido no QD: disjuntor dedicado instalado e identificado.
  • Condutores dimensionados: corrente, método de instalação, temperatura/agrupamento e queda de tensão verificados.
  • PE contínuo: condutor de proteção presente do inversor ao barramento de terra; conexões firmes.
  • Neutro correto: barramento de neutro separado do terra; neutro do inversor ligado apenas quando aplicável.
  • DPS CA instalado: especificação compatível e ligação curta ao terra; proteção a montante conforme fabricante.
  • DR avaliado: necessidade verificada; tipo compatível com inversor quando aplicável; coordenação com DRs existentes.
  • Seccionamento acessível: possibilidade de desligamento seguro para manutenção (no quadro e/ou próximo ao inversor).
  • Quadro adequado: espaço, organização, barramentos e aperto com torque apropriado.
  • Balanceamento de fases: cargas redistribuídas quando necessário; correntes por fase verificadas.
  • Padrão de entrada inspecionado: sinais de aquecimento, conexões, disjuntor geral e integridade do conjunto.
  • Rota de cabos protegida: eletrodutos fixados, vedação em áreas externas, caixas de passagem acessíveis.
  • Documentação de campo: fotos do quadro/padrão antes e depois, identificação de circuitos e registro de medições (tensão/corrente).

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em uma instalação em que o inversor fica distante do quadro de distribuição (QD), qual medida é mais indicada para evitar problemas de queda de tensão e instabilidade na operação do inversor?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Em trechos longos, dimensionar só pela corrente pode resultar em queda de tensão excessiva, levando a limitação de injeção ou desconexões por tensão alta no ponto de acoplamento. A prática é recalcular pela queda de tensão e ajustar bitola/rota/ponto de conexão.

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