Objetivo da instalação CA e visão geral do caminho elétrico
Nesta etapa, o foco é integrar a saída em corrente alternada (CA) do inversor à instalação elétrica existente com segurança, seletividade e conformidade. Na prática, você vai definir: (1) como o inversor entra no quadro de distribuição (QD), (2) quais proteções e seccionamentos serão usados, (3) como será feita a interligação ao padrão de entrada (medição/ramal), e (4) quais adequações internas são necessárias (capacidade do quadro, barramentos, balanceamento de fases e aterramento).
Um arranjo típico em sistemas conectados à rede é: Inversor (saída CA) → Seccionamento/Proteções CA → Quadro de distribuição (ponto de conexão) → Padrão de entrada/medição → Rede. O “ponto de conexão” costuma ser no QD principal, em disjuntor dedicado ao inversor, com condutores dimensionados e rota de instalação definida.
Ligação monofásica, bifásica e trifásica: como escolher e como conectar
Monofásico (fase + neutro + PE)
Usado quando o inversor é monofásico e a instalação é monofásica. A saída do inversor deve ser conectada a um disjuntor dedicado no quadro, alimentando o barramento da fase e o barramento do neutro (quando aplicável), além do condutor de proteção (PE) ao barramento de terra.
- Ponto crítico: garantir que o neutro esteja corretamente referenciado no quadro (barramento de neutro separado do terra) e que o inversor seja compatível com a topologia da rede local.
Bifásico (duas fases + PE, com ou sem neutro)
Em algumas regiões, a alimentação é bifásica (duas fases defasadas) e pode haver ou não neutro disponível no quadro. O inversor deve ser compatível com a tensão entre fases e com a presença/ausência de neutro exigida pelo equipamento.
- Boa prática: confirmar no quadro e no padrão quais condutores chegam (F1, F2, N, PE) antes de definir o inversor e o ponto de conexão.
Trifásico (3 fases + PE, e neutro quando necessário)
Em instalações trifásicas, o inversor trifásico injeta potência nas três fases. A conexão é feita em disjuntor tripolar dedicado (ou conjunto equivalente), com condutores dimensionados para cada fase e PE ao barramento de terra. Se o inversor exigir neutro (depende do modelo e da rede), ele deve ser ligado ao barramento de neutro.
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- Balanceamento: em trifásico, o próprio inversor tende a injetar de forma equilibrada; ainda assim, a instalação interna pode exigir redistribuição de cargas para reduzir desequilíbrio e quedas de tensão por fase.
Dimensionamento de disjuntores e condutores na saída CA do inversor
Corrente nominal de saída do inversor
O ponto de partida é a corrente máxima na saída CA do inversor. Quando você tem a potência nominal e a tensão, uma estimativa prática é:
Monofásico: I ≈ P / VTrifásico: I ≈ P / (√3 × Vlinha)Na prática, use sempre os dados de placa/manual do inversor (corrente nominal/máxima de saída) como referência principal.
Disjuntor dedicado do inversor
O disjuntor do circuito do inversor deve ser dimensionado para conduzir a corrente de operação sem disparos indevidos e, ao mesmo tempo, proteger os condutores. Critérios práticos:
- Corrente: disjuntor com corrente nominal igual ou superior à corrente máxima de saída do inversor, respeitando a capacidade dos cabos.
- Curva: em geral, curva C é comum em circuitos com eletrônica de potência; confirme recomendações do fabricante e características da instalação.
- Poder de interrupção: compatível com a corrente de curto-circuito disponível no ponto de instalação (verifique no padrão/quadro principal quando houver informação).
- Seletividade: evitar que uma falha no circuito do inversor derrube o disjuntor geral; quando necessário, ajustar níveis e curvas entre proteções a montante e a jusante.
Bitola dos condutores (fase/neutro/PE) e método de instalação
A seção do cabo depende de: corrente, método de instalação (eletroduto embutido, aparente, bandeja, cabo multipolar), temperatura, agrupamento de circuitos e queda de tensão admissível. Procedimento prático:
- Defina o método de instalação (ex.: eletroduto dedicado aparente do inversor ao quadro; ou eletroduto embutido compartilhado com outros circuitos).
- Levante fatores de correção por temperatura e agrupamento (quando houver vários circuitos no mesmo eletroduto/bandeja).
- Escolha a seção que atenda à capacidade de condução de corrente após correções.
- Verifique queda de tensão no trecho inversor → quadro e, se aplicável, até o ponto de conexão definido.
Condutor de proteção (PE): deve acompanhar o circuito e ser conectado ao barramento de terra do quadro. Evite “pegar terra” em pontos aleatórios; o PE deve ter continuidade e baixa impedância até o sistema de aterramento.
Critérios de queda de tensão: quando ela vira problema
Queda de tensão excessiva na saída CA pode causar limitações de injeção (o inversor reduz potência ou desconecta por sobretensão no ponto de acoplamento) e aquecimento de cabos. Um critério prático é manter a queda de tensão baixa no trecho do inversor até o ponto de conexão no quadro, especialmente quando o inversor fica distante.
Como avaliar na prática
- Trechos longos (ex.: inversor em edícula/galpão e quadro no prédio principal) pedem atenção especial.
- Regra prática: se o eletroduto dedicado ultrapassa dezenas de metros, quase sempre vale recalcular bitola visando queda de tensão e não só corrente.
- Sintoma típico: inversor desconectando em horários de alta geração por “tensão de rede alta” no ponto de conexão.
Ao identificar risco de queda de tensão, as soluções comuns são: aumentar bitola, reduzir comprimento (mudar ponto de conexão), usar rota mais direta, ou adotar quadro de acoplamento mais próximo do inversor.
Seccionamento e proteções no lado CA: o que instalar e onde
Chave seccionadora CA (ou dispositivo de seccionamento)
Deve permitir desligamento seguro do inversor do lado CA para manutenção. Em muitos arranjos, o próprio disjuntor dedicado cumpre a função de seccionamento, desde que seja acessível e identificado. Quando o inversor está distante do quadro, é comum instalar seccionamento próximo ao inversor e outro no quadro (dependendo do projeto e exigências locais).
DPS (Dispositivo de Proteção contra Surtos) no CA
O DPS no lado CA protege contra surtos vindos da rede e manobras. Boas práticas:
- Instalar DPS no quadro onde o inversor se conecta, com ligação curta e direta ao barramento de terra (quanto menor o comprimento dos condutores do DPS, melhor o desempenho).
- Selecionar classe/tipo e tensão compatíveis com o sistema (monofásico/trifásico) e com o esquema de aterramento da instalação.
- Prever proteção a montante do DPS conforme recomendação do fabricante (disjuntor/fusível dedicado quando necessário).
DR (Dispositivo Diferencial Residual) quando aplicável
O uso de DR depende do esquema de aterramento, do tipo de circuito e das exigências para proteção adicional contra choques. Pontos práticos:
- Nem todo circuito do inversor deve passar por DR comum; alguns inversores podem gerar correntes de fuga com componentes contínuas/alta frequência, exigindo tipo de DR compatível (ver manual do inversor).
- Se o quadro já possui DR geral ou por circuitos, avalie a coordenação para evitar disparos intempestivos.
- Quando exigido, escolha o tipo e a sensibilidade adequados ao arranjo e às cargas.
Adequação do quadro de distribuição (QD): espaço, barramentos e organização
Verificação de capacidade física e térmica
- Espaço em trilho DIN: disjuntor do inversor, DPS, eventuais seccionamentos e acessórios.
- Ventilação e aquecimento: quadros muito carregados podem aquecer; organize para dissipação e evite “apertar” módulos sem necessidade.
- Identificação: rotular o disjuntor do inversor, DPS e pontos de seccionamento.
Barramentos e conexões
O ponto de conexão do inversor deve ser feito de forma limpa e robusta:
- Conectar fase(s) do inversor ao disjuntor dedicado e deste ao barramento correspondente.
- Conectar neutro (quando aplicável) ao barramento de neutro, sem misturar com o terra.
- Conectar PE ao barramento de terra.
- Evitar emendas dentro do quadro; quando inevitáveis, usar conectores apropriados e bem dimensionados.
Balanceamento de fases (principalmente em quadros trifásicos)
Mesmo com inversor trifásico, o consumo pode estar desequilibrado. Um balanceamento simples melhora desempenho e reduz quedas de tensão por fase:
- Liste os principais circuitos e suas potências (chuveiros, ar-condicionado, motores, tomadas gerais).
- Identifique em qual fase cada circuito está ligado.
- Redistribua circuitos (quando possível) para aproximar as correntes por fase.
- Após ajustes, meça correntes por fase em horário de carga típica e registre.
Observação prática: em instalações com muitas cargas monofásicas, o balanceamento pode ser a diferença entre o inversor operar estável ou sofrer variações de tensão por fase.
Interligação ao padrão de entrada: inspeção e critérios antes de conectar
Passo a passo de inspeção do padrão
- Inspecione o estado geral: caixa de medição, disjuntor geral, condutores aparentes, sinais de aquecimento (escurecimento, odor, isolação ressecada).
- Confirme a configuração: monofásico/bifásico/trifásico, tensões presentes e identificação de fases/neutro.
- Verifique aperto e integridade: conexões frouxas são causa comum de aquecimento e queda de tensão.
- Analise capacidade do disjuntor geral e do ramal: a geração não “aumenta” a carga instalada, mas pode exigir que o conjunto esteja em boas condições e com capacidade compatível com o arranjo de conexão definido.
- Checagem de aterramento: confirme existência do condutor de aterramento, barramento de terra, continuidade e condição do eletrodo (quando acessível).
Aterramento existente e necessidade de correções
Antes de energizar o inversor, o aterramento deve estar funcional e contínuo. Correções típicas encontradas em campo:
- Terra inexistente no quadro: necessidade de levar PE até o barramento e integrar ao sistema de aterramento.
- Neutro e terra unidos indevidamente no QD: separar barramentos conforme o esquema da instalação.
- Conexões oxidadas/soltas: refazer terminações e reapertar com torque adequado.
- Condutor de terra subdimensionado ou interrompido: substituir/regularizar o trajeto do PE.
Se houver dúvidas sobre o esquema de aterramento (ex.: TN/TT) e como isso impacta DR/DPS, trate como item de verificação obrigatória do projeto executivo e da inspeção em campo.
Arranjos típicos de instalação: exemplos práticos
Arranjo A: inversor próximo ao quadro de distribuição
Cenário: inversor instalado em parede técnica próxima ao QD principal (trecho curto).
- Rota: eletroduto curto do inversor ao QD.
- Proteções: disjuntor dedicado no QD + DPS no QD (e seccionamento pelo próprio disjuntor, se acessível).
- Vantagens: menor queda de tensão, instalação mais simples, menor custo de cabos.
- Pontos de atenção: espaço no QD para DPS e disjuntor; organização de barramentos e identificação.
Passo a passo resumido:
- Definir disjuntor dedicado do inversor no QD (monopolar/bipolar/tripolar conforme sistema).
- Instalar DPS CA no QD com ligação curta ao barramento de terra.
- Passar cabos CA (fases/neutro/PE) em eletroduto adequado.
- Conectar saída CA do inversor ao disjuntor dedicado e aos barramentos correspondentes.
- Conferir torque de bornes, identificação e continuidade do PE.
Arranjo B: inversor distante do quadro (eletroduto dedicado)
Cenário: inversor instalado longe do QD (ex.: galpão, área externa coberta, casa de máquinas).
- Rota: eletroduto dedicado do inversor ao QD, evitando compartilhar com circuitos sensíveis e reduzindo interferências/manutenção difícil.
- Proteções: seccionamento próximo ao inversor (para manutenção local) + disjuntor dedicado no QD; DPS no QD e, quando o projeto justificar, DPS adicional em quadro intermediário.
- Dimensionamento: recalcular bitola com foco em queda de tensão e aquecimento por agrupamento/temperatura.
- Pontos de atenção: vedação e proteção mecânica da rota, curvas e caixas de passagem, identificação do circuito ao longo do trajeto.
Passo a passo resumido:
- Medir/estimar o comprimento real do trajeto (incluindo subidas/descidas e desvios).
- Definir método de instalação (eletroduto aparente/enterrado/bandeja) e fatores de correção.
- Selecionar bitola que atenda corrente e queda de tensão.
- Instalar seccionamento acessível próximo ao inversor (quando previsto).
- Conectar no QD em disjuntor dedicado e instalar DPS com ligação curta ao terra.
- Testar tensão no ponto de conexão sob operação (quando possível) e observar estabilidade do inversor.
Checklist de conformidade elétrica (campo)
- Configuração da rede confirmada: mono/bi/tri, tensões medidas e fases identificadas.
- Ponto de conexão definido no QD: disjuntor dedicado instalado e identificado.
- Condutores dimensionados: corrente, método de instalação, temperatura/agrupamento e queda de tensão verificados.
- PE contínuo: condutor de proteção presente do inversor ao barramento de terra; conexões firmes.
- Neutro correto: barramento de neutro separado do terra; neutro do inversor ligado apenas quando aplicável.
- DPS CA instalado: especificação compatível e ligação curta ao terra; proteção a montante conforme fabricante.
- DR avaliado: necessidade verificada; tipo compatível com inversor quando aplicável; coordenação com DRs existentes.
- Seccionamento acessível: possibilidade de desligamento seguro para manutenção (no quadro e/ou próximo ao inversor).
- Quadro adequado: espaço, organização, barramentos e aperto com torque apropriado.
- Balanceamento de fases: cargas redistribuídas quando necessário; correntes por fase verificadas.
- Padrão de entrada inspecionado: sinais de aquecimento, conexões, disjuntor geral e integridade do conjunto.
- Rota de cabos protegida: eletrodutos fixados, vedação em áreas externas, caixas de passagem acessíveis.
- Documentação de campo: fotos do quadro/padrão antes e depois, identificação de circuitos e registro de medições (tensão/corrente).