Inspeção e medidas iniciais na Avaliação Fisioterapêutica: postura, movimento e sinais observáveis

Capítulo 6

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

O que é inspeção na avaliação fisioterapêutica (e por que ela vem antes dos testes)

Inspeção é a observação sistemática e intencional do paciente, em repouso e em movimento, para identificar sinais visíveis que orientam as próximas etapas do exame físico. Ela não “fecha diagnóstico”, mas ajuda a: (1) reconhecer padrões (assimetria, proteção, compensações), (2) selecionar testes relevantes, (3) estabelecer uma linha de base para reavaliação e (4) conectar sinais observáveis à queixa funcional (por exemplo, “dor ao subir escadas” + “valgo dinâmico no agachamento”).

O princípio central é descrever o que se vê, sem interpretar causa. Em vez de “fraqueza de glúteo médio”, registre “queda pélvica contralateral durante apoio unipodal” e depois confirme com testes.

Preparação e condições para uma inspeção confiável

  • Ambiente: boa iluminação, espaço para caminhar (ideal 6–10 m), cadeira sem braços para transferências, degrau (se disponível).
  • Exposição adequada: respeitando conforto e consentimento; remover acessórios que ocultem marcos anatômicos quando possível.
  • Pontos de vista: anterior, posterior e lateral; aproxime para detalhes (pele/cicatriz) e afaste para alinhamento global.
  • Padronização: sempre na mesma sequência (ex.: geral → postura estática → pele/tecidos → respiração → marcha/transferências → inspeção por segmentos).

Passo a passo prático: observação sistemática

1) Observação geral (primeiros 30–60 segundos)

  • Estado geral: alerta, sonolento, agitado; expressão facial de dor.
  • Comportamento motor: evita apoiar um membro, protege região, movimenta-se com rigidez.
  • Uso de dispositivos: bengala, muletas, órteses, calçados (tipo e desgaste).
  • Simetria global: distribuição de peso, inclinação do tronco, apoio preferencial.

2) Postura estática: alinhamentos e assimetrias

Observe em ortostatismo confortável. Se necessário, peça: “Fique como você costuma ficar”. Depois, repita com “Fique o mais ereto possível” para comparar.

  • Plano frontal (anterior/posterior): nível de ombros, escápulas, cristas ilíacas, pregas glúteas, joelhos, maléolos; alinhamento de patelas; base de suporte (largura); rotação de membros.
  • Plano sagital (lateral): posição da cabeça (anteriorizada), cifose/retificação torácica, lordose lombar, anteversão/retroversão pélvica, flexo de quadril/joelho, alinhamento do tornozelo (tíbia anterior/posterior).
  • Plano transversal (observação indireta): rotação de tronco/pelve, rotação externa/interna de quadris/pés (pés em abdução/adução).

Dica prática: use marcos anatômicos visuais (tragus, acrômio, EIAS/EIPS, patela, tuberosidade tibial, maléolos) e descreva assimetrias com referência clara (direita/esquerda) e direção (elevado, anteriorizado, rodado).

3) Pele e tecidos: edema, coloração, trofismo e cicatrizes

  • Edema: localização (ex.: tornozelo medial), extensão (localizado/difuso), simetria, presença de “sinal do cacifo” (se você testar, registre como teste separado). Na inspeção, descreva aumento de volume visível e limites.
  • Coloração: palidez, rubor, cianose, hiperpigmentação; compare lados.
  • Trofismo: atrofia aparente (redução de volume muscular), hipertrofia, assimetria de contornos; presença de sulcos/“depressões”.
  • Pele: brilho, ressecamento, descamação, lesões, hematomas, varizes.
  • Cicatrizes: localização, comprimento aproximado, direção, aspecto (hipertrófica, aderida, retraída), sinais inflamatórios (rubor, calor visível, secreção). Evite inferir “aderência” sem teste de mobilidade cicatricial; descreva “aparência retraída” e confirme depois.

4) Padrões respiratórios observáveis (quando relevante)

  • Tipo: predominantemente torácico superior, toracoabdominal, abdominal.
  • Simetria: expansão bilateral ou assimétrica (ex.: menor expansão em hemitórax direito).
  • Ritmo e uso de musculatura acessória: elevação de ombros, contração visível de esternocleidomastoideo/escálenos, batimento de asa nasal.
  • Postura associada: tronco inclinado à frente para respirar, apoio de mãos (posição de tripé).

Registro objetivo: “Respiração em repouso predominantemente torácica superior, com elevação visível de ombros e uso de musculatura acessória; expansão torácica aparentemente reduzida à esquerda.”

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5) Movimento funcional: marcha e transferências

Antes de testes específicos, observe tarefas que reproduzem a queixa. Padronize: peça para o paciente caminhar em velocidade confortável, depois mais rápido, e se seguro, virar e retornar. Para transferências, observe sentar-levantar e deitar-levantar quando pertinente.

5.1) Marcha: o que observar

  • Parâmetros gerais: velocidade, cadência, comprimento do passo, base de suporte, simetria.
  • Contato inicial: calcanhar, antepé, pé plano; ruído de impacto.
  • Fase de apoio: estabilidade do joelho (colapso em valgo/varo), queda pélvica, inclinação do tronco, tempo de apoio unilateral.
  • Fase de balanço: arraste do pé, circundução, elevação excessiva do quadril (hip hike), flexão de joelho insuficiente.
  • Pés e tornozelos: pronação/supinação excessiva aparente, rotação do pé, “toe-out/toe-in”.
  • Braços e tronco: balanço de braços reduzido, rotação de tronco diminuída, assimetria.
  • Dispositivos e compensações: uso de apoio, descarga parcial de peso, pausas.

Como conectar à queixa funcional: se a queixa é “dor no joelho ao caminhar”, descreva o padrão observado (ex.: “valgo dinâmico no apoio direito”) e registre quando ocorre (início do apoio, meio do apoio, final do apoio) e se o paciente relata dor naquele momento.

5.2) Transferências: sentar-levantar e outras

  • Sentar → levantar: uso de braços, deslocamento anterior do tronco, simetria de carga, alinhamento de joelhos, velocidade, necessidade de múltiplas tentativas.
  • Levantar → sentar: controle excêntrico, “queda” na cadeira, apoio com mãos.
  • Deitar → sentar (se aplicável): rolar em bloco, uso de membros superiores para impulsionar, proteção de região dolorosa.
  • Subir/Descer degrau (se seguro): padrão “um degrau por vez”, apoio em corrimão, dor referida, alinhamento do joelho e controle pélvico.

Registro objetivo: “Sentar-levantar: realiza com apoio bilateral de mãos nos braços da cadeira, deslocamento anterior de tronco aumentado, descarga de peso predominante em MI esquerdo; relata dor 6/10 no joelho direito ao iniciar a extensão.”

Como registrar achados observáveis com linguagem padronizada

Regras de ouro para escrita objetiva

  • Descreva, não explique: “escápula direita alada em repouso” em vez de “fraqueza de serrátil”.
  • Use referência anatômica e lado: direita/esquerda; proximal/distal; medial/lateral; anterior/posterior.
  • Quantifique quando possível: “cicatriz ~8 cm”, “base de suporte aumentada”, “passo curto bilateral”.
  • Contextualize a tarefa: em repouso, durante marcha, ao sentar-levantar, ao agachar.
  • Relacione com sintoma sem inferir causa: “relata dor ao final do apoio direito” (não “dor por impacto”).

Modelo de frase (template) para inspeção

[Tarefa/posição]: [achado observável] em [lado/segmento], [direção/padrão], [comparação D/E], [quando ocorre], [sintoma associado se relatado].

Exemplos de descrição objetiva (bons) vs interpretação (evitar)

Evitar (interpretação sem teste)Preferir (descrição observável)
“Instabilidade de tornozelo direito”“Durante marcha, observa-se inversão súbita do retropé direito em 2 episódios; paciente interrompe e ajusta o apoio.”
“Hérnia de disco”“Em ortostatismo, tronco inclinado à esquerda e leve flexão lombar; ao caminhar, mantém padrão antálgico com passos curtos.”
“Fraqueza de quadríceps”“No sentar-levantar, usa mãos para impulsionar e apresenta tremor visível em joelho direito na fase de extensão.”
“Edema linfático”“Aumento de volume visível em perna esquerda, mais evidente em região maleolar e dorso do pé, comparado ao lado direito.”
“Escoliose”“Em vista posterior, assimetria de triângulos da cintura e elevação do ombro direito; tronco com discreta inclinação lateral à direita.”

Checklist de inspeção por segmentos (para usar na prática)

Use como roteiro rápido. Marque “presente/ausente” e descreva quando presente.

Coluna e tronco

  • Alinhamento global: cabeça anteriorizada, inclinação lateral, rotação aparente de tronco/pelve.
  • Curvaturas: hipercifose/retificação torácica; hiperlordose/retificação lombar.
  • Ombros e escápulas: elevação/depressão, protração/retração, assimetria, escápula alada.
  • Pelve: inclinação pélvica (anterior/posterior), obliquidade (crista ilíaca mais alta), rotação aparente.
  • Pele/tecidos: cicatrizes (cirurgias), equimoses, áreas de rubor, atrofia paravertebral aparente.
  • Respiração: padrão, simetria de expansão, uso de acessórios (se relevante).

Membros superiores

  • Postura: ombros em rotação interna, antepulsão, assimetria de clavículas.
  • Contorno muscular: deltoide, supra/infraespinal, bíceps/tríceps (comparação D/E).
  • Cotovelo: valgo/varo aparente, flexo em repouso, edema periarticular.
  • Punho e mão: edema, deformidades, coloração, trofismo tenar/hipotenar, postura dos dedos.
  • Pele/cicatrizes: trajeto, aspecto, sinais inflamatórios visíveis.
  • Função rápida: alcance acima da cabeça, levar mão à nuca, levar mão às costas (observe compensações de tronco/escápula).

Membros inferiores

  • Pelve e quadril: queda pélvica em apoio unipodal (se observado em marcha), rotação do fêmur aparente.
  • Joelhos: alinhamento (varo/valgo), recurvato/flexo, edema visível, atrofia de quadríceps (comparação).
  • Tíbia/tornozelo: edema maleolar, alinhamento do retropé (varo/valgo aparente), postura do tornozelo em repouso.
  • Pés: arco plantar aparente, pronação/supinação, calosidades, deformidades (ex.: hálux valgo), distribuição de carga (marcas no calçado).
  • Função rápida: agachamento parcial, elevação na ponta dos pés, apoio unipodal (se seguro), subir/descida de degrau (se disponível).

Relacionando achados observáveis à queixa funcional (sem “pular etapas”)

O objetivo é transformar a queixa em tarefas observáveis e registrar o que muda no corpo durante essas tarefas. Um método simples:

  • 1) Escolha 1–2 tarefas-alvo relacionadas à queixa (ex.: caminhar, sentar-levantar, subir degrau, alcançar acima da cabeça).
  • 2) Observe o padrão (alinhamento, compensações, simetria, ritmo).
  • 3) Registre o momento do sintoma (início/meio/final do movimento; fase da marcha).
  • 4) Defina “sinais-guia” que você vai tentar modificar ou testar depois (ex.: “valgo dinâmico”, “inclinação de tronco”, “uso de mãos”).

Exemplo 1 (queixa: dor no ombro ao vestir camiseta): tarefa “elevar braço acima da cabeça”. Registro: “Elevação ativa do ombro direito: arco doloroso relatado entre ~70–110°, com elevação do ombro (shrug) e inclinação lateral do tronco para a esquerda; escápula direita com rotação superior reduzida aparente em comparação ao lado esquerdo.”

Exemplo 2 (queixa: dor lombar ao ficar em pé): tarefa “ortostatismo 2 min”. Registro: “Em ortostatismo, aumenta progressivamente a lordose lombar e anteversão pélvica; desloca peso para MI direito; após ~90 s relata dor lombar 5/10 e realiza pequenos ajustes posturais frequentes.”

Exemplo 3 (queixa: dor no tornozelo ao correr, hoje caminhando): tarefa “marcha rápida”. Registro: “Na marcha rápida, reduz tempo de apoio no pé esquerdo e aumenta base de suporte; contato inicial com antepé esquerdo; relata desconforto 4/10 no tornozelo esquerdo ao final do apoio.”

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao registrar achados durante a inspeção na avaliação fisioterapêutica, qual conduta está mais alinhada ao princípio de descrever o que se vê sem interpretar a causa?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A inspeção deve ser objetiva: descreva o que é visível (padrão, lado, direção e tarefa) e relacione ao sintoma sem inferir causa. Hipóteses como "fraqueza" devem ser confirmadas em testes posteriores.

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